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O que as mortes repentinas nos ensinam
Espiritualidade

O que as mortes repentinas nos ensinam

O que as mortes repentinas nos ensinam

Nada mais certo que a morte e, ao mesmo tempo, nada tão incerto quanto a hora em que ela vem.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Novembro de 2016
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O Brasil e o mundo acordaram em choque no dia de hoje, 29 de novembro, com a trágica notícia do acidente aéreo envolvendo a equipe de futebol da Chapecoense. A delegação do clube viajava para a Colômbia, onde disputaria um título sul-americano inédito. O avião que conduzia os jogadores e outros profissionais caiu próximo de Medellín. Segundo as autoridades colombianas, há mais de 70 mortos e apenas 5 sobreviventes.

Poucas palavras servem, na verdade, para um momento como este. Quanta dor não devem estar sentindo neste momento, especialmente os amigos e familiares mais próximos das vítimas! Por eles, por todos os que experimentaram nessa tragédia a perda de seus entes queridos, não nos esqueçamos de oferecer as nossas orações e, se possível, o nosso conforto. Também pelas almas desses jogadores que se vão, rezemos para que recebam de Deus o "repouso eterno" e sejam iluminados pela "luz perpétua", como pedimos na tradicional oração do Réquiem.

De nossa parte, é necessário que tiremos, desses fatos, lições para a nossa vida. Diferentemente dos homens, Deus se comunica conosco não só por meio de palavras e ações, mas também através dos acontecimentos da história.

Por isso, para ajudar-nos a fazer uma verdadeira meditação nesse sentido, nada melhor que recorrer à sabedoria de um doutor da Igreja, Santo Afonso de Ligório, autor da excelente obra de espiritualidade "Preparação para a morte". Transcrevemos abaixo o capítulo 5.º desse livro, que fala sobre a "incerteza da hora da morte".


Incerteza da hora da morte

Santo Afonso Maria de Ligório

Estote parati, quia qua hora non putatis, Filius hominis veniet.
Estai prevenidos, porque na hora em que menos pensais virá o Filho do Homem (Lc 12, 40).

PONTO I

É certíssimo que todos devemos morrer, mas não sabemos quando. "Nada há mais certo que a morte, porém nada mais incerto que a hora da morte" [1]. Meu irmão, estão fixados ano, mês, dia, hora e momento em que terás que deixar este mundo e entrar na eternidade; porém nós o ignoramos. Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de estarmos sempre bem preparados, nos disse que a morte virá como um ladrão, oculto e de noite: Sicut fur in nocte, ita veniet (1Ts 5, 2). Outras vezes nos exorta a que estejamos vigilantes, porque, quando menos o esperamos, virá Ele a julgar-nos: Qua hora non putatis, Filius hominis veniet (Lc 12,40). Diz São Gregório que Deus nos oculta, para nosso bem, a hora da morte, a fim de que estejamos sempre preparados para morrer: De morte incerti sumus, ut ad mortem semper parati inveniamur [2]. A morte pode levar-nos em qualquer momento e em qualquer lugar; por isso, se queremos morrer bem e salvar-nos, é preciso, diz São Bernardo que a estejamos esperando em qualquer tempo ou lugar: Mors ubique te exspectat; tu ubique eam exspectabis [3].

Ninguém ignora que deve morrer; mas o mal está em que muitos vêem a morte a tamanha distância que a perdem de vista. Mesmo os anciãos mais decrépitos e as pessoas mais enfermas não deixam de alimentar a ilusão de que hão de viver mais três ou quatro anos. Eu, porém, digo o contrário. Devemos considerar quantas mortes repentinas vemos em nossos dias. Uns morrem caminhando, outros sentados, outros dormindo em seu leito. É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, no dia em que morreu. Afirmo, ademais, que de quantos no decorrer deste ano morreram em sua própria cama, e não de repente, nenhum deles imaginava que devia acabar sua vida neste ano. São poucas as mortes que não chegam inesperadas.

Assim, pois, cristão, quando o demônio te provoca a pecar, com o pretexto de que amanhã confessarás, dize-lhe: Quem sabe se não será hoje o último dia da minha vida? Se esta hora, se este momento, em que me apartasse de Deus, fosse o último para mim, de modo que já não restasse tempo para reparar a falta, que seria de mim na eternidade? Quantos pobres pecadores tiveram a infelicidade de ser surpreendidos pela morte ao recrearem-se com manjares intoxicados e foram precipitados no inferno? Sicut pisces capiuntur hamo, sic capiuntur homines in tempore malo: "Assim como os peixes caem no anzol, assim são colhidos os homens pela morte num momento ruim" (Ecle 9, 12). O momento ruim é exatamente aquele em que o pecador ofende a Deus. Diz o demônio que tal desgraça não nos há de suceder; mas é preciso responder-lhe: E se suceder, que será de mim por toda a eternidade?

Afetos e súplicas

Senhor, não é este o lugar em que me devia achar agora, mas sim no inferno, tantas vezes merecido por meus pecados: Infernus domus mea est ( 17, 13). Mas São Pedro me adverte que "Deus nos espera com paciência e amor, não querendo que ninguém se perca, mas que todos se convertam à penitência" (2Pd 3, 9). Por isso, meu Deus, tivestes paciência extremada para comigo e me suportastes. Não quereis que me perca, mas que, arrependido e penitente, me converta a Vós. Sim, meu Senhor, retorno a vós, prostro-me a vossos pés e peço misericórdia. Para me perdoardes, Senhor, é preciso grande e extraordinária misericórdia, porque vos ofendi com pleno conhecimento do que fazia. Outros pecadores também vos ofenderam, mas não dispunham das luzes que me outorgastes. Apesar disso, mandais que me arrependa de minhas culpas e espere o vosso perdão. Pesa-me, meu querido Redentor, de todo o coração de vos ter ofendido e espero o perdão pelos merecimentos de vossa Paixão. Ó meu Jesus, que sois inocente, que quisestes morrer qual réu na cruz e derramar todo o vosso sangue para lavar minhas culpas! O sanguis innocentis, lava culpas poenitentis: "Ó sangue inocente, lavai as culpas de um penitente!"

