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Seu filho sabe a sua história?

Seu filho sabe quem você é? Ele conhece a sua história de vida? É para mostrar a importância disso que, nesta aula, Padre Paulo Ricardo irá contar uma história envolvente, marcada por desafios, incertezas e descobertas surpreendentes. Não perca!

Texto do episódio
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Muitos pais se esforçam em proteger e formar os filhos com catequese, sã doutrina, disciplina e boas companhias. Mas, cedo ou tarde, chega o dia em que o filho tem de entrar em contato com o mundo. O problema já não é formá-lo, mas tê-lo preparado, com uma identidade sólida o bastante para permanecer fiel aos valores recebidos em casa. É aí que se vê a importância da memória, elemento essencial à constituição de uma identidade madura e forte.

Com efeito, não há identidade sem memória. O homem necessita saber de onde veio, qual é a sua história, a de sua família e cultura, além das grandes narrativas que deram forma à civilização. Educar é mais do que transmitir informações à criança. É ajudá-la a construir uma história interior, fundamentada em referências que lhe permitam compreender quem ela é e como deve agir diante dos desafios impostos pela vida.

Temos na Odisséia de Homero uma imagem expressiva disto. A narrativa inicia com Telêmaco, filho de Odisseu, o qual está longe de casa há vinte anos, dez em guerra contra Troia, outros dez em longa viagem de retorno. Telêmaco cresceu, pois, sem conhecer o pai e, por isso, não encontra forças para resguardar a mãe dos pretendentes que lhe tinham invadido a casa e dilapidado aos poucos o patrimônio da família. Quando Atena lhe pergunta se ele é realmente filho do famoso Odisseu, Telêmaco responde:

Diz minha mãe que sou dele, de fato, gerado; contudo,
eu próprio o ignoro; ninguém tem consciência da sua linhagem [1].

A falta de identidade, aqui, está intimamente ligada à falta de memória autobiográfica. Atena então incentiva o moço a pedir informações sobre o pai a Nestor e a Menelau. Ouvindo os feitos de Odisseu, Telêmaco começa a mudar, e a consciência de sua origem é o que lhe dá senso de identidade e força para assumir as próprias responsabilidades.

Isso demonstra que a memória não é algo de ordem exclusivamente intelectual. Saber quem se é e de onde se veio constitui, por assim dizer, a coluna vertebral da personalidade. Eis por que contar aos filhos a história da família, do país, da Igreja e da humanidade não é perda de tempo, visto que as grandes histórias formam o imaginário, despertam a capacidade de entender mais a fundo a realidade e ajudam a criança a interpretar as próprias experiências.

A educação das crianças e adolescentes não pode limitar-se à mera transmissão conceitual de certas doutrinas. O conteúdo é importante, certamente; mas a criança também precisa aprender a lidar com as emoções. A capacidade de narrar o que acontece dentro de si permite organizar experiências e emoções. Daí que a narrativa possua um aspecto formativo e até terapêutico, pois ajuda o homem a se compreender.

Na Odisséia, insiste-se nesse tema nos sete anos que Odisseu passou na ilha de Calipso. Ainda que vivesse num paraíso, junto de uma belíssima mulher e com a promessa de jamais envelhecer, o herói sente o peso da infelicidade nascida do desejo de retornar a Ítaca e aos braços da esposa, ou seja, à sua verdadeira vida. Odisseu mesmo o reconhece, ao dizer:

[...] conheço
perfeitamente que a minha querida e prudente Penélope
é de menor aparência e feições menos belas que as tuas.
Ela é uma simples mortal; tu, eterna, a velhice não temes.
Mas, apesar de tudo isso, consumo-me todos os dias
para que à pátria retorne e reveja o meu dia da volta [2].

A memória de si, ou seja, de sua origem e das pessoas às quais está ligado, impede-o de aceitar como definitiva uma vida que, por mais paradisíaca que seja, iria transformá-lo em alguém alheio à própria identidade.

