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Ato de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus
Espiritualidade

Ato de Reparação ao
Sagrado Coração de Jesus

Ato de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus

Em 1928, o Papa Pio XI entregou uma oração urgente a toda a Igreja: o ato de reparação ao Sagrado Coração de Jesus. Aprenda a rezá-lo e conheça a teologia por trás dessa importante prática de piedade.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Abril de 2017Tempo de leitura: 9 minutos
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Neste ano de 2017, as duas mais importantes nações lusófonas do mundo experimentam o privilégio de um Jubileu Mariano: em Portugal, por um lado, celebra-se o primeiro centenário das aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima; no Brasil, por outro, comemoram-se os 300 anos do encontro, nas águas do Rio Paraíba, da imagem milagrosa da Virgem de Aparecida.

Dentre as várias formas pelas quais o site do Padre Paulo Ricardo deseja ajudar seus alunos e visitantes a viverem bem esse tempo de graça, destaca-se a prática dos "primeiros sábados do mês", uma devoção ensinada por Nossa Senhora à Irmã Lúcia cuja finalidade é reparar os pecados cometidos contra o seu Imaculado Coração. Para entender mais exatamente em que consiste esse piedoso exercício, vale a pena conferir a "A Resposta Católica" que temos a este respeito.

Mas os cristãos, particularmente os de nossa época, podem ser levados a perguntar: o que significa, afinal de contas, esta palavra — "reparação"?

Tão ausente de nossas homilias, meditações e orações quanto as verdades do pecado e do inferno, as palavras "reparação", "satisfação" e "desagravo", todas elas sinônimas, foram relegadas por muitos teólogos como "peças de museu", pertencentes a uma doutrina arqueológica, da qual o homem moderno deveria desfazer-se de uma vez por todas, já que não serviria mais, dizem eles, às necessidades "práticas" do mundo atual.

Achille Ratti, o Papa Pio XI, governou a Igreja de 1922 a 1939.

A verdade, porém, é que "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre" (Hb 13, 8). Se os primeiros cristãos completavam na sua carne o que faltava à paixão de Cristo, conforme o testemunho da própria Escritura (cf. Cl 1, 24), quem somos nós para agir de outra forma ou ainda sugerir o contrário? Afirmar levianamente que o Evangelho poderia mudar com os tempos, ou que parte dele se tornou "ultrapassada", é indício, na verdade, de uma grande petulância, quando não de uma tremenda falta de fé. Ora, se Jesus de Nazaré é verdadeiramente Deus e homem — como sempre acreditou a Igreja —, se Ele é, de fato, "a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai", como diz o Catecismo (§ 65), como poderia a sua revelação ser considerada insuficiente, incompleta ou adaptável? Estariam por acaso "fora de moda" os ensinamentos do próprio Deus? Será que somos tão soberbos a ponto de pretendermos corrigir o que Ele mesmo e os seus Apóstolos não só pregaram como viveram?

Se ainda resta, portanto, um pouquinho de fé que seja na cabeça de nossos contemporâneos, para confirmar o dever que temos de reparar as ofensas cometidas por nós mesmos contra Deus, nada melhor do que recordar o ensinamento sólido do Magistério da Igreja sobre esse assunto.

A seguir, você encontra alguns trechos preciosos da encíclica Miserentissimus Redemptor [1], com a qual o Papa Pio XI deu à Igreja universal a belíssima oração do "Ato de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus" (que também se encontra logo abaixo). Neste documento, o Santo Padre responde, com a Tradição e as Sagradas Escrituras, aos principais obstáculos que geralmente são colocados à prática da reparação, ajudando nossa inteligência a compreender a teologia por trás dessa sadia devoção popular.

Ora, ainda que a copiosa Redenção de Cristo abundantemente nos tenha "perdoado todos os nossos pecados" (cf. Col 2, 13), em virtude daquela admirável disposição da divina Sabedoria, pela qual se deve completar em nossa carne o que falta às tribulações de Cristo por seu Corpo, que é a Igreja (cf. Col 1, 24), aos louvores e satisfações que Cristo, em nome dos pecadores, ofereceu a Deus, não só podemos como, ainda mais, devemos acrescentar também os nossos próprios louvores e satisfações.

[...] Mas como podem estes atos expiatórios consolar a Cristo, que reina ditosamente nos céus? "Dá-me um coração que ame e entenderás o que digo", respondemos com estas palavras de Santo Agostinho, tão convenientes a este ponto.

Com efeito, quem ama verdadeiramente a Deus, se considera os fatos passados, vê e contempla a Cristo trabalhando em favor do homem, sofrendo, suportando as mais duras penas, quase desfeito sob o peso da tristeza, de angústias e opróbrios "por nós homens e para a nossa salvação", "esmagado por nossas iniquidades" ( Is 53, 5) e curando-nos com suas chagas. Ora, quanto mais profundamente penetram as almas piedosas estes mistérios, mais claro veem que os pecados e crimes dos homens, em qualquer tempo perpetrados, foram a causa de que o Filho de Deus se entregasse à morte; e ainda agora esta mesma morte, com suas mesmas dores e tristezas, de novo Lhe é infligida, já que cada pecado renova a seu modo a Paixão do Senhor: "Novamente crucificam o Filho de Deus e O expõe a vilipêndios" (Hb 6, 6). E se por causa também dos nossos pecados futuros, por Ele previstos, a alma de Cristo padeceu aquela tristeza de morte, não há dúvida de que algum consolo Cristo recebeu também de nossa futura, mas também prevista, reparação, quando "o anjo do céu Lhe apareceu" (Lc 22, 43) para consolar seu Coração oprimido de tristeza e angústias. Por isso, podemos e devemos consolar aquele Coração Sacratíssimo, incessantemente ofendido pelos pecados e pelas ingratidões dos homens, por este modo admirável, mas verdadeiro, pois, como se diz na Sagrada Liturgia, o mesmo Cristo, pelos lábios do salmista, se queixa a seus amigos de ter sido abandonado: "Impropério e miséria esperou meu coração: e busquei quem compartilhasse da minha tristeza e não houve ninguém; busquei quem me consolasse e não encontrei" (Sl 69, 21).

