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O que as mortes repentinas nos ensinam
Espiritualidade

O que as mortes repentinas nos ensinam

O que as mortes repentinas nos ensinam

Nada mais certo que a morte e, ao mesmo tempo, nada tão incerto quanto a hora em que ela vem.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Novembro de 2016
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O Brasil e o mundo acordaram em choque no dia de hoje, 29 de novembro, com a trágica notícia do acidente aéreo envolvendo a equipe de futebol da Chapecoense. A delegação do clube viajava para a Colômbia, onde disputaria um título sul-americano inédito. O avião que conduzia os jogadores e outros profissionais caiu próximo de Medellín. Segundo as autoridades colombianas, há mais de 70 mortos e apenas 5 sobreviventes.

Poucas palavras servem, na verdade, para um momento como este. Quanta dor não devem estar sentindo neste momento, especialmente os amigos e familiares mais próximos das vítimas! Por eles, por todos os que experimentaram nessa tragédia a perda de seus entes queridos, não nos esqueçamos de oferecer as nossas orações e, se possível, o nosso conforto. Também pelas almas desses jogadores que se vão, rezemos para que recebam de Deus o "repouso eterno" e sejam iluminados pela "luz perpétua", como pedimos na tradicional oração do Réquiem.

De nossa parte, é necessário que tiremos, desses fatos, lições para a nossa vida. Diferentemente dos homens, Deus se comunica conosco não só por meio de palavras e ações, mas também através dos acontecimentos da história.

Por isso, para ajudar-nos a fazer uma verdadeira meditação nesse sentido, nada melhor que recorrer à sabedoria de um doutor da Igreja, Santo Afonso de Ligório, autor da excelente obra de espiritualidade "Preparação para a morte". Transcrevemos abaixo o capítulo 5.º desse livro, que fala sobre a "incerteza da hora da morte".


Incerteza da hora da morte

Santo Afonso Maria de Ligório

Estote parati, quia qua hora non putatis, Filius hominis veniet.
Estai prevenidos, porque na hora em que menos pensais virá o Filho do Homem (Lc 12, 40).

PONTO I

É certíssimo que todos devemos morrer, mas não sabemos quando. "Nada há mais certo que a morte, porém nada mais incerto que a hora da morte" [1]. Meu irmão, estão fixados ano, mês, dia, hora e momento em que terás que deixar este mundo e entrar na eternidade; porém nós o ignoramos. Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de estarmos sempre bem preparados, nos disse que a morte virá como um ladrão, oculto e de noite: Sicut fur in nocte, ita veniet (1Ts 5, 2). Outras vezes nos exorta a que estejamos vigilantes, porque, quando menos o esperamos, virá Ele a julgar-nos: Qua hora non putatis, Filius hominis veniet (Lc 12,40). Diz São Gregório que Deus nos oculta, para nosso bem, a hora da morte, a fim de que estejamos sempre preparados para morrer: De morte incerti sumus, ut ad mortem semper parati inveniamur [2]. A morte pode levar-nos em qualquer momento e em qualquer lugar; por isso, se queremos morrer bem e salvar-nos, é preciso, diz São Bernardo que a estejamos esperando em qualquer tempo ou lugar: Mors ubique te exspectat; tu ubique eam exspectabis [3].

Ninguém ignora que deve morrer; mas o mal está em que muitos vêem a morte a tamanha distância que a perdem de vista. Mesmo os anciãos mais decrépitos e as pessoas mais enfermas não deixam de alimentar a ilusão de que hão de viver mais três ou quatro anos. Eu, porém, digo o contrário. Devemos considerar quantas mortes repentinas vemos em nossos dias. Uns morrem caminhando, outros sentados, outros dormindo em seu leito. É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, no dia em que morreu. Afirmo, ademais, que de quantos no decorrer deste ano morreram em sua própria cama, e não de repente, nenhum deles imaginava que devia acabar sua vida neste ano. São poucas as mortes que não chegam inesperadas.

