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Homilia Dominical
23 Set 2016 - 26:07

O pobre Lázaro e o rico banqueteador

"Os homens, para encontrarem após a morte alguma coisa em suas mãos, devem pôr antes da morte as suas riquezas nas mãos dos pobres". Essa frase, que pode soar estranha aos ouvidos de muitos, é na verdade de um santo da Igreja e resume em si toda a parábola do pobre Lázaro e do rico epulão. Quer saber o que isso significa e em que consiste a autêntica caridade cristã, à parte as ideologias materialistas de nosso tempo?
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Homilia Dominical - 23 Set 2016 - 26:07

O pobre Lázaro e o rico banqueteador

"Os homens, para encontrarem após a morte alguma coisa em suas mãos, devem pôr antes da morte as suas riquezas nas mãos dos pobres". Essa frase, que pode soar estranha aos ouvidos de muitos, é na verdade de um santo da Igreja e resume em si toda a parábola do pobre Lázaro e do rico epulão. Quer saber o que isso significa e em que consiste a autêntica caridade cristã, à parte as ideologias materialistas de nosso tempo?
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 16, 19-31)

Naquele tempo, Jesus disse aos fariseus: "Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias.

Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas.

Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado.

Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado.

Então gritou: 'Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas'.

Mas Abraão respondeu: 'Filho, lembra-te que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. E, além disso, há um grande abismo entre nós; por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós'.

O rico insistiu: 'Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento'.

Mas Abraão respondeu: 'Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!'

O rico insistiu: 'Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter'.

Mas Abraão lhe disse: 'Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos'".

Dois domingos atrás, nós ouvimos o Senhor contar aos discípulos parábolas que retratavam a misericórdia divina: na moeda perdida, na ovelha desgarrada e no filho pródigo — todos narrados no capítulo 15 do Evangelho de São Lucas — estava representado o ser humano, que se tinha extraviado após a Queda e que Deus mesmo viera resgatar atravessando os céus e se fazendo homem. Hoje, com a parábola do pobre Lázaro e do rico epulão, Cristo apela à compaixão humana, como se dissesse: Estote misericordes sicut et Pater vester misericors est, "Sede misericordiosos como o vosso Pai o é" (Lc 6, 36) — frase escolhida como lema para este Ano da Misericórdia que celebramos.

Já era possível vislumbrar essa ligação, na verdade, entre a misericórdia de Deus e a dos homens, ainda no Evangelho de semana passada, quando o Senhor exortava: "Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas" (Lc 16, 9). São Gregório Magno, de fato, comentando esse versículo, indicava que "os homens, para encontrarem após a morte alguma coisa em suas mãos, devem pôr antes da morte as suas riquezas nas mãos dos pobres" (Catena Aurea in Lucam, XVI, 2).

Essa lição do Papa Gregório condensa, na verdade, toda a parábola que nos é narrada no dia de hoje. Enquanto o rico anônimo recebeu todos os seus bens durante a vida, o pobre Lázaro só suportou males; aquele se vestia com roupas finas e era rodeado de fartos banquetes, ao passo que este trazia as feridas como roupas e as migalhas como alimento. No fim de seus dias, os destinos dessas duas personagens se inverteram por completo: Lázaro, cuja miséria sequer uma alma humana tinha ousado acudir, carregado pelos próprios anjos de Deus foi para junto de Abraão; o rico, porém, só se conta que foi enterrado e, logo depois, o Autor Sagrado já o descreve no meio dos tormentos do inferno.

Duas realidades, portanto, se oferecem à nossa meditação: a vida terrena, ante mortem, a vida eterna, post mortem.

Na primeira, diz São Gregório Magno, é preciso que ponhamos nossas riquezas nas mãos dos pobres. Ninguém se assuste com essa afirmação porque, à parte o que pregam as ideologias materialistas de nosso tempo, o dever de dar esmolas é uma constante na doutrina moral da Igreja (cf. Rerum Novarum, 12), nas Escrituras (cf. Dt 15, 11; Tb 4, 7; Mt 25, 4; 1Jo 3, 17-18) e no próprio direito natural (cf. Royo Marín, Teología moral de los seglares, 526-529). Ao mesmo tempo, porém, acudir às necessidades dos outros nem sempre se resume a uma assistência meramente material. Uma glosa antiga ao Evangelho de São Lucas diz que "de dois modos é possível carregarmos a cruz de Cristo: ou quando pela abstinência se aflige a carne, ou quando pela compaixão ao próximo se aflige nosso espírito". Ter compaixão quer dizer, literalmente, "sofrer com o outro", e o dinheiro é apenas parte periférica desse preceito.

Depois desta vida, enfim, dois lugares estão reservados aos homens: o Céu aos justos e o inferno aos maus, tertium non datur. O purgatório trata-se de uma realidade transitória, uma purificação por que passam as pessoas que foram salvas sem, no entanto, terem atingido a perfeição de vida. Céu e inferno, além disso, são moradas definitivas: embora o Senhor tenha posto na boca do rico condenado uma espécie de "súplica arrependida", não há arrependimento nenhum para os réprobos. Após a morte, a decisão que eles tomaram de apartar-se de Deus é, como a dos anjos rebeldes, irrevogável. O "grande abismo" de que fala Abraão na parábola nada mais é, portanto, que a rejeição consciente e deliberada do Criador, que acontece já nesta vida com o drama do pecado mortal. Por isso, o inferno realmente existe, mas como invenção angélica, não criação divina: o Senhor não nos criou, afinal, para sermos condenados à infelicidade eterna; fez-nos livres para que pudéssemos ou aceitar ou negar o seu amor, cabendo a nós, portanto, pronunciar-lhe a última palavra.

Meditar sobre essas realidades escatológicas é o grande segredo para nos livrarmos do pecado da avareza e do apego aos bens deste mundo, causas por que foi condenado o rico da parábola de hoje. Tendo sempre diante dos olhos que, como diz o Apóstolo, "a figura deste mundo passa" (1Cor 7, 31), mais fácil nos será abrir as mãos para socorrermos e aliviarmos as misérias de nossos semelhantes e recebermos, por fim, uma recompensa na eternidade.

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