Acrescenta-se que a Paixão expiatória de Cristo se renova e, de certo modo, continua e se completa em seu Corpo Místico, que é a Igreja, já que, servindo-nos outra vez das palavras de Santo Agostinho ( In Ps., 86), "Cristo padeceu quanto devia padecer, e nada falta à medida de sua Paixão. A Paixão, pois, está completa, mas na Cabeça; faltava ainda a Paixão de Cristo no Corpo". Nosso Senhor mesmo se dignou declará-lo quando, ao aparecer a Saulo, "que respirava ameaças e morte contra o discípulos" (At 9, 1), lhe disse: "Eu sou Jesus, a quem persegues" (At 9, 5), significando claramente que nas perseguições contra a Igreja é a Cabeça divina da Igreja a quem se atinge e impugna. E isso com razão, porque Jesus Cristo, que ainda padece em seu Corpo Místico, deseja ter-nos por sócios na expiação, e isto no-lo exige nossa própria incorporação a Ele: pois sendo como somos "corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros" (1Cor 12, 27), é necessário que o que padece a Cabeça, padeçam-no com Ela os seus membros (cf. 1Cor 12, 26).

Quão necessárias sejam, especialmente em nossos tempos, a expiação e a reparação, é coisa clara a quem olhe e contemple este mundo que, como dissemos no início, "está sob poder do mal" ( 1Jo 5, 19). De todas as partes chega a Nós o clamor de povos que gemem, cujos príncipes ou governantes se congregaram e conspiraram juntos contra o Senhor e sua Igreja (cf. Sl 2,2). Por essas regiões vemos atropelados todos os direitos divinos e humanos; demolidos e destruídos os templos, os religiosos e as religiosas expulsos de suas casas, afligidos com ultrajes, tormentos, cárceres e fome; multidões de meninos e meninas arrancadas do seio da Madre Igreja e induzidos a renunciar e blasfemar contra Jesus Cristo e a cometer também os mais horrendos crimes da luxúria; todo o povo cristão duramente ameaçado e oprimido, colocado a todo instante em ocasião de, ou apostatar da fé, ou padecer uma terrível morte. Tudo isso é tão triste que nestes acontecimentos parece prenunciar-se "o princípio daquelas dores" que precederiam "o homem de pecado que se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é cultuado" (2Ts 2, 4).

E ainda é mais triste, veneráveis irmãos, que entre os próprios fiéis, lavados no Batismo com o sangue do Cordeiro Imaculado e enriquecidos com a graça, haja tantos homens de toda classe que, com inacreditável ignorância das coisas divinas e envenenados de falsas doutrinas, vivem longe da casa do Pai uma vida repleta de vícios; uma vida, pois, não iluminada pela luz da verdadeira fé, nem reconfortada pela esperança da felicidade futura, nem aquecida e fomentada pelo calor da caridade, de modo que eles parecem verdadeiramente jazer na escuridão e na sombra da morte. Ademais, aumenta cada vez mais entre os fiéis a negligência da disciplina eclesiástica e daquelas antigas instituições em que toda a vida cristã se funda e pela qual a sociedade doméstica é governada e se defende a santidade do matrimônio; totalmente menosprezada ou depravada com lisonjas de bajulação a educação das crianças, até mesmo negado à Igreja o poder de educar a juventude cristã; o esquecimento deplorável da modéstia cristã na vida e principalmente no vestido da mulher; a cobiça desenfreada das coisas perecíveis, o desejo desproporcional das honrarias mundanas; a difamação da autoridade legítima e, finalmente, o desprezo da palavra de Deus, de maneira que a fé é destruída ou é posta à beira da ruína.

Formam o cúmulo destes males tanto a preguiça e a negligência dos que, dormindo ou fugindo como os discípulos, vacilantes na fé, miseravelmente desamparam a Cristo oprimido de angústias e rodeado dos sequazes de Satanás, quanto a deslealdade dos que, à imitação do traidor Judas, ou temerária e sacrilegamente comungam, ou desertam para os acampamentos inimigos. Deste modo, inevitavelmente se nos apresenta ao espírito a ideia de que se aproximam os tempos preditos por Nosso Senhor: "E, ante o progresso crescente da iniquidade, a caridade de muitos se esfriará" ( Mt 2, 24). [...]
Ato de Reparação ao Sacratíssimo Coração de Jesus

Dulcíssimo Jesus, cuja infinita caridade para com os homens é por eles tão ingratamente correspondida com esquecimentos, friezas e desprezos, eis-nos aqui prostrados na Vossa presença, para Vos desagravarmos, com especiais homenagens, da insensibilidade tão insensata e das nefandas injúrias com que é de toda parte alvejado o Vosso amorosíssimo coração.

Reconhecendo, porém, com a mais profunda dor, que também nós mais de uma vez cometemos as mesmas indignidades, para nós, em primeiro lugar, imploramos a Vossa misericórdia, prontos a expiar não só as próprias culpas, senão também as daqueles que, errando longe do caminho da salvação, ou se obstinam na sua infidelidade, não Vos querendo como pastor e guia, ou, conculcando as promessas do batismo, sacudiram o suavíssimo jugo da Vossa santa lei.

