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Muitas pessoas têm medo de ler o livro do Apocalipse por conta de interpretações milenaristas e esotéricas. É preciso dizer, em primeiro lugar, que “toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça” (2 Tm 3, 16). Depois, o livro do Apocalipse, assim como toda a Bíblia, deve ser interpretado à luz do Magistério da Igreja, para que seu sentido e finalidade não se percam. Nenhum fiel pode, por si mesmo, fazer um livre exame das Escrituras, e toda tentativa semelhante a esta apenas causou confusão e divisão. A Bíblia é um livro católico por natureza e direito. Portanto, somente a Igreja Católica tem a faculdade de interpretá-la corretamente.

Existem dois tipos de leitura equivocada do Apocalipse. A primeira delas costuma buscar sua validade não nas fontes da Tradição e do Magistério, mas no chamado método histórico-crítico. Os partidários desse método tendem a limitar as profecias apocalípticas ao contexto do Império Romano, como se elas nada tivessem para ensinar ou advertir sobre os tempos modernos. Grosso modo, o Apocalipse seria apenas um livro alegórico para os cristãos do primeiro século e nada mais.

No extremo oposto encontram-se aqueles que fazem do Apocalipse um livro de previsões futurísticas, com data e hora marcada para o mundo acabar. Mas a finalidade do livro do Apocalipse não é “satisfazer a curiosidade da razão, que deseja rasgar o véu que esconde o futuro”, mas vir “em ajuda da cegueira da vontade e do pensamento, ilustrando a vontade de Deus enquanto exigência e indicação para o presente” (Congregação para a Doutrina da Fé, Mensagem de Fátima, 13 de maio de 2000). Na verdade, trata-se de um texto profético, não esotérico. Com suas advertências e alegorias, São João pretendia apresentar o sentido e a finalidade da existência humana: o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Todavia, o dia e a hora da chegada desse Reino é coisa que “ninguém o sabe, nem mesmo os anjos do céu, mas somente o Pai” (Mt 24, 36).

Com efeito, que tipo de leitura podemos fazer de fenômenos como a lua de sangue, que surpreendeu o mundo todo nas últimas semanas, e ao qual o livro do Apocalipse de São João faz referência?

Vários santos e teólogos eminentes já comentaram as profecias do livro do Apocalipse, em especial, o famoso Ricardo de São Vítor. De forma geral, esses comentaristas explicam que não se trata de um livro com história linear em 20 capítulos. Ao contrário, as cartas para as Igrejas da Ásia — cujos ensinamentos valem para nossa época — falam, sete vezes, do início e do fim do mundo, em um retrato que abrange severas perturbações, castigos e que termina com o triunfo do Cordeiro sobre a Besta. No final, Deus salva os justos da mão assassina da grande fera. E a cada novo relato, São João acrescenta detalhes que a visão anterior não havia revelado.

A lua de sangue, por sua vez, faz parte da segunda visão: “A lua tornou-se toda vermelha como sangue” (Ap 6, 12). Em resumo, ela representa a paixão pela qual a Igreja deve passar antes do triunfo definitivo de Deus sobre o mal. A Esposa de Cristo tem de seguir os seus passos, deve sofrer, morrer e ressuscitar. Neste sentido, os “abalos cósmicos”, as grandes convulsões históricas, todas as tribulações da Barca de Pedro nada mais são que a preparação para o grande encontro entre a Esposa e o Esposo. E em tudo isso existe uma “mão” providencial que se aproveita do mal para dele tirar um bem.

A lua de sangue é, em termos científicos, apenas um fenômeno astronômico. Mas podemos aproveitá-la para fazer uma leitura espiritual da história. Na segunda visão do livro do Apocalipse (c. 4), tudo começa com a grande liturgia, celebrada pelo próprio Deus que, sentado num trono, governa o mundo e lhe envia um salvador e redentor: Jesus Cristo. Ao redor de Deus e diante de seu trono estão os “anciãos vestidos de vestes brancas” e “um mar límpido como cristal” (v. 3-6), que é entendido pelos intérpretes como a Igreja. Os quatro animais são os quatro evangelistas.

No capítulo 5, São João fala do livro que ninguém consegue abrir, e chora por isso. Trata-se de um livro que foi escrito “por dentro e por fora” (v. 1). A parte de “fora” corresponde ao sentido literal e histórico, ao passo que a parte de “dentro” diz respeito ao sentido alegórico, isto é, aquela “compreensão mais profunda dos acontecimentos”, que reconhece “o seu significado em Cristo” (Catecismo, n. 117). Por isso, Ele é a chave, é o único que pode abri-lo.

No capítulo 6, temos a visão dos sete selos e dos cavalos. O “cavalo branco” é Jesus ressuscitado. O “cavalo vermelho” representa a perseguição dos imperadores e o derramamento do sangue dos mártires. Logo em seguida aparece o “cavalo preto”, que prefigura o tempo das heresias e do obscurecimento da fé. Enfim, o “cavalo amarelo” é uma alusão aos cristãos hipócritas, os falsos convertidos, que vivem a duplicidade, acendendo uma vela para Deus e outra para o Diabo. Na abertura do quinto selo, os “homens imolados por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários” clamam em alta voz: “Até quando tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer justiça e sem vingar o nosso sangue contra os habitantes da terra?” (v. 10). E Deus lhes pede paciência até que se complete “o número dos companheiros de serviço e irmãos que estavam com eles para serem mortos” (v. 11). É o tempo do Anticristo.

De fato, não podemos afirmar que, em nossa época, o Anticristo já vive e trabalha contra a Igreja. Por outro lado, os textos do Apocalipse dirigem-nos à Paixão do Senhor, da qual podemos haurir verdadeira esperança para suportar as tribulações hodiernas. Assistimos perplexos aos poderes que se organizam rapidamente contra o cristianismo, escurecendo o Céu e afugentando com violência qualquer oposição dos “filhos da luz”. As coisas ainda devem piorar com a ascensão de um sistema maligno, que deve apagar a luz de Cristo do coração das crianças, por meio de uma educação para a mentira.

A lua de sangue também representa as cruzes que vivemos no dia a dia. Algo precisa morrer dentro de nós para vir a ressurreição. Os homens necessitam da hypomoné, ou seja, daquela santa paciência ou perseverança para fazerem tudo “sem murmurar, nem questionar”, a fim de se tornarem “irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus sem defeito no meio duma geração má e perversa”, no meio da qual serão como “astros no mundo” (Fl 2, 14-15). Quem não tiver essa perseverança deverá cair como as estrelas varridas pela cauda do dragão (Ap 12, 4). Enfim, sobrará um “pequeno resto”, representado nos 144 mil, o povo da tribo de Israel. Virá a vitória, e os sobreviventes da “grande tribulação” serão marcados e viverão um silêncio, um período de paz, como também profetizou a Virgem de Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”.

No fim das contas, o livro do Apocalipse precisa ser entendido como a nossa própria história, como o nosso itinerário para o encontro definitivo com o Senhor. Depois de todas as nossas lutas, de vermos nossos heróis caírem como “figos verdes”, Jesus desferirá o golpe mortal contra a prostituta infernal. E ela cairá em menos de uma hora: “Ai, ai da grande cidade, Babilônia, cidade poderosa! Bastou um momento para tua execução” (Ap 18, 10). E junto com os anjos e todos os santos do Céu exultaremos, porque Deus julgará contra ela a nossa causa (Ap 18, 20). E terá valido todo o nosso esforço pelo conhecimento de Deus, pelo desejo de amá-lO e de fazer a sua vontade para um dia encontrarmo-nos com Ele no Céu, puros e santos!

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