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O drama dos casais em segunda união

Neste programa, Padre Paulo Ricardo fala sobre os casos concretos de casais em segunda união. Como solucionar o drama vivido por aqueles que voltam para Cristo e se encontram nessa situação? Qual o remédio que a Igreja oferece para esses casais?

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Na esteira do programa da última semana [1], no qual se apresentou a resposta da Igreja à questão da recepção da Eucaristia pelos casais em segunda união, o objetivo desta aula é apresentar a atitude pastoral da Igreja diante dessa mesma realidade. Qual a ação prática que ela realiza na acolhida a essas pessoas?

Antes de qualquer coisa, é importante deixar claro que o casamento, na religião cristã, é uma proposta de vida e de conversão: existe um evangelho a respeito do matrimônio – assim como há um a respeito do serviço social, da vida espiritual, das virtudes etc. –, um ensinamento dado por Cristo a esse respeito, ensinamento que desafia as pessoas e as chama a uma metanoia, a um crescimento no amor.

Todas as pessoas são convidadas a viver essa realidade, como declarou o Concílio Vaticano II: “Todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade" [2]. Então, antes de tratar diretamente o caso das pessoas em segunda união, importa dizer que não existe nenhuma categoria de pessoas dentro da Igreja que não deva ser desafiada a viver uma conversão mais profunda. É claro que esse desafio não pode ser uma pedra que esmague as pessoas na caminhada. Aqui entra a atuação dos diretores espirituais e dos confessores. Eles devem expor ao povo de Deus a verdade do Evangelho, de modo a situá-la nos casos concretos e individuais.

O que se nota, muitas vezes, no entanto, são tentativas de poupar as pessoas da conversão. Surgem, então, soluções pastorais para “incomodar menos as pessoas": sem muitos escrúpulos, é proposta a admissão de pessoas recasadas à Comunhão, como se o Evangelho do matrimônio pudesse ser barateado ou como se as palavras de São Paulo sobre a dignidade da Eucaristia – “Cada um examine-se a si mesmo antes de comer deste pão e beber deste cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação" [3] – não fossem suficientemente claras.

Antes de oferecer às pessoas um remédio para o drama em que vivem, é preciso estabelecer balizas fora das quais uma “solução pastoral" pode converter-se em abuso ou profanação. São elas o Evangelho do matrimônio e o Evangelho da Eucaristia. Essas duas realidades, firmadas pelo próprio Jesus, são absolutamente inegociáveis. O matrimônio tem uma mensagem de amor desafiadora, mas extraordinária, da qual não se pode prescindir. Do mesmo modo, a doutrina eucarística deve ser preservada incólume, e não distorcida como se a Comunhão fosse um “direito de todos os fiéis".

Posto isso, partamos às situações concretas de quem vive em segunda união.

De modo genérico, a primeira coisa que se deve considerar é a hipótese da nulidade do primeiro matrimônio. Com a declaração dos tribunais eclesiásticos, que prestam à Igreja um importante serviço, é possível contrair núpcias. Note-se bem que se diz “núpcias" e não “novas núpcias" já que, declarada a nulidade, certo está que o primeiro matrimônio, na verdade, nunca existiu.

Enquanto se espera a palavra da Santa Sé, recomenda-se que o casal dialogue e procure viver a castidade, por mais difícil que essa palavra possa parecer ao mundo de hoje. Os diretores espirituais e confessores devem levar em conta esse aspecto; não podem ocultar ou obscurecer o Evangelho da castidade, sob a desculpa de ele ser muito duro de aceitar. Sim, é verdade que a castidade é um caminho difícil. Mas uma coisa é ter dificuldades em alcançá-la; outra bem diferente é sequer tentar trilhar esse caminho.

Fechada até mesmo a porta para a castidade, no caso de um parceiro que tenha dificuldades em aceitá-la e de uma união que já não se pode dissolver por conta de múltiplos fatores – como a educação dos filhos, por exemplo –, é preciso que as pessoas que se encontram nesta condição abracem a sua Cruz, vivendo este verdadeiro drama interior como caminho de conversão e purificação.

Trata-se de algo realmente trágico: muitas pessoas nesta situação têm o coração dilacerado por não poderem comungar de Jesus sacramentado. A Igreja, como mãe, acolhe essas pessoas, mas não pode deixar de chamá-las ao desafio da santidade – assim como faz com todos os seus filhos, sem exceção.

Também se recomenda que os casais em segunda união se alimentem espiritualmente e conheçam o Evangelho do matrimônio. As 133 catequeses do beato João Paulo II – que ficaram consagradas sob o nome de “Teologia do Corpo" [4] – podem ser um ótimo início. O site lançou, na última semana, um curso especial sobre o assunto [5], de que vale a pena servir-se para conhecer com profundidade a beleza da sexualidade humana aos olhos de Deus.

Referências

  1. Cf. Aula ao Vivo n. 82: A respeito da recepção da Comunhão Eucarística por fiéis divorciados novamente casados
  2. Constituição dogmática Lumen gentium, 21 de novembro de 1964, n. 39
  3. 1 Cor 11, 28-29
  4. A coleção com as catequeses do Papa João Paulo II foi editada pela Edusc e publicada sob o título “Homem e mulher o criou: catequese sobre o amor humano”.
  5. Cf. Curso de Teologia do Corpo

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