De todos estes tão deploráveis crimes, Senhor, queremos nós hoje desagravar-Vos, mais particularmente da licença dos costumes e imodéstia do vestido, de tantos laços de corrupção armados à inocência, da violação dos dias santificados, das execrandas blasfêmias contra Vós e Vossos Santos, dos insultos ao Vosso Vigário e a todo o Vosso clero, do desprezo e das horrendas e sacrílegas profanações do Sacramento do divino amor e, enfim, dos atentados e rebeldias das nações contra os direitos e o Magistério da Vossa Igreja.

Oh! Se pudéssemos lavar com o próprio sangue tantas iniqüidades!

Entretanto, para reparar a honra divina ultrajada, Vos oferecemos, juntamente com os merecimentos da Virgem Mãe, de todos os santos e almas piedosas, aquela infinita satisfação, que Vós oferecestes ao eterno Pai sobre a cruz, e que não cessais de renovar todos os dias sobre nossos altares.

Ajudai-nos Senhor, com o auxílio da Vossa graça, para que possamos, como é nosso firme propósito, com a vivência da fé, com a pureza dos costumes, com a fiel observância da lei e caridade evangélicas, reparar todos os pecados cometidos por nós e por nosso próximo, impedir, por todos os meios, novas injúrias de Vossa divina Majestade e atrair ao Vosso serviço o maior número de almas possíveis.

Recebei, ó benigníssimo Jesus, pelas mãos de Maria santíssima reparadora, a espontânea homenagem deste nosso desagravo, e concedei-nos a grande graça de perseverarmos constantes, até à morte, no fiel cumprimento de nossos deveres e no Vosso santo serviço, para que possamos chegar todos à pátria bem-aventurada, onde Vós com o Pai e o Espírito Santo viveis e reinais por todos os séculos dos séculos.

Amém.

Notas

  1. A tradução portuguesa apresentada neste post encontra-se disponível aqui. Limitamo-nos a fazer apenas algumas pequenas correções de detalhe, a fim de que o texto em português se ajustasse melhor tanto ao teor quanto à forma do original latino.

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O fantasma do arianismo na Igreja de hoje
Doutrina

O fantasma
do arianismo na Igreja de hoje

O fantasma do arianismo na Igreja de hoje

Como ervas daninhas, as heresias vêm e vão. A questão é que elas voltam de maneiras diferentes. É o caso do arianismo, que hoje chega até nós de modo escondido, como um parasita, e disfarçado, sob a forma de humanismo materialista.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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[Este texto é de autoria do Pe. Dwight Longenecker. Foi vertido à língua portuguesa por nossa equipe.]

As heresias são como ervas daninhas. Elas continuam voltando. A questão é que elas voltam de formas diferentes

No século IV, o arianismo fazia parte do grande debate sobre a divindade de Cristo e, portanto, sobre a definição do dogma da Santíssima Trindade. Essa heresia começou com o ensino de Ário em meados do século III e se espalhou por todo o Império. Missionários da parte oriental foram para o norte, e as tribos góticas foram convertidas ao arianismo.

O arianismo se desenvolveu não apenas como um problema teológico, mas também como um grande cisma. Os arianos tinham suas próprias igrejas, seus próprios bispos e seus próprios poderes temporais — como o rei gótico Teodorico, o Grande, que governava a Itália por volta do ano 500 — para os apoiar. No cerne do arianismo estava uma negação da cristologia nicena. Em resumo, eles acreditavam que Jesus era o “Filho de Deus”, mas não a Segunda Pessoa da santa e indivisa Trindade, que assumiu a carne humana de sua bem-aventurada Mãe. Ele era, em vez disso, um ser criado — um semideus e, portanto, subordinado a Deus Pai.

S. Atanásio, que lutou contra o arianismo, notou que os arianos eram teólogos sutis. Eles usavam uma linguagem ambígua e falavam em termos vagos. Estavam mais interessados no cuidado pastoral do que no dogma. Também eram, em sua maioria, os mais letrados e das classes dominantes. O arianismo era uma forma de cristianismo muito mais confiável. Um Jesus como ser criado, subordinado ao Pai, era mais palatável intelectualmente do que a autêntica doutrina da Encarnação, que levou a dificuldades intelectuais a respeito da Santíssima Trindade.

Hoje, o arianismo assume uma forma diferente e chega até nós sob a forma de humanismo. Por “humanismo” quero dizer aquele sistema de crenças que toma o homem como medida de todas as coisas. Este humanismo é um conglomerado de diferentes crenças modernistas, mas o resumo de tudo é o materialismo: este mundo físico é tudo o que existe, a história humana é tudo o que importa e o avanço da raça humana, neste reino material, é a única coisa pela qual devemos lutar.

O arianismo atual é uma interpretação do cristianismo de acordo com essa filosofia materialista e humanista. Claramente, Jesus Cristo, como o Filho divino de Deus e Segunda Pessoa coeterna da Santíssima Trindade, não se encaixa aqui. Em vez disso, Jesus seria um bom mestre, um rabino sábio, um belo exemplo, um mártir de uma causa nobre. No máximo, ele seria um ser humano “tão realizado e autorrealizado que ‘se tornou divino’”. Em outras palavras, “Jesus seria um ser humano tão completo que nos revela a imagem divina, à qual todos fomos criados — e, portanto, nos mostra como Deus é”. Em certo sentido, essa “divinização” de Jesus teria acontecido como resultado das graças que recebeu de Deus, da vida que levou e dos sofrimentos que suportou.

Esse cristianismo diluído é a forma moderna do arianismo. O contexto cultural da heresia e sua expressão são diferentes, mas a essência dela é a mesma de sempre: “Jesus Cristo é um ser criado. Sua ‘divindade’ é algo que se desenvolveu ou foi adicionado à sua humanidade por Deus”.