Ó Pai Eterno, perdoai-me por amor a Cristo Jesus! Atendei-lhe as súplicas agora que, como meu advogado, intercede por mim. O perdão, porém, não me basta, ó Deus digno de amor infinito; desejo ainda a graça de amar-vos. Amo-vos, ó Soberano Bem, e vos ofereço para sempre meu corpo, minha alma, minha vontade, minha liberdade. Doravante, não só quero evitar as ofensas graves, mas também as mais leves, e fugir de toda a má ocasião. Ne nos inducas in tentationem. Livrai-me, por amor de Jesus, de toda ocasião em que possa ofender-vos. Livrai-me do pecado, e castigai-me depois como quiserdes. Aceito todas as enfermidades, dores e perdas que vos aprouver enviar-me, contanto que não perca vosso amor e vossa graça. Petite, et accipietis: Prometestes dar tudo que vos for pedido (Jo 16, 24). Rogo-vos que me concedais somente a perseverança e o vosso amor.

Ó Maria, Mãe de misericórdia, rogai por mim, que confio em vós!

PONTO II

O Senhor não nos quer ver perdidos. Por isso, com ameaça de castigo, não cessa de advertir-nos que mudemos de vida. "Se não vos converterdes, vibrará sua espada" (Sl 7, 13). Vede — diz em outra parte — quantos são os desgraçados que não quiseram emendar-se, e a morte repentina os surpreendeu quando não esperavam, quando viviam despreocupados, julgando terem ainda muitos anos de vida: Cum dixerint pax, et securitas, tunc repentinus eis superveniet interitus (1Ts 5, 3). Disse-nos também: "Se não fizerdes penitência, todos haveis de perecer" (Lc 13, 5). Por que tantos avisos do castigo antes de infligi-lo, senão porque quer que nos corrijamos e evitemos morte funesta? Quem dá aviso para que nos acautelemos, não tem a intenção de matar-nos — diz Santo Agostinho [4].

É mister, pois, que preparemos nossas contas antes que chegue o dia do vencimento. Se durante a noite de hoje devesses morrer, e ficasse decidida assim a tua salvação eterna, estarias bem preparado? Quanto não darias, talvez, para obter de Deus a trégua de mais um ano, um mês, um dia sequer! Por que agora, já que Deus te concede tempo, não pões em ordem tua consciência? Acaso não pode ser este teu último dia de vida? "Não tardes em te converter ao Senhor, e não o adies, porque sua ira poderá irromper de súbito e no tempo da vingança te perderás" (Ecle 5, 7). Para salvar-te, meu irmão, deves abandonar o pecado. "E se algum dia hás de abandoná-lo, por que não o deixas desde já?", pergunta Santo Agostinho [5]. Esperas, talvez, que chegue a morte? Mas esse instante não é tempo do perdão, senão da vingança. "No tempo da vingança, te perderás".

Se alguém te deve soma considerável, tratas de assegurar o pagamento por meio de obrigação escrita, firmada pelo devedor, dizendo: Quem sabe o que pode suceder? Por que, então, deixas de usar da mesma precaução, tratando-se da alma, que vale muito mais que o dinheiro? Por que não dizes também: quem sabe o que pode ocorrer? Se perderes aquela soma, não estará ainda tudo perdido e ainda que com ela perdesses todo o patrimônio, ficaria a esperança de o poder recuperar. Mas se, ao morrer, perdesses a alma, então, sim, tudo estaria irremediavelmente perdido, sem esperança de recobrar coisa alguma. Cuidas em arrolar todos os bens de que és possuidor, com receio de que se percam quando sobrevier morte repentina. E se esta morte imprevista te achasse na inimizade para com Deus? Que seria de tua alma na eternidade?

Afetos e súplicas

Ah! meu Redentor, derramastes todo o vosso sangue, destes a vida para salvar minha alma, e eu, quantas vezes a perdi, confiando em vossa misericórdia! Abusei de vossa bondade para vos ofender; mereci, por isso, que me deixásseis morrer e precipitásseis no inferno. Estamos, pois, como que numa competição. Vós usando piedade comigo, eu vos ofendendo; vós a correr para mim, eu fugindo de vós; vós, dando-me tempo para reparar o mal que pratiquei, eu, valendo-me desse tempo para acrescentar injúria a injúria. Senhor, fazei-me conhecer a grandeza das ofensas que vos fiz, e a obrigação que tenho de amar-vos.

Ah! meu Jesus! Como podeis amar-me ao ponto de ir à minha procura, quando eu vos repelia? Como cumulastes de tantos benefícios a quem de tal modo vos ofende? De tudo isto vejas quando desejais não me ver perdido. Arrependo-me de ter ultrajado a vossa infinita bondade. Aceitai, pois, esta ovelha ingrata que volta a vossos pés. Recebei-a e ponde-a aos ombros para que não fuja mais. Não quero apartar-me de vós, mas amar-vos e pertencer-vos inteiramente. E desde que seja vosso, gostosamente aceitarei qualquer trabalho. Que desgraça maior poderia afligir-me do que viver sem vossa graça, afastado de vós, que sois meu Deus e Senhor, que me criou e que morreu por mim? Ó malditos pecados, que fizestes? Induzistes-me a ofender a meu Salvador, que tanto me amou.

Assim como vós, meu Jesus, morrestes por mim, assim deverei eu morrer por vós. Morrestes pelo amor que me tendes. Eu deverei morrer de dor por vos ter desprezado. Aceito a morte como e quando vos aprouver enviá-la. Mas, já que até agora pouco ou nada vos hei amado, não quisera morrer assim. Dai-me vida para que vos ame antes de morrer. Para isso, renovai meu coração, feri-o, inflamai-o com o vosso santo amor. Atendei-me, Senhor, por aquela ardentíssima caridade que vos fez morrer por mim. Amo-vos de toda a minha alma. Não permitais que vos perca. Dai-me a santa perseverança. Dai-me o vosso amor.

