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O que as mortes repentinas nos ensinam
Espiritualidade

O que as mortes repentinas nos ensinam

O que as mortes repentinas nos ensinam

Nada mais certo que a morte e, ao mesmo tempo, nada tão incerto quanto a hora em que ela vem.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Novembro de 2016
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O Brasil e o mundo acordaram em choque no dia de hoje, 29 de novembro, com a trágica notícia do acidente aéreo envolvendo a equipe de futebol da Chapecoense. A delegação do clube viajava para a Colômbia, onde disputaria um título sul-americano inédito. O avião que conduzia os jogadores e outros profissionais caiu próximo de Medellín. Segundo as autoridades colombianas, há mais de 70 mortos e apenas 5 sobreviventes.

Poucas palavras servem, na verdade, para um momento como este. Quanta dor não devem estar sentindo neste momento, especialmente os amigos e familiares mais próximos das vítimas! Por eles, por todos os que experimentaram nessa tragédia a perda de seus entes queridos, não nos esqueçamos de oferecer as nossas orações e, se possível, o nosso conforto. Também pelas almas desses jogadores que se vão, rezemos para que recebam de Deus o "repouso eterno" e sejam iluminados pela "luz perpétua", como pedimos na tradicional oração do Réquiem.

De nossa parte, é necessário que tiremos, desses fatos, lições para a nossa vida. Diferentemente dos homens, Deus se comunica conosco não só por meio de palavras e ações, mas também através dos acontecimentos da história.

Por isso, para ajudar-nos a fazer uma verdadeira meditação nesse sentido, nada melhor que recorrer à sabedoria de um doutor da Igreja, Santo Afonso de Ligório, autor da excelente obra de espiritualidade "Preparação para a morte". Transcrevemos abaixo o capítulo 5.º desse livro, que fala sobre a "incerteza da hora da morte".


Incerteza da hora da morte

Santo Afonso Maria de Ligório

Estote parati, quia qua hora non putatis, Filius hominis veniet.
Estai prevenidos, porque na hora em que menos pensais virá o Filho do Homem (Lc 12, 40).

PONTO I

É certíssimo que todos devemos morrer, mas não sabemos quando. "Nada há mais certo que a morte, porém nada mais incerto que a hora da morte" [1]. Meu irmão, estão fixados ano, mês, dia, hora e momento em que terás que deixar este mundo e entrar na eternidade; porém nós o ignoramos. Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de estarmos sempre bem preparados, nos disse que a morte virá como um ladrão, oculto e de noite: Sicut fur in nocte, ita veniet (1Ts 5, 2). Outras vezes nos exorta a que estejamos vigilantes, porque, quando menos o esperamos, virá Ele a julgar-nos: Qua hora non putatis, Filius hominis veniet (Lc 12,40). Diz São Gregório que Deus nos oculta, para nosso bem, a hora da morte, a fim de que estejamos sempre preparados para morrer: De morte incerti sumus, ut ad mortem semper parati inveniamur [2]. A morte pode levar-nos em qualquer momento e em qualquer lugar; por isso, se queremos morrer bem e salvar-nos, é preciso, diz São Bernardo que a estejamos esperando em qualquer tempo ou lugar: Mors ubique te exspectat; tu ubique eam exspectabis [3].

Ninguém ignora que deve morrer; mas o mal está em que muitos vêem a morte a tamanha distância que a perdem de vista. Mesmo os anciãos mais decrépitos e as pessoas mais enfermas não deixam de alimentar a ilusão de que hão de viver mais três ou quatro anos. Eu, porém, digo o contrário. Devemos considerar quantas mortes repentinas vemos em nossos dias. Uns morrem caminhando, outros sentados, outros dormindo em seu leito. É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, no dia em que morreu. Afirmo, ademais, que de quantos no decorrer deste ano morreram em sua própria cama, e não de repente, nenhum deles imaginava que devia acabar sua vida neste ano. São poucas as mortes que não chegam inesperadas.

Assim, pois, cristão, quando o demônio te provoca a pecar, com o pretexto de que amanhã confessarás, dize-lhe: Quem sabe se não será hoje o último dia da minha vida? Se esta hora, se este momento, em que me apartasse de Deus, fosse o último para mim, de modo que já não restasse tempo para reparar a falta, que seria de mim na eternidade? Quantos pobres pecadores tiveram a infelicidade de ser surpreendidos pela morte ao recrearem-se com manjares intoxicados e foram precipitados no inferno? Sicut pisces capiuntur hamo, sic capiuntur homines in tempore malo: "Assim como os peixes caem no anzol, assim são colhidos os homens pela morte num momento ruim" (Ecle 9, 12). O momento ruim é exatamente aquele em que o pecador ofende a Deus. Diz o demônio que tal desgraça não nos há de suceder; mas é preciso responder-lhe: E se suceder, que será de mim por toda a eternidade?

Afetos e súplicas

Senhor, não é este o lugar em que me devia achar agora, mas sim no inferno, tantas vezes merecido por meus pecados: Infernus domus mea est ( 17, 13). Mas São Pedro me adverte que "Deus nos espera com paciência e amor, não querendo que ninguém se perca, mas que todos se convertam à penitência" (2Pd 3, 9). Por isso, meu Deus, tivestes paciência extremada para comigo e me suportastes. Não quereis que me perca, mas que, arrependido e penitente, me converta a Vós. Sim, meu Senhor, retorno a vós, prostro-me a vossos pés e peço misericórdia. Para me perdoardes, Senhor, é preciso grande e extraordinária misericórdia, porque vos ofendi com pleno conhecimento do que fazia. Outros pecadores também vos ofenderam, mas não dispunham das luzes que me outorgastes. Apesar disso, mandais que me arrependa de minhas culpas e espere o vosso perdão. Pesa-me, meu querido Redentor, de todo o coração de vos ter ofendido e espero o perdão pelos merecimentos de vossa Paixão. Ó meu Jesus, que sois inocente, que quisestes morrer qual réu na cruz e derramar todo o vosso sangue para lavar minhas culpas! O sanguis innocentis, lava culpas poenitentis: "Ó sangue inocente, lavai as culpas de um penitente!"