A diferença entre Ário e os hereges modernos é que Ário foi realmente explícito em seus ensinamentos. Os hereges modernos não. Eles habitam nossos seminários, nossos mosteiros, nossas casas paroquiais e presbitérios. Eles são do clero modernista que domina as principais denominações protestantes, mas também são numerosos dentro da Igreja Católica. Eles não são uma seita ou denominação separada. Ao contrário, eles infestam a verdadeira Igreja como um parasita horrível.

Muitos deles nem mesmo sabem que são hereges. Eles foram mal catequizados desde o início. Suas crenças sobre Jesus Cristo permaneceram confusas e fora de foco. Eles mantêm suas crenças em uma névoa sentimental, na qual sentem, de modo muito vago, que o que acreditam é “cristão”, mas não querem se aprofundar. Isso acontece porque eles foram ensinados a ver o dogma como um causador de divisão. Eles mantêm suas crenças deliberadamente vagas e focam nas “preocupações pastorais”, para evitar questões difíceis.  O dogma faria parte de uma época anterior na Igreja; hoje, nós amadurecemos e superamos esse tipo de questiúncula. “Deus, afinal, não pode ser colocado em uma caixa. Ele é maior do que tudo isso…”.

Apesar disso, eles se sentem totalmente à vontade recitando o Credo niceno todas as semanas (N.T.: onde ele é recitado todas as semanas, claro; no Brasil, o costume é que se recite o Credo apostólico) e celebrando o Natal do Filho de Deus e o grande Tríduo Pascal — usando todas as palavras do cristianismo niceno tradicional, enquanto reinterpretam essas palavras de uma forma que agrade a Ário. Então, quando falam de Jesus Cristo, o Filho divino de Deus, o que realmente querem dizer é o que eu escrevi acima: “Que, de uma maneira linda, Jesus era um ser humano tão perfeito que nos revela como Deus é”.

A Virgem Maria, então, se torna “uma boa e pura moça judia que lidou com uma gravidez não planejada com grande coragem e fé”. A crucificação se torna “a trágica morte de um jovem e corajoso defensor da paz e da justiça”. A ressurreição significa que, “de alguma forma misteriosa, ao seguir seus ensinamentos, os discípulos de Jesus continuaram a acreditar que Ele estava vivo em seus corações e na história”.

Agora, o que realmente me interessa é que esses arianos modernos (e tenho certeza de que o mesmo se pode dizer da versão ariana do século IV) não são pecadores perversos e imundos. São boas pessoas. São pessoas articuladas e educadas. São pessoas abastadas. São pessoas bem conectadas. São pessoas “cristãs” boas, sólidas e respeitáveis. Caramba, até mesmo os imperadores eram arianos em seus dias! Eles eram as pessoas no topo da hierarquia socioeconômica. Além disso, sua versão ariana da fé parece muito mais razoável, sensível e crível do que a ortodoxia intelectualmente escandalosa de Atanásio, Basílio, Gregório e da Igreja histórica através dos tempos.

Reconheço esses hereges pelo que são: lobos em pele de cordeiro. Eles podem se apresentar como bons cristãos, respeitáveis, devotos e sinceros. Tudo bem. Mas são hereges. São mentirosos, e as pessoas que mais acreditam em suas mentiras são eles mesmos. Se conseguirem o que querem e suas heresias sutis prevalecerem, destruirão a fé.

De minha parte, quero manter a fé histórica de Niceia com Atanásio, Basílio e Gregório e com os santos e mártires. Não me importo nem um pouco se o mundo pensa que essa fé é “antiga” ou “esquisita”, “infelizmente rígida”, “dogmática demais” ou “inacessível aos cristãos modernos”. Os arianos provavelmente usaram todos esses argumentos.

Eu afirmo o Credo niceno: não me importo em dizer “consubstancial com o Pai”, mantenho a clareza e simplicidade dessas palavras e não acho que elas precisem ser “reinterpretadas”.

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Estamos protegidos contra os demônios?
Espiritualidade

Estamos protegidos
contra os demônios?

Estamos protegidos contra os demônios?

“Júlia notou que, quando voltou para a casa da família, os demônios não entraram com ela. O padre explicou que a casa fora abençoada: estava cheia de sacramentais, incluindo crucifixos, estátuas sagradas e, muitas vezes, era aspergida água benta.”

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Trazemos a seguir o relato de mais um caso acompanhado pelo Monsenhor Stephen Rossetti, exorcista da Arquidiocese de Washington, e publicado em seu blog Catholic Exorcism. A tradução para o português foi feita por nossa equipe:

“Júlia” cresceu numa boa família católica. Ela foi para a faculdade e começou a namorar um jovem que estava fortemente envolvido com ocultismo. Ela participava desses rituais e também adotava outros comportamentos pecaminosos.

Pela graça de Deus, na universidade ela teve contato com um grupo de jovens católicos bastante engajados na Igreja, e isso mudou sua vida. Ela terminou com o namorado, começou a assistir à Missa e buscou a Confissão. As coisas estavam melhorando.

Poucos meses depois de sua conversão, ela acordou pela manhã com marcas horríveis nas costas. Parecia que uma besta lhe tinha arranhado. Demônios começaram a atacá-la. À noite, eles a assediavam e abusavam dela. Ela tinha dificuldade para entrar numa igreja ou ir à Missa. Ela sabia que seu passado voltara para atormentá-la.

Duas amigas da universidade queriam ajudar. Elas entraram em seu quarto à noite e puderam ver o que estava acontecendo. Elas decidiram dormir no quarto dela para ajudá-la durante os ataques demoníacos.

