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Homilia Dominical
28 Fev 2014 - 24:45

Não vos preocupeis

Olhando para as aves do céu e os lírios do campo, Jesus convida os seus discípulos a fixar os seus corações em Deus, não se preocupando com as coisas passageiras deste mundo. Afinal, como diz Santa Teresa de Jesus, “tudo passa” e “só Deus basta”.
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Homilia Dominical - 28 Fev 2014 - 24:45

Não vos preocupeis

Olhando para as aves do céu e os lírios do campo, Jesus convida os seus discípulos a fixar os seus corações em Deus, não se preocupando com as coisas passageiras deste mundo. Afinal, como diz Santa Teresa de Jesus, “tudo passa” e “só Deus basta”.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo Mateus
(Mt 6, 24-34)

Neste Oitavo Domingo do Tempo Comum, Jesus exorta os seus discípulos a confiarem em Deus, lançando sobre Ele as suas preocupações. Só a palavra “preocupar-se” se repete seis vezes neste trecho do Evangelho, convidando também nós a um exame de consciência: onde está o nosso coração, sobre quem estamos lançando nossas preocupações? Sobre Deus – como recomenda São Pedro: “Confiai-lhe todas as vossas preocupações, porque ele tem cuidado de vós”[1] – ou sobre os cuidados com a nossa vida e o nosso dia a dia – “ἐν μερίμναις βιωτικαῖς”[2]?

Não é preciso dizer que Jesus colocou o dedo em nossa ferida: exatamente como Marta, temos andado muito inquietos e preocupados com muitas coisas[3]. Quantos não recorremos, em nossa agitação, a psiquiatras, na ânsia de resolvermos nossas dificuldades de forma clínica, quase que mágica? E, no entanto, a decisão fundamental, que está na origem de nossos problemas, é muitas vezes deixada de lado. Ou escolhemos viver apegados com as realidades da vida, como pagãos, ou, atentos à palavra de Jesus, buscamos em primeiro lugar o Reino de Deus, confiantes em que o resto nos será dado por acréscimo[4]. Ou agitamo-nos como Martas, nas nossas preocupações, imersos nas “μερίμναις βιωτικαῖς”, ou decidimos ser cristãos e atentar-nos ao que realmente importa. Ao colocar diante de nós essas opções, Jesus não diz que devemos descuidar de nosso sustento físico, mas destaca uma questão de prioridade: primeiro, deve vir o Reino de Deus; depois, o resto. Trata-se de perguntar onde vamos colocar o nosso coração: se nos bens materiais ou na rocha firme.

Essa reflexão é importante para nós porque, não raras vezes, em nossa vida ativa, tornamo-nos “piedosos materialistas”: assistimos à Missa, rezamos o Rosário, fazemos novenas, mas nossas preocupações são totalmente materiais; vamos à igreja, na verdade, porque queremos carreira, sucesso e segurança, porque desejamos, em troca de nossa devoção, favores materiais. Deus não quer que pautemos nossa vida dessa forma; Ele quer, ao contrário, que coloquemos nossa prioridade no Céu, em nossa vida eterna.

Para ensinar isso, Jesus conta duas pequenas parábolas: a dos pássaros do céu e a dos lírios do campo. E diz: se Deus cuida dessas coisas que são de valor tão pequeno, como não cuidará de nós? As palavras de Jesus contrastam com a visão de muitos ecologistas, que fizeram a loucura de colocar a natureza acima do homem. Ora, o pássaro vale dois tostões, o lírio murcha e é queimado, mas o ser humano tem uma alma eterna, cujo preço foi o próprio sangue de Cristo.

O Evangelho deste domingo também quer ensinar-nos a confiar em Deus. Não se trata de um exercício fácil. Santa Teresa de Ávila, por exemplo, dizia a Jesus: “Senhor, se é assim que tratas os teus amigos, não é à toa que tens tão poucos”. Diante dos insondáveis desígnios divinos, precisamos abaixar as nossas cabeças e, crucificando nossa inteligência, dizer: “Senhor, vós sois sábio, vós sabeis tudo, eu não sei”.

Encaixa-se, aqui, os famosos versos da mesma Teresa: “Nada te turbe, / nada te espante, / todo se pasa, / Dios no se muda, / la paciencia, / todo lo alcanza. / Quien a Dios tiene / nada le falta. / ¡Sólo Dios basta! – Nada te turbe, / Nada te espante, / Pois tudo passa / Só Deus não muda. / Tudo a paciência / Por fim alcança. / Quem a Deus tenha, / Nada lhe falta, / Pois só Deus basta”[5].


“Tudo passa” – “panta rhei”, como diziam os filósofos. A quem, então, recorrer? Só Deus basta. O nosso coração dirige-se, então, às “coisas que são do Senhor”, procuramos “agradar [ἀρέσκω] ao Senhor”[6]. Teresa ilumina muito bem essas palavras quando diz que o amor consiste “numa total determinação e desejo de contentar a Deus em tudo”[7]. O que quer dizer essa “total determinação” de que fala Santa Teresa? Quer dizer que, se quisermos ter uma vida espiritual e ser verdadeiramente pessoas de Deus, precisamos agradá-Lo.

“Digo que muito importa, sobretudo, ter uma grande e muito decidida determinação de não parar enquanto não alcançar a meta, surja o que surgir, aconteça o que acontecer, sofra-se o que se sofrer, murmure quem murmurar, mesmo que não se tenham forças para prosseguir, mesmo que se morra no caminho ou não se suportem os padecimentos que nele há, ainda que o mundo venha abaixo.”[8]

Teresa dá ênfase a esta palavra: determinar-se. Isso consiste em agradar a Deus, buscar em primeiro lugar o Seu Reino, como lembra Jesus. Assim devemos fazer porque assim o exige o amor. A Quem nos ama, a Quem nos dá continuamente tudo, muito mais do que aos lírios do campo ou às aves do céu, não nos podemos dar senão completamente: seria loucura medir de modo mesquinho a nossa resposta ao amor tão forte de Cristo, que entregou a própria vida para a nossa salvação.

Busquemos, pois, com “determinada determinação”, agradar a Deus a todo custo. Neste tempo da Quaresma, meditemos a respeito de Sua Paixão: se Ele nos amou assim, se Ele nos dá tanto, como podemos ser ingratos?

Referências

  1. 1 Pd 5, 7
  2. Lc 21, 34: “μερίμναις βιωτικαῖς” pronuncia-se merímnais viotikaís.
  3. Cf. Lc 10, 41
  4. Cf. Mt 6, 33
  5. Tradução, em português, das Obras Completas de Teresa de Jesus, das edições Loyola
  6. 1 Cor 7, 32: “ἀρέσκω” pronuncia-se arésko.
  7. Santa Teresa de Jesus, Castelo Interior ou Moradas, Quartas Moradas, capítulo 1, n. 7. In São Paulo: Paulus, 2014. p. 75
  8. Santa Teresa de Jesus, Caminho de Perfeição, capítulo 21, n. 2

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