Assim, pois, cristão, quando o demônio te provoca a pecar, com o pretexto de que amanhã confessarás, dize-lhe: Quem sabe se não será hoje o último dia da minha vida? Se esta hora, se este momento, em que me apartasse de Deus, fosse o último para mim, de modo que já não restasse tempo para reparar a falta, que seria de mim na eternidade? Quantos pobres pecadores tiveram a infelicidade de ser surpreendidos pela morte ao recrearem-se com manjares intoxicados e foram precipitados no inferno? Sicut pisces capiuntur hamo, sic capiuntur homines in tempore malo: "Assim como os peixes caem no anzol, assim são colhidos os homens pela morte num momento ruim" (Ecle 9, 12). O momento ruim é exatamente aquele em que o pecador ofende a Deus. Diz o demônio que tal desgraça não nos há de suceder; mas é preciso responder-lhe: E se suceder, que será de mim por toda a eternidade?

Afetos e súplicas

Senhor, não é este o lugar em que me devia achar agora, mas sim no inferno, tantas vezes merecido por meus pecados: Infernus domus mea est ( 17, 13). Mas São Pedro me adverte que "Deus nos espera com paciência e amor, não querendo que ninguém se perca, mas que todos se convertam à penitência" (2Pd 3, 9). Por isso, meu Deus, tivestes paciência extremada para comigo e me suportastes. Não quereis que me perca, mas que, arrependido e penitente, me converta a Vós. Sim, meu Senhor, retorno a vós, prostro-me a vossos pés e peço misericórdia. Para me perdoardes, Senhor, é preciso grande e extraordinária misericórdia, porque vos ofendi com pleno conhecimento do que fazia. Outros pecadores também vos ofenderam, mas não dispunham das luzes que me outorgastes. Apesar disso, mandais que me arrependa de minhas culpas e espere o vosso perdão. Pesa-me, meu querido Redentor, de todo o coração de vos ter ofendido e espero o perdão pelos merecimentos de vossa Paixão. Ó meu Jesus, que sois inocente, que quisestes morrer qual réu na cruz e derramar todo o vosso sangue para lavar minhas culpas! O sanguis innocentis, lava culpas poenitentis: "Ó sangue inocente, lavai as culpas de um penitente!"

Ó Pai Eterno, perdoai-me por amor a Cristo Jesus! Atendei-lhe as súplicas agora que, como meu advogado, intercede por mim. O perdão, porém, não me basta, ó Deus digno de amor infinito; desejo ainda a graça de amar-vos. Amo-vos, ó Soberano Bem, e vos ofereço para sempre meu corpo, minha alma, minha vontade, minha liberdade. Doravante, não só quero evitar as ofensas graves, mas também as mais leves, e fugir de toda a má ocasião. Ne nos inducas in tentationem. Livrai-me, por amor de Jesus, de toda ocasião em que possa ofender-vos. Livrai-me do pecado, e castigai-me depois como quiserdes. Aceito todas as enfermidades, dores e perdas que vos aprouver enviar-me, contanto que não perca vosso amor e vossa graça. Petite, et accipietis: Prometestes dar tudo que vos for pedido (Jo 16, 24). Rogo-vos que me concedais somente a perseverança e o vosso amor.

Ó Maria, Mãe de misericórdia, rogai por mim, que confio em vós!

PONTO II

O Senhor não nos quer ver perdidos. Por isso, com ameaça de castigo, não cessa de advertir-nos que mudemos de vida. "Se não vos converterdes, vibrará sua espada" (Sl 7, 13). Vede — diz em outra parte — quantos são os desgraçados que não quiseram emendar-se, e a morte repentina os surpreendeu quando não esperavam, quando viviam despreocupados, julgando terem ainda muitos anos de vida: Cum dixerint pax, et securitas, tunc repentinus eis superveniet interitus (1Ts 5, 3). Disse-nos também: "Se não fizerdes penitência, todos haveis de perecer" (Lc 13, 5). Por que tantos avisos do castigo antes de infligi-lo, senão porque quer que nos corrijamos e evitemos morte funesta? Quem dá aviso para que nos acautelemos, não tem a intenção de matar-nos — diz Santo Agostinho [4].

