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189. Santa Teresinha, Lutero e a Misericórdia

Nesta aula, Padre Paulo Ricardo nos alerta para o esquecimento da doutrina do Concílio Vaticano II de que todos somos chamados à santidade. Não há misericórdia alguma em dizer que os pecadores devem se contentar em passar a vida no egoísmo, rolando na lama do pecado. Isto não é misericórdia! É pusilanimidade e desespero.

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No dia 1.º de outubro, a Igreja Católica celebra a memória litúrgica de Santa Teresinha do Menino Jesus, a humilde carmelita do final do século XIX que, com seus escritos sobre a “infância espiritual”, revigorou a fé dos cristãos na misericórdia de Deus e na certeza de que podemos ser santos. Teresinha entendia a misericórdia como uma grande graça que nos concede um coração capaz de amar, apesar de nossas misérias.

No dia 31 de outubro, por outro lado, os protestantes celebram a “Reforma” (ou melhor, revolta) de Martinho Lutero, que, lutando contra alguns princípios do catolicismo, não só dividiu a Igreja mas jogou uma verdadeira cortina de fumaça sobre o significado da santidade, das virtudes teologais e da misericórdia.

Entender bem a distinção entre as duas posições, entre a de Santa Teresinha e a de Martinho Lutero, é imprescindível para quem busca realmente uma vida conforme o Evangelho.

O desespero de Martinho Lutero. A Igreja Católica sempre defendeu a capacidade de o homem tornar-se santo por meio do auxílio da graça de Deus, motivo pelo qual o Concílio Vaticano II proclamou abertamente que todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade” [2]. Para Lutero e os demais protestantes, contudo, a santidade é algo impossível, e a pregação católica sobre esse tema não passa de vigarice papista. A miséria humana, de acordo com a teologia luterana, é algo irremediável, e só seremos salvos se nossa fé for maior que nossos pecados, de onde provém a famosa sentença: pecca fortiter sed crede fortius, isto é, “peque fortemente, mas creia mais fortemente ainda”. Nessa lógica, o homem está condenado a ser eternamente um crápula!

Lutero era um homem profundamente atormentado por sua consciência. Conforme uma de suas biografias mais bem escritas, o fundador do protestantismo tinha uma visão de Deus bastante severa, que o assustava e fazia ter várias crises de neurose e depressão [3]. Percebendo sua dificuldade para guardar a castidade e ter vida de oração regrada, Lutero caiu no desespero e na amargura, uma vez que não via solução para esses problemas e sentia-se, por conseguinte, esmagado pelo chamado à santidade.

Com efeito, Lutero agarrou-se a um conceito de fé e misericórdia estritamente sentimental. Para o luteranismo, a fé é um sentimento de confiança pelo qual o homem pode se salvar, ainda que tenha cometido os piores pecados. Os efeitos dessa concepção para a espiritualidade cristã foram o rebaixamento das exigências e o desenvolvimento da pusilanimidade como estilo de vida. No entendimento de Lutero, o Sermão da Montanha, por exemplo, não é uma meta, mas uma descrição do que seríamos se não houvéssemos pecado.

Notem bem isto: o objetivo desta análise não é polemizar com os protestantes, mas prevenir-nos do mesmo desespero do qual Lutero foi vítima. Há muitos “Luteros” nos bancos e confessionários de nossas igrejas. O risco é que desistam da santidade, como muitos já o fizeram, e se entreguem a uma vida totalmente mundana e contrária ao chamado de Deus, porque se negar a ser santo significa negar-se a amar. E não é possível que Deus tenha nos feito para o egoísmo.

A “pequena via” de Santa Teresinha. No caminho oposto ao de Lutero, Santa Teresinha do Menino Jesus cria profundamente na possibilidade de o homem ser santo. Mais ainda: defendia abertamente uma santidade dilatada, que aspirasse a ser maior até que a Virgem Maria e todos os outros santos. E não se engane quem for tentado a considerá-la soberba por isso. A pequena Teresa de Lisieux era ao mesmo tempo profundamente humilde e consciente de sua condição miserável diante de Deus. Mas, ao contrário de Lutero, ela soube confiar verdadeiramente nas promessas do Altíssimo, seguindo a sua chamada “pequena via” para santidade, que nada mais é do que amar a Deus nas pequenas obras. Santa Teresinha leva-nos assim para a virtude da magnanimidade, que é a confiança na posse de um bem árduo!

A primeira e única vez que Santa Teresinha falou sobre a “pequena via” foi no Manuscrito B de sua adorável História de uma alma. Falando à Madre Maria Gonzaga, ela explicava: “Quero buscar o meio de ir para o Céu por um pequeno caminho bem reto, bem curto, uma pequena via toda nova” (3r).

