Um divino Advogado
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Texto do episódio

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 15,26–16,4a)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Quando vier o Defensor que eu vos mandarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim.

E vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o começo. Eu vos disse estas coisas para que a vossa fé não seja abalada. Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que aquele que vos matar julgará estar prestando culto a Deus. Agirão assim, porque não conheceram o Pai, nem a mim. Eu vos digo isto, para que vos lembreis de que eu o disse, quando chegar a hora”.

Continuamos no Cenáculo com Jesus, e se conclui agora o capítulo 15 e inicia o capítulo 16. Nessa transição do 15 para o 16, aquilo que Jesus começa a falar caracteriza um ambiente semelhante ao de um tribunal. Deixe-me explicar. Durante todo o evangelho de São João até antes da Última Ceia, havia ao redor de Jesus um ambiente de julgamento, com os judeus perguntando quem Ele é e em nome de quem Ele faz essas obras etc. E Jesus começa a mostrar as provas de quem Ele é através dos milagres, mas também a invocar testemunhas — João Batista, Moisés, os Profetas, o Pai, as próprias obras que “eu fiz”—, e os judeus não queriam realmente fazer justiça. Decidem condená-lo até mesmo depois que Ele ressuscita Lázaro: “Alguém precisa morrer”, diz Caifás, “convém que um homem só morra para que a nação não pereça”.

Pois bem, este julgamento iníquo aconteceu antes da Última Ceia, agora Jesus tem diante dos olhos a história futura da Igreja e começa a nos mostrar que a história da Igreja será modelada à sua história, ou seja, a história da Igreja é a história de Jesus. E a história de Jesus é trazer a presença de Deus aos homens — a Encarnação, a graça, a pregação do Evangelho —, para que as pessoas conheçam a Verdade. Diante disso, alguns aceitam e creem, outros rejeitam, condenam e perseguem. Portanto, o caminho de Jesus é o caminho da Paixão, Morte e Ressurreição, e este é o caminho da Igreja.

Qualquer caminho da Igreja que não passe pela Paixão, Morte e Ressurreição não é o caminho que Jesus traçou, mas são as nossas fantasias, o nosso jeito humano de pensar e facilitar as coisas. Como Jesus reagiu diante de São Pedro quando, ao anunciar que iria morrer em Jerusalém e ressuscitar ao terceiro dia, Pedro disse: “Senhor, que isso não vos aconteça”? Jesus olhou para Pedro e disse: “Afasta-te de mim, Satanás”. Pedro não estava pensando como Deus, estava pensando com a mentalidade humana e carnal.

Exatamente para exorcizar esta mentalidade humana e carnal da sua Santa Igreja, Nosso Senhor, na Última Ceia, aqui se dirige aos seus Apóstolos e diz que nós teremos durante todo este julgamento da história da Igreja um Advogado. Sim, “ad vocatus”, aquele que é chamado (“vocatus”) para estar ao nosso lado; παράκλητος, é exatamente a mesma coisa: aquele que é chamado (καλέω) para estar ao nosso lado (παρά). É esta a realidade: aquele que está do nosso lado e é o nosso defensor, o nosso consolador (“defensor” e “consolador” são duas traduções possíveis do termo “paráclito”), é o Espírito Santo.

Vejamos, então, o que Jesus diz especificamente. Colocado esse grande contexto, fica mais fácil entendermos o Evangelho: “Quando vier o Defensor”, ou seja, o Advogado, o Paráclito, o Consolador, o Espírito Santo, “que eu vos mandarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade que procede do Pai, Ele dará testemunho de mim”. Então, essa é a primeira coisa: o testemunho do Advogado. Ele dá testemunho, mas não diante dos tribunais deste mundo. Em primeiríssima instância, o Espírito Santo dá testemunho no “processo” de conversão, se você quiser chamar assim. Ou seja, o Advogado começa o processo dentro de nós, e o Espírito Santo faz brilhar a verdade, de tal forma que nós sabemos o que é o certo, sabemos o caminho de Cristo, conhecemos o caminho da sua Santa Igreja.

