Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 9, 14-17)
Naquele tempo, os discípulos de João aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Por que razão nós e os fariseus praticamos jejuns, mas os teus discípulos não?” Disse-lhes Jesus: “Por acaso, os amigos do noivo podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, sim, eles jejuarão.
Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgão fica maior ainda. Também não se põe vinho novo em odres velhos, senão os odres se arrebentam, o vinho se derrama e os odres se perdem. Mas vinho novo se põe em odres novos, e assim os dois se conservam”.
No Evangelho de hoje, Jesus se apresenta como Esposo. Trata-se de uma comparação para que possamos compreender a diferença entre Ele e São João Batista; entre o Novo Testamento e o Antigo Testamento. Mas, além disso, uma das realidades mais preciosas da espiritualidade cristã é exatamente o fato de que Cristo é o Esposo da Igreja e, portanto, o Esposo de cada uma de nossas almas.
Por trás dessa metáfora, está a realidade de que existe um progresso no amor. Assim como podemos crescer de fé em fé, também podemos crescer de amor em amor. O nosso amor por Deus começa de forma muito simples: pelo temor, que é o princípio da sabedoria. A partir dele, tomamos consciência das realidades eternas, temendo o Inferno e a perda da recompensa do Céu. Nesse contexto, nasce o amor servil, pelo qual nos tornamos servos de Deus e buscamos obedecer aos seus Mandamentos.
No entanto, o Senhor espera algo a mais de nós: que progridamos e alcancemos um amor filial, ou seja, o amor de filhos. Trata-se daquele amor que nos leva a deixar tudo por Deus, porque reconhecemos n’Ele o nosso Pai. Logo, utilizando uma linguagem metafórica, podemos dizer que, para o Pai, não exigimos “direitos trabalhistas” — não há feriado, décimo terceiro ou férias remuneradas —, pois os interesses do Pai tornam-se também os nossos interesses.
Assim como Jesus nos dá o exemplo ao dizer à Virgem Santíssima, no Templo de Jerusalém: “Devo cuidar das coisas de meu Pai” (cf. Lc 2, 49), toda alma que aprendeu que é filha de Deus deve entregar-se plena, total e absolutamente a Ele, de tal forma que já não viva para si mesma, mas que seja Cristo a viver nela.
Contudo, embora esse amor filial, em que o filho vive para o Pai, já pareça perfeito, ainda lhe falta algo. É preciso alcançar o mesmo amor da esposa que deseja unir-se ao seu esposo. Em outras palavras, uma vez alcançado esse estágio de filho, no qual nos entregamos a Deus, precisamos crescer cada vez mais no desejo de unirmo-nos a Ele completamente. Por isso, encontramos também três níveis de sacrifício, porque o amor é sempre um sacrifício.
Temos, em primeiro lugar, o sacrifício expiatório, que nos afasta do pecado. É aquele que fazemos para não mais ofender a Deus e reparar as ofensas já cometidas. Ao realizar esse tipo de sacrifício, ainda nos encontramos no amor servil.
O segundo sacrifício, chamado no Antigo Testamento de sacrifício pacífico, consiste num sacrifício oferecido para permanecermos na graça, no qual verdadeiramente vivemos como filhos na casa do Pai: tudo o que é d’Ele é nosso, tudo o que é nosso é d’Ele.
Mas existe ainda um terceiro sacrifício mais perfeito: o holocausto, no qual, como a esposa se entrega absolutamente ao esposo, de modo que já não são mais duas, mas uma só realidade, também somos chamados a unirmo-nos a Cristo de forma plena. É entregar tudo, inclusive a si mesmo; consumir-se e consumir tudo no fogo do amor, isto é, o fogo do Espírito Santo, que, ardendo em nossos corações, leva-nos a essa entrega total, realizando em nós a mais perfeita união com Nosso Senhor.




























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