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Um estímulo para a caça

Não é possível viver sem dopamina. É ela que nos estimula à “caça” — a sair em busca de alimento para a nossa sobrevivência, por exemplo —, justamente pela expectativa de uma recompensa futura e imediata.

O problema é que o excesso dessa molécula, provocado pelo consumo de pornografia e pelo contato frequente com as telas, está causando mudanças no cérebro humano, tais como as que ocorrem no organismo de um dependente químico e usuário de drogas.

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Neste curso vamos falar dos efeitos viciantes da internet, ou, melhor dizendo, da adicção ou dependência que desenvolvemos em decorrência do seu uso — ou abuso. É importante tratarmos desse assunto pois muitos pais brasileiros, por temerem a violência das ruas, o que os impede de deixar suas crianças se divertindo, livres e felizes, nas praças e parques, acabam precisando distrair os filhos em casa e, não vendo outro remédio, terminam recorrendo, desde a tenra idade, aos celulares, aos tablets, televisores, enfim, às telas.

Os pais mais atentos, com mostras de boa vontade, precisando apelar às telas, cuidam ao menos de selecionar bem o conteúdo, escolhendo aqueles de caráter educativo e, quando possível, de fundo cristão. Mas, conforme veremos neste curso, para além do conteúdo, existe um outro e seríssimo problema. 

Há sete anos, demos um curso sobre pornografia e masturbação, e nele apresentamos vários estudos que, na época, eram novidade. (Quer dizer, novidade no Brasil, pois no resto do mundo já se discutiam os efeitos viciantes da pornografia e as modificações que ela causava no cérebro humano.) Naquele curso, usamos como bibliografia básica as obras Your Brain on Porn, de Gary Wilson [“Seu Cérebro com a Pornografia”, sem tradução portuguesa], e “Programados para a Intimidade”, de William Struthers. Esses estudos demostravam: que pessoas com acesso à internet rápida, a partir de 2006, estavam sistematicamente consumindo pornografia: que este consumo causava uma série de danos neurológicos; que se notava, nos viciados, naqueles que já estavam em estado de adicção relacionada à pornografia, uma dificuldade nos relacionamentos sexuais no mundo real, de carne e osso.

E isto porque, ao contrário do que pensam muitas pessoas, por estarem imersas numa cultura assombrosamente pornográfica, pornografia não é sexo. Muito pelo contrário. O sexo verdadeiro, no mundo concreto, não é uma experiência visual. O que tem de visual, no ato mesmo, é mero acidente. A cultura pornográfica, no entanto, vincula o sexo a uma experiência visual, experiência que é processada na área do cérebro que nos ativa o instinto de caça — coisa que, obviamente, o marido não precisa fazer com a esposa. Daí que quem consuma pornografia desenvolva a parafilia do voyeur, cujo prazer está apenas no olhar. É aquilo que acomete, por exemplo, os homens que andam pelas ruas com olhar de caçador, torcendo indecentemente o pescoço a todas as mulheres que passam. É o desejo incontrolável por ver. 

Quando, noutros tempos, essa tara se resumia à caça de pornografia nas bancas de revista, estávamos diante de um fenômeno, aparentemente, só comportamental. Até que em 2006, com a popularização da internet rápida, um vídeo que antes levava horas e horas para ser baixado, passou a ser acessado em questão de segundos. E essa velocidade vem se aprimorando constantemente, tanto que, hoje, se um vídeo leva mais do que segundos para carregar, o internauta já fica agitado, resmungando, reclamando do serviço que não estaria a contento. 

Para a minha geração, que viu o surgimento da internet, isso já é evidentemente uma revolução. Quando eu era seminarista, em Roma, lembro de todos comentarem, deslumbrados, diante de um fax: “Que maravilha!” O fax era coisa de outro planeta: colocávamos um documento aqui e ele era reproduzido do outro lado, inclusive a distâncias continentais e oceânicas. Hoje, quem liga para fax? Agora, imagine o quanto tudo isso não parece revolucionário para a geração do meu pai, que, com seus oitenta anos, viu a máquina de escrever e o telégrafo. Hoje, com o celular que está no bolso de todo o mundo, podemos conversar com pessoas de qualquer parte e de modo instantâneo. Pode parecer bobagem se alongar neste detalhe, mas, acreditem, para muitos jovens, toda essa tecnologia é como que parte do mundo desde os idos da humanidade

Em resumo, houve toda uma evolução técnica, que causou uma série de mudanças comportamentais. Dentre esses avanços está a internet veloz, que possibilitou, dentre muitas outras coisas positivas e negativas, que uma pessoa pudesse ter, em dez minutos, acesso à mais pornografia do que os nossos antepassados jamais conceberiam ter durante a vida inteira. 

No entanto, temos o mesmo cérebro dos nossos antepassados, um cérebro feito para a escassez. Um homem na savana africana ou na selva amazônica precisa caçar, senão morre. Essa percepção da escassez e o estímulo para supri-la são mecanismos fundamentais para a preservação da espécie humana. Para que o homem antigo sempre se mantivesse estimulado a caçar, o cérebro lhe criava uma sensação futura de recompensa, produzida por um neurotransmissor chamado dopamina.

Inicialmente, os cientistas descreveram a dopamina — uma descoberta recente, de 1957 — como a molécula do prazer. No entanto, e aqui temos uma informação crucial para o curso inteiro, ela não é do prazer, mas do estímulo para a caça. A dopamina, no chamado circuito mesolímbico, faz com que o cérebro humano busque uma recompensa imediata e, por isso, nos estimula à caçada. Note então que o prazer já conquistado, seja o que sentimos diante da comida predileta, seja o que se sente no orgasmo sexual, não é proporcionado pela dopamina. Ela, pelo contrário, nos atiça a ir buscar tais sensações prazerosas, justamente pela expectativa de recompensa. 