Maria Santíssima, minha Mãe e meu refúgio, sede minha advogada!

PONTO III

"Estai preparados" — O Senhor não disse que nos preparemos ao aproximar-se a morte, mas que estejamos preparados. No transe da morte, nesse momento cheio de perturbação, é quase impossível pôr em ordem uma consciência embaraçada. Isto nos diz a razão. Nesse sentido Deus também advertiu-nos, dizendo que não virá então perdoar, mas vingar o desprezo que fizéssemos da sua graça (Rm 12, 19). "Justo castigo — disse Santo Agostinho — para aquele que não quis salvar-se quando pôde; agora, quando quer, não o pode" [6]. Dirá todavia alguém: Quem sabe? talvez nesse momento me converta e me salve. Mas quem é tão néscio e se lança num poço dizendo: Quem sabe? atirando-me, talvez fique com vida e não morra? Ó meu Deus, que é isto? Quanto o pecado cega o espírito e faz perder até a razão! Quando se trata do corpo, os homens falam como sábios, e como loucos, quando se trata da alma.

Santo Afonso de Ligório, fundador dos Redentoristas e autor de "Preparação para a Morte".

Meu irmão, quem sabe se esta reflexão que lês será o último aviso que Deus te envia? Preparemo-nos sem demora para a morte, a fim de que não nos encontre de improviso. Santo Agostinho disse que o Senhor nos oculta a última hora da vida com o fim de que todos os dias estejamos preparados para morrer: Latet ultimus dies, ut observentur omnes dies [7]. São Paulo nos previne que devemos procurar a salvação não só temendo mas tremendo: Cum metu et tremore vestram salutem operamini (Fl 2, 12). Conta Santo Antonino que certo rei da Sicília, para manifestar a um particular o grande medo com que se sentava no trono, o fez sentar à mesa com uma espada suspensa sobre sua cabeça por um fio delgado, de sorte que o convidado, vendo-se nessa terrível situação, mal podia levar à boca uma migalha de alimento. Todos estamos em semelhante perigo, já que dum instante para outro pode cair sobre nós a espada da morte, resolvendo o negócio da eterna salvação [8].

Trata-se da eternidade. "Se a árvore cair para o norte ou para o sul, em qualquer lugar onde cair aí ficará" (Ecle 11,3). Se na morte nos acharmos na graça de Deus, qual não será a alegria da alma vendo que tudo está seguro, que já não pode perder a Deus e que, para sempre, será feliz? Mas, se a morte surpreende a alma em estado de pecado, que desespero se apoderará do pecador ao dizer: "Então erramos" (Sb 5, 6), e para minha desgraça já não há remédio em toda a eternidade! Foi este receio que fez exclamar o bem-aventurado João de Ávila, apóstolo da Espanha, quando lhe anunciaram a aproximação da morte: "Oh! se tivesse um pouco mais de tempo para me preparar para a morte!" [9]. Foi por isso que o abade Agatão, ainda que morresse depois de haver exercido a penitência durante muitos anos, dizia: "Que será de mim? Quem conhece os juízos de Deus?" [10] Também Santo Arsênio tremia à vista da morte e, perguntando-lhe os seus discípulos a causa, respondeu: "Meus filhos, já não é novo em mim esse temor: tive-o sempre, em toda a minha vida" [11]. Mais que ninguém tremia o Santo Jó, dizendo: "Que será de mim quando Deus se levanta para me julgar, e que lhe direi se me interrogar? ( 31, 14).

Afetos e súplicas

Ó meu Deus! Quem me tem amado mais do que vós? E quem vos desprezou e ofendeu mais do que eu? Ó sangue, ó chagas de Cristo, sois minha esperança! Pai Eterno, não olheis meus pecados. Fitai as chagas de Jesus Cristo; contemplai vosso Filho muito amado, que morre de dor por mim e vos implora que me perdoeis. Pesa-me do íntimo de minha alma, meu Criador, de vos ter ofendido. Criastes-me para que vos ame, e vivi como se me tivésseis criado para vos ofender. Pelo amor de Jesus Cristo, perdoai-me e dai-me a graça do vosso amor.

Se outrora resisti à vossa santa vontade, agora já não quero resistir, mas fazer tudo o que me ordenais. Ordenais que deteste os ultrajes que voz fiz: detesto-os de todo o coração. Ordenais que me resolva a não vos tornar a ofender; pois bem, faço o firme propósito de antes perder mil vezes a vida do que a vossa graça. Ordenais que vos ame de todo o coração; pois bem, de todo o coração vos amo e a nada quero amar senão a vós. De hoje em diante, sereis o único amado de minha alma, o meu único amor. Peço-vos o dom da perseverança, e de vós o espero obter. Pelo amor de Jesus Cristo, fazei com que vos seja sempre fiel e possa dizer com São Boaventura: "Um só é meu amado; um só é meu amor". Não quero que minha vida sirva para vos desagradar, senão para chorar as ofensas que vos fiz e para vos amar muito.

Ó Maria, minha Mãe, intercedei por todos os que a vós se recomendam e rogai também a Jesus por mim!

Referências

  1. Essa citação, atribuída por Santo Afonso a um autor antigo de pseudônimo "Idiota", encontra-se ipsis litteris em um opúsculo de autor incerto intitulado De excellentia SS. Sacramenti et de dignitate sacerdotum, "Sobre a excelência do Santíssimo Sacramento e a dignidade dos sacerdotes" (PL 184, 991).
  2. Moralia in Iob, l. 12, c. 38, n. 43 (PL 75, 1006).
  3. Meditationes piissimae de cogn. hum. conditionis, c. 3, n. 10 (PL 184, 491).
  4. Sermo 22, c. 3, n. 3 (PL 38, 150).
  5. Cf. Confessiones, l. 8, c. 12, n. 28 (PL 32, 762); Possidius, Vita S. Augustini, c. 27 (PL 32, 57).
  6. De libero arbitrio, l. 3, c. 18, n. 52 (PL 32, 1296).
  7. Sermo 39, c. 1, n. 1 (PL 38, 241).
  8. Summa theol., pars IV, tit. 14, c. 8, par. 3 (IV, Veronae 1740, col. 818).
  9. Mugnos L., Vita dell'apostolico predicatore il P. M.o Giovanni d'Avila, l. 3, c. 23 (Milano 1667, 400-401).
  10. Cf. Vitae Patrum, l. 3, n. 161 (PL 73, 793).
  11. Cf. Vitae Patrum, l. 3, n. 163 (PL 73, 794).

