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117. A vida de Santa Teresa d'Ávila

Quinhentos anos depois do gênio espiritual de Santa Teresa de Jesus, a humanidade continua a aprender de sua piedosa vida e de sua valorosa obra. Quem foi essa grande mística e doutora da Igreja? Como trilhar o “caminho de perfeição” indicado em seus escritos?

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Das obras de Santa Teresa d'Ávila, a grande doutora da Igreja, cujo aniversário de nascimento foi comemorado no dia 28 de março, o "Caminho de Perfeição" é que mais pode auxiliar de forma prática aqueles que querem iniciar a vida de oração.

A bibliografia de Teresa tem início com o "Livro da Vida", um registro autobiográfico, em que a santa revela os fenômenos místicos com que foi agraciada por Deus. Esta obra foi censurada pela Inquisição Espanhola, que não desejava que as carmelitas tivessem acesso a tais informações. Portanto, o "Caminho de Perfeição" era o primeiro escrito de Teresa que as monjas liam.

Tomando por base os estudos históricos e a sua própria autobiografia, sabemos que Teresa d'Ávila nasceu em uma família de origem judaica que, porém, fazia questão de esconder sua conversão ao catolicismo. Seus pais eram virtuosos e sua mãe faleceu logo cedo.

Recebeu uma boa educação religiosa. Quando era criança, sua brincadeira favorita era brincar de "fundar mosteiros", o que é quase profético, porque é o que ela fará quando adulta.

Ela gostava também de meditar sobre a vida eterna, com seu irmão Rodrigo. A ideia da eternidade entusiasmou de tal forma as duas crianças que elas decidiram fugir de Ávila e entregar-se aos mouros para serem degolados como mártires. Chegaram, porém, tão somente ao portão da cidade, onde foram encontrados pelo tio e levados de volta à casa paterna. Esse episódio mostra que ela teve uma infância acalentada por ideais religiosos.

Teresa, no entanto, adquiriu de sua mãe o mau hábito de ler livros de romance. Com isso, ficou vaidosa e acabou se envolvendo em namoricos com um primo. Quando o pai descobriu, não titubeou, colocou-a num convento de agostinianas, o que lhe serviu de correção.

No convento, conheceu uma monja que, instigando-a à récita do Santo Terço, lhe ensinou a rezar novamente e fez renascer nela o ardor perdido na adolescência, a ponto de Teresa considerar a possibilidade de entrar na vida religiosa.

Todavia, a santa tinha uma certa aversão à ideia de ir definitivamente para o convento e ainda desejava casar-se. Decidiu-se pela vida religiosa quando raciocinou que seu desejo maior era ir para o céu e que o melhor modo de isso ocorrer era se tornando monja.

No entanto, seu pai queria que ela cuidasse da casa e dos irmãos menores, pois a sua mãe havia falecido. Assim, Teresa passou dois anos obedecendo ao pai, mas, quando percebeu que ele não lhe daria a permissão, fugiu e, com 20 anos de idade, entrou no Convento das Irmãs Carmelitas da Encarnação de Ávila, o famoso Mosteiro da Encarnação.

A Ordem Carmelita evidentemente ainda não tinha sido reformada, pois quem faria a reforma seria a própria Teresa de Jesus. Naquele mosteiro viviam cerca de duzentas monjas, as quais levavam uma vida muito pouco exemplar. Tendo que providenciar sua própria alimentação, as irmãs oriundas das classes mais inferiores tinham que pedir esmolas para não passar fome, enquanto as monjas mais abastadas gozavam das próprias rendas. Havia também um grande movimento de pessoas no convento, que iam para o lugar somente para conversar com as religiosas. Tudo isso fazia com que se levasse uma vida muito pouco piedosa.

Teresa entrou nesse convento e logo adoeceu. Essa doença desconhecida foi o seu caminho de salvação. O pai, vendo que ela não melhorava, tomou as rédeas da situação e decidiu levá-la para um tratamento com uma "curandeira" numa outra localidade. No caminho, o seu tio deu-lhe o livro "O Terceiro Abecedário Espiritual", do Frei Francisco de Osuna, a partir do qual Teresa começou a orar.

