O apóstolo da caridade
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O apóstolo da caridade

“Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria” (1Cor 13,3).

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 9,46-50)

Naquele tempo, houve entre os discípulos uma discussão, para saber qual deles seria o maior. Jesus sabia o que estavam pensando, pegou então uma criança, colocou-a junto de si e disse-lhes: “Quem receber esta criança em meu nome, estará recebendo a mim. E quem me receber, estará recebendo aquele que me enviou. Pois aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior”.

João disse a Jesus: “Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque não anda conosco”. Jesus disse-lhe: “Não o proibais, pois quem não está contra vós, está a vosso favor”.

I. Reflexão

Proclamado por Leão XIII padroeiro das obras de caridade, a Igreja celebra hoje a memória de São Vicente de Paulo, fundador da Congregação da Missão, muito conhecido por seu amor e dedicação aos pobres. Nascido em 1581 durante a Oitava de Páscoa e morto aos 79 anos, em 1660, foi um homem extraordinário, considerado santo já em vida. São Francisco de Sales chamava-lhe “o padre mais santo do século”, e o famoso pregador francês Bossuet exclamou em um de seus sermões: “Como Deus deve ser bom, se fez a Vicente de Paulo tão bom!” Falar da vida de um santo dessa estatura é difícil. Ainda criança, foi cuidador de porcos; mas o pai, vendo-lhe a grande inteligência, mandou-o estudar. Terminados os estudos, ordenou-se sacerdote. Pouco depois, o famoso Cardeal Bérulle, introdutor do Carmelo na França, enviou-o em missão às galés, isto é, para cuidar dos condenados a remar nos porões dos navios, numa situação quase sempre miserável e degradante. Mas sua caridade não ficaria confinada ali por muito tempo. Um apaixonado pelos pobres, aos quais chamava carinhosamente “nossos senhores”, São Vicente fez daquela passagem do Evangelho: Todas as vezes que fizestes isso tudo a um desses pequeninos, foi a mim que o fizestes, seu lema de vida.

Mas, ao contrário da imagem popular que dele às vezes se prega, São Vicente de Paulo não foi um simples “filantropo”, preocupado exclusivamente em suprir as necessidades materiais dos mais carentes (ajudar os pobres, vestir os nus, alimentar os famintos, cuidar dos encarcerados etc.), pois o centro de todos os seus cuidados não era outro que a salvação eterna das almas (ensinar os ignorantes e converter os pecadores). Enviado pelo bispo de Paris em missão aos povoados em torno da cidade, fundou ali a Congregação dos lazaristas, que reuniu muitos padres empenhados em evangelizar e levar as almas para Deus. Os frutos desta obra foram extraordinários. São Vicente mesmo exclamaria mais tarde: “Oh, Salvador! Quem jamais pensou que isso chegasse ao estado em que está agora! A quem me dissesse isso então, eu julgaria estar zombando de mim”. Em 1633, junto com Santa Luísa de Marillac, fundou também a Congregação das Filhas das Caridade, à qual pertenceria Santa Catarina Labouré, vidente de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa.

Outra faceta hoje desconhecida de São Vicente de Paulo foi a sua preocupação com a formação dos padres. Em sua época, espalhava-se na França a heresia do jansenismo. Por isso, muitos homens influentes, cardeais e bispos da França, iam pedir conselhos justamente a ele, para quem a solução para os problemas da Igreja era, com fidelidade aos decretos de Trento, ir à nascente do rio, isto é, ao seminário menor e preparar com esmero os futuros sacerdotes. A atividade docente que exerceu com seus padres lazaristas nos seminários teve grande impacto na França. De fato, para combater a heresia, ele chegou a influenciar a nomeação de bispos franceses, para que não fossem eleitos jansenistas. Sua caridade não se limitava, portanto, às obras de misericórdia corporal, mas se estendia sobretudo às almas, cuja salvação constituía seu principal objetivo. Uma das maiores lições que se podem tirar da vida de São Vicente de Paulo é justamente esta: a caridade corporal é importante, mas a espiritual o é ainda mais.

Assim viveu esse apóstolo da caridade, fazendo o bem às pessoas e instruindo os ignorantes — um modelo perene de que, sim, é importante o comprometimento social etc., mas sem esquecer jamais que a maior caridade que se pode fazer aos pobres, tanto de corpo quanto de alma, é tirá-los da ignorância e, por isso, combater a heresia e rezar pela santificação do clero. — Que São Vicente de Paulo reze por nós e pelos nossos sacerdotes e nos alcance a graça de fazermos a caridade sempre, em proveito não só dos corpos, mas também das almas.

II. Comentário exegético

V. 46. Começaram a discutir entre si sobre qual deles era o maior. Mc. narra com mais detalhe o que pensavam os discípulos e o tom da discussão que tiveram sobre o primado no reino. Como tinham ouvido a promessa feita a Pedro, E eu te darei as chaves do reino dos céus, visto Jesus pagar o tributo por si e por Pedro e subir ao monte com apenas três deles (Pedro, Tiago e João), deixaram-se levar pela ambição humana, a ponto de discutirem uns com os outros. — V. 47. Jesus, vendo os pensamentos do seu coração… Põe-se o plural pelo singular (cogitationes por cogitationem), embora se queira significar um mesmo pensamento ou paixão. E é expressivo que o evangelista diga vendo os pensamentos etc., para indicar que Jesus sabia por si mesmo o que há em cada homem (Jo 2,25) e que falava ao coração deles antes mesmo de lhe manifestarem por palavra o que traziam dentro de si (cf. Mt 18,1). — Tomou pela mão um menino, pô-lo junto a si… 

