92. Idolatria e sexo desordenado

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Sexualidade e espiritualidade: parecem dois mundos paralelos condenados a não se encontrarem. Mas será que é assim mesmo?

Neste episódio do programa "Ao vivo com Padre Paulo Ricardo", vamos estudar como a nossa vida espiritual interfere no campo sexual. Como posso colocar em ordem minha vida interior, e de que modo isto pode afetar a área da sexualidade?


Por conta do crescente permissivismo dos costumes, sexualidade e espiritualidade parecem dois mundos paralelos, condenados a não se encontrarem. Mas, na verdade, só o reconhecimento da dimensão espiritual humana pode explicar genuinamente o drama que se tem visto no mundo, principalmente no campo sexual.

A esse propósito, são proféticas as palavras de São Paulo, que sublinham:

“o caráter dramático daquilo que se realiza no mundo. Como os homens, por sua culpa, se esqueceram de Deus, 'por isso Deus os abandonou à impureza segundo os desejos do seu coração' (Rm 1, 24), da qual provém ainda toda a desordem moral, que deforma tanto a vida sexual (ib. 1, 24-27) como o funcionamento da vida social e econômica (ib. 1, 29-32) e até cultural; de fato, esses, 'conquanto conheçam bem o decreto de Deus – de que são dignos de morte os que tais coisas praticam – não só as cometem, como também aprovam os que as praticam' (ib 1, 32)." [1]

O século XX é um retrato fidelíssimo do que São Paulo descreve em Rm 1, 18ss. Começou-se em uma filosofia abertamente ateísta, com Friedrich Nietzsche proclamando a “morte de Deus". Tirado, então, o centro de gravidade do ser humano, tudo começou a flutuar desordenadamente, no interior do homem, na família e no seio da sociedade. Este é, incrivelmente, o mesmo itinerário traçado pelo Apóstolo, ainda no século I da era cristã, mostrando que o abandono de Deus e a idolatria geram sempre frutos amargos para as diversas formas de convivência humana.

“Ao mesmo tempo revela-se, lá do céu, a ira de Deus contra toda impiedade e injustiça humana, daqueles que por sua injustiça reprimem a verdade" (v. 18).

Esta “ira de Deus" não é nada mais do que Deus retirando a sua mão sobre a humanidade, respeitando a sua liberdade e deixando-a entregue às próprias decisões. É o mesmo que faz o pai da parábola do filho pródigo, que, ao ver o filho mais novo partir para longe, nada faz senão dar-lhe a sua parte na herança e deixá-lo partir [2].

“Pois o que de Deus se pode conhecer é a eles manifesto, já que Deus mesmo lhes deu esse conhecimento. De fato, as perfeições invisíveis de Deus – não somente seu poder eterno, mas também a sua eterna divindade – são percebidas pelo intelecto, através de suas obras, desde a criação do mundo" (v. 19-20a).

Os filósofos pré-cristãos que, em sua busca pela Verdade, chegaram às perfeições de Deus, são a prova de que “Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas" [3], como ensina o Concílio Vaticano I.

“Portanto, eles não têm desculpa: apesar de conhecerem a Deus, não o glorificaram como Deus nem lhe deram graças. Pelo contrário, perderam-se em seus pensamentos fúteis, e seu coração insensato se obscureceu. Alardeando sabedoria, tornaram-se tolos" (v. 20b-22).

Diante das coisas criadas, que apontam para a existência do Criador, não há como se desculpar. Por isso, a negação de Deus vem sempre acompanhada por um coração obscurecido. O exemplo patético dos iluministas – que relegaram a Idade Média às “trevas" e cultuaram a “deusa Razão" durante a Revolução Francesa – mostra como é perigoso separar a fé e a razão, as quais “constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade" [4].

“Trocaram a glória do Deus incorruptível por uma imagem de seres corruptíveis, como: homens, pássaros, quadrúpedes, répteis. Por isso, Deus os entregou, dominados pelas paixões de seus corações, a tal impureza que eles desonram seus próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela falsidade, cultuando e servindo a criatura em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém." (v. 23-25).

Depois do abandono do Altíssimo, o homem fatalmente cai na adoração de falsos deuses. Importa destacar que, nesse sentido, o ateísmo não existe, mas é apenas um nome bonito para o velho pecado da idolatria: afastando-se de Deus, as pessoas apenas escolhem outras coisas a que servir, como o dinheiro, o prazer, o poder, o sexo etc.

“Por tudo isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas: tanto as mulheres substituíram a relação natural por uma relação antinatural" (v. 26).

Esse trecho, no original grego, deve ser traduzido por “as mulheres deles". Alguns defendem que São Paulo se refere, aqui, a relações homossexuais entre mulheres, mas, na verdade, parece mais aceitável que se trate de uma condenação à relação antinatural entre homem e mulher, tão comum hoje em dia. Ou seja, os homens e mulheres abandonaram o sexo para procriar e constituir uma família, transformando-o em mero “lazer" e contrariando objetivamente a vontade do Criador. Por isso, toda pessoa que pratica o sexo antinatural – seja na masturbação, na bestialidade, na sodomia ou mesmo no sexo entre homem e mulher, mas fechado à geração da vida [5] – de alguma forma cerra seus punhos contra os céus e procura tomar o lugar de Deus.

