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Considerações preliminares. — Antes de tratarmos dos pecados veniais, tema deste episódio, vamos esclarecer um ponto importante acerca das técnicas de oração. O objetivo não é tanto avaliar a eficácia ou não desses rituais de concentração e recolhimento, mas precaver nossos alunos quanto a um erro bastante comum entre alguns professores dessas técnicas.

Notamos que muitos deles empenham-se na tarefa de ajudar as pessoas a relaxar, mas não as incentivam, porém, a combater o pecado mortal. Ora, esse tipo de atitude é tão absurdo como seria a de um agricultor que preparasse a terra, mas não possuísse a semente para o plantio. A sua técnica de produção tornar-se-ia inútil, por mais sofisticada que fosse, porquanto ninguém pode fazer crescer o que não existe.

A oração serve para fazer crescer a “semente da vida eterna”. Mas se essa semente não existe, ou porque a pessoa encontra-se em estado de pecado mortal ou porque ainda não foi batizada, nenhuma “meditação transcendental”, “yoga” ou “floral de bach” será capaz de elevar a alma às moradas da santidade. É preciso, pois, adquirir a graça santificante, que surge pelo Batismo ou se recupera pela Confissão, no caso dos cristãos que pecaram mortalmente (a Unção dos Enfermos também restaura a graça santificante, mas como efeito secundário).

Estabelecido esse critério básico da vida de oração, então podemos passar ao problema dos pecados veniais.

Natureza do pecado venial. — O pecado venial, como sugere o seu qualificativo, é algo “desculpável” e que, por isso, não agride a caridade, não destrói o organismo espiritual, não anula a graça santificante, pois, como diz São João, “há pecado que não leva à morte” (1Jo 5, 17). Trata-se, segundo o Catecismo, de uma falta “quando, em matéria leve, não se observa a medida prescrita pela lei moral ou quando, em matéria grave, se desobedece à lei moral, mas sem pleno conhecimento ou sem total consentimento” (n. 1862). Os que o cometem, portanto, não estão privados de receber a Eucaristia.

Essa aparente “irrelevância” do pecado venial faz com que as pessoas não deem a devida importância ao assunto. Contudo, se é verdade que ele não anula a caridade, é tanto mais verdade que os pecados veniais deliberadamente praticados são um estorvo ao progresso espiritual e uma estrada pavimentada que conduz à tibieza. A alma acostumada aos pecados veniais perde o fervor e pode facilmente voltar à miséria dos pecados mortais, pois o consentimento em faltas leves significa uma perda de graças atuais, ou seja, aquela força, aquele impulso de Deus para a pessoa crescer na santidade.

Diante de uma tentação, Deus sempre concede à alma graças a fim de que ela lhe oponha resistência e, assim, dê passos concretos no caminho da perfeição. No entanto, se a pessoa simplesmente não resiste ao pecado, ela perde a chance de crescer, perde a oportunidade de amar a Deus de volta naquele momento. E aquela graça se perde para sempre, de modo que, se aquela pessoa se salvar, ela não será no Céu o santo que Deus havia desejado desde o princípio. A sua glória será menor porque ela deixou passar muitas graças em vão. O padre Reginald Garrigou-Lagrange explica:

No presente, no momento exato em que é cometido, o pecado venial priva a alma de uma graça preciosa. Naquele instante, uma graça nos foi oferecida para progredirmos na perfeição, para sermos caridosos, fervorosos e diligentes. Se tivéssemos correspondido, nosso mérito teria aumentado e, por toda a eternidade, poderíamos contemplar Deus face a face com maior intensidade. Nós teríamos a capacidade de amá-lo mais. Agora, no entanto, esta graça foi perdida por causa de nossa negligência, de nossa preguiça e de nossa caridade limitada [1].

O que precisa ficar claro é que a santidade consiste numa amizade generosa com Deus. E a amizade exige, via de regra, uma reciprocidade; é um amor que precisa de correspondência. Com a graça santificante, recebemos de Deus um germe desse amor com o qual podemos amá-lo de volta. Mas esse amor precisa crescer continuamente até tornar-se uma árvore frondosa e frutífera.

Os pecados veniais, todavia, retardam esse crescimento, porque a pessoa deixa de corresponder aos afetos que Deus lhe inspirou. E de “pecadinho” em “pecadinho”, de “mentirinha” em “mentirinha”, a alma vai se tornando cada vez mais insensível à amizade do Senhor.

Em resumo, o pecado venial paralisa a alma e a coloca em grave risco de pecados mortais, uma vez que as tentações demoníacas tornam-se mais fortes. A alma encontra-se numa situação de deplorável tibieza, uma mornidão culposa, que muitos, por falta de orientação, acabam confundindo com a aridez dos santos. Acontece que o pecado venial arrefece a sensibilidade da inteligência e esta já não consegue enxergar a luz da verdade divina. Com isso, a vontade já não tem prontidão para servir a Deus.