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“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero
Sociedade

“Definitivamente satânica”: um
exorcista fala da ideologia de gênero

“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero

Este exorcista está convencido de que “a forma como essa coisa de gênero tem se espalhado é demoníaca”, por mais que as pessoas não enxerguem, ou se recusem a fazê-lo.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Novembro de 2018
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Crianças “treinadas” desde cedo para “descobrir” a própria sexualidade ou questionar o próprio “gênero”, pais punidos pelo Estado por não aceitar que seus filhos recebam a “educação sexual” tendenciosa da escola, programas de TV cada vez mais abertamente ideológicos e pervertidos, inclusive para o público infantil… A lista de investidas que os ideólogos de gênero têm promovido nos últimos anos, em todas as áreas, parece não ter mais fim. Talvez seja necessário, em um futuro próximo, isolar-se numa caverna para escapar à sua influência.

Um episódio recente de promoção dessa agenda — protagonizado pela famosa cantora Celine Dion, cuja posição favorável à família e contra o divórcio já foi elogiada em outros tempos por sítios católicos — acendeu o alerta de muitos para o poder de sedução e de manipulação dessa ideologia. A artista fez campanha para a linha internacional de roupas infantis “NuNuNu”, inaugurando uma marca com a finalidade de “liberar as crianças dos papéis tradicionais de menino e menina”.

Não fosse isso o suficiente, a empresa em questão tem em seu histórico um mural de fotos para lá de controverso, com máscaras sem rosto, espelhos refletindo caveiras, bodes segurando livros infantis, crianças com tatuagens de piratas e anéis sombrios.

Para o monsenhor John Esseff, padre há 65 anos e exorcista experiente, que conversou com a escritora católica Patti Armstrong, colunista de National Catholic Register, “a forma como essa coisa de gênero tem-se espalhado é demoníaca”. O sacerdote exerce seu ministério na diocese de Scranton, no estado norte-americano da Pensilvânia, já foi diretor espiritual de Santa Teresa de Calcutá e ajudou a fundar e dirigir um instituto de formação para exorcistas.

“Quando uma criança nasce”, ele se pergunta, “quais as primeiras coisas que se dizem dela? Que é um menino ou que é uma menina. É a coisa mais natural do mundo de se dizer. Dizer que não há nenhuma diferença, ao contrário, é algo satânico. Eu não sei nem mesmo quantos gêneros deve haver agora, mas há apenas dois criados por Deus.”

Ainda que o demônio esteja em guerra com a humanidade desde o princípio, o padre John destaca que os ataques satânicos neste período da história têm-se tornado mais intensos. “O maligno sente que, de alguma forma, ele pode fazer essas coisas sem ser reconhecido. Ele é um mentiroso, e há grandes mentiras sendo contadas.”

Diante das fortes declarações do exorcista, houve quem sugerisse na internet que religiosos contrários à ideologia de gênero estariam acusando de “satanismo” a cantora Celine Dion. De fato, tanto o comercial quanto a marca apoiada por ela encontram-se repletos de elementos sombrios e perturbadores. Mas, ainda que não fosse o caso, nem por isso a proposta veiculada se tornaria menos perigosa. Muito pelo contrário, quanto mais disfarces usa o demônio, maior o seu poder de infiltração e conquista.

Trata-se, a propósito, de um grande erro da nossa época em relação ao mal: achar que a ação do demônio limita-se a rituais ocultistas, a possessões ou a manifestações malignas evidentes e indisfarçáveis. Não, o que o sacerdote acima está alertando é que Satanás age de modo sutil, muitas vezes “sem ser reconhecido”.

Como consequência de as pessoas não mais acreditarem na Verdade, não mais terem fé na Revelação divina, não mais levarem a sério o Credo e os preceitos da religião cristã, não mais escutarem a Palavra de Deus, elas acabam dando ouvidos às mentiras e ilusões do inimigo de Deus — entre as quais se inclui justamente a ideologia de gênero.

O Papa Bento XVI notou certa vez, com perspicácia, que por trás dessa ideia de que, à parte sua sexualidade como dado natural, o ser humano poderia moldar como bem entendesse o seu “gênero”, está uma “revolução antropológica”, uma noção não só herética de humanidade, mas avessa à própria razão natural. Não estivessem já confundidos pelas ideologias e obstinados em sua malícia, os homens de nossa época seriam facilmente curados com uma simples aula de catequese. Se desde crianças tivessem aprendido que o ser humano é corpore et anima unus — “uno de corpo e alma”, na expressão do Catecismo (n. 362) —, não se deixariam enganar por uma ideia tão maluca e distante tanto do bom senso quanto da realidade das coisas.

Ideias como essa, no entanto, não são apenas “mentirinhas” de mau gosto, contos sem nenhuma influência no dia-a-dia das pessoas… Quantas vidas não foram e não estão sendo “transtornadas”, no sentido mais literal da palavra, por uma teoria supostamente “científica” e com ares de modernidade!

Ponhamos de vez em nossa cabeça: a falta de fé e, com ela, as heresias e apostasias de nosso tempo não são inofensivas, ao contrário do que nossa época liberal tem sido levada a acreditar. Não é preciso invocar espíritos maus ou praticar rituais satânicos para estar a serviço do Anticristo. Na verdade, nunca foi tão fácil pertencer a esse corpo maligno que, “macaqueando” o Corpo místico de Cristo, a Igreja, constrói um verdadeiro império, e de proporções mundiais.

