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Christo Nihil Praeponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
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O tema desta aula pode parecer surpreendente, mas é de suma importância para quem deseja uma vida santa.

Apesar de o Concílio Vaticano II ter proclamado que “todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade” (Lumen Gentium, n. 39), poucos são os que conseguem atingir esse objetivo, e a explicação para esse triste fenômeno das “almas retardatárias” — isto é, as almas que não progridem no amor a Deus — está no “mundanismo”. Entre o santo e o pecador existe a realidade do mundano, que é aquela pessoa aparentemente devota, mas que ainda sonha e se encanta com as glórias do mundo. Essas pessoas são como o jovem rico que, aproximando-se de Jesus, deseja entrar no Céu sem, no entanto, desfazer-se de seus bens temporais (cf. Mt 19, 16-30).

Esse tipo de atitude ocorre, sobretudo, por conta de um mau entendimento do que significa ser santo. Para algumas pessoas, a santidade consiste apenas em deixar de pecar, em cumprir os mandamentos da lei divina, como cumpria o jovem rico. Mas abandonar o pecado — o que, atenção, já é muito louvável — ainda não é o bastante para que a alma seja verdadeiramente santificada. A santidade consiste na prática constante e generosa do amor.

Notem a realidade do matrimônio: se uma esposa reclama de seu marido, dizendo-lhe que a trata com frieza, que ridículo seria se esse mesmo marido se justificasse por meio das suas obrigações, como se estivesse tratando apenas de um negócio. É evidente que um marido assim não ama a sua esposa, porque o amor não se resume a algumas tarefas próprias de cada estado de vida, mas consiste na generosidade, em fazer principalmente aquilo ao qual você não está obrigado.

Uma pessoa que simplesmente não peca é uma pessoa que não faz nada: não mata, não trai, não acusa, não cobiça as coisas alheias etc. O cristianismo, porém, não é a religião das regrinhas, mas a religião do amor. “Ama e faz o que quiseres”, diz Santo Agostinho. Quem ama de verdade está livre e, por isso, não necessita de regras de comportamento. Ninguém que ame a própria mãe precisará de uma regra para não a matar. A lei só existe para aqueles que não amam. A santidade, portanto, consiste em superar a lógica das proibições para crescer na virtude da caridade, como indica Santa Teresa d’Ávila em seu Castelo Interior.

Vejamos, pois, o que essa grande doutora da Igreja pode nos ensinar!

O livro das Moradas foi escrito por Santa Teresa a pedido de seu diretor espiritual, quando ela já se encontrava na fase mais progredida da vida de oração. A santa já havia escrito outras duas obras importantes — o Livro da Vida e o Caminho de Perfeição — e, meditando sobre que assunto deveria tratar dessa vez, teve uma visão divina, que mostrava a alma humana como uma espécie de castelo ou jardim onde Deus habita: “Se refletirmos bem, irmãs, veremos que a alma do justo é nada menos que um paraíso, onde o Senhor, como Ele mesmo diz, acha suas delícias” (Castelo Interior, I Moradas, I, 1).

Santa Teresa explica que a alma em estado de graça é como um castelo iluminado onde a pessoa pode enxergar a presença de Jesus. Se estiver em pecado mortal, contudo, o castelo perde a luz e a presença de Cristo é obscurecida: “Se todos entendessem o que seja, nem um só homem seria capaz de pecar, ainda que tivesse de sujeitar-se aos maiores tormentos para fugir das ocasiões” (I Moradas, II, 2).

As pessoas que se confessam e decidem abandonar o pecado conseguem entrar no castelo. Se progredirem na vida de piedade, então, terão acesso aos aposentos do Rei. O castelo interior, diz Santa Teresa, “tem muitos aposentos ou moradas” e “no centro, no meio de todas está a principal, onde passam as coisas mais secretas entre Deus e a alma” (I Moradas, I, 3). A maior parte das pessoas, porém, não consegue passar das primeiras moradas porque não se determina a ter vida de oração séria e, em vez de prestar atenção à luz interior que emana do centro de sua alma, prefere dar as costas a Jesus e olhar para a janela que dá acesso às coisas do mundo. Essas pessoas “acabam entrando nas primeiras salas de baixo” e “juntamente com elas entram as sevandijas, que nem lhes deixam ver a beleza do castelo, nem lhes dão sossego” (I Moradas, I, 8).

Os mundanos são exatamente assim. Eles se confessam, entram no castelo, mas não enxergam a sua beleza, porque preferem abrir a janela da alma para se entreterem com a luz do mundo. O mundano deseja, na verdade, a vida dos pecadores, lamentando-se por não poder fazer as mesmas coisas que eles fazem. E, por causa desses desejos imundos, não consegue acessar a alma nem muito menos o amor de Deus. Os mundanos são incapazes de amar porque ainda estão presos aos seus impulsos cerebrais.