Infelizmente, essas jovens, embora bem intencionadas, não estavam espiritualmente preparadas para o que encontraram. Uma se entregou ao uso de drogas e à promiscuidade sexual e, pouco depois, deixou a universidade. A outra ficou tomada de raiva, ameaçou cometer suicídio e também deixou a universidade. A família de Júlia recomendou-lhe um exorcista, que iniciou o rito.

Júlia notou que, quando voltou para a casa da família, os demônios não entraram com ela. O padre explicou que a casa fora abençoada: estava cheia de sacramentais, incluindo crucifixos, estátuas sagradas e, muitas vezes, era aspergida água benta. Os pais eram católicos fervorosos.

No capítulo 6 da Carta aos Efésios, S. Paulo exorta: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio” (v. 11). Aquelas duas jovens não estavam preparadas. Os pais de Júlia, sim.

A fé em Deus e em Jesus Cristo é a armadura que nos protege. À medida que a fé se esvai nestes tempos secularizados, temo que nossos lares e famílias estejam desprotegidos. À medida que a fé se esvai em nossa nação, o que será dela?

O que nos deve chamar a atenção nesse relato, em primeiro lugar, é como as pessoas, sobretudo os mais jovens, por falta de discernimento na hora de fazer amizades, têm se aproximado do mal e se tornado suscetíveis a ele. Em outros tempos, as famílias costumavam ter critério para admitir estranhos em seu convívio — e ensinavam seus filhos a fazer o mesmo: “Diga-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. Não se começa uma amizade, muito menos um relacionamento amoroso, com alguém, só porque aparecem afinidades circunstanciais ou gostos marginais em comum. As pessoas são mais, muito mais, do que os jogos com que se divertem, as músicas que escutam ou as séries a que assistem. Ser amigo, no sentido verdadeiro do termo, é compartilhar convicções filosóficas, religiosas e morais fundamentais, que tocam o próprio sentido da existência humana.

O adágio bíblico é conhecido: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33). No caso de Júlia, uma má companhia foi o suficiente não só para corrompê-la, mas para deixar marcas ainda mais profundas em sua alma.

Em segundo lugar, é sempre bom lembrar: diferentemente de Deus, os demônios não são seres onipotentes; tudo o que fazem está condicionado à ação permissiva de Deus e à sua bondosa Providência. Tampouco eles têm o poder de “obrigar” as pessoas a fazer o que não querem. Assim, quando lemos, das amigas de Júlia, que uma se entregou ao uso de drogas e à promiscuidade sexual, e outra chegou a tentar suicídio, ninguém pense que isso se deva a uma espécie de influência demoníaca irresistível. Mesmo as mais intensas tentações e obsessões demoníacas não são capazes de nos tirar o livre-arbítrio. O próprio Autor Sagrado, quando registra que “Satanás entrou em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes” (Lc 22, 3), não quis dizer com isso que o traidor de Cristo havia se tornado uma “marionete” nas mãos do inimigo. O pecado de Judas foi consciente e deliberado: ele sabia o que estava fazendo. Se o Evangelho se refere aqui a uma possessão literal, pode muito bem ser que ela tenha acontecido até como consequência da gravidade do pecado cometido por Judas. 

Por último, a lição principal de toda a história: a importância da bênção da Igreja, dos sacramentais, das imagens sagradas e da oração para proteger-nos da ação do inimigo. Nunca é demais insistir nesta passagem, que a liturgia da Igreja põe toda terça-feira nos lábios de seus sacerdotes, nas Completas: “Sede sóbrios e vigiai, porque o vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8). Se dormimos, o inimigo de nossas almas não dorme. Se não nos protegemos, ele investe contra nós e sai bem sucedido. A batalha espiritual já está acontecendo ao nosso redor. Fingir que ela não é real, ou ignorá-la, só será pior para nós. Precisamos nos armar, com tudo o que Deus nos concedeu através de sua Igreja, para sairmos vitoriosos nesse combate. 

Isso significa que devemos, sim, munir-nos de água benta e de outros materiais abençoados — como imagens, velas e terços —, sem nunca esquecer, no entanto, que a principal proteção contra o mal nós a levamos na alma, quando cremos em Deus e procuramos rezar, receber os sacramentos da Igreja e levar uma vida conforme os Mandamentos. Uma coisa não exclui, nem diminui a importância da outra, pois somos formados de corpo e alma

Por isso, vale a pena perguntar: a sua residência já foi abençoada por um padre? Você se preocupa em pedir a um sacerdote que abençoe as imagens ou velas que compra para rezar? Tem sempre consigo, em casa, um pouco de água benta? 

Caso tenha respondido “não” a alguma das perguntas acima, comece hoje mesmo a cultivar o hábito contrário e deixe-se cercar pela bênção de Cristo, que Ele quer derramar em nós não através de curandeiros espíritas e benzedeiros sem credenciais — pois isso é superstição [1] —, mas através dos sacerdotes da Igreja, cujo ministério Ele mesmo instituiu para levar ao mundo a sua salvação.

Notas

  1. Para consultar qual seja a posição da Igreja perante o fenômeno do curandeirismo, cf. Fr. Boaventura Kloppenburg, Nossas superstições. Petrópolis: Vozes, 1959, pp. 34-36.

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“Maria intercedeu por mim mesmo quando eu a desonrava”
Testemunhos

“Maria intercedeu por mim
mesmo quando eu a desonrava”

“Maria intercedeu por mim mesmo quando eu a desonrava”

Ele tinha apenas 8 anos quando, por influência da mãe biológica, tornou-se protestante. Por intercessão de Nossa Senhora Aparecida, no entanto, 20 anos depois, ele voltou para o lugar de onde nunca deveria ter saído: o seio da santa Mãe Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Meu nome é Júnior Luís França Casagrande, sou professor de História, tenho 30 anos, moro em Parobé-RS e venho por meio deste texto contar meu testemunho de conversão à fé católica.