É mister, pois, que preparemos nossas contas antes que chegue o dia do vencimento. Se durante a noite de hoje devesses morrer, e ficasse decidida assim a tua salvação eterna, estarias bem preparado? Quanto não darias, talvez, para obter de Deus a trégua de mais um ano, um mês, um dia sequer! Por que agora, já que Deus te concede tempo, não pões em ordem tua consciência? Acaso não pode ser este teu último dia de vida? "Não tardes em te converter ao Senhor, e não o adies, porque sua ira poderá irromper de súbito e no tempo da vingança te perderás" (Ecle 5, 7). Para salvar-te, meu irmão, deves abandonar o pecado. "E se algum dia hás de abandoná-lo, por que não o deixas desde já?", pergunta Santo Agostinho [5]. Esperas, talvez, que chegue a morte? Mas esse instante não é tempo do perdão, senão da vingança. "No tempo da vingança, te perderás".

Se alguém te deve soma considerável, tratas de assegurar o pagamento por meio de obrigação escrita, firmada pelo devedor, dizendo: Quem sabe o que pode suceder? Por que, então, deixas de usar da mesma precaução, tratando-se da alma, que vale muito mais que o dinheiro? Por que não dizes também: quem sabe o que pode ocorrer? Se perderes aquela soma, não estará ainda tudo perdido e ainda que com ela perdesses todo o patrimônio, ficaria a esperança de o poder recuperar. Mas se, ao morrer, perdesses a alma, então, sim, tudo estaria irremediavelmente perdido, sem esperança de recobrar coisa alguma. Cuidas em arrolar todos os bens de que és possuidor, com receio de que se percam quando sobrevier morte repentina. E se esta morte imprevista te achasse na inimizade para com Deus? Que seria de tua alma na eternidade?

Afetos e súplicas

Ah! meu Redentor, derramastes todo o vosso sangue, destes a vida para salvar minha alma, e eu, quantas vezes a perdi, confiando em vossa misericórdia! Abusei de vossa bondade para vos ofender; mereci, por isso, que me deixásseis morrer e precipitásseis no inferno. Estamos, pois, como que numa competição. Vós usando piedade comigo, eu vos ofendendo; vós a correr para mim, eu fugindo de vós; vós, dando-me tempo para reparar o mal que pratiquei, eu, valendo-me desse tempo para acrescentar injúria a injúria. Senhor, fazei-me conhecer a grandeza das ofensas que vos fiz, e a obrigação que tenho de amar-vos.

Ah! meu Jesus! Como podeis amar-me ao ponto de ir à minha procura, quando eu vos repelia? Como cumulastes de tantos benefícios a quem de tal modo vos ofende? De tudo isto vejas quando desejais não me ver perdido. Arrependo-me de ter ultrajado a vossa infinita bondade. Aceitai, pois, esta ovelha ingrata que volta a vossos pés. Recebei-a e ponde-a aos ombros para que não fuja mais. Não quero apartar-me de vós, mas amar-vos e pertencer-vos inteiramente. E desde que seja vosso, gostosamente aceitarei qualquer trabalho. Que desgraça maior poderia afligir-me do que viver sem vossa graça, afastado de vós, que sois meu Deus e Senhor, que me criou e que morreu por mim? Ó malditos pecados, que fizestes? Induzistes-me a ofender a meu Salvador, que tanto me amou.

Assim como vós, meu Jesus, morrestes por mim, assim deverei eu morrer por vós. Morrestes pelo amor que me tendes. Eu deverei morrer de dor por vos ter desprezado. Aceito a morte como e quando vos aprouver enviá-la. Mas, já que até agora pouco ou nada vos hei amado, não quisera morrer assim. Dai-me vida para que vos ame antes de morrer. Para isso, renovai meu coração, feri-o, inflamai-o com o vosso santo amor. Atendei-me, Senhor, por aquela ardentíssima caridade que vos fez morrer por mim. Amo-vos de toda a minha alma. Não permitais que vos perca. Dai-me a santa perseverança. Dai-me o vosso amor.