Ó Pai Eterno, perdoai-me por amor a Cristo Jesus! Atendei-lhe as súplicas agora que, como meu advogado, intercede por mim. O perdão, porém, não me basta, ó Deus digno de amor infinito; desejo ainda a graça de amar-vos. Amo-vos, ó Soberano Bem, e vos ofereço para sempre meu corpo, minha alma, minha vontade, minha liberdade. Doravante, não só quero evitar as ofensas graves, mas também as mais leves, e fugir de toda a má ocasião. Ne nos inducas in tentationem. Livrai-me, por amor de Jesus, de toda ocasião em que possa ofender-vos. Livrai-me do pecado, e castigai-me depois como quiserdes. Aceito todas as enfermidades, dores e perdas que vos aprouver enviar-me, contanto que não perca vosso amor e vossa graça. Petite, et accipietis: Prometestes dar tudo que vos for pedido (Jo 16, 24). Rogo-vos que me concedais somente a perseverança e o vosso amor.

Ó Maria, Mãe de misericórdia, rogai por mim, que confio em vós!

PONTO II

O Senhor não nos quer ver perdidos. Por isso, com ameaça de castigo, não cessa de advertir-nos que mudemos de vida. "Se não vos converterdes, vibrará sua espada" (Sl 7, 13). Vede — diz em outra parte — quantos são os desgraçados que não quiseram emendar-se, e a morte repentina os surpreendeu quando não esperavam, quando viviam despreocupados, julgando terem ainda muitos anos de vida: Cum dixerint pax, et securitas, tunc repentinus eis superveniet interitus (1Ts 5, 3). Disse-nos também: "Se não fizerdes penitência, todos haveis de perecer" (Lc 13, 5). Por que tantos avisos do castigo antes de infligi-lo, senão porque quer que nos corrijamos e evitemos morte funesta? Quem dá aviso para que nos acautelemos, não tem a intenção de matar-nos — diz Santo Agostinho [4].

É mister, pois, que preparemos nossas contas antes que chegue o dia do vencimento. Se durante a noite de hoje devesses morrer, e ficasse decidida assim a tua salvação eterna, estarias bem preparado? Quanto não darias, talvez, para obter de Deus a trégua de mais um ano, um mês, um dia sequer! Por que agora, já que Deus te concede tempo, não pões em ordem tua consciência? Acaso não pode ser este teu último dia de vida? "Não tardes em te converter ao Senhor, e não o adies, porque sua ira poderá irromper de súbito e no tempo da vingança te perderás" (Ecle 5, 7). Para salvar-te, meu irmão, deves abandonar o pecado. "E se algum dia hás de abandoná-lo, por que não o deixas desde já?", pergunta Santo Agostinho [5]. Esperas, talvez, que chegue a morte? Mas esse instante não é tempo do perdão, senão da vingança. "No tempo da vingança, te perderás".

Se alguém te deve soma considerável, tratas de assegurar o pagamento por meio de obrigação escrita, firmada pelo devedor, dizendo: Quem sabe o que pode suceder? Por que, então, deixas de usar da mesma precaução, tratando-se da alma, que vale muito mais que o dinheiro? Por que não dizes também: quem sabe o que pode ocorrer? Se perderes aquela soma, não estará ainda tudo perdido e ainda que com ela perdesses todo o patrimônio, ficaria a esperança de o poder recuperar. Mas se, ao morrer, perdesses a alma, então, sim, tudo estaria irremediavelmente perdido, sem esperança de recobrar coisa alguma. Cuidas em arrolar todos os bens de que és possuidor, com receio de que se percam quando sobrevier morte repentina. E se esta morte imprevista te achasse na inimizade para com Deus? Que seria de tua alma na eternidade?

Afetos e súplicas

Ah! meu Redentor, derramastes todo o vosso sangue, destes a vida para salvar minha alma, e eu, quantas vezes a perdi, confiando em vossa misericórdia! Abusei de vossa bondade para vos ofender; mereci, por isso, que me deixásseis morrer e precipitásseis no inferno. Estamos, pois, como que numa competição. Vós usando piedade comigo, eu vos ofendendo; vós a correr para mim, eu fugindo de vós; vós, dando-me tempo para reparar o mal que pratiquei, eu, valendo-me desse tempo para acrescentar injúria a injúria. Senhor, fazei-me conhecer a grandeza das ofensas que vos fiz, e a obrigação que tenho de amar-vos.

Ah! meu Jesus! Como podeis amar-me ao ponto de ir à minha procura, quando eu vos repelia? Como cumulastes de tantos benefícios a quem de tal modo vos ofende? De tudo isto vejas quando desejais não me ver perdido. Arrependo-me de ter ultrajado a vossa infinita bondade. Aceitai, pois, esta ovelha ingrata que volta a vossos pés. Recebei-a e ponde-a aos ombros para que não fuja mais. Não quero apartar-me de vós, mas amar-vos e pertencer-vos inteiramente. E desde que seja vosso, gostosamente aceitarei qualquer trabalho. Que desgraça maior poderia afligir-me do que viver sem vossa graça, afastado de vós, que sois meu Deus e Senhor, que me criou e que morreu por mim? Ó malditos pecados, que fizestes? Induzistes-me a ofender a meu Salvador, que tanto me amou.

Assim como vós, meu Jesus, morrestes por mim, assim deverei eu morrer por vós. Morrestes pelo amor que me tendes. Eu deverei morrer de dor por vos ter desprezado. Aceito a morte como e quando vos aprouver enviá-la. Mas, já que até agora pouco ou nada vos hei amado, não quisera morrer assim. Dai-me vida para que vos ame antes de morrer. Para isso, renovai meu coração, feri-o, inflamai-o com o vosso santo amor. Atendei-me, Senhor, por aquela ardentíssima caridade que vos fez morrer por mim. Amo-vos de toda a minha alma. Não permitais que vos perca. Dai-me a santa perseverança. Dai-me o vosso amor.

Maria Santíssima, minha Mãe e meu refúgio, sede minha advogada!