Se Santo Tomás de Aquino já falava, no século XIII, do Anticristo como cabeça dos maus (cf. Suma Teológica, III, q. 8, a. 8), nunca como agora esse organismo teve contornos tão nítidos, tão visíveis e tão… humanos. Na educação, nos governos civis, nos meios de comunicação, o satânico está por toda parte — e a ideologia de gênero é apenas um instrumento, muito poderoso e destruidor, desse sistema perverso.

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A paz é dos que temem a Deus
Espiritualidade

A paz é dos que temem a Deus

A paz é dos que temem a Deus

Neste mundo, é mais desejável e promissora a agitação dos “que estão acordados e vêem o perigo” de o barco afundar, do que a tranquilidade “fria, autossuficiente e orgulhosa” dos que não temem a Deus.

Beato John Henry NewmanTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Novembro de 2018
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Não hesitarei em expressar aqui minha firme convicção de que seria um ganho para este país se ele fosse muito mais supersticioso, mais intolerante, mais sombrio, mais violento em sua religião do que no presente ele tem demonstrado ser.

Não que eu considere desejáveis, é claro, os temperamentos aqui implicados, o que seria um evidente absurdo. Mas os considero infinitamente mais desejáveis e promissores do que uma obstinação pagã e uma tranquilidade fria, autossuficiente e orgulhosa.

Sem dúvida, a paz de espírito, uma consciência tranquila e um semblante alegre são um dom do Evangelho e o sinal de um cristão. Mas os mesmos efeitos (ou melhor, o que parecem ser os mesmos efeitos) podem advir de causas bem diferentes. Jonas dormiu em meio à tempestade, e o mesmo fez Nosso Senhor; mas um dormiu em uma segurança má, e o Outro na “paz que supera todo entendimento”. Os dois estados não podem ser confundidos; são perfeitamente distintos um do outro. Do mesmo modo, são distintas a calma do homem mundano e a do cristão.

Jonas e o grande peixe.

Considerai agora o exemplo dos tripulantes a bordo do navio. Eles gritaram a Jonas: “Que fazes aqui, dorminhoco?”, como também os Apóstolos disseram a Cristo: “Senhor, estamos perecendo.” Eis o caso dos supersticiosos: eles situam-se entre a falsa paz de Jonas e a verdadeira paz de Cristo; estão melhores do que aquela, ainda que estejam muito aquém desta.

Aplicando isso à atual religião do mundo civilizado, cheia como está de segurança e alegria, de decoro e benevolência, noto que essas características podem advir tanto de muita religião quanto de sua ausência; podem ser fruto de uma mente superficial e de uma consciência cega, ou daquela fé que está em paz com Deus por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De minha parte, vendo o que eu vejo do mundo, não tenho dúvidas de que o gênio de nossa época provém do sono de Jonas; e de que ele não passa, portanto, de uma fantasia de religião, muito inferior em dignidade ao alarme bem fundado dos supersticiosos, que estão acordados e vêem o perigo, ainda que não estejam tão avançados na fé a ponto de abraçar-lhe o remédio.

Eu não gostaria de ser duro, mas sabendo que “o mundo jaz no maligno”, considero altamente provável que vós, tanto quanto estais no mundo (como deveis estar, e nós todos estamos em alguma medida), estais, a maioria de vós, parcialmente infectados com esse seu erro, com essa religiosidade superficial, que é o resultado de uma consciência cega; e, por isso, eu me dirijo seriamente a vós. Acreditando na existência de uma praga geral na terra, julgo que vós provavelmente tendes vossa parte nos sofrimentos, os sofrimentos voluntários, que ela está espalhando entre nós.

O temor de Deus é o princípio da sabedoria: se vós, pecadores como sois, não O virdes como um fogo devorador e não vos aproximardes dEle com reverência e santo temor, não podereis sequer ver a porta estreita. Não quero que me indiqueis nenhum tempo particular de vossas vidas em que renunciastes ao mundo (como se costuma dizer) e vos convertestes. Isso é um engano. Temor e amor devem andar juntos; sempre o temor, sempre o amor, até o dia de vossa morte.

Sim, vós deveis saber o que é semear em lágrimas aqui, se quiserdes ceifar alegria na outra vida. Se não conhecerdes o peso de vossos pecados — e isso não apenas na mera imaginação, mas na prática; não apenas confessando-o em uma frase formal de lamentação, mas diariamente e no segredo do vosso coração —, não podereis abraçar a oferta de misericórdia que vos é prometida no Evangelho, por meio da morte de Cristo. Se não souberdes o que significa temer junto com os tripulantes aterrorizados ou com os Apóstolos, não podereis dormir com Cristo aos pés de vosso Pai celeste.

Por mais miseráveis que fossem as superstições das idades sombrias, por mais revoltantes que fossem as torturas agora comuns entre os pagãos do Oriente, melhor, muito melhor é torturar o próprio corpo todos os dias e fazer desta vida um inferno sobre a terra do que permanecer em uma breve tranquilidade aqui, até que a cova se abra larga abaixo de nós e nos desperte para uma consciência infrutífera e um remorso eternos. Pensai nas próprias palavras de Cristo: “Que pode dar o homem em troca de sua alma?” Novamente Ele diz: “Temei aquele que, havendo separado a alma do corpo, tem o poder de precipitar a um e a outro no inferno; sim, eu vos digo, a este temei.”

Não ouseis pensar que haveis chegado ao lugar mais profundo de vossos corações, pois vós não sabeis o mal que aí se oculta. Quanto tempo e com que sinceridade não deveis rezar, quantos anos não deveis passar em cuidadosa obediência, antes que tenhais qualquer direito a pôr de lado a tristeza e a exultar no Senhor? Em certo sentido podeis, de fato, consolar-vos com isso, pois, embora não ouseis ainda supor que estais no número dos reais eleitos de Cristo, a partir disso sabereis que Ele deseja vossa salvação, que Ele morreu por vós, que Ele lavou vossos pecados pelo Batismo e sempre vos ajudará; e esse pensamento vos deve alegrar, enquanto examinais e repassais vossas vidas e vos voltais para Deus em espírito de sacrifício.

