O Natal é aquela época “mágica” do ano em que milhões de protestantes põem esculturas (ou seriam “ídolos”?) da bem-aventurada Virgem Maria, de São José e dos Santos Anjos em lugar de destaque nas suas salas de estar, em seus jardins, parando para contemplá-las e meditar reverentemente sobre elas, de uma maneira dificilmente distinguível da veneração que os católicos prestam às imagens de santos.

Mais alguém acha esse cenário estranho e engraçado, ou é apenas o meu senso atípico e exagerado de ironia falando mais alto?

Antes de mais nada, permitam-me apresentar um pouco de contexto histórico. Um calvinista coerente em tudo com sua doutrina — que segue o exemplo de Calvino e dos primeiros puritanos — poderia ter, na melhor das hipóteses, apenas uma imagem do Menino Jesus em uma manjedoura. Até isso seria questionável, no entanto, já que muitos calvinistas até hoje, seguindo os passos do próprio Calvino, sustentam que mesmo uma imagem de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é essencialmente idolátrica por natureza. João Calvino, o líder protestante mais influente depois de Martinho Lutero, atacava não só isso, mas inclusive os crucifixos:

O Senhor proíbe não apenas que uma imagem sua seja erigida por um escultor, mas proíbe mesmo que qualquer artista a confeccione, porque toda imagem desse tipo é pecaminosa e um insulto à sua majestade. (Institutas da Religião Cristã I, 11, 4)

De que serve erigir nas igrejas tantos crucifixos de madeira e de pedra, de prata e de ouro…? (Ibid. I, 11, 7)

Nós consideramos ilícito dar uma forma visível a Deus, porque o próprio Deus o proibiu, e porque ela não pode ser feita sem, de alguma forma, obscurecer a sua glória. (Ibid. I, 11, 12)

Mesmo assim, qualquer um pode verificar as famosas estátuas de Calvino e de outros três “reformadores” no “Muro da Reforma”, em Genebra, Suíça. O próprio Calvino, se as visse, talvez as acertasse com uma marreta.

No “Muro da Reforma”, em Genebra: Guilherme Farel, João Calvino, Teodoro de Beza e João Knox.

Quando eu era protestante, eu rejeitava completamente a iconoclastia. Se alguém me perguntasse o porquê de montar um presépio, eu diria que se tratava de uma memória e de uma ação de graças a Deus pela grande honra que recebeu Maria (a maior e mais santa das mulheres a passar pela terra) de dar à luz Jesus, o Filho de Deus encarnado. A ideia de uma pessoa adorando um pedaço de gesso ou de madeira como ídolo sempre me pareceu ridícula. Para falar a verdade, eu nunca achei que o que os católicos faziam com os santos fosse uma idolatria de substâncias materiais. Eu teria argumentado, noutras palavras, que aquela objeção específica ao catolicismo, ainda que parecesse plausível, não passava de uma falsidade.

Essa talvez fosse uma indicação, eu suponho, de minha futura conversão à Igreja Católica. Ainda que eu fosse totalmente protestante em algumas coisas — como na questão da sola Scriptura, dos ritos e dos sacramentos —, eu já tinha uma mentalidade relativamente católica em muitas outras.

Hoje, apesar de respeitar meus irmãos protestantes, posso discordar com muita tranquilidade deles naquilo que é previsível, sendo eu um católico agora. Por isso, não me entendam mal. Não estou sugerindo que todo protestante seja hipócrita, irracional ou incoerente só porque montou um presépio dentro de sua casa. Muito pelo contrário, enche-me de satisfação ver protestantes com manjedouras e esculturas de Maria e José. (Não me incomoda em nada, de verdade, e eu chego a admirar a unidade cristã que se manifesta em tudo isso.) Ao mesmo tempo, porém, é preciso reconhecer que se trata de algo internamente inconsistente para muitos (especialmente para aqueles que nos acusam falsamente de adorar “estátuas de barro”), e é disso que estamos falando.

Portanto, a força do argumento aqui apresentado só funciona especificamente contra estes protestantes, a saber, os calvinistas e fundamentalistas, que acusam os católicos por causa de suas imagens e da veneração que lhes prestamos. Seria indiscutivelmente hipócrita ou inconsistente, para dizer o mínimo, que eles colocassem esculturas de Maria em seus presépios de Natal (e olhassem para elas com reverência), dados os pressupostos que eles mesmos adotam.

Para a maioria destes, no entanto, esse costume continuará a ser uma incoerência meio inconsciente, um “resquício de catolicismo” que permanecerá simples e cuidadosamente inquestionado.

Mas, no fim das contas, não faz sentido algum que os protestantes critiquem os católicos por venerarem Maria e os santos através de esculturas, quando a mesma coisa é feita todo Natal por milhões desses mesmos protestantes. Se esculturas de santos são erradas, elas estão erradas e ponto final, e isso significa, também, o fim dos presépios natalinos.

A verdade é que ninguém pode passar por esta vida completamente “livre de imagens”. Se todas as imagens fossem más em si mesmas, então sequer poderíamos assistir a filmes ou a programas de televisão. Não poderíamos ir a museus de arte e tampouco guardar fotografias de nossos entes queridos. Esta é a reductio ad absurdum do fanatismo iconoclasta.

Graças a Deus, praticamente ninguém sustenta uma visão assim. Por isso, penso que os protestantes fariam muito bem em ponderar sobre o significado de seus presépios, e como eles em quase nada diferem da veneração que os católicos prestam às imagens de santos.