De acordo com a antropologia tomista, o homem é um composto de corpo e alma (cf. Suma Teológica, I, q. 77, a. 2). O amor de caridade é uma realidade própria da alma humana, de sorte que nenhum cachorro, p. ex., jamais poderá fazer a experiência do verdadeiro amor. Os animais são movidos pelos estímulos cerebrais; só conhecem as sensações. O homem, por sua vez, é capaz de ir além e fazer a experiência da verdade e do amor: o ser humano é capaz de não satisfazer seus instintos carnais por um bem maior. Mais ainda: o homem é a única criatura capaz de sofrer pelo bem de outra pessoa, como no caso da mãe que, mesmo exausta, se levanta de madrugada para amamentar seu filho. O cérebro recomenda-lhe o descanso, a alma recomenda-lhe o amor.

A pessoa mundana, por outro lado, costuma dar atenção mais aos estímulos de seu cérebro do que aos de sua alma. Ela ouve uma pregação de um santo e sente-se edificada com aquilo. Essa experiência logo cessa, porém, quando lhe sobrevêm as sensações cerebrais: a pessoa bonita que passa, a conta bancária que precisa ser paga, aquele problema que deve ser resolvido… E, assim, o mundano vira as costas para a luz de Cristo e volta seu olhar para o mundo externo, para suas veleidades e belezas efêmeras. Enfim, os mundanos são reféns daquelas três concupiscências contra as quais São João nos adverte: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida (cf. 1 Jo 2, 16).

A “concupiscência da carne” está relacionada à inclinação para a preservação da vida: a comida, a bebida, o sexo etc., coisas que, em si mesmas, não são ruins, mas que, vividas desordenadamente, nos levam à escravidão do pecado e à busca do prazer pelo prazer. Os animais, p. ex., são completamente dominados por essa inclinação. Se um cachorro sentir o cheiro de uma fêmea, ele vai querer cobri-la ainda que seja sua mãe, irmã ou tia. Nenhum cachorro tem família. O homem, por outro lado, pode formar família porque é capaz de contrariar os estímulos de seu cérebro e dizer: “Poderia ser prazeroso ficar com aquela mulher, mas serei fiel à minha esposa e aos meus filhos”.

A “concupiscência dos olhos” está relacionada à inclinação para o conhecimento. Por causa do pecado original, no entanto, essa inclinação pode se degenerar em curiositas, ou seja, em curiosidade vã: a mulher que passa o dia inteiro em um shopping apenas para ver as vitrines; o homem que fica mudando de canal sem se concentrar em um programa sequer, e assim por diante. Essa concupiscência é a principal fonte de lucros para os marqueteiros. Com suas propagandas apelativas, eles criam falsas necessidades e condicionam a vida familiar ao desejo por futilidades, de modo que muitas famílias se arruínam por conta da busca desenfreada pelo bem-estar.

Finalmente, a “soberba da vida” é a atitude de colocar-se no lugar de Deus, como faz a criança birrenta para conquistar a atenção de todos à sua volta. O mundano coloca-se no centro do mundo, a fim de ser exaltado pelas multidões. Não é preciso muito esforço para concluir que uma pessoa assim jamais poderá ser santa e amar de verdade.

Ora, amar significa estar disposto a sacrificar-se pelo bem dos outros. Se você nunca se sacrificou por ninguém, você também nunca amou. O remédio para o mundanismo, portanto, consiste em uma luta decidida — ou seja, com determinada determinação — pelo amor a Deus e ao próximo. E isso exige meditação sobre a Paixão de Cristo, exige recolhimento interior, exige o fechamento das janelas que enchem nossos corações de concupiscência. Atenção: uma pessoa que passa o dia inteiro assistindo a filmes seculares, ainda que não sejam pornográficos, jamais conseguirá olhar para a luz interior de Cristo. Como pensar em Jesus depois de duas horas e meia por dia assistindo a uma coisa cuja finalidade, na maioria dos casos, é a glória humana? De fato, é preciso um jejum dos olhos para entrar no castelo e conseguir concentrar-se no seu interior.

Há quem diga que essa nossa pregação é muito dura e radical. Mas não se trata de radicalismo, trata-se de amor. Se Deus existe, minha vida é para Ele. E a única maneira de viver para Ele é a maneira dos santos: com vida séria de oração, com vida séria de apostolado, com desejo grande de amar e salvar as almas. Esse é o único caminho!

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