Ao mesmo tempo, porém, enquanto estiverdes aqui, não podereis jamais estar certos da própria salvação e deveis, portanto, sempre temer enquanto tendes esperança. Vós conheceis cada vez mais os vossos pecados à medida que vedes a misericórdia de Deus em Cristo. E é este o verdadeiro estado cristão, bem como a melhor forma de aproximar-se do sono calmo e sereno de Cristo em meio à tempestade: não alegria perfeita e certeza do Céu, mas profunda resignação à vontade de Deus, entrega de nós mesmos a Ele, de corpo e alma; na esperança de que seremos salvos, sim, mas fixando nossos olhos mais sinceramente nEle do que em nós, isto é, agindo para a glória de Deus, procurando agradá-lO e dedicando-nos a Ele com obediência varonil e valorosas boas obras; e, então, ao olharmos para o nosso interior, pensando em nós mesmos com uma certa aversão e desprezo por sermos pecadores, mortificando nossa carne, contrariando nossos apetites e esperando tranquilamente aquele dia em que, se formos dignos, seremos despojados do nosso presente “eu” e renovados no Reino de Cristo.

Referências

  • Trecho do sermão “The Religion of the Day”, traduzido e levemente adaptado de “Parochial and Plain Sermons”, do B. John Henry Newman, v. 1, Longmans, Green and Co., London, 1907, pp. 320-324 (c. 24).

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O corpo incorrupto de Santa Catarina Labouré
Santos & Mártires

O corpo incorrupto
de Santa Catarina Labouré

O corpo incorrupto de Santa Catarina Labouré

Muitos já ouviram falar da Medalha Milagrosa, mas poucos conhecem o corpo igualmente milagroso de Catarina Labouré, a vidente de Nossa Senhora das Graças, encontrado intacto mais de 50 anos depois de sua morte.

Joan Carroll CruzTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Novembro de 2018
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Catarina Labouré, a vidente de Nossa Senhora a quem se deve a existência da Medalha Milagrosa, nasceu no seio de uma numerosa família de camponeses na pacífica vila de Fain-les-Moutiers, na França. Sua mãe morreu quando ela contava ainda nove anos de idade. Foi quando a menina tomou a bem-aventurada Virgem Maria por mãe e protetora. Piedosa desde a mais tenra infância, Catarina jejuava duas vezes por semana, não obstante as tarefas domésticas fatigantes que realizava na fazenda do pai. Além disso, participava diariamente da Santa Missa na capela das Irmãs da Caridade, a um quilômetro e meio de casa.

Havendo tomado a decisão de entrar para a vida religiosa, Catarina negou duas propostas de casamento, e seu pai, esperando desencorajar a filha, mandou-a viver junto com um irmão, que conduzia um restaurante em Paris, onde ela obedientemente servia às mesas. As circunstâncias, ao fim e ao cabo, permitiram que ela entrasse para a Ordem das Irmãs da Caridade, na Rue du Bac, em Paris, e foi ali que se cumpriu a sua vocação.

Como jovem postulante, ela costumava ver Nosso Senhor em frente ao Santíssimo Sacramento durante a Missa, e por três vezes teve visões místicas e simbólicas de São Vicente de Paulo sobre o relicário que continha seu coração incorrupto, conservado na capela da casa onde se deram todas as suas visões. Sem dúvida, as mais extraordinárias eram as que envolviam a Virgem Maria.

No dia 18 de julho de 1830, véspera da festa de São Vicente de Paulo, fundador de sua Ordem, Santa Catarina foi despertada durante a noite por seu anjo, que lhe apareceu com o aspecto de uma criança de cerca de cinco anos, toda radiante, e que a conduziu para dentro da capela. Ali ela recebeu a visita de Nossa Senhora, que tomou o assento reservado ao diretor das irmãs. Prostrando-se diante da aparição, Catarina recebeu a graça de pôr suas mãos dobradas sobre os joelhos da Virgem, que lhe disse: “Vem aos pés deste altar. Ali serão derramadas graças sobre ti e sobre todos os que pedirem por elas, ricos e pobres.”

A segunda aparição ocorreu em 27 de novembro de 1830, enquanto Catarina fazia sua meditação vespertina. Ao ouvir o farfalhar da seda, que ela reconheceu da primeira aparição, Catarina olhou para o lugar de onde vinha o som e contemplou a Santíssima Virgem de pé, na capela, próxima a uma imagem de São José. A pequena esfera que a aparição mantinha perto de seu coração lentamente desapareceu e imediatamente seus dedos se adornaram de anéis, e destes saíam raios de luz, símbolos das graças que ela concederia a todos os que lhas pedissem.

Devagar foi aparecendo em volta de Nossa Senhora uma moldura ovalada com letras brilhantes que diziam: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. No mesmo instante, uma voz dizia:

Tu deves cunhar uma medalha a partir deste modelo. As pessoas que a usarem depois de indulgenciada receberão grandes graças, especialmente se a usarem em torno do pescoço; graças serão distribuídas abundantemente sobre aqueles que tiverem confiança.

A visão voltou as costas a Catarina e então apareceu o monograma da Virgem, que é encontrado no verso da Medalha Milagrosa.

A terceira visão foi praticamente idêntica a esta segunda, com a diferença de a Virgem ter-se movido para cima do tabernáculo e atrás dele, lugar que é agora ocupado por uma imagem esculpida com base nessa visão.

Esta alma privilegiada reportou tais visões apenas a sua superiora e a seu diretor espiritual, e muitas dificuldades tiveram de ser superadas antes de as medalhas serem cunhadas e distribuídas.