Uma questão de amor a Deus. — Quando São Luís Gonzaga estava para morrer, muitos se admiraram do fato de que o garoto jamais havia cometido um pecado venial. “Era mesmo um santo”, diziam. Ouvindo todos aqueles comentários, São Roberto Belarmino, que era diretor de São Luís, resolveu intervir: “Ele era mesmo um santo, mas não por causa disso. Por que quem seria louco de cometer um pecado venial?”

Os santos, que têm a visão correta do mundo, conseguem entender perfeitamente a miséria dos pecados veniais e como seria uma loucura perder as graças de Deus por conta de uma coisa tão mesquinha. Nesta perspectiva, podemos ver que a luta contra as pequenas faltas não é uma questão de moralismo piegas, mas de verdadeiro amor a Deus. A fidelidade no pouco, no que é aparentemente insignificante — na prática da pequena via, como dizia Santa Teresinha —, é uma ocasião perfeita para deixar-nos transformar pelo Espírito Santo. Porque o amor verdadeiro não se restringe ao cumprimento de “protocolos” mais ou menos universais; o amor verdadeiro tem delicadezas, atenções, afetos etc. E os santos percebiam isso porque não tinham a sua razão embotada.

Aliás, Santa Teresa d’Ávila descrevia assim as almas em estado de frouxidão espiritual, por causa dos pecados veniais:

Notareis que essas primeiras moradas quase não recebem nenhuma réstia da luz que sai do palácio onde está o rei. Embora não estejam escuras e negras como quando a alma está em pecado, estão de alguma maneira obscurecidas e não se consegue ver quem está nelas. Isso não por culpa do aposento (não sei dar-me a entender bem), mas porque entraram com a alma tantas cobras, víboras e animais peçonhentos que não a deixam ver a luz. É como se alguém entrasse num lugar com muita claridade e, tendo um cisco nos olhos, quase não os pudesse abrir. O aposento está claro, mas a alma não o percebe por causa dessas feras e alimárias, que a obrigam a fechar os olhos para não ver senão a elas [2].

Essas feras e animais peçonhentos de que fala nossa santa madre são os pecados veniais, os apegos ao mundo e as imperfeições que ofuscam a visão do amor de Deus em nós. Por isso, depois de vencer o pecado mortal, por meio de um confissão bem feita, que esteja acompanhada de uma contrição profunda, o próximo passo no combate espiritual tem de ser o da luta contra os pecados veniais.

A pessoa que não se decide a assim lutar é uma forte candidata à perdição. Porque o estado de frouxidão no qual ela se encontra prejudicará também a sua capacidade de arrepender-se. E, assim, mesmo que ela se confesse dos pecados mortais e recupere a graça santificante, a qualidade dessa graça já não será tão intensa como antigamente. A alma que, por outro lado, busca uma forte vida espiritual, pode, numa confissão bem feita, não somente recuperar a mesma graça santificante, mas progredir, recebendo uma graça superior àquela que possuía antes da queda fatal.

Como vencer os pecados veniais. —  Sem dúvida, a luta contra os pecados veniais é imprescindível e exige algumas atitudes concretas. Em primeiro lugar, é óbvio que devemos estar sempre em estado de graça, dedicando-nos a uma vida de intensa oração. Depois, para ser eficaz, a luta contra os pecados veniais precisa ser iluminada pela realidade do amor a Deus, a fim de que não se converta nunca em “moralismo”. Neste sentido, é muito útil pensar nas ofensas aos nossos pais, que, embora possam ser pequenas, nos causam grande desgosto. Ninguém que ame verdadeiramente seus pais ficaria tranquilo diante uma grosseria contra eles, mesmo que fosse algo leve. Do mesmo modo, os pecados veniais, que são ofensas contra Nosso Senhor, devem nos causar desgosto.

Em segundo lugar, o confronto deve ser dirigido contra aqueles pecados mais nocivos, de modo que eles sejam removidos, um a um, de nossa alma. Devemos confessá-los com arrependimento verdadeiro e enfrentá-los com determinação. Em seguida, poderemos enfrentar os outros menos problemáticos, até erradicá-los totalmente.

Com perseverança, poderemos dar passos concretos na vida espiritual e, assim, corresponder às inúmeras graças do amor de Deus em nossas almas.

Referências

  1. Reginald Garrigou-Lagrange, The last writings, New City Press, 1969, pp. 23-25 (tradução nossa).
  2. Santa Teresa dÁvila, Primeiras Moradas, II, 14.
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