Uma santa inquietação
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 9,27-31)

Naquele tempo, partindo Jesus, dois cegos o seguiram, gritando: “Tem piedade de nós, filho de Davi!” Quando Jesus entrou em casa, os cegos se aproximaram dele. Então Jesus perguntou-lhes: “Vós acreditais que eu posso fazer isso?” Eles responderam: “Sim, Senhor”. Então Jesus tocou nos olhos deles, dizendo: “Faça-se conforme a vossa fé”. E os olhos deles se abriram. Jesus os advertiu severamente: “Tomai cuidado para que ninguém fique sabendo”. Mas eles saíram, e espalharam sua fama por toda aquela região.

I. Comentário exegético

Dois cegos seguiam Jesus, clamando: Tem piedade de nós, Filho de Davi, título habitual do Messias (1). Jesus não atendeu ao clamor deles (ou porque não quisesse realizar o milagre em via pública, ou porque quisesse dispor melhor os cegos à fé), até chegar a casa (em que morava, talvez à de Pedro, em Cafarnaum [cf. 8,14; 9,1], ou em algum outro lugar). Então os interrogou: Credes que posso fazer isto? Jesus o pergunta a fim de mostrar aos próprios cegos e aos circunstantes que a fé (propriamente dita, i.e. assentimento com confiança), de lei ordinária, é precondição para obter algo de Deus. Assim, como os cegos tivessem respondido: Sim, Senhor, tocou-lhes os olhos, dizendo: Segundo a vossa fé (gr. κατὰ τὴν πίστιν ὑμῶν), i.e. porque crestes, seja-vos feito o que pedistes. E em seguida, graças ao contato daquela sagrada humanidade, abriram-se os seus olhos. — Ao mesmo tempo, ordenou-lhes severamente (lt. comminatus est, gr. ἐνεβριμήθη) que não dissessem nada a ninguém; mas eles o difamaram (gr. διεφήμισαν = lit. ‘espalharam fama sobre ele’, i.e. divulgaram o ocorrido) em toda a terra, talvez por pensarem que Cristo lhes interditara a divulgação do fato por modéstia e discrição. — Para Knabenbauer, a proibição tinha por fim evitar a inveja dos escribas e fariseus, ou (também) evitar que o povo, iludido com a falsa noção de um reino messiânico temporal, criasse tumulto, pensando ter chegado a hora de rebelar-se contra os romanos (2).

Nota espiritual. — ‘Diferiu um pouco o milagre e suportou que os cegos viessem clamando atrás de si até chegar a casa, não porque quisesse mostrar-se difícil, mas para comprovar perante todos o desejo e a fé deles; para nos ensinar que se deve fugir da ostentação; para que não envilecessem os milagres, se sempre e de imediato fora restituída a saúde desejada; e para nos ensinar que é preciso rezar insistentemente e não se deve desistir ou desesperar da oração, se não conseguimos logo o que queremos de Deus’ (Jansênio).

II. Comentário de Santo Tomás (super Matth. IX l. 5, nn. 790–794)

Primeiramente, faz quatro coisas. 1) Primeiro, põe-se a petição; 2) segundo, o exame dos que creem, onde: E disse-lhes Jesus etc; 3) terceiro, o cumprimento, onde: Então tocou-lhes os olhos etc.; 4) quarto, a instrução dos iluminados, onde: E lhes deu ordens terminantes etc.

1) Acerca da petição deles, podemos notar cinco coisas. — a) Primeiro, que escolheram tempo oportuno para pedir, porque partia dali Jesus, e nisto é significado o tempo da encarnação, que é o tempo da misericórdia; donde, no Sl 101,14: É tempo de teres piedade. E por isso foram mais bem atendidos, como se lê em Hb 5,7: Foi atendido pela sua piedade. — b) Além disso, para obterem o pedido, seguiram-no: quem, com efeito, não segue a Deus pela obediência não obtém [o que pede]. Dois cegos. Estes dois cegos são dois povos, a saber, o dos judeus e o dos pagãos: de fato, são cegos os que não têm fé; de tais se diz em Is 59,10: Andamos como cegos apalpando as paredes. — c) Além disso, requer-se o fervor da devoção, quando se diz: Gritando, como se lê no Sl 119,1: Na minha tribulação, clamei ao Senhor, e ele ouviu-me. — d) Além disso, a humildade dos que pedem, quando se diz: Dizendo: Tem piedade de nós, Filho de Davi, como se lê em Dn 9,17: Atende, pois, agora, Deus nosso, à oração do teu servo. — e) Além disso, toca-se-lhes a fé, porque o chamam Filho de Davi, e esta é necessária, como se lê em Tg 1,6: Peça-a com fé, sem nada hesitar.