Depois de deixar Calipso, Odisseu chega à terra dos feácios, onde é acolhido pelo rei. Durante um banquete, um rapsodo cego começa a narrar os sucessos da guerra de Tróia. Ao ouvir sua própria história, Odisseu chora copiosamente:

Isso narrava o famoso cantor. Odisseu, entrementes,
com as mãos fortes o manto de púrpura para a cabeça
puxa, encobrindo-a com o fim de esconder as feições majestosas.
Envergonhava-se, sim, de que o vissem chorar os feácios [3].

A narrativa toca-lhe o fundo da memória, reconectando-o consigo mesmo por meio de seu passado. É tocante ver a comoção de Odisseu, que chora como uma viúva diante do cadáver do esposo:

Isso narrava o famoso cantor. Odisseu entrementes
liquefazia-se em lágrimas, tendo banhadas as faces,
como mulher abraçada no corpo do caro marido [4].

Odisseu mesmo começa a narrar em seguida sua história. Ao contar não só aos comensais, mas antes de tudo a si mesmo, quem é e tudo o que até ali viveu, ele reencontra sua identidade e, com isso, a motivação necessária para retornar a Ìtaca. Foi a narrativa o que lhe serviu de instrumento de reintegração interior e de retorno à própria casa.

Por isso, insistimos: a educação tem de ir além da dimensão analítica, incluindo também a dimensão simbólica, imaginativa e poética por meio da grande literatura, da memória familiar e da narrativa autobiográfica. Aliás, a neurociência contemporânea tem ajudado a compreender por que aquilo que a tradição pedagógica valorizou durante séculos possui tanta importância para o desenvolvimento das potencialidades humanas.

Ninguém nasce, por exemplo, com um “sistema operacional” pronto, ao qual bastaria acrescentar uns quantos dados ou programas. O cérebro se desenvolve mediante experiências e hábitos, e as experiências proporcionadas à criança são parte integrante da formação de conexões e habilidades.

Mas do mesmo modo que não se deve aceitar uma novidade qualquer só por ser nova e moderna, tampouco se deve seguir a tradição pedagógica clássica pelo simples fato de ser antiga. Na verdade, o valor deste ou daquele método educativo se há de aferir por aquilo que ele realmente proporciona.

As descobertas da neurociência, nesse sentido, têm ajudado a compreender os fundamentos de diversas práticas pedagógicas preservadas ao longo dos séculos, pondo em evidência, por exemplo, a importância das grandes histórias, da literatura, da memória e do imaginário para a formação da personalidade.

O objetivo da boa educação católica não é criar uma bolha na qual os filhos permaneçam imunes a toda influência externa, mas formar alguém capaz de se orientar no mundo sem se desorientar de si mesmo. Doutrina e catequese, repitamos, são indispensáveis, mas é igualmente necessário integrá-las num projeto mais amplo de formação humana.

Ora, é a memória o que nos permite saber quem somos, de onde viemos, quais são nossas raízes e à luz de quais histórias nos devemos orientar na vida. Assim, quando o mundo nos armar seus laços e seduções, teremos referências para discernir, resistir e nos manter fiéis aos bens que nos foram transmitidos.

Para concluir, amarremos os pontos. Educar a memória é educar a si mesmo. Graças à história de sua família ou de sua nação, às grandes narrativas literárias e à capacidade de contar a própria história, a criança vai construindo uma identidade sólida e coerente. A Odisséia ilustra essa realidade com a figura de Telêmaco, que descobre sua identidade ao conhecer a história do pai, e com a de Odisseu, que reencontra a si mesmo ao lembrar e narrar a própria história. Uma educação integral, em suma, não se contenta com transmitir idéias, mas aspira à formação de um homem capaz de integrar conhecimento, emoções, memória, imaginação e identidade para enfrentar o mundo e viver nele sem esquecer a própria identidade.

Para se aprofundar nesse tema, acesse o curso “Como Educar a Memória do seu Filho”.

Notas

  1. Homero, Odisseia. Trad. de Carlos Alberto Nunes. Campinas: Ed. Sétimo Selo: 2022, canto I, versos 215 e 216.
  2. Ibidem., canto V, versos 215 a 220.
  3. Ibidem., canto VIII, versos 83 a 86.
  4. Ibidem., canto VIII, versos 521 a 523.

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