PONTO III

"Estai preparados" — O Senhor não disse que nos preparemos ao aproximar-se a morte, mas que estejamos preparados. No transe da morte, nesse momento cheio de perturbação, é quase impossível pôr em ordem uma consciência embaraçada. Isto nos diz a razão. Nesse sentido Deus também advertiu-nos, dizendo que não virá então perdoar, mas vingar o desprezo que fizéssemos da sua graça (Rm 12, 19). "Justo castigo — disse Santo Agostinho — para aquele que não quis salvar-se quando pôde; agora, quando quer, não o pode" [6]. Dirá todavia alguém: Quem sabe? talvez nesse momento me converta e me salve. Mas quem é tão néscio e se lança num poço dizendo: Quem sabe? atirando-me, talvez fique com vida e não morra? Ó meu Deus, que é isto? Quanto o pecado cega o espírito e faz perder até a razão! Quando se trata do corpo, os homens falam como sábios, e como loucos, quando se trata da alma.

Santo Afonso de Ligório, fundador dos Redentoristas e autor de "Preparação para a Morte".

Meu irmão, quem sabe se esta reflexão que lês será o último aviso que Deus te envia? Preparemo-nos sem demora para a morte, a fim de que não nos encontre de improviso. Santo Agostinho disse que o Senhor nos oculta a última hora da vida com o fim de que todos os dias estejamos preparados para morrer: Latet ultimus dies, ut observentur omnes dies [7]. São Paulo nos previne que devemos procurar a salvação não só temendo mas tremendo: Cum metu et tremore vestram salutem operamini (Fl 2, 12). Conta Santo Antonino que certo rei da Sicília, para manifestar a um particular o grande medo com que se sentava no trono, o fez sentar à mesa com uma espada suspensa sobre sua cabeça por um fio delgado, de sorte que o convidado, vendo-se nessa terrível situação, mal podia levar à boca uma migalha de alimento. Todos estamos em semelhante perigo, já que dum instante para outro pode cair sobre nós a espada da morte, resolvendo o negócio da eterna salvação [8].

Trata-se da eternidade. "Se a árvore cair para o norte ou para o sul, em qualquer lugar onde cair aí ficará" (Ecle 11,3). Se na morte nos acharmos na graça de Deus, qual não será a alegria da alma vendo que tudo está seguro, que já não pode perder a Deus e que, para sempre, será feliz? Mas, se a morte surpreende a alma em estado de pecado, que desespero se apoderará do pecador ao dizer: "Então erramos" (Sb 5, 6), e para minha desgraça já não há remédio em toda a eternidade! Foi este receio que fez exclamar o bem-aventurado João de Ávila, apóstolo da Espanha, quando lhe anunciaram a aproximação da morte: "Oh! se tivesse um pouco mais de tempo para me preparar para a morte!" [9]. Foi por isso que o abade Agatão, ainda que morresse depois de haver exercido a penitência durante muitos anos, dizia: "Que será de mim? Quem conhece os juízos de Deus?" [10] Também Santo Arsênio tremia à vista da morte e, perguntando-lhe os seus discípulos a causa, respondeu: "Meus filhos, já não é novo em mim esse temor: tive-o sempre, em toda a minha vida" [11]. Mais que ninguém tremia o Santo Jó, dizendo: "Que será de mim quando Deus se levanta para me julgar, e que lhe direi se me interrogar? ( 31, 14).

Afetos e súplicas

Ó meu Deus! Quem me tem amado mais do que vós? E quem vos desprezou e ofendeu mais do que eu? Ó sangue, ó chagas de Cristo, sois minha esperança! Pai Eterno, não olheis meus pecados. Fitai as chagas de Jesus Cristo; contemplai vosso Filho muito amado, que morre de dor por mim e vos implora que me perdoeis. Pesa-me do íntimo de minha alma, meu Criador, de vos ter ofendido. Criastes-me para que vos ame, e vivi como se me tivésseis criado para vos ofender. Pelo amor de Jesus Cristo, perdoai-me e dai-me a graça do vosso amor.

Se outrora resisti à vossa santa vontade, agora já não quero resistir, mas fazer tudo o que me ordenais. Ordenais que deteste os ultrajes que voz fiz: detesto-os de todo o coração. Ordenais que me resolva a não vos tornar a ofender; pois bem, faço o firme propósito de antes perder mil vezes a vida do que a vossa graça. Ordenais que vos ame de todo o coração; pois bem, de todo o coração vos amo e a nada quero amar senão a vós. De hoje em diante, sereis o único amado de minha alma, o meu único amor. Peço-vos o dom da perseverança, e de vós o espero obter. Pelo amor de Jesus Cristo, fazei com que vos seja sempre fiel e possa dizer com São Boaventura: "Um só é meu amado; um só é meu amor". Não quero que minha vida sirva para vos desagradar, senão para chorar as ofensas que vos fiz e para vos amar muito.

Ó Maria, minha Mãe, intercedei por todos os que a vós se recomendam e rogai também a Jesus por mim!

Referências

  1. Essa citação, atribuída por Santo Afonso a um autor antigo de pseudônimo "Idiota", encontra-se ipsis litteris em um opúsculo de autor incerto intitulado De excellentia SS. Sacramenti et de dignitate sacerdotum, "Sobre a excelência do Santíssimo Sacramento e a dignidade dos sacerdotes" (PL 184, 991).
  2. Moralia in Iob, l. 12, c. 38, n. 43 (PL 75, 1006).
  3. Meditationes piissimae de cogn. hum. conditionis, c. 3, n. 10 (PL 184, 491).
  4. Sermo 22, c. 3, n. 3 (PL 38, 150).
  5. Cf. Confessiones, l. 8, c. 12, n. 28 (PL 32, 762); Possidius, Vita S. Augustini, c. 27 (PL 32, 57).
  6. De libero arbitrio, l. 3, c. 18, n. 52 (PL 32, 1296).
  7. Sermo 39, c. 1, n. 1 (PL 38, 241).
  8. Summa theol., pars IV, tit. 14, c. 8, par. 3 (IV, Veronae 1740, col. 818).
  9. Mugnos L., Vita dell'apostolico predicatore il P. M.o Giovanni d'Avila, l. 3, c. 23 (Milano 1667, 400-401).
  10. Cf. Vitae Patrum, l. 3, n. 161 (PL 73, 793).
  11. Cf. Vitae Patrum, l. 3, n. 163 (PL 73, 794).

