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Homilia Dominical
3 Set 2015 - 25:39

Quando os ouvidos surdos são os da alma

Para curar um surdo que falava com dificuldade, Jesus coloca os dedos em seus ouvidos e, com a própria saliva, toca a sua língua. Como entender esses gestos de Nosso Senhor? Que mensagem espiritual quer Ele transmitir com esse milagre? Entre na intimidade da vida de Cristo e descubra por que o surdo do Evangelho não é o único doente que precisa ser curado. Pior do que ter fechadas as orelhas do corpo é estarem surdos os ouvidos da alma.
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Homilia Dominical - 3 Set 2015 - 25:39

Quando os ouvidos surdos são os da alma

Para curar um surdo que falava com dificuldade, Jesus coloca os dedos em seus ouvidos e, com a própria saliva, toca a sua língua. Como entender esses gestos de Nosso Senhor? Que mensagem espiritual quer Ele transmitir com esse milagre? Entre na intimidade da vida de Cristo e descubra por que o surdo do Evangelho não é o único doente que precisa ser curado. Pior do que ter fechadas as orelhas do corpo é estarem surdos os ouvidos da alma.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos 

(Mc 7, 31-37)

Naquele tempo, Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galileia, atravessando a região da Decápole. Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. Olhando para o céu, suspirou e disse: "Efatá!", que quer dizer: "Abre-te!" Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam. Muito impressionados, diziam: "Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar".

O Evangelho deste Domingo tem uma ligação especial com a vida de cada cristão batizado. A passagem em questão está associada, na liturgia da Igreja, à celebração do Batismo. Em um rito chamado "Rito do Efatá", o sacerdote repete nos catecúmenos o gesto de Jesus ao curar aquele surdo do Evangelho, significando com isso "a necessidade da graça, para que alguém possa escutar a palavra de Deus e professá-la em ordem à salvação" [1].

A narrativa de São Marcos situa Jesus e os Seus discípulos na região da Decápole, aonde "trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão" (v. 32). É intrigante essa informação – sublinhada pelo uso do singular "a mão" (τὴν χεῖρα), ao invés de um plural genérico –, quando se sabe que Nosso Senhor não precisava tocar as pessoas para curá-las: na famosa passagem do non sum dignus (cf. Mt 8, 5-13), por exemplo, bastou a palavra de Jesus para que o servo do centurião fosse milagrosamente curado. Por que, então, pedir que Jesus impusesse a mão sobre o surdo?

"Mesmo podendo curar com a palavra, Jesus colocou os dedos no seu ouvido – ensina São João Crisóstomo – para mostrar que o Seu corpo unido à divindade estava enriquecido com a virtude divina, bem como as Suas obras" [2]. Podendo curar de muitos modos o gênero humano, Deus convenientemente escolheu para isso o sacramento universal da humanidade de Cristo, a ponto de os primeiros cristãos formularem o princípio de que "caro salutis est cardo – a carne é o eixo da salvação" [3]. Explica, ainda a esse respeito, o Doutor Angélico: "Cristo veio salvar o mundo não somente pelo poder divino, mas também pelo mistério da própria encarnação. Por isso muitas vezes ao curar os doentes não somente se servia do poder divino, curando com uma ordem, mas também aplicando algo pertencente à própria humanidade" [4].

De fato, os atos de Jesus contados nesta passagem estão carregados de uma corporeidade que pode parecer inclusive vulgar para o homem contemporâneo. Diz a Escritura que Ele "colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele" (v. 33).

O que, com essa descrição, poderia parecer um mero "ritual mágico", todavia, é complementado pela informação de que Cristo, "olhando para o céu, suspirou e disse: 'Efatá!', que quer dizer: 'Abre-te!'" (v. 34).

Esse suspirar de Jesus, designado pelo termo grego ἐστέναξεν, poderia ser melhor traduzido como um gemido, como se uma força estivesse saindo de dentro de Si. São Lucas atesta que, na verdade, "dele saía uma força que curava a todos" (Lc 6, 19), ao que comenta o Aquinate que, diferentemente dos outros profetas, "Cristo fazia os milagres por um poder próprio", demonstrando, com isso, que Ele "tinha um poder igual ao de Deus Pai" [5].

Os atos de Cristo realizados durante esse milagre também prefiguram aquilo que será feito de modo máximo em Sua Páscoa: o olhar para o Céu indica a Sua entrega no banquete eucarístico; o suspiro profundo, o momento em que Ele entregou o espírito, na Cruz; e o Efatá, por fim, prenuncia o glorioso milagre da Sua ressurreição.

Na verdade, essa intercessão do Filho pelos homens é uma realidade perene, que continua acontecendo na eternidade, como diz o Autor Sagrado: "Ele tem poder ilimitado para salvar aqueles que, por seu intermédio, se aproximam de Deus, já que está sempre vivo para interceder por eles (semper vivens ad interpellandum pro eis)" (Hb 7, 25). Muitas vezes, ao dirigir-se a Cristo na oração, as pessoas se esquecem que Jesus também reza por elas, exercendo o Seu sacerdócio eterno junto de Deus Pai, e que, ainda hoje, é a humanidade de Nosso Senhor o sacramento que cura e leva os homens ao Céu.

Na passagem em questão, a cura operada por Cristo diz respeito à surdez física, mas é preciso reconhecer a existência de uma doença muito pior, relacionada às coisas espirituais: neste gênero de surdez, ao invés de nada escutar, o que acontece à pessoa é que, aturdida pelo barulho do diabo, do mundo e da carne, os ouvidos da sua alma se tornam incapazes de escutar a Palavra de Deus. Para sair dessa terrível condição, é preciso que nos retiremos – assim como "Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão" (v. 33) – e deixar que o Senhor devolva a saúde aos nossos ouvidos, com o Seu toque poderoso.

Uma boa recomendação para quem quer começar a curar-se dessa surdez do coração é reservar um momento específico do seu dia para elevar a mente a Deus. Dizia Santa Teresa de Jesus, a quem ainda não tinha vida de oração: "Peço aos que ainda não começaram que, por amor a Deus, não se privem de tanto bem" [6].

Atendamos já ao suave sussurro da graça em nossos corações. Escutemos logo os divinos apelos do Verbo e vivamos tão somente para Aquele que faz bem todas as coisas. Afinal, é esse o verdadeiro sentido e o único fim de nossas existências.

Referências

  1. Ritual Romano,Iniciação Cristã dos Adultos, n. 200. 2. ed. Conferência Episcopal Portuguesa, 2000, p. 122.
  2. Catena Aurea in Marcum, VII, 4.
  3. Tertuliano, De carnis resurrectione, VIII, 3 (PL 2, 806).
  4. Suma Teológica, III, q. 44, a. 3, ad 2.
  5. Ibid., III, q. 43, a. 4.
  6. Livro da Vida, VIII, 5.
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