No versículo seguinte, São Paulo se refere explicitamente às relações homossexuais: “como também os homens abandonaram a relação sexual com a mulher e arderam de paixão uns pelos outros, praticando a torpeza homem com homem e recebendo em si mesmos a devida paga de seus desvios" (v. 27). Ou seja, a Bíblia não condena apenas as “paixões vergonhosas" entre os homossexuais, como também o relacionamento entre homem e mulher, quando eles se fecham à transmissão da vida. Não sem razão o Papa Paulo VI insistia tanto que:

“Pela sua estrutura íntima, o ato conjugal, ao mesmo tempo que une profundamente os esposos, torna-os aptos para a geração de novas vidas, segundo leis inscritas no próprio ser do homem e da mulher. Salvaguardando estes dois aspectos essenciais, unitivo e procriador, o ato conjugal conserva integralmente o sentido de amor mútuo e verdadeiro e a sua ordenação para a altíssima vocação do homem para a paternidade." [6]

Então, essa dimensão procriadora está inscrita na própria “estrutura íntima" do ato conjugal e não pode ser separada de seu aspecto unitivo, sob pena de gerar grande desordem também em sociedade, como escreve o Apóstolo: “E, porque não aprovaram alcançar a Deus pelo conhecimento, Deus os entregou ao seu reprovado modo de pensar. Praticaram então todo tipo de torpeza: cheios de injustiça, iniquidade, avareza, malvadez, inveja, homicídio, rixa, astúcia, perversidade; intrigantes, difamadores, abominadores de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, tramadores de maldades, rebeldes aos pais, insensatos, traidores, sem afeição, sem compaixão. E, apesar de conhecerem o juízo de Deus que declara dignos de morte os autores de tais ações, não somente as praticam, mas ainda aprovam os que as praticam" (v. 28-32).

Diante desse quadro traçado por São Paulo, é importante lutar com coragem para viver a sexualidade de modo saudável e de acordo com os planos divinos. Muitas pessoas que vivem desregradamente a própria sexualidade querem mudar de vida, mas não começam pelo lugar certo. Em primeiro lugar, é preciso deixar que Deus seja realmente Deus em nossa vida. Se Ele existe, isso significa que não nos pertencemos e que devemos obediência à ordem que Ele mesmo colocou nas criaturas. Importa também perguntar sinceramente quem somos nós. Todo homem que possui um corpo maduro para procriar deve ter um coração de pai. Um pai é um homem que dá a vida, não somente no sentido de transmiti-la, mas também de gastar-se e derramar o seu sangue, estando disposto a um verdadeiro martírio.

A esse propósito, escreve Orígenes:

“Nós sabemos que, uma vez que fomos persuadidos por Jesus a abandonar os ídolos e a impiedade de adorar muito deuses, o Inimigo não pode mais nos convencer de cometer idolatria, embora ele queira nos forçar. É por isto que ele dá, àqueles sobre os quais ele tem autoridade, o poder para fazerem estas coisas, e assim, dos que são tentados, ele ou fará mártires ou idólatras. Pois ainda hoje ele continua repetindo: 'eu te darei tudo isto, se prostrado me adorares' (Mt 4, 9)."

“Por isto, tomemos muito cuidado para não cultivarmos os ídolos e nos sujeitarmos aos demônios (cf. Sl 96, 5; 1 Cro 16, 26), pois os ídolos dos gentios são demônios. Ah, em que estado se encontra quem abandona o jugo suave e o fardo leve de Cristo (Mt 11, 30) para se submeter mais uma vez ao jugo dos demônios e carregar o fardo pesadíssimo do pecado! Como poderia isto acontecer, uma vez que conhecemos que o coração dos que adoram ídolos são cinzas (cf. Sab 15, 10) e que sua vida é mais sem valor que o barro (cf. Jer 16, 19) e depois de dizermos, 'nossos pais possuíam ídolos falsos, e nenhum deles pode fazer chover?' (Jer 14, 22)." [7]

Vel martyres eos qui tentatur, efficiat, vel idolatras – dos que são tentados, ele ou fará mártires ou idólatras". Diante de uma tentação, ou saímos mártires ou idólatras, ou nos gastamos e amamos as pessoas ou nos prostramos diante de deuses falsos e usamos os outros. O contrário do amor não é apenas odiar as pessoas, mas também usá-las e jogá-las fora – como acontece no sexo contra a natureza. Para vencer essa batalha, é preciso uma aliança de sangue que diga: “Eu derramo o meu sangue, mas não ofendo a Deus", pois é só amando de verdade a Nosso Senhor que poderemos amar o nosso próximo.

Recomendações

Referências

  1. Papa João Paulo II, Audiência Geral (17 de dezembro de 1980), nota de rodapé 3. Cf. Teologia do Corpo: o amor humano no plano divino. Campinas: Ecclesiae, 2014, p. 230.
  2. Cf. Lc 15, 12-13
  3. Concílio Vaticano I, Constituição dogmática Dei Filius sobre a fé católica, 24 de abril de 1870: DS 3004
  4. Fides et Ratio, 1
  5. Cf. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 154, a. 11
  6. Humanae Vitae, 12
  7. Exhortatio ad Martyrium, 32 (PG 11, 603B)

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