Maria Santíssima, minha Mãe e meu refúgio, sede minha advogada!

PONTO III

"Estai preparados" — O Senhor não disse que nos preparemos ao aproximar-se a morte, mas que estejamos preparados. No transe da morte, nesse momento cheio de perturbação, é quase impossível pôr em ordem uma consciência embaraçada. Isto nos diz a razão. Nesse sentido Deus também advertiu-nos, dizendo que não virá então perdoar, mas vingar o desprezo que fizéssemos da sua graça (Rm 12, 19). "Justo castigo — disse Santo Agostinho — para aquele que não quis salvar-se quando pôde; agora, quando quer, não o pode" [6]. Dirá todavia alguém: Quem sabe? talvez nesse momento me converta e me salve. Mas quem é tão néscio e se lança num poço dizendo: Quem sabe? atirando-me, talvez fique com vida e não morra? Ó meu Deus, que é isto? Quanto o pecado cega o espírito e faz perder até a razão! Quando se trata do corpo, os homens falam como sábios, e como loucos, quando se trata da alma.

Santo Afonso de Ligório, fundador dos Redentoristas e autor de "Preparação para a Morte".

Meu irmão, quem sabe se esta reflexão que lês será o último aviso que Deus te envia? Preparemo-nos sem demora para a morte, a fim de que não nos encontre de improviso. Santo Agostinho disse que o Senhor nos oculta a última hora da vida com o fim de que todos os dias estejamos preparados para morrer: Latet ultimus dies, ut observentur omnes dies [7]. São Paulo nos previne que devemos procurar a salvação não só temendo mas tremendo: Cum metu et tremore vestram salutem operamini (Fl 2, 12). Conta Santo Antonino que certo rei da Sicília, para manifestar a um particular o grande medo com que se sentava no trono, o fez sentar à mesa com uma espada suspensa sobre sua cabeça por um fio delgado, de sorte que o convidado, vendo-se nessa terrível situação, mal podia levar à boca uma migalha de alimento. Todos estamos em semelhante perigo, já que dum instante para outro pode cair sobre nós a espada da morte, resolvendo o negócio da eterna salvação [8].

Trata-se da eternidade. "Se a árvore cair para o norte ou para o sul, em qualquer lugar onde cair aí ficará" (Ecle 11,3). Se na morte nos acharmos na graça de Deus, qual não será a alegria da alma vendo que tudo está seguro, que já não pode perder a Deus e que, para sempre, será feliz? Mas, se a morte surpreende a alma em estado de pecado, que desespero se apoderará do pecador ao dizer: "Então erramos" (Sb 5, 6), e para minha desgraça já não há remédio em toda a eternidade! Foi este receio que fez exclamar o bem-aventurado João de Ávila, apóstolo da Espanha, quando lhe anunciaram a aproximação da morte: "Oh! se tivesse um pouco mais de tempo para me preparar para a morte!" [9]. Foi por isso que o abade Agatão, ainda que morresse depois de haver exercido a penitência durante muitos anos, dizia: "Que será de mim? Quem conhece os juízos de Deus?" [10] Também Santo Arsênio tremia à vista da morte e, perguntando-lhe os seus discípulos a causa, respondeu: "Meus filhos, já não é novo em mim esse temor: tive-o sempre, em toda a minha vida" [11]. Mais que ninguém tremia o Santo Jó, dizendo: "Que será de mim quando Deus se levanta para me julgar, e que lhe direi se me interrogar? ( 31, 14).