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Crescendo na fé com as encíclicas do Papa Pio XII
Doutrina

Crescendo na fé com
as encíclicas do Papa Pio XII

Crescendo na fé com
as encíclicas do Papa Pio XII

O Papa Pio XII escreveu de tudo; suas encíclicas podem ser lidas com grandes proveito espiritual; e nós com certeza seremos católicos mais sábios depois de as termos lido e meditado.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Fevereiro de 2019
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Há 60 anos, mais exatamente no dia 9 de outubro de 1958, morria Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, que serviu a Igreja como Papa Pio XII, de 1939 a 1958. Embora haja muita agitação envolvendo Papas mais recentes (principalmente após o Vaticano II), as pessoas raramente se dão ao trabalho de aprender a respeito dos Papas anteriores ao Concílio.

A imagem de Pio XII já vem se desgastando há um bom tempo com alegações absurdas de cumplicidade com os nazistas — acusações que, mesmo havendo sido abundantemente refutadas, são sempre trazidas à tona de novo para encher novos bolsos jornalísticos. A verdadeira grandeza do homem e o enorme legado que ele deixou à Igreja, no entanto, raramente são objeto de consideração.

É surpreendente a facilidade com que os católicos somos capazes de esquecer os grandes documentos de um Pontífice falecido, como se o seguinte ofuscasse ou até mesmo fizesse calar a obra de seu predecessor. Nossa visão do desenvolvimento da doutrina cristã deve ser não hegeliana (na qual um estágio posterior confronta e suplanta um anterior, só para ser ele mesmo subsumido em uma nova e inesperada síntese), mas newmaniana [1] (na qual tudo o que é importante e veio antes é cultivado e carregado ao longo do tempo, a fim de formar a base do pensamento e da ação subsequentes).

O Papa Pio XII é um exemplo disso. Ele era intelectualmente ousado, estava pronto para lidar com qualquer assunto, dialogava com o pensamento moderno e sempre estava à procura de novas formas para explicar as antigas verdades da fé. Mas ele também era fiel à herança de Leão XIII, Pio X, Bento XV e Pio XI, Papas que sempre estavam em suas referências e dos quais ele se servia como um compositor que escreve um tema com variações.

Summi Pontificatus, de 1939, foi a encíclica inaugural de Pio XII. Com a paz precária que vivia a Europa sendo aniquilada pela blitzkrieg nazista, o Papa apresenta a visão católica dos princípios que mantêm os homens e as nações em unidade e implora ao mundo que retorne à sã doutrina da Igreja sobre as realidades políticas. Ainda que Pio XII voltasse a tratar de questões sociais em muitos documentos ao longo dos quase 20 anos subsequentes, ele não mais escreveu uma encíclica social e, até hoje, a própria Summi Pontificatus é raramente classificada assim, por não conformar-se ao padrão da encíclica Rerum Novarum.

Seu esquecimento é muito de se lamentar, no entanto, pois em muitos de seus parágrafos a Summi Pontificatus articula princípios sociais básicos em linguagem particularmente vigorosa. O Papa enfatiza que a tendência moderna ao estatismo (a “onicompetência” do Estado secular) é um erro pernicioso a se combater, e que o conceito cristão de um Estado fundado nos preceitos da lei natural exige que se dê suporte ao desenvolvimento da excelência moral e religiosa dos seus cidadãos.

Duas encíclicas inovadoras emergiram em 1943: Mystici Corporis Christi e Divino Afflante Spiritu.

Sua Santidade, o Papa Pio XII.

Dos documentos papais dedicados à eclesiologia (o estudo da Igreja enquanto tal), a Mystici Corporis Christi é seguramente o mais importante e deveria ser de leitura obrigatória para todos os católicos. Por que a Escritura chama a Igreja de “corpo” e, em particular, de corpo de Cristo? Qual a diferença entre um corpo físico, um corpo moral e um corpo místico? Como a Igreja foi gerada ao longo do tempo, e como Cristo quis “precisar” de nós, seus membros? Em que consiste nossa união com Cristo, e a união dos outros com Ele? Por que nós devemos amar a Igreja, e qual a melhor forma de fazê-lo? É com essas questões que lida essa meditação cheia de beleza e rica de doutrina.

Divino Afflante Spiritu é normalmente exaltada como uma encíclica que provocou uma “revolução copernicana” na exegese católica, a qual teria abandonado o “literalismo ingênuo” de Leão XIII na encíclica Providentissimus Deus. Mas esse é apenas (mais) um exemplo daquela interpretação tendenciosa dos documentos da Igreja que se tornou como que a marca registrada dos apparatchiks universitários. Na realidade, uma leitura imparcial mostra que Pio XII queria harmonizar as legítimas descobertas da ciência exegética moderna com as verdades inegociáveis da fé, tais como a inspiração divina e a inerrância de qualquer declaração autoral na Sagrada Escritura. Nesse sentido, o que ele fez foi menos modificar do que aumentar e refinar o pensamento de Leão XIII, lançando as bases para a Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina Dei Verbum, do Concílio Vaticano II.

Célebres, e com razão, são as encíclicas Mediator Dei, de 1947, e Humani Generis, de 1950. Em ambas Pio XII se opôs firmemente às tendências na Igreja que eram, e ainda são, nocivas à saúde do culto e da teologia católicas (já que as duas são inseparáveis).

A Mediator Dei contém um ensinamento positivo substancial sobre a natureza, o propósito e a simbologia eficaz da sagrada liturgia. Quando eu li pela primeira vez essa encíclica, anos atrás, fiquei assombrado com minha profunda ignorância do que acontecia na igreja todos os domingos. Desde então, cresceu em mim a certeza de que a pior aflição que assalta a Igreja pós-conciliar é o esquecimento do que seja o santo Sacrifício da Missa e, em particular, como ele envolve a mim, aqui e agora. Além disso, essa encíclica nos previne contra as próprias tendências litúrgicas que se tornariam dominantes em nossa época, como o antiquarianismo.