É exatamente esse o mecanismo que, por assim dizer, move aquele olhar de caçador. E não só o olhar do homem, nas ruas, à caça de mulheres. Acontece, por exemplo, quando se está diante de vitrines de shopping center ou da lista de produtos do site de vendas. Claro, não é possível viver sem dopamina. Seria necessária uma virtude sobrenatural para forçar o nosso organismo, sem essa recompensa interna, a buscar as coisas. O problema, conforme os estudos mencionados constataram, é que o excesso de dopamina, como o provocado pela caça de pornografia, está causando mudanças no cérebro humano comparáveis às que ocorrem quando se usa uma droga. 

Existe uma renomada neurocientista mexicana chamada Nora Volkow, que, numa curiosidade biográfica, é bisneta de Leon Trótski [1]. Ela estudou no seu país e mais tarde migrou para os Estados Unidos, onde começou a fazer experiências observando o cérebro de pessoas drogadictas por meio de uma tecnologia recente chamada PET scan [2]. Ela notou que o funcionamento do sistema mesolímbico em usuários de drogas era diferente do que se via em pessoas sãs. Ao dar cocaína ou droga correlata a uma pessoa que não costuma usar esse tipo de entorpecente, ela constatou dinâmicas cerebrais distintas em comparação com pessoas já viciadas, submetidas à mesma dose.  

Isso chamou a atenção de Nora Volkow e de toda a sua equipe. E tal foi a relevância de suas descobertas que, desde a administração Bush, sobrevivendo a Obama, Trump e Biden, ela é diretora do Instituto Nacional de Abuso de Drogas (National Institute on Drug Abuse, ou NIDA, na sigla em inglês), em Washington, fato que mostra, sem chance de dúvidas, que sua preocupação não se reduz a uma questão partidária. 

Sempre notamos o seguinte fenômeno: quanto mais alguém, por exemplo, cheira cocaína, mais precisará cheirar para conseguir um efeito cada vez menor. Isso ocorre porque os receptores da dopamina, diante do excesso deste neurotransmissor no sistema, se recusam a captá-la, e, portanto, não permitem que se produzam os mesmos efeitos anteriores, de quando ela ocorria em níveis mais modestos. O resultado é aquela experiência universal: no começo a pessoa usa a droga para ficar “doidona”; depois precisa usar, e cada vez mais, para ficar normal. 

O impressionante é que se descobriu, lá atrás, que com a pornografia o fenômeno é o mesmo, só que em diferentes níveis quantitativos. A cocaína provoca uma descarga dopaminérgica no cérebro, e quanto maior o pico de dopamina, maior o prazer, mais se fica “doidão”. O pico de dopamina que se alcança com a pornografia é, vamos supor, nível dez; com a cocaína, cinquenta; com o crack, que é a mesma substância da cocaína, cem.  

Não estou dizendo, obviamente, que cocaína é dopamina. As várias drogas, o álcool, a cocaína, a maconha, todas elas provocam a presença de dopamina no sistema, mas por meios diferentes. Uma coisa é provocar a dopamina através dos opióides, outra através dos canabinóides, e assim por diante. Só estou dizendo que, no fim das contas, tudo termina na dopamina. 

Mas a dopamina, para voltarmos ao início do raciocínio, é um neurotransmissor feito para a escassez. Que alimentos abundantemente calóricos se pode encontrar na selva? Com sorte, um pouco de mel. No mais, o silvícola antigo precisaria o tempo todo conviver com a escassez e manter-se sempre estimulado a caçar para manter vivo a si próprio e a sua família.

O problema é que este cérebro, programado para a escassez, agora vive na abundância. Por exemplo, os índios do Mato Grosso, se, antes, quisessem se alcoolizar, tinham de pegar uma palmeira, o acuri, o bacuri e tirar o talo da palmeira. Depois, tinham de tirar a seiva com um canudo e despejá-la num pote onde, misturada com saliva, ela passaria por um processo de fermentação. Daí sairia um álcool de gradação alcóolica baixíssima. Era isso que os bororos conseguiam produzir. Agora temos os destilados, de gradação alcóolica altíssima. Nem precisa dizer que a capacidade de adicção aumentou estrondosamente. E isso está acontecendo com o álcool, com as drogas, com a pornografia, com a internet. 

Nessa primeira aula, quis apenas colocar o problema de forma geral, com enfoque nas descobertas de Nora Volkow. Nas próximas aulas, veremos concretamente como essa realidade migrou da cocaína e das drogas para a pornografia, e como agora está operando até mesmo sobre quem nunca vê pornografia, sobre aquele adolescente que joga videogames e fica o dia inteiro no Instagram ou no TikTok.

Referências

  1. Trótski fugiu da União Soviética para o México e lá foi assassinado, a mando de Stálin. O pai de Nora Volkow, ou seja, o neto de Trótski, chegou ao México junto com o avô. Eles moravam na mesma casa porque o menino era órfão: a mãe, filha de Trótski, tinha cometido suicídio, e o pai tinha morrido nos gulags, os campos de concentração stalinistas. Trótski considerou que tinha de educar o menino e então foi com ele para o México. Esse menino, pai da neurocientista, presenciou a morte do avô. Digo tudo isso por ser uma curiosidade na biografia dessa médica, que é extremamente competente, e também para assinalar que não se trata de uma religiosa. Ou seja, estamos no campo objetivo da neurociência. Não foi um padre católico “com preconceitos e superstições” que descobriu os problemas da internet.
  2. Aqui no Brasil, a maior parte das pessoas conhece o PET scan usado para fazer o diagnóstico de câncer. Trata-se, fundamentalmente, de um scanner que passa pelo corpo e consegue detectar mudanças no metabolismo. 
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