CNP
Christo Nihil Praeponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Texto do episódio

Texto do episódio

imprimir

Desemprego, arrocho salarial, inflação, carga tributária sufocante... Se você e sua família estão sofrendo com a atual crise econômica, saiba como enfrentar espiritualmente estas dificuldades, transformando-as numa oportunidade maravilhosa de amar a Deus e colocar o seu coração no devido lugar.

"Haec enim omnes gentes inquirunt – Os pagãos é que vivem procurando todas essas coisas", diz Jesus, sobre as constantes preocupações dos homens com as coisas materiais. "Portanto, não vivais preocupados, dizendo: 'Que vamos comer? Que vamos beber? Como nos vamos vestir?' (...) Vosso Pai que está nos céus sabe que precisais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo" (Mt 6, 31-33).

Esta aula pretende ser uma direção espiritual a todos os brasileiros, afetados pela crise econômica que tem gerado desemprego e arrochado a renda familiar. Mais do que oferecer uma solução para os problemas da economia, a intenção desta aula é ajudar as famílias a enfrentar de modo cristão as dificuldades inerentes a esta vida terrena.

Deve-se começar por dizer que os bens materiais são as maiores fontes de disputas e desavenças entre os homens, já que não podem ser possuídos ao mesmo tempo por muitos. A propriedade de um é simultaneamente a necessidade de outro e, quando se transfere algo a alguém, é inevitável que se perca aquilo que se doa. Os bens espirituais, ao contrário, quanto mais se dão, mais se ganham. Quem dá Deus a outrem, enriquece-se; quem, ao contrário, deseja a condenação eterna a alguém, é o primeiro a perder a graça divina. É o que ensina Santo Tomás de Aquino, quando resume que "os bens espirituais podem ser possuídos ao mesmo tempo por muitos, não, porém, os bens corporais" [1].

Como, porém, é inevitável que o ser humano se entregue ao cuidados das coisas temporais, com as quais ele provê o seu sustento, importa muito que se saiba como lidar saudavelmente com as realidades deste mundo, entendendo o que vem em primeiro lugar e tendo sempre diante dos olhos a imitação de Cristo, o qual foi "pauper in nativitate, pauperior in vita et pauperrimus in cruce – pobre em Seu nascimento, mais pobre em vida e paupérrimo na Cruz" [2].

No Sermão da Montanha, Nosso Senhor ensinou o valor da santa pobreza, quando disse: "Beati pauperes spiritu, quoniam ipsorum est regnum caelorum – Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus" (Mt 5, 3). Na verdade, Ele mesmo, enquanto Deus, é, ao mesmo tempo, riquíssimo e pobre: rico, porque a Ele, que tem em Si todas as riquezas, nada Lhe falta; pobre, porque não possui Ele nada fora de Si de que tenha necessidade. Por isso, é possível repetir com Santa Teresa de Jesus que "sólo Dios basta – só Deus basta" [3].

O primeiro ensinamento de Cristo é, portanto, o primado de Deus. O Verbo sai dos céus e, ao fazer-Se homem, também Se faz pobre. Quem já teve a oportunidade de visitar a Santa Casa de Loreto, onde viveu a família de Nazaré, já atestou que, de fato, "o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça" (Mt 8, 20). Durante toda a sua vida nesta terra, Jesus foi verdadeiramente pobre das coisas materiais. Fê-lo, entre várias razões, "para que tanto maior se mostrasse o esplendor de sua divindade, quanto mais vil parecesse por causa da pobreza" [4], indicando com a sua vida simples aquele "único necessário" ao qual fazia referência em sua pregação (cf. Lc 10, 42). Com Ele, viveu por trinta anos a bem-aventurada Virgem Maria, cuja pobreza de espírito ela mesma descreve em seu Magnificat, quando canta: "A minha alma engrandece o Senhor (...) porque ele olhou para a humildade de sua serva" (Lc 1, 47-48).

Muitos outros santos na história da Igreja encarnaram em sua vida o mesmo ideal de pobreza evangélica do Cristo. Basta olhar para a vida de São Francisco de Assis, o qual viveu a perfecta laetitia da miséria material, ou para a de Santa Teresa de Ávila, que não cansava de lembrar às suas irmãs o grande bem que há em viver a santa pobreza [5].

