“Quem é louco de querer o que Deus não quer?”
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 10, 1-10)

Naquele tempo, disse Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”.

Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que ele queria dizer. Então Jesus continuou: “Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas. Todos aqueles que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem. O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.

O Evangelho de hoje é o capítulo 10 do evangelho de S. João. Como se sabe, o 4.º Domingo da Páscoa é sempre dedicado ao Bom Pastor, Jesus. O Evangelho de hoje continua na mesma direção. Lemos os 10 primeiros versículos do capítulo 10 de S. João. O interessante é que Jesus recorda nesse Evangelho o relacionamento íntimo que existe entre o pastor e a ovelha. Não estamos muito acostumados a esse tipo de coisa no Brasil, porque não temos a cultura da criação de ovelhas. No entanto, na terra de Jesus, como também na Europa, as pessoas estão acostumadas a ela e sabem perfeitamente do que o Senhor está falando ao dizer que “as ovelhas escutam a minha voz”. As ovelhas são animais que têm a capacidade de distinguir a voz do pastor e segui-la. Quando, por exemplo, por causa do frio, recolhem as ovelhas à noite num só redil, os pastores trazem, cada um, as próprias ovelhas: um traz dez, outro quinze, outro cinco, e todas elas passam a noite juntas num lugar quente, protegido. Quando chega a manhã, os pastores voltam, abrem a porta do redil e cada um começa a chamar as ovelhas, que reconhecem a voz do próprio pastor. É impressionante que, embora haja três ou quatro pastores chamando ao mesmo tempo, as ovelhas sabem dividir-se perfeitamente: cada uma vai atrás do seu pastor, reconhecendo-lhe a voz. É a esse fenômeno —  ao qual nós, que não criamos ovelhas, não estamos acostumados — que Jesus se refere: “As minhas ovelhas escutam a minha voz”. Aqui está uma característica básica do cristão: ele reconhece a voz verdadeira de Deus, que fala em Jesus Cristo. Jesus é a Palavra de Deus encarnada; portanto, nós reconhecemos a voz do Bom Pastor que nos fala de tantos modos. Na prática, o que isso quer dizer? Quer dizer o seguinte: todo verdadeiro cristão quer fazer, não a sua vontade, mas a de Deus. Aliás, nossa vida de oração consiste nisto: em ir buscando a vontade de Deus na vida, no dia a dia, nas coisas concretas. Deus nos vai inspirando, falando, e nós lhe ouvimos a voz na doutrina da Igreja, no ensinamento dos santos, no Magistério eclesiástico etc. Isso nos vai iluminando de tal modo que, na nossa vida, não busquemos mais a nossa vontade, mas a de Deus; que não sigamos os nossos próprios caprichos, mas a voz do Pastor que é Jesus. Para o entendermos melhor, olhemos para um santo recente, canonizado há pouco e celebrado justamente hoje, dia 26 de abril. É S. Rafael Arnáiz Barón. Quem foi ele? S. Rafael, morto em 1938, foi um rapaz que tentou ser monge e foi apresentado como modelo para a juventude no Dia Mundial da Juventude na Espanha. S. Rafael era um jovem arquiteto que sentiu o chamado de Deus, a voz de Jesus, Bom Pastor, que o chamava a ser monge trapista. Ele entrou na Trapa (Trapa é um mosteiro beneditino de estrita observância. São cistercienses que à risca seguem a Regra de S. Bento). Uma vez na Trapa, muito entusiasmado, dizia a seus parentes por carta: “Eu fui feito para a Trapa, e a Trapa foi feita para mim”. Ele encontrara a voz de Jesus, a vontade de Cristo, que o atraíra à Ordem Trapista. Acontece que, tão logo começou a viver a vida monástica, Rafael caiu doente e descobriu ser diabético, de uma diabete bastante grave que não tinha tratamento. Então, ele teve de sair do mosteiro e — para fazer de uma longa conversa uma conversa curta —, o pobre S. Rafael Arnáiz, que queria ser trapista, acabou ingressando na Trapa quatro vezes. Ele ingressou, saiu; ingressou, saiu… Entrou outra vez, saiu de novo e, após ingressar definitivamente, viu que, por sua condição de saúde, lhe seria realmente impossível levar a vida de monge que ele tanto queria. Escreve ele o seguinte em seu último diário: “Eu gostaria de viver a Regra de S. Bento, mas nunca poderei vivê-la. Eu gostaria de professar os votos religiosos e ser monge trapista, mas eu nunca os irei proferir. Deus não quer”, conclui ele, “e quem seria louco de querer o que Deus não quer?” Que maravilha! Um jovem com 28 anos reconhecendo que o impulso que ele ouvira na voz de Jesus: “Vem ser monge trapista” era, sim, uma inspiração divina, mas uma que o levava à Trapa exatamente para renunciar à Trapa! Eis a maravilha que é fazer a vontade de Deus: ela pode frustrar as “minhas vontades”, mas quem seria louco de querer o que Deus não quer? Sim, na realização da vontade de Deus está a fonte da nossa felicidade. É isso o que Jesus quer nos ensinar no Evangelho de hoje: se nós seguirmos inspirações que não são as do Bom Pastor, estaremos seguindo ladrões e assaltantes, que vêm apenas para tirar a vida das ovelhas, para matar e para destruir. Mas Jesus vem para que todos tenham vida, a vida divina, vida em abundância. S. Rafael Arnáiz, embora tenha morrido tão jovem, encontrou em Jesus essa vida em abundância quando, ouvindo a voz do Bom Pastor, seguiu a vontade dele, não a própria. Peçamos-lhe que interceda por nós, para que tenhamos a mesma sabedoria e o mesmo amor para abraçar as cruzes que Deus nos confia. Sim, a vontade de Deus é sempre muito boa. Somos nós, muitas vezes, que não conseguimos enxergá-la assim. Peçamos essa graça, a graça de não nos confundirmos, sabendo distinguir a voz do Bom Pastor também nas cruzes do dia a dia, seguindo Jesus para a vida, para a vida abundante em Deus.

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