A adolescência é uma fase que costuma deixar pais e educadores bastante desorientados. Aquela criança que você educou, ensinou a rezar, que conversava com os pais e partilhava com eles aquilo que vivia, de repente muda.
Por isso, nesta aula de lançamento do curso “Como Educar um Adolescente”, iremos responder às principais dúvidas enviadas pelos nossos alunos e seguidores a respeito dos dilemas e desafios a serem enfrentados na educação dos filhos, sobretudo nesse período de grandes mudanças que é a adolescência.
1ª pergunta: Meu filho tem 14 anos e até pouco tempo era carinhoso, obediente, gostava de conversar conosco. Agora, ele parece outra pessoa: responde mal, tranca-se no quarto, diz que ninguém o entende. Às vezes, olho para ele e penso: onde foi parar a criança que eu criei? Será que eu errei em alguma coisa?”
De fato, o seu filho mudou, mas é importante compreender que essa mudança não é uma tragédia nem uma desgraça. Algo verdadeiramente diferente está acontecendo dentro dele, e não se trata somente das transformações mais visíveis da puberdade, dos hormônios ou da sexualidade: o cérebro do adolescente está em construção, e exatamente por causa disso que a adolescência constitui uma grande janela de oportunidades para a educação. Existe, portanto, um período precioso no qual esse jovem precisa ser formado e acompanhado, já que, quando essa janela se fechar, certas mudanças serão muito mais difíceis.
Nesse cenário, percebemos como foi grande a sabedoria de São João Bosco. Muito antes das descobertas atuais da neurociência, ele já havia assimilado aquilo de que o adolescente mais necessita: acompanhamento. O seu sistema preventivo não consistia somente em fiscalizar os jovens, mas em estar presente, auxiliá-los e criar ao redor deles um ambiente no qual pudessem crescer.
Para fazer isso hoje, porém, os pais precisam evitar dois extremos. De um lado, está a obsessão controladora, que infantiliza novamente o adolescente, vigiando-o e decidindo tudo por ele, a tal ponto que termina sufocando-o. Do outro, está a permissividade excessiva, que trata o jovem como se já fosse um adulto: “Eu já expliquei e ensinei; agora, ele que escolha e tenha suas próprias opiniões”.
Ora, geralmente o problema do adolescente não é cognitivo. Ele sabe o que deve fazer e conhece muitas das consequências de suas escolhas. O que ele ainda não consegue plenamente é controlar a si mesmo. Por isso, não deve ser nem infantilizado, nem abandonado a uma autonomia para a qual ainda não está preparado, mas conduzido por meio de uma liberdade acompanhada.
2ª pergunta: Quando contrariada, minha filha bate portas, chora e diz que sou injusta. Se sou firme, ela diz que eu não a amo; se eu cedo, ela piora. Tenho medo de afastá-la, mas também de perder toda a autoridade. O que é que eu faço?
Esse aqui é um dos grandes dramas e sofrimentos da vida de quem educa adolescentes. Dom Bosco dizia aos seus salesianos que não basta amar os jovens: é preciso que eles saibam que são amados. Os pais podem pensar: “Depois de tudo o que fiz por meu filho, é evidente que ele sabe que eu o amo”. Mas será que ele sabe mesmo? Pois esse amor deve chegar até ele de uma forma que consiga percebê-lo.
Nesse contexto, existe uma distinção fundamental que precisamos estabelecer: a emoção precisa ser acolhida; o comportamento, educado. O adolescente experimenta raiva, ciúme, insegurança, tristeza, frustração e tantas outras emoções que, na maior parte das vezes, aparecem de maneira desordenada. A tendência do educador pode ser de imediatamente dizer: “Você não pode sentir isso”, mas não é assim que funciona. Antes, mostre ao jovem que você entende o que ele está vivendo.
Acolher o sentimento não significa validá-lo, como se tudo estivesse certo e não houvesse nada a corrigir. Significa compreender aquilo que está acontecendo e mostrar que ele não está sozinho: seus pais estão com ele. Depois disso, o comportamento precisa ser educado. O filho pode estar com raiva, mas isso não significa que possa bater portas ou tratar os pais de qualquer maneira. Logo, é necessário acolher o que ele sente e, ao mesmo tempo, ensiná-lo a agir corretamente. Afinal, a formação dos filhos não pode ser improvisada.
3ª pergunta: Quando tiro o celular, meu filho fica irritado, agressivo e inquieto. Descobri que ele acessou conteúdos impróprios. Já coloquei aplicativo de controle, já briguei e já expliquei, mas sinto que estou disputando meu filho com a internet. O que fazer?”