Nas últimas décadas, a Igreja tem falado muito da importância de socorrer os pobres. Essa preocupação social, que é legítima e encontra amparo no longo desenvolvimento da Doutrina Social da Igreja, é legítima e necessária. Mas a religião cristã, mais do que isso, consiste sobretudo no primado de Deus. Ao lado da pobreza efetiva – que é o desprovimento de bens materiais –, é importante aprender a pobreza afetiva – que consiste em colocar os olhos na verdadeira e única riqueza, a qual Deus preparou para os que O amam, riqueza "que os olhos jamais viram, nem os ouvidos ouviram, nem coração algum jamais pressentiu" (1 Cor 2, 9).

Pelas palavras "De que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria alma?" (Mt 16, 26), Cristo indicava a tristeza de muitos que, possuindo muitos bens nesta vida, não conhecem, no entanto, a amizade de Deus e o caminho da vida eterna, e terminam perdendo as suas almas. A verdadeira riqueza dos cristãos nesta vida são a graça divina, os Sacramentos e a comunhão dos santos.

Quando chamou o jovem rico do Evangelho para segui-Lo (cf. Mt 19, 16-30), Cristo queria justamente fazer de Si a única riqueza daquele rapaz. Reside aqui o grande erro da chamada "teologia da prosperidade", que engana as pessoas prometendo-lhes sucesso e fartura nesta vida, em detrimento da eterna. Nosso Senhor não prometeu nada neste mundo a ninguém. Ao contrário, Ele disse: "Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me" (Lc 9, 23); e, como foi colocado no começo desta aula: "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo" (Mt 6, 33).

Isso não significa que quem tem o dever de sustentar a sua família deva, agora, fazer um voto de pobreza. Ainda assim, aqueles que vivem no mundo, senão fazem expressamente tal voto, devem estar dispostos a viver essa virtude, se a miséria bater à sua porta. Quem quiser ser santo, esteja ou não na vida religiosa, deve viver o espírito dos conselhos evangélicos, ainda que não faça a sua profissão. Quem quiser ser santo deve aprender a não pôr a esperança nos bens materiais, ainda que os possua.

Isso é muito difícil para a sociedade materialista moderna, que acha que a bem-aventurança humana está no dinheiro. De um lado, os capitalistas se movem pela ganância; doutro, os socialistas se articulam pela inveja. No fim, todos morrem abraçados – e apegados – aos seus bens. Nosso Senhor, ao contrário, adverte, no mesmo Sermão da Montanha: "Ninguém pode servir a dois senhores: ou vai odiar o primeiro e amar o outro, ou aderir ao primeiro e desprezar o outro" (Mt 6, 24).

Certa vez, dirigindo-se a Deus, Santo Agostinho disse: "Ama-te menos quem ama fora de ti algo que não ama por tua causa" [6]. Se, portanto, alguns devem possuir, que possuam como recomenda o Apóstolo: "Então, que, doravante, os que têm mulher vivam como se não tivessem; os que choram, como se não chorassem, e os que estão alegres, como se não estivessem alegres; os que fazem compras, como se não estivessem adquirindo coisa alguma, e os que tiram proveito do mundo, como se não aproveitassem. Pois a figura deste mundo passa" (1 Cor 7, 29-31).

Nestes tempos de crise, que os cristãos se lembrem da imitação de Cristo, o qual, de rico que era, tornou-se pobre por causa de nós, para que nos tornássemos ricos por Sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9). Perguntemo-nos, sinceramente: "O meu Deus se fez paupérrimo por amor a mim. Não serei eu capaz de ser pobre por amor a Ele e de transmitir isso aos meus filhos?" Confiemos, por fim, na divina providência. Quando Deus permite alguma cruz em nossa vida, é porque Ele tem uma grande ressurreição por trás.

Referências

  1. Suma Teológica, III, q. 23, a. 1, ad 3.
  2. Tratado da Paixão do Senhor, II, 3 (PL 184, 639). Embora esse escrito conste no volume da Patrologia Latina que contém as obras de São Bernardo de Claraval, o texto em questão não parece ser de sua autoria, mas "de outro autor incerto, pio, douto e elegante, que compilou pequenos sermões" (PL 184, 636).
  3. Poesias, 9.
  4. Suma Teológica, III, q. 40, a. 3.
  5. Caminho de Perfeição, II.
  6. Confissões, X, 29 (PL 32, 796).
Download do Material

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.