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184. A Quaresma de São Miguel e o Apocalipse

O Apocalipse é o roteiro teológico da Quaresma de S. Miguel: uma mulher vestida de sol — Maria assunta aos céus — é o início de tudo; a fuga para o deserto da penitência, junto com a luta de Miguel e seus anjos, é o itinerário; e a vitória sobre o dragão é a meta final.

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A Quaresma de São Miguel surgiu ainda na Idade Média, por inspiração de São Francisco de Assis, que, achando muito longa a distância entre o Advento e a Quaresma, os dois períodos litúrgicos tradicionalmente dedicados à penitência e ao jejum, decidiu praticar um novo tempo de mortificações em honra ao príncipe da milícia celeste, São Miguel Arcanjo. Desde então, essa nova quaresma tornou-se muito popular, embora não esteja prevista no calendário litúrgico da Igreja.

A Quaresma de São Miguel começa no dia 15 de agosto, solenidade da Assunção, e termina no dia 29 de setembro, festa dos Santos Arcanjos, completando, assim, um ciclo de 40 dias de penitência, sem contar os domingos. É interessante notar que o relato do capítulo 12 do livro do Apocalipse faz uma descrição exata da Quaresma de São Miguel, apresentando, em primeiro lugar, a “Mulher vestida de Sol” e, por último, a vitória de São Miguel contra o dragão.

Essa narrativa contém uma lição espiritual para nós. De fato, a Mulher do Apocalipse é a Virgem Maria. Contudo, o texto também pode se referir à Igreja, da qual Maria é “mãe e modelo”, uma vez que Deus deseja para nós o mesmo que está descrito no capítulo 12 do Apocalipse, ou seja, que um dia estejamos no Céu, revestidos de Sol. E isso só será possível se imitarmos e vivermos a humildade de Nossa Senhora.

Infelizmente, algumas pessoas vivem a Quaresma de São Miguel como uma superstição; acham que o simples fato de acender uma vela para São Miguel é o suficiente para converter, por exemplo, a alma de seus familiares. Essas pessoas se esquecem da liberdade humana e que Deus jamais irá intervir no coração de alguém sem que esse mesmo alguém permita. Na verdade, a infalibilidade da Quaresma de São Miguel depende da disposição interior da pessoa que a está rezando, já que essa pessoa é a primeira que deve receber as graças dessa devoção.

O segredo da Quaresma de S. Miguel é, por conseguinte, a humildade; não é à toa que ela se inicia com a assunção de Nossa Senhora e se encerra com a festa de S. Miguel, as duas criaturas que, na ordem da graça, deram um grande testemunho de humildade diante de Deus. De um lado, temos a Virgem Maria, cujo coração, obviamente, só não foi mais humilde que o de Nosso Senhor Jesus Cristo, e do outro, o anjo que, mesmo não sendo o maior do coro angélico, derrotou Lúcifer, dizendo: Mîkhā'ēl, que quer dizer Quem como Deus?”

Maria e Miguel mostram que o caminho da perfeição deve ser trilhado pela via da humildade, de modo que o homem precisa abaixar sua cabeça diante da vontade de Deus, aceitando os próprios limites, a fim de não se tornar “um povo de dura cerviz”, como narra a Escritura. Ambos venceram o dragão pelo sangue do Cordeiro porque se dispuseram a cumprir tudo o que Ele lhes dissera. Do mesmo modo, nós precisamos recorrer ao auxílio divino, à intercessão dos anjos, de Nossa Senhora e do sangue do Cordeiro, caso queiramos vencer a batalha contra o diabo.

Nesse sentido, uma ótima sugestão para o tempo da Quaresma de São Miguel é a oração “Augusta Rainha do Céus”, revelada pela Virgem Maria ao Bem-Aventurado Padre Luís-Eduardo Cestac. Afinal, a Quaresma de São Miguel deve ser para nós uma ocasião em que vivamos mais intensamente nosso relacionamento com os anjos da guarda, na luta incansável pela santidade.

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