O tratamento não deu certo e ela continuou doente. Decidiu voltar para o convento e lá piorou tanto que sofreu um paroxismo, passando dois ou três dias em coma. Chegaram inclusive a abrir uma cova para ela. O pai, porém, não permitiu que ela fosse enterrada. De fato, Teresa saiu do coma e, dias depois, as irmãs a surpreenderam engatinhando no chão do quarto e louvando a Deus.

Após uma longa e difícil recuperação, Teresa abandonou a vida de oração. Nesse mesmo tempo, o seu virtuoso pai, ao contrário, passou a praticar com intensidade a oração. Gostava de conversar com a filha sobre a vida espiritual e ela não tinha coragem de lhe contar que já não praticava a sua oração íntima e pessoal, rezando somente a oração com o coro.

Após a morte do pai, Teresa voltou decididamente à oração. Tinha o que chamava de "determinada determinación" [1]. Em uma época na qual as mulheres eram tidas como fracas, como o sexo frágil, ela, ao contrário, sempre foi uma mulher muito forte e decidida.

Um belo dia, rezava diante de uma imagem de Jesus sofredor, coroado de espinhos, flagelado e com as mãos atadas e perguntou-Lhe por que Ele sofria tanto. Ao que Ele respondeu - num dom místico extraordinário - que sofria por causa das conversas vãs travadas por ela no parlatório. A partir daí, Teresa se converteu. Estava com 40 anos de idade quando iniciou a sua vida mística.

Após muitas dificuldades, Teresa recebeu licença para fundar um carmelo pequeno, pobre e que recebeu o nome de Carmelo São José de Ávila. Ali nasce o movimento de reforma que receberá o nome de Carmelitas Descalças. Saiu do Convento da Encarnação acompanhada de quatro monjas. Com a chegada de mais oito monjas, fixou-se em treze o número de religiosas do carmelo descalço.

Naquela época, Santa Teresa estava na Sextas Moradas, ou seja, já estava na fase da vida plenamente mística. As monjas viam que a Madre Priora tinha dons místicos e pediram que ela as ensinasse a rezar. Foi assim que Teresa escreveu o "Caminho de Perfeição".

Os fenômenos místicos por ela vivenciados já haviam sido relatados no "Livro da Vida", escrito para os confessores, para os homens letrados e espirituais da época. Ela viveu tempos terríveis, sem saber se aquelas manifestações místicas provinham de Deus ou de outras fontes. Isso se explica porque naquela época era grande a profusão de alumbrados, de mulheres pseudo-místicas e de farsantes. Os próprios confessores, muitos deles, não criam nos fenômenos místicos e aconselhavam Teresa a evitar essas coisas.

Até que Jesus apareceu e dirimiu de vez as suas dúvidas. Ela foi também consolada por alguns confessores jesuítas e sobretudo por alguns homens santos, como São Francisco Borja e São Pedro de Alcântara, o qual foi essencial para que ela compreendesse que tudo aquilo era um dom de Deus.

O "Livro da Vida" havia sido censurado pela Inquisição, como já foi dito, pois o Santo Ofício não queria que as monjas tivessem conhecimento dos fenômenos místicos da Santa Madre, para não incentivá-las. Assim, o primeiro manuscrito do "Caminho de Perfeição" foi escrito para as primeiras doze monjas do Carmelo de São José, num estilo muito tranquilo, bonito, familiar e desenvolto, porque ela tinha certeza de que não sairia dali. Ela chamava o "Livro da Vida" de "o livro" e o "Caminho de Perfeição" de "livrinho".

O Carmelo de São José "floresceu" em novas fundações. E Santa Teresa, prudente que era, entregou o livrinho para um frei dominicano seu amigo e que também era inquisidor. Ele censurou e melhorou o livro, de modo que Santa Teresa o reescreveu. Embora haja duas versões do livro, a mais comum é a chamada "oficial", pois foi revisada e reescrita pela própria santa.

