O que explica que um jovem músico, num dos prêmios mais famosos da música, ostente seu satanismo, sem que isso escandalize ninguém? (Pelo contrário, o rapaz, um rapper, foi considerado pela revista Time uma das 100 personalidades mais influentes do mundo em 2021; seus clipes, espalhados por toda a internet, têm milhões de visualizações; e suas performances são chamadas de “revolucionárias” pelos portais de notícias.)

O nome dele é “Lil Nas X” (mas nós definitivamente não recomendamos que você faça pesquisa alguma sobre ele). Ano passado, em plena Semana Santa, o jovem de 22 anos — que também é assumidamente homossexual — foi notícia por ter lançado junto com um coletivo de arte do Brooklyn, de Nova Iorque, os “tênis de Satanás”. A edição, limitada a 666 exemplares, era de um par de calçados da Nike, contendo uma cruz invertida, um pentagrama e as palavras “Lucas 10:18”, referência ao trecho bíblico em que Jesus diz ter visto “Satanás cair do céu como um raio” [i].

As letras de suas músicas contêm uma imoralidade após a outra. Falam de drogas e fazem referência explícita a atos sexuais. Num de seus últimos hits, que ficou no topo das plataformas de streaming, o cantor aparece escorregando por uma barra até as profundezas do inferno para simular relações carnais com o próprio demônio. (Foi nessa ocasião que ele lançou seus tênis “exclusivos”, que além de tudo continham cada um uma gota de sangue humano.)

Novamente: desaconselhamos fortemente que nossos leitores vão atrás deste conteúdo. Mas, afinal, cabe perguntar: o que explica o sucesso desse gênero obsceno e ocultista de “arte”?

Antes de responder à questão — sim, há uma resposta —, gostaríamos de trazer à baila um evento com o qual certamente há muitos parecidos, acontecendo em várias partes do Brasil e do globo, neste ano e em outros. Por isso pedimos desde já aos leitores que prestem atenção em Aracati, ao mesmo tempo que a desconsiderem: prestem atenção porque o que está acontecendo na cidade cearense é importante e nós, católicos, podemos ajudar; mas desconsiderem porque o fato serve para tratar de um problema maior e mais grave.

“Paixão no Aracati”

“Paixão no Aracati”. Foi com estas palavras que o sr. Bismarck Maia, Prefeito de Aracati, no Ceará, apresentou o “carnaval fora de época” que pretende fazer em pleno Tríduo Pascal. (As imagens dos cartazes originais, facilmente localizáveis na internet, não nos deixam mentir.)

É verdade que, devido à pressão de fiéis católicos não só de Aracati, mas de todo o Brasil, o prefeito cearense sinalizou recuo, cancelando um dos shows marcados para a ocasião. O evento como um todo, no entanto — a folia carnavalesca na própria semana da Paixão de Cristo —, continua de pé.

Justamente por isso o Bispo de Limoeiro do Norte, Dom André Vital, fará uso da tribuna na Câmara Municipal de Aracati, hoje, 7 de abril, às 16h, para expor aos vereadores e a toda a comunidade civil o “profundo desrespeito aos cristãos” que configura a iniciativa desse evento. 

Na ocasião, Dom André Vital apresentará um abaixo-assinado amplamente divulgado nas redes sociais que pede o fim do “escárnio contra a fé cristã”, “que o prefeito recobre seu bom senso”, “desista desta absurda destinação da verba pública e respeite o sentimento religioso do povo, que é seu verdadeiro empregador”. (Este abaixo-assinado pode ser acessado e assinado aqui.)

É muito importante que também você assine esta petição pública e ajude a Igreja em Limoeiro do Norte. O que está em jogo é a paz e liberdade religiosa dos cristãos.

Entenda o que está em jogo

Vale a pena explicar: não se trata de “obrigar” todas as pessoas a participar da Semana Santa, celebrando conosco a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor (como algumas pessoas de mente liberal comentaram nestes dias, quando divulgamos esse apelo no Instagram). 

