O “católico de IBGE”
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

(Lc 9,43b-45)

Naquele tempo, todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia. Então Jesus disse a seus discípulos: “Prestai bem atenção às palavras que vou dizer: O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens”. Mas os discípulos não compreenderam o que Jesus dizia. O sentido lhes ficava escondido, de modo que não podiam entender; e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto.

I. Reflexão

No Evangelho de hoje, Jesus tenta mais uma vez fazer os discípulos compreenderem o caminho redentor da cruz. Recebemos de Deus o dom precioso que é o Filho encarnado. Deus, que existe desde toda a eternidade, veio a este mundo. Ele é Pai, Filho e Espírito Santo, e foi o Filho quem se encarnou, tornando-se homem igual a nós em tudo, exceto no pecado. É, portanto, uma Pessoa divina que assumiu a natureza humana. Deus verdadeiro e homem verdadeiro, esse é Jesus Cristo. 

Trata-se de um grande mistério, mistério precioso que muitos até conseguem aceitar. O que se torna difícil de compreender é por que Deus Filho tinha de morrer na cruz. Cristo, com efeito, veio ao mundo para morrer crucificado por amor a nós e, desta forma, nos salvar da condenação. Ora, isso é bastante difícil de entender, sobretudo para nós, homens modernos, influenciados por muitas ideias não católicas. Como pensa a maioria das pessoas na sociedade atual? No Brasil, por exemplo, muitos são cristãos, e até católicos romanos. É no que o IBGE nos leva a crer. Passa um funcionário de casa em casa, e muita gente responde à pergunta: “Qual é a sua religião?” dizendo sem problemas: “Sou católico”.

Mas se arranharmos um pouco a superfície, o que iremos encontrar por baixo deste verniz de auto-proclamado catolicismo? Uma mentalidade que é tudo, menos católica: “Ah! O importante é crer em Deus. A religião, em si, não interessa. O que vale é acreditar em alguma coisa. Afinal, basta não ser muito ruim. Eu, por exemplo, nunca matei nem roubei ninguém, então é óbvio que eu vou para o céu!” É a religião do indiferentismo, para o qual todos os credos são igualmente bons, e do naturalismo religioso, para o qual a natureza humana é capaz por si mesma de alcançar o céu. Ora, quem pensa assim não crê, logicamente, que precisa de um Salvador. Afinal, basta-lhe ser uma “boa pessoa”.

Infelizmente, é a mentalidade não só da sociedade como um todo, mas de muitos católicos hoje em dia. Como são indiferentistas, Jesus, para eles, não é o Salvador, Deus encarnado para nos libertar da condição em que, pelo pecado, todos nos encontramos sem a graça: condenados ao inferno; e como são naturalistas, pensam ser dispensável não só um Salvador, mas sua própria Igreja, com todos os meios por Ele instituídos para a salvação dos homens. Cristo veio a esse mundo morrer na Cruz para nos salvar, mas essa salvação precisa ser aplicada às nossas vidas. Como? Primeiro, pela conversão à fé; segundo, pela participação na graça dos sacramentos, isto é, batizando-se, comungando e confessando-se.

“Ah! Prefiro ficar em casa e acompanhar tudo pela internet”. Ora, a internet pode, sim, ser um instrumento útil à nossa formação e ao nosso crescimento na fé, mas se achamos que ela é suficiente, é porque temos ideias tremendamente deturpadas! Por quê? Porque os sacramentos são necessários, por serem os meios deixados por Cristo para aplicar aos fiéis de todos os tempos os frutos de sua paixão e morte redentoras.

No Evangelho de hoje, os discípulos não compreendem o que Jesus lhes diz: Prestai bem atenção às palavras que vou dizer: O Filho de homem vai ser entregue nas mãos dos homens, quer dizer: “Eu hei de morrer pela vossa salvação. Não entendem essa linguagem e, ainda por cima, têm medo de perguntar o que significa. Quanto a nós, não tenhamos medo, mas abracemos a verdade de nossa santa religião e fujamos do indiferentismo religioso, que diz serem boas todas as religiões. Não o são. Por quê? Porque há um único Salvador, o Cristo Senhor, que deixou nos sacramentos da Igreja Católica os canais de sua graça salvífica. Precisamos deles, senão iremos perecer. Meditemos sobre essa verdade. É o que Deus pede de nós com este Evangelho.