Tive a sorte de nascer em um lar católico. Fui batizado ainda nos primeiros meses de vida em Sapiranga-RS, que também é minha cidade natal. Minha família não era grande conhecedora das verdades da fé; todavia, tenho algumas vagas lembranças da minha infância: tínhamos uma linda imagem de Nossa Senhora Aparecida, à qual lembro que, de vez em quando, prestávamos veneração. Também lembro que, desde pequeno, aprendi com minha mãe as orações do Pai Nosso e da Ave-Maria, além de irmos à Missa nos domingos.

Todavia, como eu disse, não éramos profundos conhecedores das verdades básicas do catolicismo (aliás, problema que infelizmente é cada vez mais comum, dada a pouca instrução que muitos católicos brasileiros têm sobre a sua fé). Ainda na infância, quando eu tinha por volta de 8 anos, abandonamos a Igreja Católica e passamos (eu e minha mãe) a frequentar uma igreja evangélica. Lembro que uma das primeiras coisas que aprendi nessa nova comunidade foi a menosprezar a Virgem Maria. Claro que não foi exatamente com essas palavras. Na verdade, não lembro bem as palavras exatas usadas porque isso ocorreu há mais de 20 anos, mas o sentido era mais ou menos esse. Além, é claro, de toda a “cultura iconoclasta”, houve uma pregação em que o pastor chegou a dizer que atrás de cada imagem tinha um demônio. Como ainda era uma criança, eu absorvia tudo aquilo que estava aprendendo e achava que era a verdade, a doutrina correta.

Aos 14 anos fui “rebatizado” junto com meu pai. Naquela época (há cerca de 15 anos), estávamos frequentando uma das muitas Assembleias de Deus espalhadas pelo país, onde era muito forte a questão dos usos e costumes (os homens não podiam usar bermudas, não podiam ter barba, nem jogar futebol, por exemplo), além de o uso da televisão não ser recomendado também. A essa altura do campeonato eu já havia tido contato de forma muito vaga com outras teologias protestantes, como a adventista, mas permaneci na Assembleia de Deus, ainda que a questão de guardar o sábado ainda me deixasse um pouco confuso.

Conforme os anos foram passando, aos poucos, fomos deixando de lado a questão dos usos e costumes. O que prevalecia e continuou por muito tempo ainda foi o sentimento antirromano que alimentávamos. Para mim, era muito claro que os católicos não estavam salvos, nem eram cristãos, e que precisavam se converter para ser salvos. Aliás, em muitas reuniões de “evangelismo” de que participei, lembro muito bem que eram ensinadas estratégias para “converter os católicos”. Hoje, quando vejo os protestantes fazerem isso, não os julgo pois, afinal, eu também fui um deles e fazia o mesmo! Eu achava que estava fazendo o certo, que estava levando a fé verdadeira aos menos esclarecidos. E a maioria dos que fazem isso, creio que tem boas intenções. Claro que isso não justifica suas atitudes, mas as explica.

Durante esse período, eu estava muito envolvido com as atividades da igreja protestante. Participei de coral, grupo de evangelização, missões, teatro, grupo de oração, por vezes até ajudava a fazer cultos, programas de rádio e pregações. Para mim, a fé deveria ser vivida intensamente e, aliás, preciso admitir que, nesse ponto, na maioria das vezes nossos irmãos protestantes levam vantagem sobre os católicos.

Assim como em outras áreas da vida, na fé também temos altos e baixos, e comigo não foi diferente. Principalmente no final da minha adolescência e início da juventude, minha fé começou a “balançar”. Afinal, eu havia crescido praticamente sem nenhum envolvimento com festas, bebidas etc., o que foi bom, mas em determinado ponto da vida eu tive curiosidade de experimentar essas coisas. Não demorei a perceber, todavia, que aquilo não era para mim. Aquela vida desregrada e de culto aos prazeres não trazia felicidade nem sentido para a minha existência. Então, após participar de um culto na Igreja do Evangelho Quadrangular, decidi voltar a viver aquela fé intensa que eu havia nutrido na maior parte da minha vida. É importante frisar que, pouco tempo antes disso, eu cheguei a “namorar” bem de longe o ateísmo, quando iniciei a faculdade de História.

Mas enfim, como membro da Igreja Quadrangular, não demorou muito para eu voltar a exercer diversas funções e ajudar nos cultos e atividades da igreja. A essa altura do campeonato, meu conhecimento sobre Teologia era mínimo; todavia, em meu íntimo eu já fazia silenciosamente alguns questionamentos religiosos. Um deles era com relação à multiplicidade de denominações evangélicas, com as mais variadas doutrinas e liturgias. Eu havia aprendido, na escola e na faculdade, que o protestantismo surgiu a partir dos protestos do monge Martinho Lutero contra os abusos da Igreja por volta de 1500; porém, eu sempre me perguntava: se Lutero estava certo, por que não o seguimos? Afinal, não é novidade para ninguém que as igrejas evangélicas ensinam coisas muito diferentes do que ensinava o pai da Reforma. Normalmente, justificava-se que as diferenças eram em questões de menor relevância e que éramos unidos no amor de Cristo. Mas, na prática, nem sempre era isso que eu via. Cansei de ver membros e obreiros de uma denominação serem repreendidos por visitarem outra denominação. Além do que, se as diferenças são em questões pouco importantes, por que elas são motivo de divisão? (Sendo que, na oração sacerdotal, Nosso Senhor Jesus Cristo disse que o desejo do Pai era que todos fossem um, como Ele e o Pai eram um.) Assim, diversos outros temas, que eu precisaria de um livro inteiro para tratar, foram aos poucos causando-me inquietação e deixando perguntas sem resposta. A questão do divórcio e de um novo matrimônio, por exemplo, era algo com o qual eu nunca concordei, embora fosse permitido nas igrejas que frequentei. Como fica o texto bíblico segundo o qual aquele que deixa sua mulher e se casa com outra comete adultério?