De fato, você está perdendo o seu filho para a internet. Mas vamos explicar o que isso significa. Primeiro, é preciso entender que, para o adolescente, o celular não é simplesmente um aparelho. Ali estão os amigos, a conexão social, o entretenimento, a cultura, o passatempo e boa parte do mundo no qual ele vive. Por isso, quando os pais simplesmente retiram o celular, podem ter a impressão de que resolveram o problema, quando, na verdade, apenas esvaziaram a vida do filho sem colocar nada no lugar.
É evidente que a exposição precoce às telas traz sérias dificuldades e que o acesso deveria ser concedido de forma restrita e aos poucos. Contudo, uma vez que o adolescente já recebeu o celular, não basta simplesmente tirá-lo. Pergunte a si mesmo: que ambiente meu filho encontra quando a tela desaparece? O que a família está oferecendo em troca? Porque educação sem tela não pode significar educação sem nada. Se retiramos aquilo que ocupava praticamente toda a vida social e recreativa do adolescente e lhe oferecemos somente o vazio, é natural que ele se revolte. Devemos, pois, oferecer aos nossos filhos um ambiente real no qual valha a pena viver.
4ª pergunta: Minha filha fez catequese, Primeira Comunhão, rezava conosco e agora diz que não sabe mais se acredita em Deus. Acha a Igreja rígida e não quer mais ir à Missa. Sinto-me fracassada como mãe.
Primeiro, a senhora precisa entender que não fracassou como mãe, porque a adolescência é justamente essa passagem delicada em que aquela fé recebida dos pais na infância começa a se transformar numa fé pessoal e precisa amadurecer.
A fé da criança é, em grande parte, mimética, isto é, uma fé de imitação. Ela crê dentro de uma família que crê. Todavia, o adulto deve chegar ao ponto de dizer: “Eu creio pessoalmente. Não creio simplesmente porque minha família crê”. Essa passagem é delicada e requer acompanhamento; por isso, as perguntas do adolescente não podem ser tratadas imediatamente como rebeldia. Se ele apresenta uma dúvida e recebe como resposta o sarcasmo, a impaciência ou uma afirmação que o faz sentir-se tolo por perguntar, perde-se uma oportunidade preciosa.
O jovem precisa conhecer as razões da credibilidade da fé e tomar posse daquilo que recebeu. Os argumentos não produzem a fé, mas esse caminho também faz parte de seu amadurecimento e precisa ser percorrido com supervisão. Portanto, se o seu filho passa por uma fase de questionamento, ele não deve ser abandonado nem tratado como se tudo estivesse perdido.
Nesse processo, existe ainda a “peer pressure”, a pressão dos pares. Para o adolescente, ser aceito pelos amigos tem uma importância enorme. Se um jovem vai à Igreja, mas todos os seus amigos não creem, ele começa a sentir-se diferente, como se fosse o único. E ninguém, sobretudo nessa idade, quer sentir-se completamente deslocado. Daí a importância de boas amizades e de grupos de jovens nos quais ele encontre outros que também creem. Porém, não basta reunir adolescentes e deixá-los entregues a si mesmos: esses grupos também necessitam de adultos que sejam referências e os ajudem a crescer.
5ª pergunta: Minha filha tem 15 anos e começou a se interessar por namoro. Quero orientá-la segundo a fé, mas tenho medo de gerar trauma e revolta. Não quero que ela aprenda sobre o amor com séries e com a internet.
Primeiramente, é importante os adolescentes compreenderem que existem regras. Os pais precisam colocar essas regras com clareza antes que o problema apareça. Se esperam para conversar somente quando o filho ou a filha já está envolvido afetivamente, serão pegos de surpresa. Afinal, os pais não são os únicos que falam de amor, namoro e sexualidade. O adolescente está sendo “educado” o tempo inteiro pela internet, pelas séries, pelos influenciadores, pelos amigos e pelas famílias com as quais convive.
Às vezes, existe entre pais católicos uma vergonha de tratar desses assuntos, e isso termina deixando os filhos sem orientação. No entanto, existe uma forma casta, serena e benéfica de conversar sobre essas realidades. Quando começam as transformações da puberdade, ajude o seu filho a compreender o que está acontecendo consigo e, quando aparecer o interesse pelo namoro, explique-lhe com clareza: “Você vai sentir vontade, mas ainda não é a hora”. O jovem é muito sensível afetivamente e tende a entrar de cabeça nos relacionamentos; logo, é prudente dar tempo para que amadureça antes de entrar em experiências afetivas para as quais talvez não esteja preparado. Mais do que simplesmente proibir, é preciso explicar e, sobretudo, acompanhar.
6ª pergunta: Meu filho é inteligente, mas não se esforça, não lê, não tem curiosidade. Quando pergunto o que ele quer da vida, responde: “Não sei”. Tenho medo que cresça sem projetos, sem ambição e sem garra.