O livro pode ser dividido, grosso modo, em três partes. Nos capítulos 1 e 3, a santa dá a identidade das carmelitas, a finalidade do Carmelo São José. Depois ela fala sobre as virtudes necessárias para viver a vida de oração e, finalmente, a vida de oração propriamente dita, onde ela, mui livremente, comenta o Pai Nosso.

Como provocação, para que todos queiram ler, selecionamos alguns trechos que darão a tonalidade daquilo que a Santa Madre quer fazer quando aponta esse caminho de perfeição:

Nesta ocasião, tive notícias dos prejuízos e estragos que faziam os luteranos na França, e o quanto ia crescendo esta desventurada seita.

Deu-me grande aflição e, como se pudesse ou valesse alguma coisa, chorava com o Senhor, suplicando-lhe para remediar tanto mal. Parecia-me que mil vidas daria eu para salvação de uma só alma das muitas que ali se perdiam. [2]

Santa Teresa vive num tempo de tumulto para a Igreja, como os atuais. Em sua época não havia protestantismo e, de repente, ela recebe a notícia de que países inteiros estavam deixando a Igreja Católica.

Concomitantemente, outros fatos ocorriam e a deixavam perplexa, principalmente a descoberta da América, um continente todo para ser evangelizado e a necessidade de se chegar primeiro que os protestantes. O que Teresa faz para ajudar a Igreja? Diante da situação do mundo, ela num carmelo paupérrimo, vivendo de esmolas e preocupada com o futuro da Igreja, diz:

Sendo mulher e ruim, senti-me incapaz de trabalhar como desejava para a glória de Deus. Tendo o Senhor tantos inimigos e tão poucos amigos, toda a minha ânsia era, e ainda é, que ao menos estes fossem bons. [3]

Ela sabia que nada podia e nada valia diante da situação do mundo. E tinha noção do que significava a "vida eterna", por isso pensava na salvação das almas.

Determinei-me então a fazer este pouquinho a meu alcance, que é seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição possível e procurar que estas poucas irmãs aqui enclausuradas fizessem o mesmo. [4]

Teresa chegou à conclusão que para salvar a Igreja deveria ser santa, seguindo os conselhos evangélicos (pobreza, obediência e castidade) com toda a perfeição possível.

Mas achei necessário fazer como em tempo de guerra, quando o inimigo invade uma região. O soberano, em apuros, se recolhe a uma cidade, que fortifica muito bem. Dali sai para atacar os adversários. Os da cidadela são gente tão escolhida que podem mais, eles sozinhos, que muitos soldados, se estes são covardes. Desta maneira muitas vezes conseguem a vitória. Se não ganham, ao menos não são vencidos, porque, não havendo traidores, ninguém os sujeita, a não ser pela fome. Em nosso caso não há fome que nos obrigue a nos render. A morrer sim, não a cair vencidas. [5]

Ela compara as carmelitas a guerreiras, soldados defendendo um castelo. Teresa tem certeza de que sua oração é apostólica, move o mundo. E ela pode sustentar os grandes homens da época na defesa da fé.

Já que de nada valemos - nem pra um, nem pra outro - na defesa do nosso Rei, procuremos ser tais que nossas orações possam ajudar a esses servos de Deus que à custa de tantos esforços se consolidaram com a ciência e a santa vida e se empenham agora em combater pelo Senhor. [6]

Com as irmãs enclausuradas, portanto, iriam guerrear por Cristo. Tinham convicção de que a oração não é um mero passatempo, mas algo salvífico para a Igreja e para elas próprias. A oração de uma carmelita é capaz de converter um país.

O curso, que se iniciará em breve, após a leitura e a meditação do livro "Caminho de Perfeição", fará parte do "pouco" que cada um pode fazer, que é buscar a santidade. Trata-se, portanto, de uma operação de guerra. Importa aprender a orar, para que a oração santifique a cada um e ao mundo e que cada um possa "dar mil vidas" para a salvação de tantos que necessitam.

Referências

  1. Caminho de Perfeição, XXI, 2
  2. Ibidem, I, 2
  3. Idem
  4. Idem
  5. Ibidem, III, 1
  6. Ibidem, III, 2
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