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Texto do episódio
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Já faz alguns anos que as manchetes de vários jornais e revistas atestam: o Brasil é o país mais ansioso do mundo. E, dado surpreendente: Portugal, como se diz por aí, está pau a pau conosco nessa inglória disputa. É isso o que dizem as estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Global Burden of Disease (GBD), do Banco Mundial, entre outras entidades que pesquisam a matéria. De trabalho a trabalho, os números divergem ligeiramente, mas, seja como for, chama atenção não somente o fato de o Brasil estar sempre no topo, mas de estar acima com uma margem considerável de distância daquilo que é a média mundial. Segundo os números mais otimistas, 9,3% da população brasileira sofre de ansiedade. A média mundial está na casa dos 3,4%. Nossa marca é mais que o dobro. 

Isso nos admira porque não nos vemos assim. A imagem que temos de nós mesmos é a de um país otimista, risonho, alegre. Acreditamos que ansiosos são os empresários lá de Nova York, ou os holandeses, que vivem debaixo de um clima cinzento e nublado, ou os japoneses, que suportam uma carga de trabalho pesada e constante. Jamais pensamos que os ansiosos somos nós; mas somos. 

Porém, antes de falarmos das causas desse fenômeno, precisamos definir o que é a ansiedade. E a primeira coisa a se dizer é que a ansiedade, em si mesma, é um sentimento humano adaptativo, normal, indispensável para a sobrevivência da espécie. Temos ansiedade porque, ao contrário dos animais, temos um certo controle do futuro, o que, em regra, é muito positivo. Os animais reagem aos perigos iminentes; quando esse mal é grande, e parece superar a capacidade do bicho de suportá-lo, surge uma reação emocional chamada medo. Isso também acontece conosco. Se, diante de nós — mal iminente — aparece uma barata, a nossa reação não será o medo, pois qualquer um de nós daria conta de esmagar o inseto. Agora, se nos aparecer um leão, sentiremos medo, pois imediatamente calculamos que aquele mal presente supera nossas capacidades de enfrentá-lo. 

No entanto, nós, seres humanos, além de perceber o mal presente, podemos prever, imaginar e estimar os males futuros. Hoje, por exemplo, podemos pensar: “Como ficará a Bolsa de Valores com o fechamento do Estreito de Ormuz? Quem vencerá a guerra: os EUA e Israel ou o Irã? Será que teremos a Terceira Guerra Mundial? E, quanto ao Brasil, quem será o nosso próximo presidente? Como ficará a nossa economia? Teremos desemprego? E quanto a mim, o que será esse sintoma que me aparece? Será que é somente um nódulo gorduroso ou é um tumor? E se for tumor, é benigno ou maligno?” Dessa nossa capacidade de pensar o futuro, surge uma reação normal, humana, adaptativa, chamada ansiedade. Ansiedade, portanto é o medo de um mal que não é iminente, mas estimado, imaginado. E isso não é doença; é simplesmente uma característica dos seres humanos. Os animais também sentem ansiedade, mas num nível diferente do nosso, porque a sua capacidade de imaginar o futuro é bem menor. 

Essa reação normal torna-se doença quando começa a nos impedir de realizar funções que antes realizávamos normalmente. É uma coisa que começa a nos perturbar: tira o nosso sono e o nosso apetite; tira a nossa capacidade de lidar com os outros, de tomar decisões; e isso se estendendo por um longo tempo, por mais de seis meses. É aí que saímos da ansiedade normal para os transtornos de ansiedade, que podem ser de vários tipos: transtorno de ansiedade generalizado; transtorno de ansiedade pós-traumático; transtorno de ansiedade social; transtorno de fobia etc. Todas essas reações mostram que o nosso organismo, por alguma razão, está reagindo a um medo futuro e não consegue se livrar dele. É como usar uma “chinese finger trap”, armadilha de dedo chinesa. Quanto mais se pensa no problema, a fim de resolvê-lo, mais ele gruda e prende. Assim é a ansiedade convertida em transtorno. 

Explicado o que é a ansiedade, voltemo-nos para as causas da epidemia brasileira desse transtorno. Os sociólogos, como não poderia deixar de ser, avaliam o problema pelas causas sociológicas e concluem que o Brasil é ansioso por causa dos índices de violência, de pobreza e de incerteza. Mas a conta não fecha. Se cruzarmos as estatísticas, veremos que, por exemplo, em matéria de violência, há países muito piores que o nosso que não apresentam os mesmos níveis de ansiedade. O Brasil tem um índice de mais ou menos 19 homicídios para cada 100 mil habitantes, um número bastante alto se comparado ao de Portugal, 0,7 homicídios para cada 100 mil. No entanto, no Haiti, os números chegam a 41, mais que o dobro, e os haitianos não sofrem de ansiedade.