O que nós, católicos, precisamos entender — e muitos parecem não compreender (ou simplesmente fingem não entender) — é que a fé cristã católica tem uma dimensão pública irrenunciável

Por exemplo, as reuniões dos católicos nas igrejas durante o Tríduo Pascal transcendem o templo quando saímos às ruas para velar o corpo de Nosso Senhor morto; os profissionais de artes cênicas têm muito trabalho nestes dias, lendo os Evangelhos para tomar parte no drama da Paixão; os costumes dos católicos de não comer carne, especialmente na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, influenciam os comércios locais (que o digam os peixeiros e açougueiros!); as próprias festas de Carnaval e de Páscoa, enfim, só têm sentido no calendário civil porque, em primeiro lugar, são parte das observâncias anuais da religião católica

Em outras palavras, o culto está destinado a tornar-se cultura. Noutros tempos, como já mostramos aqui, todo o mundo da arte se mobilizava em torno dos eventos celebrados nestes dias. Há mil e uma versões diferentes da sequência litúrgica Stabat Mater, que descreve o sofrimento de Maria Santíssima no Calvário — e com elas um sem-número de pinturas e esculturas da Pietà ao redor do mundo. Johann Sebastian Bach produziu dois oratórios retratando a Paixão de Cristo, um segundo o evangelista São Mateus, outro segundo São João. Santo Afonso Maria de Ligório escreveu em 1760 um belíssimo dueto chamado Canto della Passione, com grande valor religioso e artístico: 

Também a forma como se construíam as cidades antigamente evidencia o primado de Deus: os povoados nasciam sempre ao redor de uma igreja e de uma praça, isto é, justamente em torno do “domingo” sagrado, dia de culto a Deus e repouso do trabalho. 

Tudo isso tem uma razão de ser: o ser humano foi criado não para esta vida, mas para a eternidade; se há algum sentido nesta existência — e nós cremos nisso —, este sentido não pode estar dentro, mas fora dela. Por isso, como diz o professor John Senior em sua obra The Restoration of Christian Culture [“A Restauração da Cultura Cristã”, infelizmente sem tradução portuguesa]:

O que quer que façamos na ordem política ou social, o fundamento indispensável é a oração, cujo coração é o Santo Sacrifício da Missa, a oração perfeita [na qual] o próprio Cristo, Sacerdote e Vítima, recria de modo incruento [=sem derramamento de sangue] o mesmíssimo Sacrifício sangrento no Calvário. O que é a cultura cristã? É essencialmente a Missa. Essa não é a minha opinião ou de outra pessoa, nem uma teoria ou desejo, mas o fato central de dois mil anos de história. A Cristandade, que os secularistas chamam de Civilização Ocidental, é a Missa e a parafernália que a protege e torna possível. Toda a arquitetura; a arte; as formas políticas e sociais; a economia; o modo como as pessoas vivem, sentem e pensam; a música; a literatura — todas essas coisas, quando estão certas, são meios de promover e proteger o Santo Sacrifício da Missa.

Algumas pessoas se gabam de viver num “Estado laico”, num mundo tal como o “profetizado” por John Lennon, onde não haveria nem céu acima de nós nem inferno sob os nossos pés… (Na verdade, não é que esses lugares tenham deixado de existir, pois a realidade independe de nossas crenças e opiniões; o que pode acontecer — ou o que, na verdade, já está acontecendo — é que simplesmente as pessoas deixem de acreditar neles.) Ora, o problema é que o sonho do beatle de uma sociedade sem religião é simplesmente impossível. A experiência mostra que o homem é um ser essencialmente religioso, e a sociedade, sendo um conjunto de seres humanos, se não presta culto ao Deus verdadeiro, termina cultuando outros deuses.

Uma cultura satânica

Com isso voltamos ao tema de abertura desta matéria: o satanismo ostensivo na mais célebre premiação de música do mundo. (Sim, isso efetivamente aconteceu no Grammy deste ano, 2022, e conduzido pela personagem de que falamos acima, o rapper Lil Nas X.) O que explica esse fenômeno? — voltamos a perguntar. 

