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Quando se fala sobre música litúrgica, as pessoas tendem a um grande subjetivismo, achando que, na hora de escolher as composições a serem cantadas na liturgia, “tudo vale” e não existem critérios objetivos a serem seguidos. Não é verdade. A Igreja possui orientações muito claras sobre a música sacra, desde o importante documento do Papa São Pio X, Tra le sollicitudini, até um quirógrafo de São João Paulo II, em 2003, recordando o centenário de sua publicação. Isso sem falar das importantes contribuições do Papa Bento XVI à teologia litúrgica, com as quais ele pretendeu dar início a um novo movimento litúrgico e a uma “reforma da reforma”.

Em uma de suas intervenções - citada pelo monsenhor Guido Marini, em sua obra “Liturgia: Mistério da Salvação” -, o Cardeal Joseph Ratzinger notava certos estratos no mundo animal: os peixes, que habitam na profundidade, são silenciosos; os animais terrestres gritam; os pássaros, por sua vez, cantam. O homem, diz ele, tem um pouco dessas três realidades - é capaz de silenciar-se, gritar e cantar. As realidades do silêncio e do canto, porém, precisam ser retomadas, pois o homem tem perdido tanto a sua capacidade de profundidade quanto a sua capacidade de alteza e de elevação.

Porque o Papa João Paulo II diz em seu Motu Proprio que este documento de São Pio X é quase um código jurídico da música sacra. O Tra le sollicitudini dá um norte para a música sacra. - Mas, isso aí, é do início do século XX… Nós já passamos do Concílio Vaticano II… - Mas João Paulo II mostra que não.

Quais são os princípios que estão na encíclica, citados por São João Paulo II… O Motu Proprio de 1903. O Quirógrafo de 2003. Na festa de Santa Cecília.

I - “Nada deve acontecer no templo que perturbe ou sequer… indigno… majestade de Deus”. Primeira coisa: não é todo tipo de música que pode entrar dentro da igreja. Por uma razão muito simples. A música litúrgica tem uma função e para dizermos qual música pode e não pode, é preciso entender qual a função da música litúrgica. Para tanto, urge entender a função da Liturgia: “A música sacra como parte integrante… participa do seu fim geral, que é a glória de Deus e a santificação dos fiéis”. Quando eu pergunto o que é uma coisa, a melhor forma é procurar a causa final. Há algumas influências filósoficas bem negativas na Igreja. Por causa de Hegel, que influenciou bastante o pensamento moderno, existe uma tendência de as pessoas irem à igreja para “criar comunidade”. A finalidade do culto litúrgico é para muitas pessoas a celebração festosa da comunidade, o homem celebra a si mesmo. Isso nao tem cabimento. O Papa Bento XVI se manifestou várias vezes sobre isso, alertando para a tentação de o homem se celebrar a si mesmo. Por isso ele chama as pessoas a uma “reforma da reforma litúrgica”. Porque a forma como as coisas estão sendo feitas tendem a essa “autocelebração”, “comunidade”. Mas a finalidade é outra: é a glória de Deus e a santificação dos fiéis - é algo transcendente. Visa o amor de Deus e, com efeito, a santificação das almas. Se a sua liturgia glorifica o homem e não Deus, se eles se fecham em seu egoísmo, para causar prazeres, tem algo errado. É algo que vemos constantemente na música litúrgica. São Pio X: “Existe um funesto influxo que sobre… quer pelo prazer que a música… produz…” A música produz prazer. Agora, esse prazer precisa ser contido dentro de um juste limite, se não se cai num sensualismo. A gente vê em certas liturgias pessoas que automaticamente começam o rebolado… Uma das grandes dificuldades que ministérios de música, corais, compositores e padres têm é que as pessoas perderam a noção de que é a natureza da oração. Existem ritmos musicais, estilos que tornam fisicamente impossível rezar, porque dispersam, agitam.

Já foi citado, em Respostas Católicas, a experiência científica que foi feita: colocaram rock num curral para as vacas, e elas produziram menos leite; colocaram Mozart, e as vacas dobraram a produção. Ou seja, existe algo na música que é físico, não meramente cultural. Porque, pelo que se sabe, vacas não têm cultura. Certos ritmos e certas dissonâncias afetam as ondas cerebrais, os batimentos cardíacos… Isso é experiência científica. Como é possível você agitar as pessoas e querer que elas rezem

Qual a natureza da oração… Você faz que a comunidade se encontre consigo mesma, mas impede que a comunidade se encontre com Deus. Isso é um grande desserviço.

Dentro disso - glória de Deus e a santificação… -, está a função da música litúrgica: “mais eficácia ao texto da oração”. Isso distingue a música sacra cristã das das outras religiões. Existe um primado do texto litúrgico. Isso dá à música sagrada a sua própria natureza. Portanto, é interessante notar que, na Summa, II-II, q. 91, a. 1-2.

E, agora, três características, notas claras da música sacra, retomadas por JPII: santa, verdadeira arte e universal. Sobretudo, essa característica do universal, mesmo depois do V. II, continua válida.