2) Em seguida, examina os que pedem. — a) Primeiro, diferindo atender [ao pedido] deles. Com efeito, a fé demonstra-se firme, quando não se obtém logo [o pedido]; Hab 2,3: Se tardar, espera-a, porque infalivelmente virá. Donde, levou-os até a casa. Tendo chegado a casa etc. Por esta casa entende-se a Igreja, porque esta é a casa de Deus ou o céu; Sl 113,24: O céu é céu do Senhor. — b) Além disso, examinou-os por palavra: Credes que posso fazer isto? E isto, ele pergunta-o não porque o ignore, mas para aumentar o mérito deles; Rm 10,10: Com o coração se crê para a justiça, mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação. — c) Além disso, pergunta-o para que a fé [deles] se manifeste aos outros, a fim de que saibam que foi justo em iluminá-los. — d) Além disso, perguntou-o a fim de os elevar a coisas maiores: tinham, com efeito, professado algo grande, porque [o chamaram] Filho de Davi. Mas não era o suficiente, por isso pede mais deles. Credes que posso fazer isto?, a saber: por poder próprio, o que pertence somente a Deus. Eles responderam: Sim, Senhor. Donde, agora o chamam Senhor, o que é próprio somente de Deus.

3) Segue-se o cumprimento. E primeiro põe-se a cura; depois, o efeito da cura, onde: E abriram-se os seus olhos. — a) Põe-se a cura, quando lhes tocou os olhos, dizendo; logo, tocou e disse. Ora, qualquer dos dois [atos] era por si suficiente, mas fez ambas as coisas, para que se significasse que a cegueira é iluminada pelo Verbo encarnado; Jo 1,14: O Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória. Donde, diz: Segundo a vossa fé, seja-vos feito, porque pelo mérito da fé são iluminados os que, sem fé, eram cegos. — b) Segue-se o efeito. E abriram-se os seus olhos. Primeiro, portanto, dá a luz; e assim cumpre aquilo (Jo 1,4): E a vida era a luz dos homens; Is 35,4: Deus mesmo virá, e vos salvará.

4) Segue-se a instrução; donde, diz: E deu-lhes ordens terminantes. E por que isto? De fato, em outro lugar se diz: Tu vai anunciar o reino de Deus (Lc 9,60). Crisóstomo: ‘Em nossos bens podemos considerar duas coisas: o que é de Deus, e o que é nosso. O que é nosso devemos esconder; o que é de Deus devemos manifestar, como Paulo em Filipenses: Buscando não os nossos próprios interesses, mas os que são de Jesus Cristo (2,21)’. Acima, em Mt 5,16: Para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus. Donde, diz: Vede que ninguém o saiba, para ensinar a evitar a vanglória. Eles, porém, não esquecidos do benefício recebido, saindo dali, espalharam sua fama, como se lê em Is 63,7: Cantarei as misericórdias do Senhor. Mas porventura pecaram eles, por terem agido contra o preceito do Senhor? Digo que não, porque o fizeram de boa fé, e para mostrar o quão santo era o Senhor.

Referências

  1. Os principais nomes com que é designado Cristo são estes: 1) Messias (hebr. māschîach מָשִׁיחַ; aram. meschîchâ מְשִׁיחָא; gr. Χριστός), i.e. Ungido, tomado do Antigo Testamento (cf. Sl 2,2; 1Sm 2,10). Originalmente, usava-se como adjetivo, sempre associado a outro nome (e.g. Messias do Senhor, meu ou teu Ungido, rei Messias etc.), e só mais tarde começou a usar-se substantivamente. Em si mesmo, significa só uma condição ritual, sem denotar qualquer natureza ou função; de fato, com ele indica-se apenas que o Messias consagrado por Deus será elevado de modo peculiar a uma nobre e importante missão. — 2) Era também muitíssimo frequente o título Filho de Davi ou, poeticamente, gérmen de Davi (cf. Jr 23,5; 33,15), com os quais se recordava sua origem carnal, sua dignidade régia e seu direito às promessas feitas a Davi (cf. 2Sm 7,12ss). — Nos apócrifos, os principais são: Eleito (cf. Enoque 39,6s; 40,5; 45,3ss; 49,2ss; 51,3ss; 52,6-9), Filho de Deus, em sentido teocrático (cf. Enoque 105,2 4Esd 7,28s; 13,32.37.52; em sentido próprio, cf. Sl 2,7; 88,27) e Filho de homem (cf. Homilia Diária 1904,nota 4). A denominação rei de Israel ou rei dos judeus, com a qual se salienta a dignidade do Messias, parece ter sido comum, embora não se ache consignada na literatura apócrifa nem na rabínica; nos evangelhos, contudo, é recorrente (cf. Mt 2,2; 27,11.29.37.42; Mc 15,2.9.12.18.26.32; Lc 19,38; 23,2s.37s; Jo 1,49; 12,14; 18,33.39; 19,3.19.21).
  2. A razão é simples: não teria sentido que Jesus lhes proibisse divulgar o milagre, a menos que pretendesse (o que é absurdo) impor-lhes o impossível. De fato, ‘como poderiam eles ocultá-lo, senão escondendo os olhos? Mas se escondessem os olhos, de que lhes valeria ter recobrado a vista?’ (São Bernardo). Logo, é mais verossímil que Cristo lhes tenha proibido divulgar que ele era o Filho de Davi, i.e. o Messias, assim como, em outras ocasiões, já proibíra falar aos demônios, porque sabiam que ele era o Cristo (Lc 4,41; Mc 1,34). Ora, se isso é assim, a causa da proibição há de ser a mesma, a saber: evitar que o povo, impelido por ideias profanas acerca do Messias, se sublevasse contra as autoridades romanas a fim de erguer um reino judaico, o que lhe valeria a acusação que, mais tarde, levantariam contra ele: Ele subleva o povo (Lc 23,5).
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