Nesse meio tempo, eu comecei a assistir (no começo, cheio de preconceito) aos vídeos do Padre Paulo Ricardo. Lembro, como se fosse hoje, que certa feita eu fui assistir a um vídeo a fim de refutá-lo, mas não consegui de jeito nenhum me contrapor àquilo que eu havia escutado. Eu cheguei a rezar, enquanto me dirigia a um culto protestante, pedindo a Deus que me levasse para a fé verdadeira e que, se essa fosse a fé católica, assim acontecesse.

Passado isso, no final de 2017, embora eu ainda não estivesse convencido da fé católica, a incompatibilidade que eu tinha com aquilo que era ensinado na Igreja Quadrangular tornou insustentável minha permanência nela. Nesse ínterim, eu havia conhecido pela internet diversos pregadores calvinistas — Paulo Junior, Augustus Nicodemus, Hernandes Dias Lopes, Sérgio Lima etc. Todavia, mesmo aprendendo muito com esses pregadores, não conseguia “engolir” o calvinismo. Era demais para mim crer que Deus havia predestinado algumas pessoas à salvação e, consequentemente, outras à condenação eterna. Comecei a frequentar então uma comunidade luterana, onde fui muito bem recebido e onde, ironicamente, comecei a me aproximar mais de Roma. Parecia que eu havia encontrado o meu lar! Afinal, estava em uma comunidade litúrgica, séria, sem aquelas campanhas malucas e cultos em forma de show. Além do que, o preparo filosófico e teológico dos ministros era excepcional.

Em 2018 e 2019, busquei intensamente ler e estudar as obras da Patrística, além de diversos tratados teológicos, vida dos santos e catecismos. Li o catecismo de Lutero, li o catecismo da Igreja Católica e, claro, continuei assistindo cada vez mais às aulas do Padre Paulo Ricardo. O preconceito que eu tinha com os católicos aqui já não mais existia. Eu ainda não concordava 100% com a doutrina católica, mas havia chegado à conclusão de que aquilo que antes eu pensava ser a Igreja, na verdade, era só um boneco que me havia sido apresentado. Tanto é que eu já estava até frequentando Missas de vez em quando

Quanto mais eu lia, rezava, assistia a aulas e estudava, mais certeza eu tinha de que Jesus havia fundado uma única Igreja e, depois disso, não demorou muito para eu perceber qual era essa Igreja. Foi entre 2019 e 2020 que doutrinas fundamentais do protestantismo, como a Sola Scriptura e a Sola Fide tornaram-se insustentáveis para mim. Além disso, tinha a confirmação cada vez mais clara das doutrinas católicas sobre a presença real de Cristo na Eucaristia, sobre a confissão auricular, sobre os sete sacramentos, sobre a sucessão apostólica, sobre o primado de Pedro etc.

No começo deste ano, procurei o pároco da comunidade aqui de Parobé para conversarmos. Eu ainda não estava totalmente decidido e achei interessante ter esse diálogo. O padre me recebeu muito bem e em nenhum momento falou mal da igreja protestante. Ele ouviu-me, respondeu algumas dúvidas e disse que as portas estavam sempre abertas quando eu quisesse conversar, e que não iria me pressionar para eu tomar a decisão de ser católico...

Por fim, no dia 31 de maio de 2020, domingo de Pentecostes, fiz minha profissão de fé na Paróquia São João Batista, na qual tive padrinhos solícitos e fui muito bem acolhido pelos padres. Hoje, estou me preparando para receber o sacramento do Crisma e estou cada dia mais feliz e realizado [*].

Antes de encerrar este testemunho, preciso dizer que, em todo esse tempo, fui guiado por Nossa Senhora Aparecida, minha Mãe, minha Rainha, aquela que intercedeu por mim mesmo quando eu orgulhosamente a desonrava. A recitação do Santo Terço em plena Sexta-feira Santa fez cair por terra todo o preconceito que eu ainda tinha com Nossa Senhora e me fez admitir o quão cristocêntrica é esta devoção.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Salve Maria Santíssima!

Notas

[*] — Testemunho enviado ao nosso suporte no dia 16 de dezembro de 2020 e publicado com o consentimento do autor.

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Sofrendo como Jó, mas com a Virgem Maria
Espiritualidade

Sofrendo como Jó,
mas com a Virgem Maria

Sofrendo como Jó, mas com a Virgem Maria

Quem já leu a história de Jó e de seus sofrimentos pode dizer: certamente não é fácil imitá-lo em sua aceitação fiel das provações. Nós, porém, temos uma grande vantagem nessa matéria, que ele não tinha: o consolo de nossa mãe, a Virgem Maria.

Fr. Hugh BarbourTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A vida do homem sobre a terra é uma milícia;
os seus dias são como os dias dum mercenário.
Assim como um escravo (fatigado) suspira pela sombra,
e o mercenário espera o seu salário,
assim também eu tive meses vazios (de consolação),
e contei noites trabalhosas.
Se durmo, digo: Quando me levantarei eu?
(Depois de levantado) espero a tarde,
e sacio-me de dores até à noite.
Os meus dias correm mais rápidos que o cortar da teia pelo tecelão,
consomem-se sem esperança (de voltar).
Lembra-te que a minha vida é um sopro
e que os meus olhos não tornarão a ver a felicidade (perdida) ( 7, 1-4.6-7).