O dogma do 4.º Concílio Ecumênico, o de Calcedônia, que proclamou as naturezas divina e humana em Cristo como sendo distintas sem separação e unidas sem confusão, é o objeto da majestosa encíclica Sempiternus Rex Christus, de 1951, escrita por ocasião do 1.500º aniversário daquele Concílio; as encíclicas Evangelii Praecones, de 1951, e Fidei Donum, de 1957, falam da promoção das missões católicas ao redor do mundo, as quais estavam florescendo durante seu pontificado; a encíclica Sacra Virginitas, de 1954, exalta a virgindade consagrada; a encíclica Musicae Sacrae, de 1955, defende a música sacra tradicional e critica a música religiosa secularizada (o que faz desse documento ainda mais relevante hoje do que era 63 anos atrás); a encíclica Haurietis Aquas, de 1956, trata da devoção ao Sagrado Coração de Jesus com grande intensidade e pureza de fé; a encíclica Miranda Prorsus, de 1957, advertia os católicos de então, hipnotizados que estavam pelo cinema, pela rádio e pela televisão, a tomarem o cuidado de não entregar suas almas à indústria do entretenimento.

Cada uma das encíclicas acima pode ser lida com grande proveito espiritual, estejamos nós sozinhos na tranquilidade de nosso quarto ou reunidos em um grupo de oração e de estudos. E nós com certeza seremos católicos mais sábios depois de as termos lido.

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Nove encíclicas que você precisa ler do Papa Pio XI
Doutrina

Nove encíclicas que
você precisa ler do Papa Pio XI

Nove encíclicas que
você precisa ler do Papa Pio XI

Se houve alguma vez um homem que soube qual seria a forma do futuro, esse homem foi Pio XI. Para beber hoje de sua sabedoria, nada é tão importante quanto revisitar o seu magistério como Papa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Fevereiro de 2019
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O último dia 10 de fevereiro marca o 80.º aniversário da morte do Papa Pio XI, que reinou no trono de Pedro de 1922 a 1939. Em um mundo de produção textual instantânea e incessante, talvez não deveríamos surpreender-nos com o fato de alguém que começou seu pontificado há quase um século ser esquecido em grande parte.

Mas Pio XI merece ser mais bem conhecido e mais afetuosamente amado por suas encíclicas esplêndidas, cheias de amor, clareza e coragem. De fato, esses documentos são uma fonte preciosa, não só para o tenso período entre guerras durante o qual esse Papa foi chamado a servir à Igreja de Cristo, mas para todas as épocas.

Achille Ratti veio de uma família humilde, teve a carreira tranquila de um acadêmico com doutorado em Teologia e serviu à Igreja como prefeito da Biblioteca Vaticana. Seus êxitos subsequentes como núncio na Polônia e como arcebispo de Milão fizeram dele uma boa opção para o trono de São Pedro após a morte de Bento XV.

Não demorou muito para que a Igreja e o mundo notassem a fibra de que era feito o novo Pontífice. Sua encíclica inaugural, Ubi Arcano Dei Consilio, de 1922, descrevia a situação do mundo após a Primeira Guerra Mundial com uma argúcia espiritual de que nenhum historiador secular era capaz, e propunha, como única solução cogente que se adotasse de maneira séria a doutrina social católica.

Essa insistência em implementar o magistério social da Igreja — um esforço em articular uma alternativa genuinamente católica ao socialismo crescente, ao fascismo efervescente e ao capitalismo selvagem — ocuparia Pio XI em muitas de suas mais de 30 encíclicas. O velho adágio “quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas” parece especialmente pertinente às encíclicas de Pio XI. Hoje, os fiéis enfrentam os mesmos desafios sobre os quais ele escreveu, ainda que a “clave” ou o “andamento” da música tenha mudado.

A próxima encíclica na ordem, e de enorme significado para o magistério da Igreja, foi a amplamente debatida Quadragesimo Anno, promulgada em 1931 por ocasião dos 40 anos da Rerum Novarum de Leão XIII. De todas as encíclicas sociais desde Leão XIII até João Paulo II, nenhuma é tão forte, incisiva e completa quanto esta, com sua análise dos fundos internacionais e das correntes de exploração que dão forma aos mercados econômicos. Já é passada a hora de resgatarmos o patrimônio de nossa fé, retomando as mais ricas fontes da sabedoria social da Igreja, entre as quais merece ser contada indubitavelmente essa encíclica.

O Papa Pio XI.

Característica fundamental do ensinamento de Pio XI foi, também, o reinado de Jesus Cristo sobre todos os homens, sociedades, nações e instituições. Essa visão do primado e do domínio absoluto de Cristo motivava seus pensamentos, desejos, intervenções e conselhos. E é essa visão que permanece altamente relevante para nós. A Igreja Católica só florirá neste período de “pós-modernidade” à medida que conhecer e viver os ensinamentos que o Papa Pio XI tão corajosamente proclamou em sua encíclica Quas Primas, de 1925, uma das mais importantes cartas papais do século XX. Por meio desse documento, Pio XI estabeleceu uma nova festa, em honra a Cristo Rei — uma festa que se tornou familiar aos católicos em todo o mundo, ainda que sua intenção original tenha sido de alguma forma obnubilada pelas mudanças litúrgicas subsequentes.

A clássica encíclica Casti Connubii, de 1930, com sua visão nobre e realista do Matrimônio, é a melhor abordagem jamais promulgada por um Papa ao entendimento católico sobre esse sacramento. Nós corremos o sério risco de interpretar mal o ensinamento seguinte de João Paulo II sobre o casamento se não procurarmos lê-lo à luz da Casti Connubii e em continuidade com ela. Não há melhor encíclica para preparar os noivos católicos ao Matrimônio.

Foi também esse Papa que nos brindou com a Magna Charta da educação cristã da infância e da juventude: a encíclica Divini Illius Magistri, de 1929. Os pais que educam seus filhos em casa notarão com alegria que Pio XI defende essa situação como a norma e o padrão dados por Deus, ao passo que a educação em escolas é a exceção moderna, carregada de perigos para a formação moral e religiosa das crianças.

