Nesta primeira aula do nosso curso sobre a depressão — uma doença que parece afetar cada vez mais pessoas —, vamos iniciar partindo de um caso concreto ocorrido durante um atendimento espiritual. Embora se trate de uma situação real, o nome e alguns detalhes foram modificados para preservar a identidade da pessoa. O atendimento aconteceu fora da Confissão, de modo que não envolve qualquer matéria protegida pelo sigilo sacramental.
A pessoa em questão, a quem chamaremos de Marta, era uma senhora de quarenta e poucos anos que procurou-me em direção espiritual por acreditar que não estava bem espiritualmente, sobretudo porque não conseguia mais rezar. Diante dessa queixa, a primeira suspeita poderia ser de tibieza, ou seja, ela já não encontrava gosto nas coisas de Deus e não conseguia rezar como antes.
No entanto, ao questioná-la se ainda sentia prazer nas coisas do cotidiano, ela respondeu que também não. Isso levantava outra possibilidade: poderia tratar-se da noite escura da alma, na qual a pessoa não encontra prazer, inclusive, nas coisas do mundo. Fiz, então, uma pergunta decisiva: apesar da ausência de gosto, permanecia nela o desejo de estar com Deus? A resposta de Marta foi determinante: “Padre, ultimamente, não estou desejando nada”. E, durante a conversa, chegou ainda a dizer: “Sabe o que eu queria, padre? Às vezes eu queria dormir e não acordar mais”.
Essa afirmação levou-me a perceber que talvez não se tratasse propriamente de um problema espiritual, mas de uma doença. Nesse ponto, é fundamental fazer a seguinte distinção: um sacerdote não é psicólogo nem psiquiatra e, portanto, não lhe cabe estabelecer um diagnóstico. Da mesma forma, ninguém sem a devida formação deve diagnosticar a si mesmo ou aos outros, sendo apenas permitido reconhecer sinais que indiquem a necessidade de ajuda.
A partir daí, outros aspectos da vida de Marta ajudaram a perceber que havia algo além de uma simples dificuldade espiritual. Ela não dormia bem e, durante a noite, era atormentada pela lembrança de um pecado cometido no passado, embora já tivesse sido confessado e perdoado. Além disso, ela foi progressivamente se retraindo. Antes, sua alegria era preparar, aos domingos, a refeição para a família; todavia, pouco a pouco, deixou de encontrar prazer nisso. Os encontros com as amigas e as conversas também foram desaparecendo. A filha de Marta havia estudado durante anos para ser aprovada em um concurso e, quando finalmente conseguiu, a mãe recebeu a notícia e sorriu porque sabia que deveria sorrir. Entretanto, interiormente, era como se aquilo estivesse acontecendo na vida de outra pessoa.
Todos esses sinais apontavam para a anedonia, isto é, a perda do prazer nas coisas que antes proporcionavam satisfação. No caso de Marta, não havia acontecido nenhum fato traumático que explicasse imediatamente aquela mudança. Isso precisa ser considerado, pois a depressão pode ser desencadeada por acontecimentos dolorosos, como um luto, um divórcio ou uma separação, ou pode surgir sem uma razão identificável. Ficar triste diante de um luto é uma reação humana normal; o problema aparece quando a pessoa entra naquele estado e já não consegue sair dele.
Com Marta, porém, sequer era possível determinar exatamente quando tudo havia começado. Os primeiros sinais apareceram, sobretudo, em casa. Sim, porque, em público, a pessoa ainda pode fazer esforço para sustentar seu papel social, mas, no ambiente familiar, essa exigência diminui, e aquilo que está acontecendo interiormente se torna mais visível. Isso não significa que a pessoa estivesse sendo falsa: simplesmente, todos nós exercemos determinados papéis sociais. Em casa, portanto, Marta já se mostrava retraída, conversava menos e havia perdido a alegria que antes manifestava.
Por causa disso, ela foi encaminhada a uma psiquiatra de confiança, que confirmou o diagnóstico de depressão. Ainda assim, é necessário insistir em uma advertência importante: sintomas semelhantes podem estar relacionados a outras condições, como bipolaridade, efeitos de medicamentos, drogas ou diferentes causas. Portanto, ninguém deve se autodiagnosticar nem diagnosticar as pessoas com quem convive.
É importante dizer isso porque determinado quadro pode parecer depressão e, na realidade, ter outra causa. Uma pessoa que acaba de sofrer um luto, por exemplo, geralmente apresenta tristeza intensa e perda de prazer, sem que isso constitua necessariamente a depressão como doença. A tristeza faz parte da vida, e cabe ao profissional distinguir uma reação humana diante de um acontecimento doloroso de um verdadeiro quadro depressivo.
No caso da Marta, havia ainda outro problema: a maneira como as pessoas ao seu redor reagiam. Seus familiares, querendo ajudá-la, diziam: “Coragem, anime-se! Sua vida está boa! Não tem nada do que reclamar!”. Chegavam a aconselhá-la a visitar pessoas em situações mais graves para perceber que não tinha motivos para estar daquele modo. Faziam isso com boa intenção, acreditando que tais palavras poderiam animá-la.