No quirógrafo: “Santidade da música”. O que faz uma música santa: “Será tanto mais santa…” Por exemplo, algumas pessoas escolhem no seu repertório, colocar um forró. Não dá para pedir perdão dançando forró. Tem que ser uma música que te leve a uma introspecção, a um exame de consciência. A não ser que você seja um marxista que não acredite senão em pecados sociais, ao invés de pecados pessoais… Mas isso não é a Igreja Católica. Tá aqui, Paulo VI, citado por São João Paulo II. “Indistintamente, tudo aquilo que está fora do templo… os umbrais”. Não é tudo o que tá fora que pode entrar na Igreja. Não dá. E ele coloca muito claramente a questão da música sacra: “recebeu hoje um alargamento… repertórios que não podem entrar na celebração sem violar o espírito e as normas da própria liturgia”. Então, é a santidade requerida pela música. P. ex., aqui no Brasil temos uma mania muito grande de sensualidade. Músicas sensuais que tendem a alimentar um sentimentalismo. Mas o sentimentalismo faz você se encontrar com suas emoções, não necessariamente com Deus. O sentimentalismo não é bom para a oração.

Segunda característica: precisa ser uma verdadeira arte. “Princípio que está intimamene… verdadeira arte… a arte dos sons”. Portanto, precisamos compreender e ter uma formação artística. A Sacrossanctum Concilium fala disso. Um documento de Pio XI insiste na formação litúrgica nos seminários. Pio XII, no Musicae Sacrae Disciplina. Da Congregação para o Culto Divino. Os padres precisam ser educados musicalmente, a fim de distinguir o que é bom e o que não é bom. Porque as coisas têm um critério objetivo: existem coisas objetivamente superiores. Não estamos na ditadura do relativismo. Então, apenas uns princípios básicos: em música, temos três camadas: a melodia da música - esta melodia é geralmente o que deveria sobrepujar na música -, embaixo a harmonia - os tons, que são mais harmônicos, menos -, e em terceiro, o ritmo. Essas três camadas devem estar nessa hierarquia. Mas o que temos hoje é a inversão das coisas: a lenta e inexorável marcha da vaca para o brejo. Você tinha antes uma melodia. De repente, os movimentos musicais no século XX começaram - isso começou no romantismo - com coisas mais harmônicas. Qual é a importância da harmonia para a oração: Não sei se participaram de uma Missa em que o ministério de música compôs o refrão do salmo. Então, vai lá o fulano com seus dons artísticos e compõe o refrão do salmo: aí você fica com impressão de que a música não terminou. Aquilo é a harmonia: o tom com o qual você começa uma melodia geralmente é aquele com o qual você termina. Você fica com a sensação de que voltou pra casa. É como se viajasse - viaja para tons… - e depois vai voltando. Quando se chega, fica aquela sensação: terminou a música. E isso tem uma reação bastante clara espiritualmente, de paz, pacificação. Quando isso não é respeitado, muitas vezes o que se gera é inquietação. E depois de grandes experiências com harmonias, o que prevalece é o ritmo. O ritmo virou o deus da música. Nós, brasileiros, precisamos parar com a obsessão de ritmo. Você compra CDs de música litúrgica, os instrumentistas… a música às vezes é até bonita, utilizável, música que dá pra rezar. Mas se coloca no fundo um ritmo obsessivo, mecânico, que não dá trégua. E aí… Porque tem que “inculturar”... Então você tem que colocar todos os ritmos da cultura.

Vamos pro próximo assunto:

Universalidade. Tudo bem alguma adaptação de inculturação. “É necessário, portanto, evitar aquela formas de “inculturação”... incompreensível”. Existe em certas inculturações um certo “imperialismo cultural”. Quando se fazem hinos em algumas campanhas litúrgicas e você obriga a dona que tá lá no centro de São Paulo a cantar uma música que é do interior do Nordeste ou obriga o nordestino a cantar uma música dos pampas gaúchos. Não tem sentido isso. O nosso país é plural, não. então, certas inculturações acabam sendo imperialismo. É preciso voltar: citando São Pio X: “Nesse sentido, São Pio X indicava… destinada ao culto… mesmo concedendo a cada nação… uma impressão negativa”. A música deveria ter uma linguagem universal, de forma que você, indo à liturgia, não devesse ver as coisas ali com estranheza. Porque é sinal de que ela saiu do trilho. Porque, embora possa ter características inculturadas, precisa de uma linguagem universal: é o reconhecimento dessa realidade de que a música deve falar à natureza humana. Existem regras. Não é tudo relativismo. O feio é feio, o bonito é bonito.

Então, concluímos falando do primado do canto gregoriano. Podem-se usar outras músicas: Sim. Mas existe uma regra geral citada por São Pio X: “Uma composição religiosa… quanto mais se aproxima… do gregoriano”. Ou seja, o gregoriano é o parâmetro. Então, a música é mais litúrgica quanto mais parecida com o gregoriano. Palestrina, Missa de Papa Marcelo. Sicut cervus. É polifônico. Não precisa ser uma fotocópia do gregoriano, mas parecida, tendo como modelo. JP II diz: “Os outros gêneros de música sacra.... as inextinguíveis riquezas do mistério… liturgia”. Alguns cantos de Mons. Frisina são modernos, mas levam as pessoas à oração: Anima Christi. Rezar isso depois da Comunhão, numa ação de graças, é extraordinário. E é música composta no nosso tempo, contemporânea, mas existe uma inspiração e uma proximidade do gregoriano, embora seja também polifônico.

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