Isso, evidentemente, não impede o Papa de explicar os princípios que todos os educadores, seja dentro da família, seja numa profissão, devem observar na educação de discípulos cristãos. Essa encíclica tem uma importância particular para os dias de hoje, quando muitos dos males deplorados por Pio XI, como a educação sexual, se tornaram “rotina”. Muito do que ele tem a dizer, também, sobre pedagogia efetiva e a hierarquia dos sujeitos permanece válido e aplicável.

As duas encíclicas de 1937 sobre as aberrações soviética e nazista — Divini Redemptoris e Mit Brennender Sorge — transportam poderosamente o leitor para as eras sangrentas às quais elas foram dirigidas. Apesar de seus aspectos específicos para aquele tempo, há uma filosofia política católica articulada nessas encíclicas que permanece verdadeira para nossa época, bem como um crítica potente de erros que, mesmo tendo sido continuamente refutados pelos fatos, de alguma forma nunca pararam de surgir nas sociedades, seja nas afluentes e ociosas, seja nas pobres e desesperadas.

Na encíclica Ad Catholici Sacerdotii, de 1935, o Papa Pio XI abre o coração a todos os padres do mundo e a todos os que se tornarão sacerdotes. Esse documento é um dos tratados mais apaixonados, eloquentes e equilibrados jamais escritos a respeito da natureza, dos privilégios e das exigências do sacerdócio católico. Por essa razão, sua leitura deveria ser exigida de todos os seminaristas. Pio XI ao mesmo tempo canta elevados elogios a essa magnífica vocação e aponta para suas exigências irrenunciáveis. A impressão que fica, na mente de quem lê a encíclica, é que o estado de vida sacerdotal, assim como o chamado a vivê-la, é um dom sublime e gratuito do Pai das luzes — chamado que mais pessoas deveriam escutar e estado ao qual mais pessoas deveriam aspirar. Eu acredito, na verdade, que a simples leitura dessa encíclica faria aumentar o número de vocações ao sacerdócio.

Eu mencionaria por último a fascinante encíclica sobre o cinema, Vigilanti Cura, de 1936, escrita numa época em que essa forma de entretenimento estava atingindo seu ápice. Se houve alguma vez um homem que soube qual seria a forma do futuro, esse homem foi Achille Ratti. Aqui ele lamenta a iniciação à luxúria promovida por muitos filmes e oferece orientações rigorosas para a censura exercida pelos bispos e associações de fiéis leigos, baseada em princípios precisos, sensíveis à arte e moralmente saudáveis. Por isso, se nós pudermos retornar, de uma forma ou de outra, à sanidade singela e cândida de Vigilanti Cura, nós teremos dado um grande passo rumo à santidade.

O ocaso da vida do Papa Pio XI coincidiu com as trevas espessas que fariam irromper a Segunda Guerra Mundial. Em seu leito de morte, Pio XI ofereceu sua vida pela paz no mundo. Suas encíclicas colocam-nos em contato com um Papa de catolicismo inflexível que, justamente por se preocupar genuinamente com seu povo, não permitia que ele errasse por caminhos falsos, mas, ao contrário, apontava repetidamente para o caminho da vida traçado pela experiência e pela tradição católicas. De nossa parte, faríamos muito bem se bebêssemos de sua sabedoria, não nos deixando desviar por “lobos em pele de cordeiro” e evitando os falsos caminhos que o nosso mundo apresenta como os “expedientes inevitáveis” de uma sociedade pós-moderna.

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Discernir a própria vocação ou “fazer o que der na telha”?
Espiritualidade

Discernir a própria vocação
ou “fazer o que der na telha”?

Discernir a própria vocação
ou “fazer o que der na telha”?

Não se resolve o problema da vocação com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se há um chamado de Deus para mim, eu preciso descobri-lo no silêncio da oração e por “uma vida cristã seriamente vivida”.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Fevereiro de 2019
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Há alguns anos nós publicamos aqui uma matéria a respeito do chamado “discernimento vocacional perpétuo”. O texto e a expressão não eram de autoria nossa; pegamo-los emprestados de Michael W. Hannon, que escreve no site norte-americano First Things. Por muito tempo republicamos esta tradução em nossas redes sociais, mas, reavaliando melhor as ideias apresentadas pelo autor, decidimos despublicá-la e, agora, até para a edificação dos que nos lêem, queremos apresentar o porquê dessa atitude.

Expliquemos, em primeiro lugar, o porquê de havermos escolhido esse texto para publicação: a sua crítica é importante para levantar da inércia os homens e mulheres de nossa época, que ficam indefinidamente pensando no que querem ou no que vão fazer de sua vida, sem no entanto tomar uma atitude ou assumir responsabilidades de gente adulta. É essa inércia e indecisão — conectadas a uma espécie de “discernimento vocacional perpétuo” — que fazem nossos jovens trocarem de curso universitário como quem troca de roupa e viverem com os próprios pais até os 30 e 40 anos, quando em outros tempos eles já teriam constituído uma família ou entrado em uma congregação religiosa.

A solução apresentada por Michael Hannon, no entanto, ao mesmo tempo que procura condenar esse extremo de indecisão e imobilidade, pode facilmente levar à precipitação e a uma visão distorcida de “vocação”. No período talvez mais forte do texto, ele chega a dizer que “não necessariamente Deus nos diz o que fazer a respeito das grandes decisões da vida, incluindo a escolha entre a vida religiosa e a vida secular (sic). Ele nos abençoa com algumas opções boas e virtuosas e, então, deixa a decisão para nós”.

Alto lá…! Se por “deixar a decisão para nós” se entende que Deus não viola o nosso livre-arbítrio, não nos obrigando a seguir este ou aquele caminho, sim, está certo. Mas se por isso se entende que Ele não nos indica e não nos inspira com sua graça este ou aquele caminho, então, está errado. A palavra “vocação”, afinal de contas, significa “chamado”. Se é um chamado, há alguém que chama. (Se é um chamado à vida religiosa ainda por cima, ou à vida matrimonial, caminhos de santidade, é Alguém, com “a” maiúsculo, que chama.) Se Deus nos chama, de nossa parte o que precisamos fazer é escutar. Daí a necessidade de discernirmos, sim, nossa vocação pessoal, para além da vocação geral que, é óbvio, todos os batizados têm à santidade.