De fato, a apatia é um fenômeno bastante comum entre adolescentes. Mas, aqui, devemos tomar cuidado para não moralizar aquilo que, em parte, está relacionado à própria fase cerebral do adolescente, que tende às recompensas rápidas e imediatas. Ora, estudar, construir uma profissão, desenvolver uma virtude ou perseverar num projeto exigem esforço prolongado. Por isso, Dom Bosco compreendeu que precisava despertar nos jovens a magnanimidade, o grande sonho da santidade, e inspirava-os para a missão de desejar algo maior.
Uma pessoa consegue enfrentar dificuldades e perseverar quando está enxergando alguma coisa adiante. Entretanto, se o seu filho não vê nada, por que fará todo esse esforço? Nesse sentido, compreendemos o valor de ambientes nos quais os jovens possam sonhar. Os grupos de jovens, os oratórios festivos de São João Bosco e outras iniciativas da Igreja oferecem precisamente esse tipo de ambiente. Não basta, porém, reunir os adolescentes e deixá-los entregues a si mesmos. Essas iniciativas também supõem acompanhamento, com adultos que tenham uma visão mais amadurecida e sejam capazes de transmitir a chama que irá incendiar o coração dos jovens com o fogo de um grande ideal.
Na infância, o pai e a mãe são naturalmente as grandes referências da criança; já na adolescência, começa a existir certo afastamento, e os pais já não ocupam sozinhos esse lugar. Portanto, é justamente nessa fase que outras referências adultas devem ganhar espaço: pessoas virtuosas, bem escolhidas, capazes de mostrar ao jovem que existe uma vida que vale a pena ser buscada.
7ª pergunta: Como saber se o problema do meu filho é uma crise normal ou algo mais grave? Às vezes, ele se isola, perde interesse e fica triste. Outras famílias vivem com automutilações, uso de drogas e ameaças de suicídio. Como saber quando não posso mais tentar resolver sozinho?”
A pergunta é exigente e bastante complexa para responder. Mas, em linhas gerais, é sempre interessante estar próximo da realidade do filho: conhecer o ambiente em que vive, saber quem são suas companhias e manter contato com professores e com aqueles que o acompanham, permanecendo atento ao que está acontecendo.
Isso não significa viver numa obsessão de controle infantilizante, imaginando uma tragédia diante de qualquer mudança. O próprio medo exagerado dos pais pode transmitir ainda mais insegurança ao adolescente. O que muitas vezes o acalma é perceber que seus pais compreendem a profundidade do problema e, ao mesmo tempo, permanecem serenos. Essa presença tranquila lhe dá a segurança de saber que, mesmo diante das dificuldades, existe alguém ao seu lado. Já os sinais verdadeiramente graves justificam a busca por ajuda profissional. Rezar, pedir a Deus, entregar o filho a Nossa Senhora e recorrer a um profissional competente não são atitudes contraditórias, tampouco falta de fé.
No fundo, todas essas questões apontam para uma mesma realidade: o adolescente carece de um ambiente no qual possa crescer. Seu cérebro já possui capacidades extraordinárias que uma criança não possui, mas, ao mesmo tempo, apresenta inabilidades, porque não está completamente desenvolvido. Por esse motivo, ele precisa de acompanhamento e de um ambiente protegido no qual possa amadurecer adequadamente.
São João Bosco, sem conhecer a neurociência, percebeu que a adolescência não é um incêndio que deve ser apagado. É, antes, uma casa que precisa ser preparada para não pegar fogo. Aquilo que esse educador extraordinário chamava de “assistência”, podemos chamar hoje de acompanhamento. O grande erro é pensar que basta conscientizar o adolescente. É evidente que explicações e ensinamentos que lhe mostrem a verdade são importantes, mas o jovem precisa de presença, de referências, de limites, de bons ambientes e de pessoas que caminhem ao seu lado.
De fato, educar um adolescente não é simplesmente esperar que essa fase passe, mas reconhecer nela uma extraordinária janela de oportunidades. Exatamente porque algo está sendo construído é que a presença, a autoridade, os bons exemplos e, sobretudo, o acompanhamento tornam-se fundamentais nesta etapa. Nem um controle que infantilize o jovem, nem uma liberdade que o abandone antes do tempo: o caminho está em oferecer-lhe um ambiente no qual possa aprender, pouco a pouco, a governar a si mesmo.
Desse modo, a adolescência deixa de ser um problema a ser suportado até a chegada da vida adulta e revela-se como um tempo precioso de formação, no qual a presença dos pais e educadores contribui para que aquilo que hoje está em construção possa, amanhã, amadurecer e dar bons frutos.



