Então Ele diz: “Eu vos disse essas coisas para que a vossa fé não seja abalada”, e o processo continua agora fora de nós: “Expulsar-vos-ão das sinagogas…”. Aqui Jesus está prevendo que, na história da Igreja, haverá uma cisão com aqueles que seguiam o caminho de Deus no Antigo Testamento, ou seja, o Antigo Testamento foi uma preparação para seguirmos Jesus. Quem aceitou Jesus é o povo que Deus tinha preparado no Antigo Testamento e agora é o novo povo de Deus; aqueles que rejeitaram Jesus não são mais o povo de Deus. “Expulsar-vos-ão das sinagogas e virá o dia em que aquele que vos matar julgará estar prestando culto a Deus”. Vejam como isso fala de tantos momentos da história da Igreja até hoje, quando cristãos fiéis são tratados como se eles fossem os infiéis; aqueles, os verdadeiros católicos, são tratados como se fossem os católicos falsos, os católicos “intolerantes”, “fechados”, “radicais” etc., etc.

“Agirão assim porque não conheceram o Pai e nem a mim”. Por que não conheceram? Porque o Espírito Santo, o Espírito da Verdade, é quem faz com que nós realmente conheçamos. “Eu vos digo isso para que vos lembreis de que eu o disse, quando chegar a hora”. Aqui Jesus está colocando, com suas chamas de amor, no nosso coração uma memória, uma memória de amor: “Para que vos lembreis”. Sim, meus irmãos, o processo continua; mas nós temos um Defensor. Confiemo-nos a Ele, ao nosso Advogado, que está do nosso lado para sermos fiéis a Jesus e ao Pai que o Espírito da Verdade nos revelou.

* * *

V. 26s. Se os judeus não quiseram dar fé ao testemunho das palavras e das obras de Cristo, outra testemunha (subentende-se: com maior sucesso) dará sentença favorável a Jesus: Quando vier o Paráclito (adjutor, defensor, advogado), que eu vos mandarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim (em que sentido, di-lo-á mais à frente, cf. Jo 16,8ss); e vós também (fortalecidos e iluminados por este Espírito Santo) dareis testemunho (contra as calúnias do mundo), porque estais comigo desde o começo (da vida pública), e por isso tereis grande autoridade aos olhos dos homens (cf. Lc 1,2; At 1,8; 5,32; 10,37ss; 1Jo 1,1s).

N.B. — As cláusulas incidentes que eu vos mandarei (πέμψω) da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede (ἐκπορεύεται) do Pai, completam o que já se esboçara antes (cf. Jo 14,16s.26) sobre a natureza e o papel do Espírito Santo.

Como nas passagens citadas, o Paráclito é chamado Espírito da verdade; mas em Jo 14,16.26 o Paráclito é enviado pelo Pai (cf. Jo 14,26: em nome do Filho), enquanto aqui (e em Jo 16,7) é enviado pelo próprio Filho, do que pode inferir-se a unidade de natureza e a distinção de pessoas entre eles. As palavras eu enviarei hão, é certo, de entender-se em referência à missão temporal; mas as que procede do Pai (ἐκπορεύεται, retira-se, sai) significam a origem ou procedência — processão, em jargão teológico — não temporal, mas eterna (verbo no presente) do Espírito Santo a partir do Pai. O testemunho do Espírito, portanto, é divino e por isso mesmo irrefutável, acima de qualquer exceção.

N.B. — O Espírito Santo, como explicam os dogmáticos contra os orientais “ortodoxos”, procede de ambos, do Pai e do Filho, como de um só princípio da expiração ativa, razão por que a Igreja, com base nestas palavras de Cristo, acrescentou ao Símbolo a cláusula Filioque. Se aqui não se faz menção ao Filho, é porque aos homens interessa sobretudo que o Espírito lhes confirme o testemunho do Pai e porque já fora suficientemente indicado que o Espírito procede também do Filho, por quem havia de ser enviado. Com efeito, “a missão [temporal] importa a origem [eterna] da pessoa enviada” (Santo Tomás de Aquino, STh I 43, 5 ad 3), i.e., a relação entre enviado e o que envia supõe in divinis a relação de origem deste a partir daquele [1].

Sofrerão perseguições (Jo 16,1-4). — Dito isto (cf. v. 22-27) a modo de parêntese, torna ao tema principal: Eu vos disse estas coisas para que não vos escandalizeis, i.e., disse-vos estas coisas sobre as perseguições do mundo contra vós, para que não vos tomassem de assalto e quase de improviso, deixando-vos perturbados e abalados na fé.