Para alguém deprimido, porém, esse tipo de reação pode produzir justamente o efeito contrário. O pensamento da pessoa com depressão tende a tornar-se repetitivo e cíclico, sem conseguir avançar, e como Marta já possuía uma visão muito negativa de si mesma, aquelas exortações acabavam reforçando sua culpa: se sua vida estava bem e, apesar disso, ela não conseguia reagir, então concluía que o problema era culpa sua. Foi justamente por essa razão que procurou um sacerdote: não porque soubesse que estava deprimida, mas porque se culpava por já não conseguir rezar.
É fundamental compreender, portanto, que a depressão não é simplesmente um problema moral. Não se trata de dizer à pessoa que, se ela fosse mais forte ou se esforçasse mais, conseguiria sair daquele estado. Existem alterações reais no cérebro que estão associadas aos quadros depressivos, e estudos científicos ajudam a mostrar que não se está diante de mera “frescura”.
Há um estudo de Poul Videbech e Barbara Ravnkilde, realizado a partir de ressonâncias magnéticas de grupos de pessoas com depressão, no qual verificou-se que, em pacientes que permaneciam deprimidos por muito tempo, havia em média uma diminuição do hipocampo, região cerebral relacionada à memória, especialmente a afetiva — isso foi publicado no American Journal of Psychiatry, em 2004. Outro estudo importante, realizado pelos geneticistas Patrick Sullivan e Kenneth Kendler com pares de gêmeos idênticos, apontou a existência de um componente genético relacionado à vulnerabilidade e à depressão. Isso significa que pode existir uma vulnerabilidade maior em determinadas pessoas diante dos acontecimentos da vida.
Por fim, podemos apresentar mais um caso de pacientes com hepatite C tratados com o medicamento Interferon em um hospital de Barcelona, em um estudo conduzido pela equipe de Marc Udina. Aproximadamente uma em cada quatro pessoas que recebiam o remédio desenvolveu depressão como efeito indesejado, reforçando que, se um medicamento pode desencadear sintomas depressivos, não é possível reduzir a doença a mera “frescura”, fraqueza ou falta de esforço.
Contudo, reconhecer a dimensão física da depressão não significa cair no extremo oposto e reduzi-la a um simples problema químico facilmente solucionado com medicamentos. Para abordar a questão corretamente, precisamos partir de uma antropologia adequada: o ser humano é corpo e alma, e ambos atuam juntos. Desse modo, a depressão não pode ser considerada apenas um problema da alma — como se fosse preguiça ou uma reação moral inadequada —, nem apenas um problema do corpo — como se bastasse tomar um remédio para resolver tudo.
Essa visão está de acordo com a antropologia tomista. A alma atua por meio de mecanismos ligados ao cérebro, como a atenção, a memória afetiva e os afetos, e tudo isso repercute na vida interior da pessoa. Inclusive, dois psiquiatras católicos — Anna Terruwe e Conrad Baars — mostraram essa interação entre as duas dimensões. É necessário, portanto, evitar tanto uma visão que contemple somente a alma quanto o materialismo que reduz o ser humano à química de seu organismo.
Por essa razão, a pessoa pode precisar de diferentes formas de auxílio: acompanhamento médico, terapia, direção espiritual e oração. Cada uma delas possui seu lugar. O essencial é não moralizar aquilo que não é somente uma questão moral. Quem está deprimido encontra-se doente e deve ser acolhido, antes de tudo, com compaixão. Logo, em vez de dizer a uma pessoa deprimida que falta ela se entregar para Deus, confiar ou rezar, é muito mais conveniente permanecer ao seu lado. Às vezes, o que mais pode ajudá-la é estar presente e dizer-lhe: “Nós vamos passar por isso juntos. Eu não consigo tirar você dessa tristeza, mas consigo estar aqui com você”.
Essa presença pode manifestar-se em gestos muito concretos: ajudar a pessoa a lembrar-se de tomar o medicamento, incentivá-la a ir ao psiquiatra, acompanhá-la nas consultas e auxiliá-la nas tarefas cotidianas enquanto atravessa o período de tratamento. A ajuda profissional é essencial, mas a família também exerce um papel fundamental.
Certas mudanças não acontecem por má vontade, mas pelo fato de a pessoa já não conseguir lidar sozinha com aquilo que sente, necessitando de auxílio. Esta primeira aula oferece, assim, uma visão geral da depressão, mostrando que, por trás desse rótulo e de vários preconceitos, existe uma realidade muito mais complexa do que normalmente se imagina. E, para compreendê-la, precisamos olhar para o ser humano em sua totalidade, corpo e alma, abandonando julgamentos precipitados e aprendendo a acompanhar com verdadeira compaixão aqueles que enfrentam esse sofrimento.
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