II. Comentário exegético

V. 43a. E todos pasmavam da grandeza (gr. μεγαλειότητι, lt. magnitudine) de Deus, i.e. dos magníficos feitos divinos, quer dizer, dos milagres realizados por Jesus [1]. — V. 43b. Enquanto todos admiravam as coisas que ele fazia, Jesus disse aos seus discípulos. Jesus dá mais uma vez exemplo de humildade de coração [2]: enquanto todos se admiram e pasmam de suas obras maravilhosas, ele passa a falar da humilhação de seus futuros padecimentos (v. 44): Ponde vós, i.e. digo isto não às turbas, mas a vós, discípulos eleitos para conhecer os mistérios do reino de Deus [3], nos vossos corações (εἰς τὰ ὦτα = nos ouvidos) estas palavras, quer dizer, prestai atenção não aos louvores humanos com que me estão honrando, mas ao que vos hei de dizer acerca de minha paixão [4]. Jesus, com efeito, esforçou-se para lhes tornar claro o mistério da paixão, consciente de que essa doutrina lhes era não só difícil de compreender, mas alheia às suas concepções sobre o Messias. — O Filho de homem está para ser entregue nas mãos dos homens [5]. Prediz pela segunda vez a sua paixão, para que, quando o virem crucificado, se recordem de suas palavras, i.e. saibam que sua morte não era imprevista e indesejada, mas por ele prevista e disposta ab æterno pelo Pai, em cumprimento dos vaticínios messiânicos.

N.B. — Diz-se que Cristo homem foi entregue por muitos e de diferentes modos. 1) Pelo Pai, que não poupou nem o seu próprio Filho, mas por nós todos o entregou (Rm 8,32). Foi esta entrega a disposição pela qual Deus Pai, por sua benevolência, decretou que o Filho, feito homem para a redenção dos homens, sofresse paixão e morte nas mãos daqueles mesmos que viera salvar, porque Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu Filho unigênito (Jo 3,16). — 2) Por si mesmo, segundo aquilo: Entregou-se a si mesmo por nós a Deus, como oferenda e sacrifício de suave odor (Ef 5,2). Foi esta entrega a voluntária aceitação por Cristo homem de sua paixão e morte, na medida em que eram queridas pelo Pai e necessárias à salvação dos homens: Foi entregue porque ele mesmo o quis (Is 53,7); Ninguém me tira a vida, mas eu por mim mesmo a dou (Jo 10,18), para que o mundo conheça que amo o Pai e que faço como ele me ordenou (Jo 14,31). — 3) Por Judas, que o vendeu aos judeus, i.e. aos escribas e príncipes dos sacerdotes, segundo aquilo: O Filho de homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas (Mt 20,18; cf. 26,15). Foi esta entrega iníqua e ímpia, nascida da avareza, pois Judas traiu o Mestre por amor ao dinheiro, razão por que passou a ser conhecido como traidor por antonomásia: O traidor, i.e. Judas tinha-lhes dado uma senha (Mc 14,44). — 4) Pelos judeus, que entregaram Cristo a Pilatos e aos gentios, como está escrito: A tua nação e os pontífices é que te entregaram nas minhas mãos (Jo 18,35). Foi esta entrega o cúmulo da iniquidade, da injustiça e da impiedade, motivada pelo ódio e pela malícia, e por isso foi pior que a perpetrada por Judas: este não entregou Cristo com a intenção de o matar (cf. Mt 27,3ss), ao passo que os judeus o entregaram para que fosse morto (cf. Mt 20,18). — 5) Por Pilatos, que o entregou aos carrascos para ser crucificado, assentindo com isso ao pedido dos judeus: Então entregou-lho, para que fosse crucificado (Jo 18,16). Foi esta entrega menos grave que a dos judeus, já que provinha antes do temor e do respeito humano, enquanto a deles era motivada pela impiedade e pela malícia [6]. 