Depois de sua profissão, Catarina foi mandada para o abrigo da Rue de Reuilly, onde passou os próximos 46 anos de sua vida, realizando os trabalhos mais servis e repugnantes em favor dos mais velhos e dos enfermos. Suas irmãs de congregação sabiam todas que uma no meio delas era a aclamada vidente da Medalha Milagrosa, mas a identidade de Catarina só foi revelada em seu leito de morte. Tendo predito por várias vezes que não chegaria a ver o ano de 1877, a santa morreu em 31 de dezembro de 1876.

Observando as leis de Paris a respeito do enterro em jazigos particulares, seu venerável corpo foi posto dentro de um caixão triplo, em uma cripta na capela da Rue de Reuilly, 77, onde permaneceu intocado por 56 anos. Logo em seguida ao anúncio de sua beatificação, deu-se o costumeiro reconhecimento das relíquias. Em 21 de março de 1933, uma delegação de médicos e sacerdotes juntou-se na cripta para a exumação. O caixão externo de madeira tinha caído aos pedaços, mas o segundo caixão, de chumbo, encontrava-se bem preservado e não foi sem grande dificuldade que conseguiram retirá-lo do exato lugar onde fora colocado e no qual permanecera por mais de meio século.

O caixão foi levado então a uma sala especialmente preparada para se examinar a relíquia. O agente funerário cortou a tampa do caixão chumbado e retirou-a, deixando entrever um caixão interno de madeira, que também estava aberto. Quando o médico suspendeu o pano que cobria o corpo, seus restos foram encontrados perfeitamente intactos. Uma testemunha ocular escreveu:

As mãos haviam deslizado para o lado, mas estavam brancas e em seu aspecto natural. O cordão do rosário havia apodrecido e as contas haviam se desprendido no caixão. A pele do rosto tinha a aparência levemente estriada, mas estava inteira. Os olhos e a boca estavam fechados [1].

Duas senhoras que haviam conhecido a Irmã Catarina reconheceram com facilidade as características de sua santa amiga.

O cirurgião da comunidade, Dr. Robert Didier, que foi testemunha da exumação, deixou registrado que:

…ao abrir o caixão, deparamos com uma massa acinzentada de serragem que havia tomado a forma do corpo; nessa superfície havia algumas evidências de mofo, mas nenhuma decomposição, apenas um odor levemente azedo.

Depois de remover a serragem cuidadosamente com a mão, era possível ver o pano mortuário; ele encontrava-se intacto, levemente úmido e podia ser facilmente retirado.

Limpo o corpo, tinha a aparência perfeitamente preservada, e em roupas que haviam mantido sua coloração e consistência normal.

As cornetas do hábito da religiosa haviam ficado sobre seu rosto, e isso, junto com o peso do pano mortuário e da serragem, fez achatar-se-lhe o nariz.

As mãos e o rosto tinham uma cor rosada com leves tons de marrom, mas também estavam intactos. Dois dedos da mão esquerda estavam um pouco enegrecidos, mas nós percebemos de imediato que a cor escura devia-se não à necrose do tecido, mas sim à tinta do hábito que havia passado para a mão do lado da rachadura do caixão de chumbo. Havendo apurados esses fatos, colocamos o pano de volta e fechamos o caixão para o traslado do corpo [2].

Após esse rápido exame, o corpo da santa foi trasladado em procissão solene para a casa principal das irmãs, onde foi recebido pelas irmãs, noviças e postulantes de sua Ordem, bem como pelos padres e noviços lazaristas. O caixão de chumbo, coberto com um tecido branco de seda no qual iam bordadas, em ambos os lados, imagens da Medalha Milagrosa, abria caminho em meio aos filhos e filhas de São Vicente de Paulo.

Às dez horas do dia seguinte, na presença de várias testemunhas, inclusive do cardeal e do cônego, que era o Promotor da Fé da Congregação dos Santos, o corpo foi mais uma vez desvelado em outra sala especialmente preparada para isso. O Dr. Didier registrou, então, o seguinte:

O corpo foi cuidadosamente retirado do caixão e colocado sobre uma mesa comprida.

O rosto, por conta de seu primeiro contato com o ar, havia se escurecido levemente desde o dia anterior; as roupas perfeitamente preservadas foram removidas com cuidado. Cabe notar que do lado esquerdo do corpo — o lado em contato com a rachadura do caixão de chumbo —, a roupa estava um pouco úmida e algumas partes do corpo (o braço esquerdo e o ombro) haviam experimentado um leve desgaste.

A pele nesta região estava um pouco inchada, enrijecida e exibia em sua superfície alguns resíduos esbranquiçados. Examinando o corpo, pudemos notar a perfeita flexibilidade dos braços e das pernas. Esses membros só haviam experimentado uma leve mumificação. A pele estava intacta e estriada por toda parte. Os músculos estavam preservados e podiam ser facilmente dissecados em uma aula de anatomia.

Nós cortamos o esterno ao meio. O osso mostrava uma consistência elástica e cartilaginosa e podia ser cortado com facilidade pela faca do cirurgião. Aberta a cavidade torácica, ficou-nos fácil remover o coração. Ele tinha encolhido bastante, mas manteve sua forma. Podíamos facilmente ver dentro dele os capilares fibrosos e restos das válvulas e músculos. Retiramos também algumas das costelas e a clavícula. Desmembramos os braços, que serão conservados à parte. As patelas dos joelhos foram removidas. Os dedos e as unhas dos pés encontravam-se em perfeitas condições. O cabelo permaneceu preso ao couro cabeludo.

Os olhos estavam em suas órbitas e as pálpebras meio fechadas. Nós podíamos afirmar que o globo ocular, mesmo caído e encolhido, achava-se íntegro, e até a coloração da íris, cinza azulada, permanecia.

Para garantir a preservação do corpo, injetamos uma solução de formaldeído, glicerina e ácido carbólico [3].

O corpo da santa foi colocado depois na capela da casa principal, sob o altar lateral de Nossa Senhora do Sol, onde repousa até hoje atrás de uma cobertura de vidro. As mãos erguidas e entrelaçadas por um rosário são feitas de cera. As mãos incorruptas da santa, que foram amputadas, são mantidas em um relicário especial, conservado agora no claustro das noviças, na casa principal. O coração da santa também foi colocado em um relicário especial, rica e reverentemente adornado, na capela da Rue de Reuilly, onde a santa havia rezado com tanta frequência enquanto cumpria seus deveres de estado.