Há quem diga que o problema seja a subnotificação, por causa do sistema de saúde precário no Haiti. Pois bem: e o que dizer da África do Sul, que apresenta uma média de 43 homicídios para cada 100 mil habitantes? A África do Sul não é tão ansiosa, e não parece ser problema de subnotificação. Não negamos que o Brasil padeça desses males sociais (a violência, a pobreza etc.), e não negamos que eles possam colaborar com o quadro ansioso, já que a ansiedade liga-se à incapacidade de lidar com as incertezas do futuro, e a violência e a miséria são fontes caudalosas de incerteza futura. No entanto, parece que esses problemas, por si, não explicam a crise.

Temos, então, de partir para outras linhas de análise. Como a do famoso psicólogo Jonathan Haidt — que inclusive influenciou a legislação brasileira que proíbe o uso de celulares nas escolas. Haidt, analisando adolescentes do mundo inteiro, escreveu o livro “A Geração Ansiosa”. E sua tese é de que a causa da ansiedade na atual geração esteja na internet, devido aos mecanismos de recompensa imediata, certa e segura que ela produz (nas redes sociais, nos vídeos curtos, nos joguinhos de azar, na pornografia). Se formos às estatísticas de consumo de internet, veremos que o Brasil está entre os campeões. Enquanto a média mundial de uso de internet diária é de 6 horas e 38 minutos, o brasileiro fica, em média, 9 horas e 13 minutos — o que é assustador. 

Parece, então, que encontramos a smoking gum, a prova do crime, porque os índices de consumo de internet também são altos em Portugal, nosso rival na Copa do Mundo de ansiedade. No entanto, no cruzamento de dados, a hipótese novamente esmorece: na África do Sul também usa-se muito a internet e, como já dissemos, eles não são ansiosos como nós. 

Conclusão: ainda não sabemos por que o Brasil é assim tão ansioso. E, no fundo, não precisamos saber. Porque, importante mesmo, não é o dado sociológico, a estatística, o número frio numa tabela: importantes são as vidas individuais, as vidas concretas das pessoas que sofrem com ansiedade. Ora, o ansioso não teria em nada resolvido o seu problema se o país inteiro fosse calmo. Claro que é importante chamar a atenção para a epidemia de ansiedade no Brasil, porque há muitas pessoas sofrendo desse mal, pessoas que amamos, e é valioso, sim, compreendermos esse fenômeno de modo geral, para que possamos encará-lo de maneira séria e responsável. Porém, é preciso que nos aprofundemos no assunto do ponto de vista das necessidades individuais.  

Por isso, decidimos realizar um curso em que as pessoas, individualmente, sintam-se contempladas em todas as suas dificuldades relativas a esse transtorno. A ideia é investigar a questão, sistematicamente, nos âmbitos físico, cognitivo, comportamental e espiritual, passando as várias causas que podem estar por trás dessa ansiedade pervasiva e, ao mesmo tempo, dar aos alunos orientações de possíveis terapias. 

E aqui surge a pergunta: que autoridade tem um padre para se meter naquilo que é alçada de psicólogos e psiquiatras?

Minha autoridade está justamente no ser padre. Primeiro porque noto nos tratamentos correntes para a ansiedade a influência de certas práticas religiosas, o que muitas vezes deixa os cristãos temerosos quanto a esses métodos. Um exemplo: muitos terapeutas, hoje em dia, recorrem à Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e indicam o “mindfulness”, a meditação com atenção plena — ou, se quiser, a atenção plena com ou sem meditação. Disso, escorrega-se para o yoga, a meditação transcendental e outros recursos. Como os cristãos devem reagir a isso? Essas técnicas funcionam? No curso, veremos que funcionam, de fato, mas que, enquanto cristãos, não precisamos utilizá-las do jeito que nos são apresentadas, por exemplo, pelas religiões orientais.

Além disso, enquanto padre, posso responder à questão: Qual é a atitude espiritual que podemos ter com relação à ansiedade? 