Também nessa questão há uma confusão séria presente no texto de Michael Hannon. À pergunta: “Se um cristão não deve presumir que Deus irá querer revelar-lhe sobrenaturalmente a sua ‘vocação pessoal’, como então ele deve conhecer a vontade de Deus para a sua vida?”, o autor diz o seguinte:

Eu me arriscaria a dizer que, se ele tem frequentado a igreja semanalmente e recebeu pelo menos uma catequese razoável ao longo do caminho, ele provavelmente já conhece a vontade de Deus para a sua vida. Cristo a resume sucintamente nos Dez Mandamentos, e ainda mais sucintamente em Mt 22, 34-40: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento” e “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Nisso, bem como nos mandamentos da Igreja, consiste toda a instrução de que precisamos para alcançarmos a nossa felicidade e chegarmos à salvação eterna.

Sim, é verdade que a vontade de Deus a respeito da humanidade foi revelada de modo definitivo em Nosso Senhor Jesus Cristo, de modo que — como diz uma célebre passagem de S. João da Cruz, presente inclusive no novo Catecismo da Igreja Católica —, “se [...] alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia numa insensatez, mas ofenderia muito a Deus por não dirigir os olhares unicamente para Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma” (§ 65). Mas isso não significa que não devamos pedir a Deus que nos mostre, na oração (e sem prescindir da humanidade santíssima de Nosso Senhor!), aquilo que Ele tem reservado de modo particular para a nossa vida.

Convém aqui não misturarmos um capítulo importante de Teologia Dogmática com outro capítulo, igualmente necessário, de Teologia Mística. A frase de São João da Cruz, acima, é substancialmente diferente da do monge ucraniano citado por Hannon em seu texto: este, perguntado por um repórter se Deus falava com ele na oração, respondeu: “Ele não fala comigo, porque ele já falou tudo por meio do Evangelho e por meio das obras dos Santos Padres, dos santos”. É óbvio que, se pelo verbo falar se entende o modo como os seres humanos costumam se comunicar, falando com a boca e ouvindo com os ouvidos, Deus não fala com as pessoas a não ser de modo extraordinário.

Mas uma mínima experiência de vida de oração, uma leitura breve de um bom tratado de teologia mística, são suficientes para nos mostrar que Deus fala, sim, conosco, comunicando-nos as suas graças, movendo-nos com o seu Espírito e dizendo, sim, o que devemos ou não fazer, não só em matéria de “vocação pessoal”, mas principalmente nesses casos. Para dispensar longas citações, limitemo-nos a Santo Tomás de Aquino comentando o versículo “Porque os que são movidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rm 8, 14): “Esses são regidos como por certo condutor e diretor, que é o que faz em nós o Espírito, enquanto nos ilumina interiormente sobre o que devemos fazer [illuminat nos interius quid facere debeamus]” (Sup. Rom., c. VIII, l. 3).

— Ah, mas ele era “Santo” Tomás de Aquino… Deus falava interiormente com os santos mesmo… Por que eu deveria supor que Ele falaria comigo? Não seria presunção? — Absolutamente, não. Vejamos o que diz a esse respeito, por exemplo, o padre Antonio Royo Marín (Teología de la Perfección Cristiana, n. 638):

Consideremos com frequência que o Espírito Santo habita dentro de nós mesmos. Se deixássemos de lado todas as coisas da terra e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida sua doce voz e as insinuações do seu amor. Não se trata de uma graça extraordinária, mas totalmente normal e ordinária em uma vida cristã seriamente vivida.

O problema do “discernimento vocacional perpétuo” não se resolve, portanto, com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se existe uma vocação de Deus para nós, precisamos descobri-la no silêncio da oração e através de “uma vida cristã seriamente vivida”. Como diz o Papa Bento XVI, em uma citação feita pelo próprio Michael Hannon ao fim de seu texto: “Ao ouvir a Deus e caminhar com Ele eu me torno realmente eu mesmo. O que importa não é a realização dos meus próprios desejos, mas a Sua vontade. Assim a vida se torna autêntica.”

Existe ainda, é claro, toda uma reflexão teológica sobre a docilidade que devemos ter ao Espírito Santo, assim que tomamos conhecimento da vontade de Deus a nosso respeito. Dela, no entanto, esperamos falar oportunamente noutra ocasião. Por ora, simplesmente procuremos nos libertar dessas ideias errôneas a respeito de vocação e vida de oração. Não tratemos a Deus como um “desconhecido” que falou no passado e agora nos abandonou à nossa própria sorte. Não, a oração cristã é uma via de mão dupla, na qual nós falamos com Deus e Ele responde sim às nossas petições, conforme promessa do próprio Cristo: “Pedi e vos será dado. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem procura, acha. A quem bate, será aberto.” (Mt 7, 7-8)

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Aborto e contracepção, dois “frutos da mesma planta”
Pró-Vida

Aborto e contracepção,
dois “frutos da mesma planta”

Aborto e contracepção,
dois “frutos da mesma planta”

“A cultura pró-aborto aparece sobretudo desenvolvida nos mesmos ambientes que recusam o ensinamento da Igreja sobre a contracepção.”

Papa São João Paulo II6 de Fevereiro de 2019
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Publicamos abaixo trecho da encíclica Evangelium Vitae, de São João Paulo II, na qual ele afirma, com muita razão, que o aborto e a contracepção são “frutos da mesma planta”.

A lição é importante porque, quando as pessoas pensam no problema do aborto, a solução imediata que muitas vezes lhes vem à mente é justamente ensinar aos jovens como “prevenir” a gravidez, colocando nas suas mãos todos os métodos contraceptivos à disposição no mercado.

Mas, se queremos educar as futuras gerações para o respeito ao outro e para a maturidade, será esse mesmo o caminho que devemos trilhar? Ou não precisaríamos, antes, de uma verdadeira mudança de mentalidade, que começasse dentro de nossas próprias famílias?


Para facilitar a difusão do aborto, foram investidas — e continuam a sê-lo — somas enormes, destinadas à criação de fármacos que tornem possível a morte do feto no ventre materno, sem necessidade de recorrer à ajuda do médico. A própria investigação científica, neste âmbito, parece quase exclusivamente preocupada em obter produtos cada vez mais simples e eficazes contra a vida e, ao mesmo tempo, capazes de subtrair o aborto a qualquer forma de controle e responsabilidade social.