A capela onde ocorreram as visões de Santa Catarina Labouré é, sem dúvida nenhuma, uma das mais veneradas no mundo, não só por ter recebido várias visitas de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa e de São Vicente de Paulo, mas também por haver nela várias relíquias preciosas:

  • próximo ao corpo incorrupto de Catarina, por exemplo, está o altar de São Vicente de Paulo, fundador da Ordem, na frente de cuja estátua está exposto um relicário contendo o seu coração;
  • do outro lado da capela, sobre o altar lateral, encontra-se outro relicário magnífico: uma estátua de cera contendo os ossos de Santa Luísa de Marillac, religiosa que fundou, junto com São Vicente, a congregação das Filhas da Caridade;
  • do lado do altar principal está a cadeira de veludo azul que a própria Virgem Maria tomou como assento em sua primeira aparição a Catarina Labouré (os que visitam a capela são autorizados a tocar e beijar a cadeira, e muitos deixam sobre ela pedacinhos de papel em que vão escritos seus pedidos de oração).

Santa Catarina foi canonizada em 27 de julho de 1947. Sua memória litúrgica é celebrada no dia 28 de novembro, um dia após a festa da Medalha Milagrosa.

Referências

  1. Rev. Edmond Crapez, C. M., Blessed Catherine Labouré, Daughter of Charity of St. Vincent de Paul (Emmitsburg, MD: St. Joseph’s Provicial House, 1933), pp. 235-36.
  2. Ibid., pp. 239-40.
  3. Ibid., pp. 240-41.

Notas

  • Traduzido e levemente adaptado de “The Incorruptibles”, Charlotte: TAN Books, 2012, pp. 267-272.

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“Rei de tremenda majestade”
Liturgia

“Rei de tremenda majestade”

“Rei de tremenda majestade”

Celebrar a solenidade de Cristo Rei, ao fim do ano litúrgico, é celebrar o “Rei de tremenda majestade” diante do qual inevitavelmente teremos de comparecer ao término de nossa vida terrestre. Preparemo-nos!

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Novembro de 2018
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O que significa celebrar, ao fim do ano litúrgico, a solenidade de Cristo, Rei do Universo?

Para responder a esta questão, poderíamos repassar algumas das preciosas lições da encíclica Quas Primas, de 11 de dezembro de 1925, com a qual o Papa Pio XI estabeleceu para o mundo inteiro essa festa litúrgica. Poderíamos lembrar, por exemplo, que embora o reino de Cristo seja “principalmente espiritual” e se refira “às coisas espirituais” (n. 10), “erraria gravemente aquele que negasse a Cristo-homem o poder sobre todas as coisas humanas e temporais” (n. 11).

Poderíamos comentar a causa histórica dessa instituição: o crescimento do laicismo, que persegue os cristãos e condena-os a guardarem a sua fé em uma gaveta, sob a alegação de que “o Estado é laico”. Poderíamos citar, então, como em 1925 o mundo acabava de sair da Primeira Guerra Mundial e assistia à ascensão de governos fortemente contrários à Igreja e a sua missão espiritual; como nessa época surgiram o nacional-socialismo na Alemanha, o fascismo na Itália, o socialismo na Rússia e no leste da Europa, sem falar do regime anticlerical de Plutarco Elías Calles no México, que deu origem à Guerra dos Cristeros.

Mas, como o próprio Pio XI reconhece no documento em questão:

Mais do que os documentos solenes do Magistério eclesiástico, têm eficácia na informação do povo nas coisas da fé e no levantá-lo às alegrias interiores da vida as festividades anuais dos sagrados mistérios. Os documentos, o mais das vezes, são tomados em consideração por poucos homens eruditos, as festas, porém, comovem e ensinam a todos os fiéis; aqueles só falam uma vez, esses, porém, por assim dizer, todo ano e em perpétuo; aqueles impressionam, de maneira salutar, sobretudo a mente, estas, porém, não só a mente mas também o coração, enfim todo o homem. Na verdade, sendo o homem composto de alma e de corpo, precisa ser solicitado pelas solenidades exteriores, de forma que pela variedade e beleza dos ritos sagrados, receba no ânimo os ensinamentos divinos e, convertendo-os em substância e sangue, sirvam-lhes ao progresso de sua vida espiritual (n. 13).

Sendo nós compostos, portanto, de corpo e alma, e podendo ter acesso às riquezas da liturgia católica pelo menos através da internet, deixemo-nos solicitar “pela solenidades exteriores” com que a Igreja desde sempre adornou o culto divino:

No vídeo acima, extraído da composição de Mozart para a Missa de Exéquias, a orquestra impressiona-nos com um canto a Jesus Cristo, “Rei de tremenda majestade”. Rex treméndae maiestátis, qui salvándos salvas gratis, salva me, fons pietátis, diz o texto litúrgico. “Rei de tremenda majestade, que de graça salvais os que devem ser salvos, salvai-me, fonte de piedade”.

A sequência Dies irae, da qual é retirada esta breve oração, está presente na Missa pelos defuntos da Forma Extraordinária do Rito Romano. Na Forma Ordinária, porém, ainda é possível cantá-la como hino facultativo na última semana da Liturgia das Horas (a sua composição para o canto gregoriano pode ser ouvida e aprendida aqui). Em episódio do programa “Ao vivo com Pe. Paulo”, já tivemos a oportunidade de meditar sobre esse hino completo.

Celebrar a solenidade de Cristo Rei, ao fim do ano litúrgico, é celebrar o “Rei de tremenda majestade” diante do qual compareceremos ao término de nossa passagem neste mundo. O belo arranjo de Mozart pode nos ajudar a ter uma noção (ainda que muito insipiente) do que será esse encontro terrível e ao mesmo tempo consolador entre a misericórdia divina e a grande miséria que somos nós.

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