Afetos e súplicas

Ó meu Deus! Quem me tem amado mais do que vós? E quem vos desprezou e ofendeu mais do que eu? Ó sangue, ó chagas de Cristo, sois minha esperança! Pai Eterno, não olheis meus pecados. Fitai as chagas de Jesus Cristo; contemplai vosso Filho muito amado, que morre de dor por mim e vos implora que me perdoeis. Pesa-me do íntimo de minha alma, meu Criador, de vos ter ofendido. Criastes-me para que vos ame, e vivi como se me tivésseis criado para vos ofender. Pelo amor de Jesus Cristo, perdoai-me e dai-me a graça do vosso amor.

Se outrora resisti à vossa santa vontade, agora já não quero resistir, mas fazer tudo o que me ordenais. Ordenais que deteste os ultrajes que voz fiz: detesto-os de todo o coração. Ordenais que me resolva a não vos tornar a ofender; pois bem, faço o firme propósito de antes perder mil vezes a vida do que a vossa graça. Ordenais que vos ame de todo o coração; pois bem, de todo o coração vos amo e a nada quero amar senão a vós. De hoje em diante, sereis o único amado de minha alma, o meu único amor. Peço-vos o dom da perseverança, e de vós o espero obter. Pelo amor de Jesus Cristo, fazei com que vos seja sempre fiel e possa dizer com São Boaventura: "Um só é meu amado; um só é meu amor". Não quero que minha vida sirva para vos desagradar, senão para chorar as ofensas que vos fiz e para vos amar muito.

Ó Maria, minha Mãe, intercedei por todos os que a vós se recomendam e rogai também a Jesus por mim!

Referências

  1. Essa citação, atribuída por Santo Afonso a um autor antigo de pseudônimo "Idiota", encontra-se ipsis litteris em um opúsculo de autor incerto intitulado De excellentia SS. Sacramenti et de dignitate sacerdotum, "Sobre a excelência do Santíssimo Sacramento e a dignidade dos sacerdotes" (PL 184, 991).
  2. Moralia in Iob, l. 12, c. 38, n. 43 (PL 75, 1006).
  3. Meditationes piissimae de cogn. hum. conditionis, c. 3, n. 10 (PL 184, 491).
  4. Sermo 22, c. 3, n. 3 (PL 38, 150).
  5. Cf. Confessiones, l. 8, c. 12, n. 28 (PL 32, 762); Possidius, Vita S. Augustini, c. 27 (PL 32, 57).
  6. De libero arbitrio, l. 3, c. 18, n. 52 (PL 32, 1296).
  7. Sermo 39, c. 1, n. 1 (PL 38, 241).
  8. Summa theol., pars IV, tit. 14, c. 8, par. 3 (IV, Veronae 1740, col. 818).
  9. Mugnos L., Vita dell'apostolico predicatore il P. M.o Giovanni d'Avila, l. 3, c. 23 (Milano 1667, 400-401).
  10. Cf. Vitae Patrum, l. 3, n. 161 (PL 73, 793).
  11. Cf. Vitae Patrum, l. 3, n. 163 (PL 73, 794).

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Por que a liturgia católica deve ser bela?
Liturgia

Por que a liturgia católica deve ser bela?

Por que a liturgia católica deve ser bela?

Existe hoje em dia uma estranha tendência a pensar que, tanto na vida quanto nos ritos religiosos, o aspecto exterior das coisas tem pouco valor, enquanto o “interior” é tudo o que realmente importa… Mas será assim mesmo?

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Agosto de 2018
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Existe hoje em dia uma estranha tendência a pensar que o aspecto exterior das coisas tem pouco valor, enquanto o “interior” é tudo o que realmente importa. Por exemplo, desde que você seja uma pessoa “de bom coração”, tanto faz a sua aparência, como você se veste ou fala, de que tipo de música gosta ou (para irmos ainda mais longe) a religião que você professa.

Há nisso uma pontinha de verdade: a altura, o peso e a cor da pele não são, de fato, qualidades morais; pecadores e santos os há de todas as colorações, formatos e tamanhos.