Explica-o o fato de que o culto das pessoas, a religião que professam (seja ela qual for), não é algo que se possa esconder debaixo do alqueire. Como dissemos, todo culto está destinado a ser cultura, para bem ou para mal. As coisas que as pessoas amam — ou melhor: os deuses a quem adoram, as realidades por que dão a vida — não podem ser varridas para baixo do tapete. Se é o dinheiro o que amam, irão demonstrá-lo em seu estilo de vida [ii]; se é um ser humano o que veneram, não tardarão em surgir canções, estátuas e feriados em honra do “ícone” — ou, em linguagem moderna, shows, pôsteres e festivais, ou seja, uma “liturgia profana”.

É assim quando as pessoas, as famílias e as sociedades cultuam as coisas certas — e disso dá testemunho toda a cultura cristã, com seus oratórios e obras de arte, com suas belíssimas igrejas e festas religiosas —, mas também é assim quando os indivíduos, os agrupamentos sociais e as nações como um todo cultuam as coisas erradas — e disso dá testemunho a época moderna, com seus festivais de música indecentes e obscuros, com seus artistas falidos e decadentes.

É por isso que não entendeu nada quem reage a tudo o que está acontecendo com chavões como “Cada um faz o que quiser” ou “Todo o mundo é livre para fazer o que bem entender”. Foi justamente por moldar-se pouco a pouco a essa visão distorcida da liberdade humana que a Igreja, e com ela a cultura cristã, foi perdendo seu espaço e seus direitos ao longo dos últimos séculos. Quando deixamos publicamente de lado o Deus verdadeiro, seja por vergonha, seja por pretensões de “laicidade”, seja por ódio aberto e escancarado, pouco a pouco vamos cedendo lugar aos inimigos de Deus, que são os anjos caídos.

Não estamos dizendo, obviamente, que todos os fãs do rapper satânico dos Estados Unidos e os que querem esbórnia em dias santos se identifiquem nem que as duas coisas estejam num mesmo plano. A experiência histórica mostra, no entanto, que de uma coisa se vai à outra, como numa descida às profundezas do inferno, ou como na perícope bíblica da casa “varrida e adornada”: 

Quando um espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso; não o achando, diz: Voltarei à minha casa, donde saí. Chegando, acha-a varrida e adornada. Vai então e toma consigo sete espíritos piores do que ele e entram e estabelecem-se ali. E a última condição desse homem vem a ser pior do que a primeira (Lc 11, 24ss). 

Eis o que se reserva a uma sociedade que, tendo “exorcizado” o paganismo e os hábitos imorais de outrora, procura agora viver sem religião, “livre” do senhorio de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por mais acentuado que esteja o processo de destruição da cultura cristã, trabalhemos e rezemos para que não seja este também o nosso destino.

Notas

  1. É importante esclarecer que a Nike processou o referido coletivo de arte por “violação de marca registrada”. Ou seja, a empresa não tinha nada a ver com os “tênis satânicos”.
  2. “Basta visitar o salão anual do automóvel para nele reconhecer uma manifestação religiosa profundamente ritualizada. As cores, as luzes, a música, a reverência dos adoradores, a presença das sacerdotisas do templo (as manequins), a pompa e o esplendor, o esbanjamento de dinheiro, a multidão compacta — tudo isso representaria, em qualquer outra cultura, um ofício nitidamente litúrgico. O culto do carro sagrado tem os seus adeptos e iniciados. Nenhum gnóstico aguardava com maior ansiedade a revelação de um oráculo do que um adorador do automóvel aguarda os primeiros rumores sobre os novos modelos. É na época do ciclo sazonal anual que os sumos-sacerdotes do culto — os negociantes de carros — assumem uma nova importância, enquanto um público ansioso aguarda impacientemente o advento de uma nova forma de salvação” (Pe. Andrew Greeley, “Myths, Symbols and Rituals in the Modern World”, The Critic, vol. 20/3 [dez. 1961–jan. 1962], p. 19, apud Mircea Eliade, Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 130s).