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A Cruz de Cristo e a realidade do pecado

Ao ver próximo o momento de sua Paixão, nosso Salvador não foge da Cruz, mas diz: “Foi precisamente para esta hora que eu vim”. O problema é que, tendo perdido a noção do pecado, o homem moderno tem se tornado incapaz de receber a salvação que Jesus realizou no Calvário.

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De nada nos serviria ter nascido, se não tivéssemos sido resgatados. Assim cantamos no Sábado Santo, durante o Precônio Pascal, com o qual se anuncia a grande alegria da Ressurreição do Senhor. Jesus veio, de fato, a este mundo para viver a Paixão e vencer a morte. Outro não foi o motivo da sua encarnação senão a salvação do gênero humano por meio do sacrifício da cruz. Essa verdade dramática, Ele mesmo a confirmou, dizendo: “E que direi eu? ‘Pai, livra-me desta hora’? Mas é para isso que cheguei a esta hora” (Jo 12, 27). Sendo Deus onipotente, Nosso Senhor poderia ter-nos redimido de outras maneiras, mas quis assim mesmo que a obra da redenção brotasse da carne humana, para que pudéssemos enxergar “qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade” do seu amor por cada homem (Ef 3, 18).

Na liturgia do Tríduo Pascal, os fiéis somos introduzidos ao cerne desse mysterium salutis. Daí que, embora não seja de preceito, a sua celebração comunitária não é apenas oportuna mas altamente recomendável [1]. Numa época cujo pecado maior é sobretudo “a perda de sentido do pecado”, como denunciava o Papa Pio XII [2], meditar os pormenores da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, no Santo Tríduo, deve ser um remédio salutar contra uma mentalidade maçônica, que há mais de 300 anos tem calcado a consciência dos homens, tornando-os indiferentes à Verdade.

Há uma convicção geral, hoje em dia, de que o ser humano não precisa fazer muito para ser salvo: o simples cumprimento das leis civis já seria o suficiente para alguém entrar no Reino dos Céus, independentemente de sua profissão religiosa. Mas a severidade do Calvário contrasta claramente com essa convicção diabólica. O sacrifício da cruz revela com toda crueza a doença do pecado em nossa natureza, pelo que somos intimamente dependentes de um Redentor. E se não nos convencemos disso ainda, é porque, sem um auxílio especial da graça, não somos capazes de perscrutar o estado da alma em pecado mortal (como ocorreu a S. Catarina de Sena e S. Teresa d’Ávila, que tiveram a visão tenebrosa da alma de um pecador). Por isso Jesus, na sua infinita bondade, veio e permitiu que o poder das trevas o massacrasse, para tornar visível na sua carne a consequência nefasta do pecado. Com sua Paixão, Ele mostrou que, mesmo sendo perfeitíssimo em todos os atributos, não é indiferente às nossas ações, porque é um Deus pessoalmente apaixonado por suas criaturas, sobretudo pelo gênero humano, ao qual cedeu a própria vida.

O pecado, por sua vez, não pode ser visto como uma trivialidade que se resolve simplesmente com uma rápida confissão antes da Missa. As pessoas precisam ter ciência da gravidade de suas más ações e por elas ter uma profunda repulsa, para que a graça regenerativa do sacramento seja realmente eficaz. O pecado constitui uma revolta contra Deus. E essa revolta se revelou em toda a sua perversidade nas cenas derradeiras de Jesus antes da sua gloriosa ressurreição. Nesse sentido, aproveitando a oportunidade da Semana Santa, vejamos mais detidamente o relato da Paixão, a fim de compreendermos claramente as consequências da desobediência a Deus em nossa natureza, assumida por Cristo. Ei-las aqui ordenadas:

  1. Sofrimento psicológico. — No Horto das Oliveiras, Jesus dirigiu-se aos três discípulos que o acompanhavam com estas palavras: “Minha alma está triste até a morte” (Mt 26, 38). Nos momentos anteriores à Paixão, Jesus como que “soltou as rédeas de suas emoções”, permitindo que elas seguissem o caminho natural diante de uma ameaça. Por isso, mesmo sem pecado algum, Ele sentiu tristeza pela situação presente e medo pelo mal que se avizinhava. E, sabendo que aquilo tudo poderia ser evitado, tendeu à ira, ou seja, a um justo desejo de pôr as coisas em ordem. Ora, todas essas paixões infligiram tal agonia a Nosso Senhor, pelo que S. Tomás de Aquino afirmou categoricamente: “[...] a dor de Cristo foi a máxima das dores” (STh III 46, 6).
  2. Sofrimento físico. — “O seu suor tornou-se como gotas de sangue que corriam até a terra”, conta o médico S. Lucas em sua versão do Evangelho (22, 44). Hoje se sabe que existem as doenças psicossomáticas, isto é, aqueles padecimentos psíquicos que agridem o corpo. Nosso Senhor, por sua vez, somatizou a tal ponto a agonia do Horto, que o sofrimento de sua alma impactou-lhe também o corpo. Por esse fato podemos imaginar o tamanho da tristeza que invadiu o seu Sagrado Coração naquelas horas tenebrosas. Ele já começava a experimentar o dilaceramento de seus membros, como aconteceria momentos mais tarde. Decerto, não é possível equiparar qualquer outro sofrimento humano à veemência com que Jesus suportou as dores do Calvário. 

Mas houve ainda outro gênero de sofrimento na Paixão de Jesus: 

  1. A traição de Judas. — Tratou-se realmente da máxima traição. Primeiro, porque Jesus tinha plena consciência de sua dignidade divina, de modo que o ato de Judas constituiu um ataque direto a Deus. Por isso, jamais houve nem haverá qualquer traição que se equipare à de Judas em toda a história da humanidade. Segundo, porque o impacto dessa traição sobre a alma de Jesus ocorreu por meio dos sentidos: Nosso Senhor viu Judas aproximar-se com os soldados para prendê-lo, ouviu-o chamá-lo “Mestre” e sentiu em seu rosto o beijo com que seria entregue aos algozes. Terceiro, porque foi a traição de um eleito. Do mesmo modo, essas traições se repetem ainda na história quando sacerdotes cometem pecados mortais. Por isso, nas aparições à S. Margarida Alacoque, Nosso Senhor mostra a agonia de seu Coração pela ingratidão, indiferença e ofensa das pessoas consagradas.

Todas essas dimensões do sofrimento pelo pecado foram expostas por Cristo, em sua Paixão, num ato de caridade e esperança pela conversão dos homens. Assim, Ele permitiu que Judas o visse desfigurado, a fim de conduzir o traidor ao perdão. Mas, por não compreender a consequência do pecado, o arrependimento de Judas não foi eficaz, o que o levou ao total desespero. Judas queria que seu arrependimento fizesse o tempo voltar atrás, como se nada houvesse acontecido. Mas as consequências do pecado são irreversíveis: se alguém perde a virgindade fora do casamento, a confissão desse pecado restituirá a graça santificante, mas não a integridade do corpo. Do mesmo modo, nem um homicídio nem a contaminação por uma doença podem ser desfeitos com uma confissão. Não há segunda chance. O que podemos e devemos fazer é procurar reparar essas consequências por meio de nossas penitências, mas isso não significa apagar da história um fato. O que escrevi, escrevi.

A Paixão de Nosso Senhor, com efeito, mostra essa verdade com uma eloquência inaudita. Daí que seja mister para o homem moderno confrontar-se com a agonia e os sofrimentos do Senhor, para recobrar a consciência de que para toda ação há uma reação. Aproveitemos, pois, a graça do Tríduo Pascal para nos colocarmos a caminho do Calvário, num propósito de verdadeiro abandono dos nossos pecados.

Notas

  1. Para cumprir o preceito da Páscoa, bastaria ao fiel participar de uma das Missas do Domingo de Páscoa. Mas, por outro lado, “o ápice de todo o ano litúrgico resplandece na celebração do sagrado tríduo pascal da paixão e ressurreição do Senhor, preparada na Quaresma e estendida com júbilo por todo o ciclo dos cinqüenta dias sucessivos” (Paschalis Sollemnitatis, 2). Sendo assim, seria lamentável que algum católico se limitasse ao cumprimento do preceito sem uma razão realmente grave, e assim deixasse de participar da “Mãe de todas as Vigílias” por pura negligência. Essa atitude demonstraria uma deficiência espiritual e catequética bastante acentuada.
  2. Perhaps the greatest sin in the world today is that men have begun to lose the sense of sin”: Pio XII, Radiomensagem na conclusão do Congresso Catequético dos Estados Unidos, em Boston, de 26 out. 1946.
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