V. 45. Eles porém não entendiam (gr. ἠγνόουν, lt. ignorabant = ignoravam) esta linguagem (gr. τὸ ῥῆμα, lt. verbum). Embora Jesus falasse claramente, os discípulos não o entendiam; suspeitavam talvez que ele falasse por parábolas, e não em sentido próprio e natural; e era-lhes tão obscura (gr. παρακεκαλυμμένον ἀπ’ αὐτῶν, lt. erat velatum ante eos = estava-lhes velado, i.e. oculto como por um véu) [7], que não compreendiam (gr. αἴσθωνται, lt. sentirent = sentiam, percebiam etc.). Explica o evangelista por que não o entendiam, a saber: não por causa das palavras de Cristo, que em si mesmas eram claras, mas por causa deles mesmos: a) por parte do intelecto, porque atribuíam um sentido parabólico ao prenúncio; b) e por parte da vontade, porque eram ainda demasiado carnais para compreender o mistério da cruz. A principal causa, porém, era o óbice que punham à luz divina do Espírito, que em vão buscava operar internamente em suas almas. Por isso foram abandonados a si mesmos, i.e. à própria capacidade quanto à notícia (para que o entendessem) e ao afeto (para que a ele se unissem) deste mistério; daí dizer o evangelista que o mistério lhes estava como que velado, a ponto de não o sentirem, quer dizer, não o compreendiam pelo intelecto nem a ele se associavam pela vontade, segundo aquilo: Tende entre vós os mesmos sentimentos que em Jesus Cristo (Fp 2,5). — E tinham medo de o interrogar acerca dela, i.e. temiam que Jesus lhes falasse novamente da paixão, pois sabiam que Pedro, depois de o ter increpado por falar de sua morte, foi por ele repreendido duramente e teve de ouvir outra vez sobre a necessidade da cruz não só para Cristo, mas para quantos o quiserem seguir (cf. Mt 16,23-26).

Referências

  1. “Assim como os fatos admiráveis costumam chamar-se μεγαλεῖα (lt. magnalia), assim também a virtude celeste, autora destas obras, é chamada μεγαλειότης. Ora, quanto mais miserável fora o espetáculo do mal, tanto mais admirados ficaram de ver um demônio ser expulso com uma só increpação e a um menino, ferido de tantos modos, ser subitamente restituída a saúde. Tratava-se não de uma virtude qualquer, mas com certeza da mais magnificente de todas. Era evidente, por conseguinte, que tais obras não eram realizadas por outra virtude que não a divina; de fato, não criam [as turbas] que Jesus agisse por virtude própria” (de Bruges).
  2. “Para não pensarem que o envaidecem os louvores humanos, [Jesus] mostra não perder de vista o ódio que em breve o levará à morte; além disso, para que a iminente paixão do Mestre não abatesse os discípulos mais do que os tinha animado a esperança de sua glória, prediz-lhes sua paixão, temperando com prudência o desejo presente de glória com a profecia da ignomínia futura” (de Bruges).
  3. Ponde vós, ὑμεῖς enfático, quer dizer: ‘Deixai que os homens se admirem e celebrem o que faço; quanto a vós, não penseis que me agrado da glória pouco sólida que me dão, nem vos deixeis envaidecer pelos elogios feitos ao vosso Mestre; antes, pelo contrário, considerai atentamente o que está prestes a acontecer, tão necessário ao vosso conhecimento quanto estes meus feitos admiráveis’” (de Bruges).
  4. “Tentou chamar a atenção dos discípulos para aquilo que mais abominavam: ‘Ouvi estas palavras que vos digo, muito distantes do louvor dos homens’. Não os chama da consideração das coisas admiráveis por ele feitas, mas da consideração do louvor vão e inconstante dos homens para a da ignomínia que em breve sofrerá nas mãos dos homens” (de Bruges).
  5. “Enquanto todos admiram os sinais, prenuncia ele a paixão, pois não são os sinais que salvam, senão que é a cruz que traz os benefícios [da salvação]” (de Bruges).
  6. “Penso, portanto, que se devem entender genericamente todas as referidas formas de entrega, tanto boas quanto más. De fato, todos os modos de ser entregue convêm na paixão e morte de Cristo e, por esta razão, as palavras [do v. 44] têm sentido universal e indefinido: O Filho de homem, com efeito, será entregue nas mãos dos homens, tendo o Pai assim disposto com o livre consentimento de Cristo, por causa da traição de Judas, que o vendeu; da perversidade dos judeus, que o delataram aos romanos; e da autoridade de Pilatos, que não se opôs à injustiça e mandou executar a pena capital” (Toledo, in Lc 9,44, anot. 105).
  7. “É uma construção hebraica, como a que se lê no Sl 68,6: Os meus delitos não te são ocultos” (de Bruges).
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