Porque, sim, na raiz desse problema existe um importantíssimo componente cognitivo — como chamam alguns — cultural — como querem outros — ou, enfim, espiritual. O fato de os animais não ficarem ansiosos da mesma forma que os seres humanos ficam, mostra que há algo na natureza humana que provoca esse tipo de transtorno. E não se trata de alguns gramas de cérebro. Trata-se da alma. Aqui entra a espiritualidade, a forma de encarar a vida. E, portanto, um sacerdote tem certamente uma palavra para dizer a respeito. 

Mas não quero dizer uma palavra vaga, dizendo apenas que entreguemos tudo a Deus e confiemos nele. Claro que temos de entregar os problemas a Deus e confiar na sua misericórdia, mas também temos de crer profundamente que o Deus que se revelou em Jesus Cristo é o Deus da criação, e que está na criação mesma do Senhor aquilo que, paulatinamente, a ciência vai descobrindo, e que é muito valioso aprendermos. 

Por exemplo, vamos tratar no nosso curso de uma descoberta recente da ciência — uma verdade da criação que os estudos humanos trouxeram à luz: o sistema nervoso entérico, ligado ao intestino. Ou seja, veremos como o intestino delgado, portanto, a maneira de comer, pode ser causa de ansiedade. Há poucas décadas ninguém imaginava que houvesse um sistema nervoso entérico. Havia só o sistema nervoso central e o periférico. Descobriu-se recentemente que o nervo vago, que manda informações do cérebro ao intestino, tem uma intensa comunicação no caminho inverso: do intestino ao cérebro. Ou seja, o intestino pode provocar em nós certas emoções. Esse é um dado de grande relevância que agora pode entrar no rol das nossas explicações sobre a ansiedade. 

Portanto, veremos no curso tudo isso: do intestino ao “mindfulness”; dos exercícios físicos à oração, passando pelo sono, vendo como todas essas coisas se encaixam tranquilamente numa visão católica do mundo, numa visão cristã.

Não se trata, pois, de um curso para especialistas, mas que pode servir a especialistas que gostariam de ter uma visão diferente; para usar a palavra da moda, uma visão mais “holística”, palavra que é sinônimo de católica, pois católica quer dizer: conforme o todo. A visão católica é a visão do todo, que não não escolhe, que não tira nada. E será a visão holística de um padre com quase 34 anos de sacerdócio e algumas milhares de horas de atendimento de pessoas ansiosas, mais uns bons anos de estudo.

A ideia que vamos defender é que precisamos tratar não a doença, mas a pessoa. Há profissionais que, por questões éticas, evitam entrar naquilo que foge ao problema que está sendo observado e tratado, dizendo que é questão de foro íntimo. No entanto, muitas vezes, a cura da doença estará na mudança de vida, numa verdadeira conversão, e isso como padre eu posso dizer.

A ideia, portanto, é apresentar as várias facetas do problema e várias linhas de solução para que se abra um leque de possibilidades a serem apresentadas ao diretor espiritual, ao psicólogo, ao psiquiatra. Sem soluções mágicas, mas, sim, soluções práticas e bastante concretas. E soluções que evitem os dois extremos que geralmente se apresentam: ou apostar tudo nos remédios, inclusive se dopando, tomando dosagens maiores que as prescritas pelos médicos; ou ignorar qualquer tratamento e tentar enfrentar tudo sozinho, de peito aberto, desconsiderando nossas fragilidades.

Além disso, espero que os alunos, que sofrem com a ansiedade ou que têm parentes padecendo desse mal, ao final do curso, vejam um caminho. É como a oração que o cego dirigiu a Jesus: “Domine, ut videam”, “Senhor, que eu veja”. Enxergar o caminho é metade da cura. 

Por fim, é necessário dizer que este curso é importantíssimo para padres, diretores espirituais, conselheiros e pais que lidam com pessoas ansiosas. Porque existe uma tendência muito grande na Igreja Católica — suponho que também nas outras — de moralização da ansiedade, de tratar a doença com moralismo. A pessoa chega com o problema, e dizem-lhe: “Você não pode ser assim! Não pode ser ansioso! Não pode ficar com medo!”. Mas, como veremos em detalhes, nem sempre conseguimos mandar nas nossas emoções. E a pessoa, julgada nessa chave moralista, acaba se sentindo incompreendida, massacrada e esmagada pela família, pelos colegas de trabalho; às vezes, infelizmente, pelo próprio sacerdote, que deveria ser acolhedor e compreender. No entanto, muitas vezes o padre age assim porque, claro, não foi preparado para acolher esse tipo de caso. Então, é também um recurso importante e valioso para a formação dos nossos agentes de pastoral.

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