V. 2s. Propõe-lhes alguns exemplos de perseguições que sofrerão nas mãos dos judeus. Eles, diz, vos hão de perseguir com tamanho ódio, que vos farão sem sinaogass (ἀποσυναγώγους), i.e., delas vos expulsarão como apóstatas e excomungados (cf. Jo 9,22; 12,42). — Mas (ἀλλ’ epexegético = de fato, efetivamente, cf. 2Cor 7,11) virá a hora em que aquele que vos matar julgará estar prestando um obséquio a Deus (λατρείαν προσφέρειν = oferecer a Deus um ato de culto religioso). Prova-o o dito rabínico sobre Nm 25,13: “Quem derrama o sangue dos ímpios é igual ao que oferece um sacrifício [כְּאִלּוּ הִקְרִיב קָרְבָּן]” (Midrash Bamidbar Rabba XXI, 3) [2]. — Mas a verdadeira causa deste delírio fanático é a impiedade deles: Agirão assim, porque não conheceram o Pai como meu Pai, nem a mim como Filho dele, i.e., porque não quiseram crer que Deus é meu Pai nem que eu sou Filho dele e fui por Ele enviado (cf. Jo 15,21).

V. 4. Estas coisas de fato vos sucederão, e não vo-las predisse para que as eviteis, mas para que, quando chegar a hora, vos lembreis etc. (cf. v. 1). Mais que de escândalo, devem elas ser para vós causa de fortalecimento na fé.

Por que diz (cf. v. 5) não lhes ter falado desde o princípio sobre tais perseguições, sendo que as prenunciou várias vezes (cf. Mt 5,11; 10,16-19; 23,34; 24,9; Mc 13,9-31; Lc 6,22; 12,4; 21,12-19), é questão a que respondem diversamente diferentes autores: de fato as predisse, mas nunca como agora, i.e., como próximas e já iminentes; apresenta-as assim, porque é chegada a hora de sua morte. Esta parece a explicação mais fácil e simples das palavras porque eu estava convosco.

Notas

  1. Cf. F. Diekamp, Theologiæ dogmaticæ manuale. 6ª ed., Paris: Desclée & Soc., 1933, vol. 1, p. 367s: “Segundo o decreto de Eugênio IV para os jacobitas, a distinção real das pessoas divinas entre si funda-se unicamente nas relações de origem opostas (cf. D 703). Logo, o Espírito Santo não se distinguiria realmente do Pai e do Filho se não procedesse de ambos (cf. STh I 36, 2). De resto, como tanto o filho como o Espírito Santo procedem do Pai, é necessário haver alguma ordem entre eles. Ora, ‘em nenhum outro lugar vemos muitos procederem sem ordem de um só, senão nas coisas que diferem apenas materialmente, como um único artesão produz muitas facas materialmente distintas umas das outras, mas sem guardarem relação alguma entre si’. Mas entre o Filho e o Espírito Santo ‘não se pode assinalar nenhuma outra ordem, que não a de natureza, pela qual um procede de outro [alius ex alio]’. Pois entre eles não pode haver ordem de perfeição. Ora, todos consentem que o Filho não procede do Espírito Santo. É, portanto, necessário que o Espírito Santo proceda do Filho (cf. De Pot. q. 10, a. 5)”.
  2. Cf. *H. Strack.–P. Billerbeck, Kommentar zum Neuen Testament aus Talmud und Midrasch. Munique: C.H. Beck, 1956, vol. 2, p. 656 (= in Jo 16,2b). Assim também parecem ter pensado os gentios, cf.  Tácito, Annales XV, 44: “[…]  a fim de abolir o rumor [sobre o incêndio de Roma], Nero fez réus e puniu com penas creudelíssimas os que, detestados pelos flagelos <que se abatiam sobre o Império>, o vulgo chamava cristãos. O autor da seita, Cristo, durante o império de Tibério fora supliciado pelo procurador Pôncio Pilatos. Reprimida por um tempo, tornou a irromper uma vez mais a execrável superstição, não só pela Judeia, origem de tal mal, mas também pela Cidade, à qual confluem e na qual se celebram atrocidades e imundícies vindas de todos os lados. Assim, foram primeiro castigados os que confessavam <ser cristãos>; depois, por delação deles, uma multidão enorme foi condenada, não pelo crime de incêndio, mas de ódio ao gênero humano. E sobre os que pereciam acrescentavam-se chacotas, de forma que eram cobertos de pele animal até morrerem dilacerados por cães, ou eram pregados a cruzes [ou queimados vivos] para que, quando caísse o dia, servissem de iluminação à noite. Nero pusera seus jardins à disposição deste espetáculo e mandava celebrar jogos circenses, trajado ele mesmo de auriga no meio do povo ou de pé em cima de um carro. Com isso, começou-se a sentir compaixão <dos cristãos>, embora fossem culpados e merecedores dos novos suplícios, por serem imolados não por utilidade pública, mas para satisfazer a crueldade de um único homem”.
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