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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 12,13-21)

Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”.

Jesus respondeu: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?” E disse-lhes: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens”.

E contou-lhes uma parábola: “A terra de um homem rico deu uma grande colheita. Ele pensava consigo mesmo: ‘Que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. Então resolveu: ‘Já sei o que vou fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!’ Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?’ Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”.

Celebramos hoje a memória de Santo Inácio de Antioquia, um desses grandes mártires da era sub-apostólica a que, desde o início, a Igreja manifestou toda a sua veneração, a ponto de incluí-lo no próprio Cânon da Missa. Como se sabe, os primeiros dois séculos do cristianismo costumam ser divididos em duas etapas principais: a era apostólica é aquela compreendida entre o início da pregação do Evangelho, a partir de Pentecostes, e a morte do último Apóstolo, São João, por volta do ano 100; a era sub-apostólica, por sua vez, refere-se à primeira geração de discípulos instruídos diretamente pelos Apóstolos, mas que não foram testemunhas oculares de Nosso Senhor.

É dentro deste último período que têm lugar as atividades de Inácio, nascido na Síria em torno do ano 35. Inácio foi eleito bispo de Antioquia — prova clara da estrutura hierárquica de que Cristo dotou sua Igreja desde o princípio —, tornando-se o primeiro sucessor de São Pedro no governo daquela venerável comunidade de fiéis, os primeiros a se identificarem pelo nome de cristãos (cf. At 11,26). Condenado às feras durante o governo de Trajano, Inácio foi enviado a Roma em 110 (ou 108) e, uma vez aprisionado, à espera de receber a palma do martírio, escreveu um conjunto de sete cartas endereçadas às igrejas da Ásia.

Uma delas, no entanto, está dirigida especialmente aos romanos, cuja igreja “preside às demais na caridade”. Nela, Inácio roga aos fiéis de Roma que não intervenham em seu processo, deixando-o ser entregue às feras, já que é morrendo em suas presas que ele espera chegar ao Deus da vida: “Sou o trigo de Cristo”, escreve, “e oxalá venha a ser moído nos dentes das feras para me tornar pão imaculado. Que eu possa imitar a Paixão do meu Senhor. Só agora sinto que começo a ser verdadeiro discípulo”. E acrescenta: “Permiti que eu receba a luz pura. Quando eu aí chegar”, para ser morto e triturado, “então serei homem de verdade… Desejo o pão de Deus, que é a carne de Cristo; e por bebida o seu Sangue, que é amor incorruptível”.

Arrebatado pelo amor de Nosso Senhor, desejando desprender-se desta carne mortal para estar com Deus, Inácio viveu até o fim, com heroísmo verdadeiramente sobrenatural, aquelas palavras de São  Paulo: “Para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fp 1,21), porque é Ele o nosso único e sumo bem, preferível a todas as outras coisas. Que, a exemplo dessa glória do episcopado, possamos também nós, abrasados pela caridade divina, não buscar senão a glória de Jesus Cristo, por amor ao qual o mundo deve estar para nós crucificado e nós, crucificados para o mundo.

Portanto, não tenhamos medo dos poderes deste mundo, pois contamos com a promessa do nosso divino Salvador: “Todo aquele que der testemunho de mim diante dos homens, o Filho de homem também dará testemunho dele diante dos anjos de Deus”. — Santo Inácio de Antioquia, rogai por nós.

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