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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 1, 1-18)

No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus.

No princípio estava ela com Deus. Tudo foi feito por ela, e sem ela nada se fez de tudo que foi feito.

Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la.

Surgiu um homem enviado por Deus; seu nome era João. Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: daquele que era a luz de verdade, que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano.

A Palavra estava no mundo — e o mundo foi feito por meio dela — mas o mundo não quis conhecê-la. Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram.

Mas, a todos que a receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome, pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do varão, mas de Deus mesmo.

Deus nos traz hoje, pelo anúncio majestoso dos anjos, uma grande alegria: “Não temais”, diz o emissário angélico à turba atemorizada de pastores, “eis que vos anuncio uma Boa-Nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor ” (Lc 2, 10-11). Eis a Boa-Nova, eis o evangelho que hoje nos é anunciado: nasceu-nos por fim, na cidade de Belém, o Cristo, nosso Salvador. Sim, o nascimento de Cristo é para todo o povo uma grande alegria. Mas os evangelistas, inspirados pelo Espírito divino, também fazem questão de anotar que nem todos reagiram com júbilo ao anúncio deste nascimento. S. Mateus, por exemplo, fala-nos da fúria gananciosa com que Herodes I, à notícia dos magos de que acabara de nascer o rei dos judeus, mandou exterminar em Belém todos os meninos até os dois anos (cf. Mt 2, 16). E não só Herodes: com ele, toda Jerusalém ficou perturbada (cf. Mt 2, 3). E também nós, em alguma medida, deveríamos hoje ficar “perturbados”, porque o nascimento que celebramos o é do nosso Salvador, ou seja, de alguém que veio pôr a nu os nossos pecados, revelando toda a feiura deles no horror de sua Paixão, e exigir de nós, não sem conceder-nos o auxílio da graça, uma profunda mudança de vida. Sim, é-nos anunciada hoje uma grande alegria, mas uma alegria que não é “anestésica”, que não é esse dar de ombros, em nome de uma suposta “paz” entre os homens e as religiões, ao erro e ao pecado; não é esse “alegria” anódina e sensaborona de um Natal de mesa farta e corações vazios. Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo Senhor, e não outro, porque não há nenhum um nome pelo qual possamos ser salvos além do dele. Sim, trata-se de um alegria “incômoda”, porque a alegria de todo nascimento é sempre precedida pelas angústias do parto. Em Maria SS., é verdade, o dar Jesus à luz foi uma exceção à regra por que deve passar toda mulher que está prestes a parir; mas em nós, ao contrário, o nascimento espiritual de Cristo, para dar o fruto gozoso de sua plena maturidade em nossas almas, há antes de ser doloroso. Por isso, que os nossos corações, nos quais há sempre um pouco do egoísmo de Herodes e da cândida confiança dos pastores, se deixe hoje incomodar por este santo nascimento, que, se nos fere o orgulho e nos exige conversão, nos traz também as maiores delícias que podemos ter tanto nesta quanto na outra vida. Acolhamos pois o Cristo que hoje quer nascer em nossas almas; acolhamo-lo no presépio do nosso espírito e corramos, de almas limpas, a adorá-lo e servi-lo a partir de hoje com uma vida nova e reta aos seus olhos.

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