Mas no que consiste, então, essa “pequena via” que a tornou tão grande?

É preciso distinguir duas realidades bem concretas que formam como que um arco de tensão muito forte:

1. Consciência profunda da própria miséria. Santa Teresinha não era minimamente soberba ou orgulhosa. Ao contrário, ela via claramente a sua incapacidade de santificar-se por suas próprias forças: “Sempre constatei quando me comparei aos santos que há entre eles e mim a mesma diferença que existe entre uma montanha cujo cume se perde nos céus e o grão de areia obscuro pisado debaixo dos pés dos passantes” (Manuscrito B, 3r). Mas, em vez de desanimar, Teresinha continuou a buscar a perfeição cristã, porque, como sabia perfeitamente, ser santo consiste em amar a Deus sobre todas as coisas.

As pessoas têm medo da santidade porque não entendem que querer ser santo é querer amar sem medidas. Como verdadeiros cristãos, devemos fugir da mentalidade mundana e começar a amar mesmo com nossas dificuldades. Por isso, não é pretensão nenhuma querer ser mais santo que todos os outros santos, porque ser santo significa devolver a Deus todo o amor que Ele nos deu.

2. A humildade. Apesar de sua pequenez diante dos grandes santos, Teresinha entendia que Deus não podia lhe inspirar desejos irrealizáveis. Assim, ela confiou-se inteiramente a Deus e, para conseguir corresponder ao seu chamado, encontrou um elevador para fazê-la ascender até Jesus, pois, como mesmo dizia, era  “demasiado pequena para subir a rude escada da perfeição” (Manuscrito B, 3r). Notem que Teresinha, ao contrário de Lutero, não se desesperou pelas suas misérias, mas, antes, teve fé verdadeira e, num ato de extrema humildade, fez-se como um pequeno passarinho que voa nas asas de uma águia:

O passarinho quer voar para esse Sol brilhante que encanta seus olhos, quer imitar as águias, suas irmãs, que vê chegar ao lar divino da Trindade Santíssima... ai! o que pode fazer é bater as asinhas, voar, porém, não está em seu pequeno alcance! O que será dele? Morrer de tristeza por se ver tão impotente?... Oh não! o passarinho nem vai ficar aflito. Com total abandono, quer ficar olhando seu divino Sol; nada poderá assustá-lo, nem o vento nem a chuva, e se nuvens escuras vierem esconder o Astro de Amor o passarinho não trocará de lugar. Sabe que, além das nuvens, seu Sol continua brilhando, que seu brilho não cessará. Às vezes, o coração do passarinho é vítima de tempestade, parece não acreditar que existem outras coisas além das nuvens que o envolvem. Esse é o momento da felicidade perfeita para o pobre serzinho frágil. Que felicidade ficar aí, assim mesmo; fixar a luz invisível que escapa à sua fé!!!... (Manuscrito C, 5r).

É curioso notar como, sem ter lido a Suma Teológica ou qualquer outro livro de Santo Tomás, a pequena Teresinha do Menino Jesus, comprovando o seu título de doutora da Igreja, chegou a essa conclusão sobre os desejos de Deus, ao passo que Lutero, cheio de sua teologia, caiu no desespero. Em sua Suma Teológica, Santo Tomás diz o seguinte:

A magnanimidade se refere sobretudo à esperança de um bem árduo. Por outro lado, a confiança implica uma esperança muito forte, proveniente de alguma consideração que justifica uma espécie de certeza que se vai conseguir o bem desejado. Sendo assim, a confiança tem algo a ver com a magnanimidade. (II-II, q. 129, a. 6)

Teresinha sabia da dificuldade em que implica o desejo de ser santo, mas não desistiu desse “bem árduo” porque nutria em seu coração a “esperança muito forte” de que poderia amar verdadeiramente, esperança essa que vinha de sua fé absoluta na vontade de Deus. Pela fé, Santa Teresinha chegou à esperança do verdadeiro amor, completando o arco das três virtudes teologais, que juntas formam a vida de santidade.

Na prática, nós devemos imitar os passos de Santa Teresinha, seguindo pela mesma estrada da “pequena via” que, como já dissemos, é a via do amor nas pequenas obras diárias. Essa “pequena via”, na verdade, não é invenção da santa carmelita, mas da própria Virgem Maria que, mesmo sendo a grande Mãe de Deus, passou completamente despercebida durante toda a sua vida terrestre. Humilhou-se na Terra para ser exaltada no Céu. Como as coisas seriam diferentes hoje se Lutero tivesse seguido esse exemplo.

Deus quer a nossa santidade e isso, sem dúvida, basta para que iniciemos nossa caminhada rumo à perfeição cristã!

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