O problema é que vira e mexe nos esquecemos de como o exterior brota do interior e pode, muitas vezes, revelar o que se esconde no coração. Uma pessoa boa irá vestir-se com modéstia, falará respeitosamente e apreciará um estilo de música que enobreça o caráter, ao invés de degradá-lo — e tudo isso por causa das disposições interiores do coração, ocultas a olhos humanos, mas descobertas aos de Deus. A religião, embora se manifeste, é claro, com palavras e gestos, está enraizada no mais íntimo da alma e expressa, exteriormente, quais são os valores e as prioridades de quem a professa.

O conhecido filósofo inglês Roger Scruton diz a esse propósito:

É bem verdade o que, em tom de gracejo, dizia Oscar Wilde: só quem é superficial não julga pelas aparências. Pois são estas, com efeito, que transmitem sentido e constituem o núcleo de nossas preocupações emocionais. Quando deparo com um rosto humano, essa experiência não dá origem a um estudo anatômico, nem a beleza do que vejo leva-me a pensar sobre os tendões, nervos e ossos que, em alguma medida, estruturam aquela face. Pelo contrário, deter-se no “crânio que está sob a pele” é ver tão-somente o corpo, e não a pessoa que por ele se expressa. E isso, portanto, é perder de vista a beleza do rosto.

Nossos antepassados da Idade Média, por conseguinte, jamais diriam — e com toda coerência — que “pela capa não se julga o livro”. Prova disso é que eles investiram montanhas de dinheiro na produção de ricos Evangeliários, com pesados feixes de ouro, cravejados de pedras preciosas, para que ficasse patente que aquele livro encerrava a Palavra de Deus e merecia, por isso mesmo, a nossa mais profunda veneração.

Também a sagrada liturgia contém a Palavra de Deus; e não só isso: a Missa, por incrível que pareça, contém o próprio Deus, o Verbo feito carne. Eis porque seria totalmente inadequado ao conteúdo mais profundo da liturgia que os ritos externos fossem tudo menos gloriosos, imponentes, belos, solenes, reverentes. Deveríamos poder julgar este “livro” por sua capa resplandecente, quer dizer, a Missa pela sua aparência, por seus aspectos musical, textual e cerimonial; deveríamos ser capazes de enxergar-lhe o coração em cada uma de suas ações. Não podemos “perder de vista a beleza do rosto”.

Insiste-se muito atualmente em que não temos de dar lá grande atenção às “exterioridades” da Missa; basta lembrar que “Jesus está presente”.

Tiremos logo as papas da língua: “isso não cola”.

Ao longo dos séculos, os cristãos ofereceram a Deus o melhor que podiam fazer na liturgia, sobretudo pela beleza alcançável pelas mais finas artes, a fim de que as almas dos fiéis pudessem dispor-se melhor para adorar e glorificar o Senhor. É nesse sentido que Santo Tomás de Aquino escreve que a liturgia não é para Deus, mas para nós. É claro que ela tem a Deus por fim; a liturgia sequer teria sentido se Deus não existisse e Cristo não fosse o Redentor por cujo sacrifício fomos salvos.

Mas a liturgia nada acrescenta a Deus e a Cristo, como se os fizesse “melhores”; eles já são infinitamente bons, santos e gloriosos. Na verdade, ela é um auxílio para nós, que oferecemos a Deus um sacrifício de louvor, na medida em que orienta nossas almas a Ele, nosso fim último, e alimenta nosso espírito com a verdade de sua presença e nossos corações com o fogo do seu amor.

Turíbulo.

Tudo isso se cumpre do modo mais perfeito numa liturgia que impressiona pelo cuidado com o altar e os vasos sagrados, pela nobreza dos gestos e das alfaias, pelo canto e as cerimônias. Ou seja, numa liturgia que, do início ao fim, manifesta profundamente a proximidade e a transcendência de Deus. Uma liturgia assim, celebrada com sacralidade, dificilmente servirá a fins e propósitos seculares, mas inspirará em quem a ela assistir respeito, encanto e espírito de oração.