Bem, com essa e uma série de outras leituras no Lecionário [1], parece um pouco estranho responder, na Missa: “Graças a Deus!” Mas é o que fazemos. Como entender essa aclamação? Não estou absolutamente certo do que os compiladores litúrgicos tinham em mente, se é que tinham algo, mas vou oferecer minha própria explicação.

Detalhe de “Jó reprovado por seus amigos”, de James Barry.

Em primeiro lugar, os tremendos sofrimentos de Jó são prefigurações dos sofrimentos de nosso Salvador, Jesus Cristo. Embora fosse inocente, Jó suportou a malícia de Satanás e a incompreensão dos homens, e Deus permitiu tudo isso e o tirou de suas provações com a esperança da ressurreição e da visão beatífica: “Eu sei que o meu Redentor vive, e que surgirá finalmente na terra. Então, revestido da minha pele, na minha própria carne verei o meu Deus. Eu mesmo o verei, os meus olhos o hão-de contemplar, e não os de outro” ( 19, 25-27a). Então, sim, ele “verá a felicidade novamente” e uma felicidade além de qualquer imaginação terrena. Para este evento futuro da história, conhecido por nós, cristãos, que ouvimos a lição que está sendo lida, podemos muito bem responder: “Graças a Deus”.

Mas, considerando o que sabemos sobre nossa vida espiritual em Cristo, também podemos dizer “graças a Deus” ao estado atual de Jó como apresentado na leitura. O mérito de sua árdua paciência é a preparação para seu triunfo final, pelo poder de Deus, sobre todos os ardis de Satanás. Como o Beato Solano Casey, frade capuchinho, gostava de dizer: “Dê graças a Deus antes do tempo”. Há um tremendo mérito nisso; tamanha gratidão, antes de que se dê o fato, é uma obra de grande amor a Deus. E o livro de nos fala de seu amor por Deus, visto que, apesar de todas as provações, ele jamais pecou por murmuração, expressando sua submissão à vontade divina mesmo quando admitiu sinceramente seu grande sofrimento e consternação. Ele não fingiu que não estava sofrendo, nem fez pouco caso de seu sofrimento, pois isso seria contrário à verdade. Manteve o equilíbrio, mesmo no extremo sofrimento.

Ele recebeu o poder de fazer isso pela graça do Redentor vindouro, que estava vivo e viria para levantá-lo e dar-lhe a visão de sua face — Jó estava convencido dessa verdade.

Pois é Cristo, e não Jó, o modelo absoluto. O sofrimento de Jesus superou infinitamente o de seu servo. Nosso Senhor não apenas foi provado por Satanás com os infortúnios da vida, como foi entregue às suas garras, na tentação do deserto — imagine o horror natural de ser fisicamente transportado pelo maligno (cf. Mt 4, 5)! — e sobretudo na Paixão.

S. John Henry Newman afirma isso de forma mais eloquente em um de seus sermões:

Tanto na alma como no corpo, este Santo e Bendito Salvador, o Filho de Deus e Senhor da vida, foi entregue à malícia do grande inimigo de Deus e do homem. No Antigo Testamento, Jó foi entregue a Satanás, mas dentro de limites prescritos: primeiro, o Maligno não tinha permissão para tocar sua pessoa; depois teve, mas não de tirar sua vida. Satanás teve poder para triunfar — ou o que ele pensava ser um triunfo — sobre a vida de Cristo, o qual confessa a seus perseguidores: “Esta é a vossa hora e do poder das trevas” (Lc 22, 53b). Certamente, apenas a ele aplicam-se em plenitude as palavras do Profeta: “Ó vós todos, que passais pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta, a mim que o Senhor feriu no dia de sua ardente cólera” (Lm 1, 12) [2].

“Tudo bem”, você pode dizer a esta altura, “mas eu me sinto como Jó e certamente não sou o Salvador. Seus exemplos são fortes, mas o que eu devo fazer?”

Ouça interiormente esta passagem do mesmo santo, Cardeal Newman, sobre o auxílio de Nossa Senhora em nossas provações e você saberá o que fazer. Nós temos essa vantagem sobre as perfeições de Jó e de Jesus: a esposa de Jó o atormentava e Jesus teve de entregar sua Mãe (não podendo receber consolo dela em sua Paixão); nós, porém, temos Maria toda para nós. Leiamos com atenção e deixemo-nos consolar pela descrição do nosso estado, semelhante ao de Jó, e do poderoso auxílio de Maria:

O que vos fará avançar no caminho estreito, se viveis neste mundo, senão o pensamento e o auxílio de Maria? O que selará vossos sentidos, o que tranquilizará vosso coração, quando vos rodearem visões e sons de perigo, senão Maria? O que vos dará paciência e perseverança, quando estiverdes extenuados com a duração do conflito contra o mal, com a necessidade incessante de precauções, com a inquietação de observá-las, com o tédio de sua repetição, com a tensão sobre vossa mente, com a vossa condição de desamparo e de tristeza, senão uma comunhão amorosa com Maria! Ela vos confortará em vossos desânimos e em vossas fadigas, erguer-vos-á de vossas quedas, recompensar-vos-á por vossos sucessos. Mostrar-vos-á o seu Filho, vosso Deus e vosso tudo. Quando vosso espírito, dentro de vós, estiver ou agitado, ou sem energia, ou deprimido, quando ele perder o equilíbrio, quando estiver inquieto e rebelde, quando estiver cansado do que tem e ansioso pelo que não tem, quando vossos olhos forem aliciados pelo mal e vosso corpo mortal tremer debaixo da sombra do tentador, o que vos trará a vós mesmos, à paz e à saúde, senão o alento sereno da Imaculada [3]?

Demos, pois, graças a Deus e a sua Mãe santíssima!

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