Afirma-se frequentemente que a contracepção, tornada segura e acessível a todos, é o remédio mais eficaz contra o aborto. E depois acusa-se a Igreja Católica de, na realidade, favorecer o aborto, porque continua obstinadamente a ensinar a ilicitude moral da contracepção.

Bem vista, porém, a objeção é falaciosa. De fato, pode acontecer que muitos recorram aos contraceptivos com a intenção também de evitar depois a tentação do aborto. Mas os pseudovalores inerentes à “mentalidade contraceptiva” — muito diversa do exercício responsável da paternidade e maternidade, atuada no respeito pela verdade plena do ato conjugal — são tais que tornam ainda mais forte essa tentação, na eventualidade de ser concebida uma vida não desejada.

De fato, a cultura pró-aborto aparece sobretudo desenvolvida nos mesmos ambientes que recusam o ensinamento da Igreja sobre a contracepção. Certo é que a contracepção e o aborto são males especificamente diversos do ponto de vista moral: uma contradiz a verdade integral do ato sexual enquanto expressão própria do amor conjugal, o outro destrói a vida de um ser humano; a primeira opõe-se à virtude da castidade matrimonial, o segundo opõe-se à virtude da justiça e viola diretamente o preceito divino “não matarás”.

Mas, apesar de terem natureza e peso moral diversos, eles surgem, com muita frequência, intimamente relacionados como frutos da mesma planta. É verdade que não faltam casos onde, à contracepção e ao próprio aborto se vem juntar a pressão de diversas dificuldades existenciais que, no entanto, não podem nunca exonerar do esforço de observar plenamente a lei de Deus. Mas, em muitíssimos outros casos, tais práticas afundam as suas raízes numa mentalidade hedonista e desresponsabilizadora da sexualidade, e supõem um conceito egoísta da liberdade que vê na procriação um obstáculo ao desenvolvimento da própria personalidade. A vida que poderia nascer do encontro sexual torna-se assim o inimigo que se há de evitar absolutamente, e o aborto a única solução possível diante de uma contracepção falhada.

Infelizmente, emerge cada vez mais a estreita conexão que existe, a nível de mentalidade, entre as práticas da contracepção e do aborto, como o demonstra, de modo alarmante, a produção de fármacos, dispositivos intrauterinos e preservativos, os quais, distribuídos com a mesma facilidade dos contraceptivos, atuam na prática como abortivos nos primeiros dias de desenvolvimento da vida do novo ser humano.

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Ela perdoou o assassino do próprio filho e...
Espiritualidade

Ela perdoou
o assassino do próprio filho e...

Ela perdoou
o assassino do próprio filho e...

...como recompensa, viu a alma dele ser libertada do Purgatório. “Querida mãe, porque mostraste misericórdia para com meu assassino”, disse-lhe em aparição o filho, “Deus mostrou misericórdia para comigo.”

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Fevereiro de 2019
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A caridade cristã, aquela misericórdia que Jesus Cristo tanto recomenda no Evangelho, compreende não apenas a assistência corporal dada aos necessitados, mas todo o bem que fazemos ao nosso próximo trabalhando para sua salvação, suportando-lhe os defeitos e perdoando-lhe as ofensas. Todas essas obras de caridade podem ser oferecidas a Deus pelos fiéis defuntos e possuem grande valor satisfatório.

São Francisco de Sales conta que, na cidade de Pádua, onde ele cumpriu parte de seus estudos, havia um costume detestável: os jovens se divertiam passeando pelas ruas à noite, armados com arcabuzes e gritando a todos os que encontravam: “Quem está aí?As pessoas eram obrigadas a responder, sob pena de levarem um tiro. Com isso, muitos eram feridos e até mesmo assassinados.

Aconteceu uma noite de um estudante, não tendo respondido à pergunta, ser acertado na cabeça por uma bala e ficar mortalmente ferido. O autor deste crime fugiu aterrorizado e procurou refúgio na casa de uma boa viúva que ele conhecia e cujo filho era seu companheiro de turma. Ele confessou a ela aos prantos que havia acabado de matar um desconhecido e implorou que lhe desse um abrigo em sua casa. Tomada de compaixão e não suspeitando ter diante de si ninguém menos que o assassino de seu filho, a senhora escondeu o fugitivo em um lugar seguro, onde os oficiais de justiça não seriam capazes de encontrá-lo.

Nem meia-hora havia transcorrido quando um tumulto se ouviu à sua porta. Um cadáver foi carregado e colocado diante dos olhos da viúva. Infelizmente, era seu filho que havia sido morto, e o assassino dele encontrava-se escondido em sua casa. A pobre mãe irrompeu em gritos de dilacerar o coração e, chegando ao esconderijo do assassino, disse-lhe: “Homem miserável! Que te fez o meu filho para que tu o assassinasses assim, de maneira tão cruel?”

O pobre desgraçado, descobrindo que havia matado seu amigo, começou a chorar em alta voz, arrancar os cabelos e apertar as mãos em sinal de desespero. Prostrando-se no chão, ele implorou o perdão de sua protetora e suplicou-lhe que o entregasse ao magistrado, a fim de expiar o crime tão terrível que havia cometido.

A mãe inconsolável lembrou-se naquele momento que era uma cristã e o exemplo de Jesus Cristo, rezando por seus algozes, deu-lhe impulso para realizar um ato heroico. Ela disse que, desde que ele pedisse perdão a Deus e emendasse de vida, ela o perdoaria e retiraria qualquer acusação contra ele.

Esse perdão foi tão agradável a Deus que Ele quis dar à generosa mãe uma prova impressionante disso, permitindo que a alma de seu filho lhe aparecesse, resplendente de glória e dizendo que ele estava prestes a gozar da bem-aventurança eterna. “Deus mostrou misericórdia para comigo, querida mãe”, disse aquela alma bendita, “porque tu mostraste misericórdia para com meu assassino. Por causa do perdão que tu lhe concedeste, eu fui libertado do Purgatório, onde, não fosse a assistência que tu me prestaste, eu teria de passar por longos anos de intenso sofrimento.”

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