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Dentre os muitos títulos que a Tradição da Igreja atribui ao Papa, um em especial merece nossa atenção nos dias de hoje: Sucessor de São Pedro.

A palavra “sucessão” implica uma ideia de movimento para um mesmo destino. No caso das monarquias, por exemplo, há uma “linha sucessória” entre o rei e seus descendentes. A sucessão é como uma corrida de bastões: o primeiro corredor percorre apenas certo ponto do trecho, entrega o bastão ao próximo atleta e assim por diante, até chegarem à meta final. Mas se um dos atletas resolve, no meio do caminho, mudar o curso e jogar o bastão fora para substituí-lo por uma abóbora, a corrida perde o seu sentido e a sucessão desaparece. Portanto, o corredor seguinte precisa estar sempre em sintonia com seus predecessores, e caminhar na mesma direção, carregando o mesmo fardo.

A tarefa do Papa, enquanto sucessor de São Pedro, é transmitir a fé católica de sempre a todas as gentes. Em outras palavras, ele precisa carregar o mesmo bastão de São Pedro — isto é, aquele “depósito da fé” sobre o qual Cristo edificou a Sua Igreja —, até o seu destino final, que é a salvação do gênero humano. Jesus conferiu “as chaves do Céu e da Terra” a São Pedro para que esse apóstolo, uma vez convertido, confirmasse o seus irmãos na fé: “Simão, Simão”, adverte-o Jesus, “eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22, 31-32). Nesse sentido, o poder magisterial do Papa só existe na medida em que o Santo Padre o exerce na mesma fidelidade de São Pedro.

Aqui, então, temos outro aspecto igualmente importante desse ministério. O Papa não o exerce sozinho, mas é apoiado pela assistência do Espírito Santo e a oração do Senhor. “Mas eu roguei por ti”, diz Jesus a São Pedro. Comentando esse versículo do Evangelho de S. Lucas, São Tomás More chama a atenção para a traição de Pedro no momento da Paixão: se mesmo apoiado pela oração de Jesus, o príncipe dos Apóstolos vacilou, que tamanha tragédia não teria ocorrido se Nosso Senhor não tivesse rezado? Por isso, os católicos precisam diariamente suplicar a Deus pela “pela pessoa e intenções do Santo Padre”, para que seja bem firme na fé, na caridade e tenha muita luz para guiar o rebanho de Cristo (cf. Oração Eucarística V).

Na história da Igreja, o ministério petrino serviu de farol a inúmeros cristãos que caminhavam para fora da unidade da fé, atormentados por dúvidas e heresias. De fato, Cristo deixou-nos um caminho para o Céu. Mas esse caminho possui várias curvas e, muitas vezes, precisamos atravessá-lo na escuridão, apenas com a luz da fé, e alguns acabam fraquejando e tendo dúvidas. Cristo instituiu o papado para que esse ministério fosse exercido na proclamação dos dogmas, na confirmação da verdadeira fé, a fim de que houvesse conversão para a direção correta. O papado é um grande dom da Igreja, o ofício da caridade para a nossa segurança e salvação; é o Papa quem sinaliza a estrada para o Céu, alertando-nos sobre os “desvios”, “curvas”, “obstáculos” e “atalhos” do caminho, pois, em matéria de fé e moral, o sucessor de Pedro é infalível.

Algumas páginas tristes do papado causam certa insegurança em alguns católicos. A covardia do Papa Libério no caso dos arianos, por exemplo, pode parecer um testemunho contra a infalibilidade pontifícia, mas o próprio Santo Atanásio, um dos que mais sofreram com as decisões do Papa, reconheceu que a atitude de Libério se tratou mais de fraqueza do que de convicção obstinada [1]. Libério só aceitou textos heréticos porque foi forçado pelas claques arianas, o que não constitui propriamente uma sentença ex cathedra.

Em linhas gerais, o ministério petrino deve ser acolhido pelos fiéis cristãos como “uma realidade profunda, que está em relação essencial com o seu próprio mistério de comunhão e de salvação: ‘Ubi Petrus, ibi ergo Ecclesia’” [2]. Afinal de contas, a Igreja reconhece que o ministério da unidade, confiado a Pedro, pertence à perene estrutura da Igreja de Cristo e que esta sucessão está fixada na sede do seu martírio” [3]. No exercício desse ministério, não importam tanto os paramentos litúrgicos, a personalidade ou eloquência daquele que ocupa a cátedra de Pedro, mas o seu desejo de transmitir aquilo que sempre foi a fé da Igreja. Dos documentos pontifícios não se deve esperar qualquer novidade, a não ser a atualidade da única Palavra de Deus.

Com essa atitude madura, de quem professa a verdadeira espiritualidade católica, a falsa dicotomia entre Igreja pré e pós-conciliar desaparece, pois “o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja”, e, portanto, “quem quiser ser obediente ao Concílio, deve aceitar a fé professada no decurso dos séculos e não pode cortar as raízes de que vive a árvore” [4]. O Catecismo da Igreja Católica, publicado por São João Paulo II, expressa bem essa continuidade da mesma fé da Igreja ao longo dos séculos, apresentando “a atualidade da verdade novamente dita e pensada de novo” [5]. Não há ali nenhuma afirmação inovadora ou modernista; apenas a fé de dois mil anos, dita para as pessoas do nosso século.

Quem seguir os conselhos da grande mídia, esperando um Papa a favor do aborto, do “casamento” gay e de outras imoralidades, deve se decepcionar. Um legítimo sucessor de São Pedro tem apenas uma única coisa a apresentar: a fé católica!

Referências

  1. Frei Dagoberto Romag. Compêndio de História da Igreja: A antiguidade cristã. 2.ª ed. Petrópolis: Vozes, 1948, p. 201, v. 1.
  2. Congregação para a Doutrina da Fé, O primado do sucessor de Pedro no ministério da Igreja (21 de novembro de 1998), n. 3.
  3. Ibidem.
  4. Papa Bento XVI, Carta aos bispos da Igreja Católica a propósito da remissão da excomunhão aos quatro bispos consagrados pelo arcebispo Lefebvre (10 de março de 2009).
  5. Congregação para a Doutrina da Fé, Discurso do Cardeal Ratzinger: A autoridade doutrinal do Catecismo da Igreja Católica dez anos após a sua publicação (9 de outubro de 2002).

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