V. 48. E disse-lhes: Todo o que receber este menino em meu nome, a mim recebe; e todo o que me receber, recebe aquele que me enviou. Instrui os discípulos a partir da pequenez de um menino, chamando-lhes a atenção para o valor dos menores e mais humildes ministérios, para que não aspirem ao que é grande e notável, mas ao que é pequeno e discreto, i.e. para que não sejam soberbos de coração, mas humildes. E dá a razão disto: Porque todo o que for como este pequenino se faz semelhante a mim, que, sendo Deus, me rebaixei à condição de servo, e todo o que for semelhante a mim será tratado pelo Pai como eu sou tratado por ele, i.e. na qualidade de filho. Porque aquele que entre vós todos é o menor, esse é o maior, com o que confirma a razão apresentada e resolve a questão sobre a qual discutiam. Declara, com efeito, qual deles é o maior, dizendo que o menor entre eles é o maior. E fala, sem dúvida, do menor segundo o coração, i.e. de quem busca apequenar-se, pois este é verdadeiramente grande aos olhos de Deus.

V. 49. João, tomando a palavra, disse… Jesus tinha dito: Todo o que receber este menino em meu nome, e João o entendeu (e bem) não só como receber em casa, ou dar cuidado, mas também assumir como mestre e doutor, ou aprovar de qualquer modo, por isso pergunta sobre um que expelia demônios em nome de Jesus, se deviam proibi-lo ou aprová-lo. — Mestre, nós vimos um que expelia os demônios em teu nome, e lho proibimos… Pergunta o que deve fazer depois de tê-lo feito, porque começou a duvidar, após ouvir as últimas palavras de Jesus, se agira bem ou mal ao proibir o homem, e estava disposto a corrigir-se. — Porque não anda conosco. Parecia a João que se tratava de um cismático e usurpador da invocação do nome de Jesus, uma vez que não o seguia fisicamente como os demais discípulos.

V. 50. Jesus respondeu-lhe: Não lho proibais… De fato, João não tinha dito eu proibi, mas nós proibimos, como se a ação fosse comum aos Doze, por isso Jesus lhe responde também no plural, para significar que o ensinamento vale para todos. — Porque quem não é contra vós, é por vós. Não há termo médio entre os que são por Cristo e os que são contra Cristo, tanto em moral quanto em doutrina. Por isso, quem não é contra nós, i.e. contra a Igreja em matéria de fé e moral, não é contra Cristo. Todo pois o que exerce e defende atos moralmente retos ou as práticas da verdadeira religião não está, como tal, contra Cristo, assim como estava por ele o que expulsava demônios em seu nome. Assim Caetano; para outros, o sentido seria: “Quem não contradiz a vossa pregação, mas promove a vossa causa e ensina o mesmo que vós não é vosso inimigo, senão vosso ajudante e fautor.” (Esta ideia, como é óbvio, não contradiz a que se lê em Mt 12,30: Quem não está comigo está contra mim. Com efeito, por ser diverso o contexto de uma e de outra, correspondem-lhe sentidos igualmente diversos.)

Nota sobre milagres fora da Igreja. — 1) Possibilidade: pode-se admitir a possibilidade e, segundo H.-M. Lépicier (cf. Le miracle xxiii §2), até mesmo o fato de haver milagres fora da Igreja Católica, embora poucos e não de lei ordinária. A razão é que ao milagre, diz Santo Tomás, compete uma dupla finalidade: a) confirmar a verdade da doutrina cristã ou b) demonstrar a santidade de alguém proposto aos homens como exemplo de virtude. Nesse último caso, apenas os santos podem realizar milagres; no primeiro, também os maus o podem, i. e., os que pregam a verdadeira fé e invocam o nome de Cristo, mesmo que não estejam em graça. Quanto aos hereges e cismáticos, também entre eles é admissível a possibilidade de autênticos milagres, ainda quando não professem integralmente a fé ortodoxa. Nessa hipótese, o milagre não se ordena nunca a confirmar como tal a falsa doutrina que pregam, mas somente os resquícios de verdade que nela podem ser atestados (e.g. a presença real de Jesus na Eucaristia, a legitimidade do culto a Maria etc.), ou mesmo a divindade de Cristo, pela invocação de cujo nome Deus opera o milagre. Ademais, como a oração de impetração funda-se antes na misericórdia divina que no mérito do que ora, nada impede que a oração de um ímpio ou mesmo de um herege seja ouvida por Deus, em atenção à conversão de quem ora, ou à salvação daquele por quem se ora, ou ainda à glória mesma de Deus. — 2) Conclusão: Por isso, deve-se concluir que: a) a presença de um autêntico milagre fora da religião católica, por si só, não constitui (nem pode constituir) prova suficiente e cabal da seita em que é realizado nem da santidade daquele por quem é realizado; b) toda manifestação aparentemente milagrosa deve reputar-se como falsa, se induz a aceitar qualquer erro contrário à doutrina católica, que não é outra que a do próprio Cristo. Ainda são atuais as palavras de Agostinho: “É perniciosíssimo o erro dos que consideram haver nos milagres dons maiores… que nas obras de justiça” (Quæ. lxxxiii, q. 79), às quais agrega Caetano: “E isto [é dito] contra os [homens] vulgares e o erro comum do gênero humano, que consideram santos e quase como deuses os homens que fazem milagres, mas reputam como nada os simples e justos. Ora, é todo o contrário o que se deve pensar” (In STh II-II 178,2).

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