Numa palavra, o homem, enquanto criatura intelectual e corpórea, tirará muito menos proveito de uma liturgia quer excessivamente “verbal e cerebral” quer superficialmente “pomposa” do que de uma liturgia que, além de rica em textos e cerimônias, esteja embebida de simbolismo. Eis o que são todas as liturgias cristãs históricas; eis o que não é, infelizmente, boa parte das liturgias católicas atuais.

Uma grata exceção a essa regra seria o crescente número de lugares em que se tem oferecido o rito romano tradicional, chamado também “forma extraordinária” da Missa. É um rito saturado de sacralidade que, por assim dizer, quase nos “obriga” a rezar, a mergulhar de cabeça nos mistérios de Cristo através dos gestos externos, à semelhança dos discípulos de Emaús, que reconheceram o Senhor durante a fração do pão (cf. Lc 24, 35). O rito litúrgico é como o pão milagrosamente multiplicado e dividido ao redor do mundo, oferecido na mesa dos reis e pobres que buscam um alimento imperecível. Quando partimos esse pão ao participar do rito, abrem-se-nos os olhos para reconhecer Cristo ressuscitado.

Matthew Schmitz notou o seguinte:

Assusta pensar que os líderes de uma fé ritualística tenham pensado ser possível deixar de lado as formas tradicionais de oração. Entre os poucos que viram a insensatez de um tal projeto, contavam-se muitos artistas, atentos como que por natureza ao que, embora pareça superficial, é no fundo imprescindível.

O escritor Nicholas Dávila disse mais ou menos o mesmo: “Quando a religião e a arte se divorciam, é difícil saber qual das duas se corrompeu primeiro”.

É por todos esses motivos que a liturgia não só pode como deve ser julgada “pela capa”, pela aparência — pois, como diz Aristóteles, a aparência da coisa aponta para a natureza e substância dela. A Igreja Católica deve cuidar não só do real, mas também das aparências. O ser humano chega ao conhecimento da verdade por meio dos sentidos; ele não pode formar conceitos sem imagens. Em matéria de religião, no encontro com o Deus encarnado nos mistérios de sua vida, morte e ressurreição, nossos sentidos, nossa memória, nossa imaginação e emoções desempenham um papel tão importante quanto nossa inteligência e vontade.

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Mulher, onde está o teu coração?
Sociedade

Mulher, onde está o teu coração?

Mulher, onde está o teu coração?

Quantas mulheres estão consagrando de coração toda a sua vida a Mamon, o deus deste mundo, sem colher nenhum dos benefícios que resultariam de uma vida dedicada ao verdadeiro Deus?

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Agosto de 2018
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Um dia em Nova Jersey, anos atrás, encontrava-me em uma estação de trem esperando uma viagem para Nova Iorque. Enquanto observava as jovens mulheres bem vestidas à espera na estação, pensei comigo a caminho do trabalho: quantas dessas mulheres estão consagrando de coração toda a sua vida a Mamon, o deus deste mundo, sem colher nenhum dos benefícios que resultariam de uma vida dedicada ao verdadeiro Deus?

Elas são “celibatárias” de alguma forma, mas sem serem virgens; fazem sacrifícios dia após dia, mas não colhem deles nenhuma salvação; e, além disso, não trazem nenhuma alma imortal a este mundo. Elas podem até ter sexo, mas sem filhos; com isso, perdem a glória e o mérito supremos da mulher casada. Quando têm um filho, frequentemente delegam os cuidados a outra pessoa, perdendo a maior oportunidade e o maior privilégio de todos: criar e educar os próprios filhos.

Muitas mulheres modernas são um conjunto de contradições flagrantes: suas vidas são “consagradas”, mas a um falso deus que lhes rouba as bênçãos de uma fé virginal; elas se deitam com seus maridos, mas preferem a esterilidade; quando têm filhos, não cuidam deles nem os educam. Numa espécie de sátira da própria existência, elas são celibatárias defloradas, esposas estéreis e mães irresponsáveis — e tudo isso por escolha.

Em muitos sonetos, Shakespeare incentiva o leitor a gerar filhos, a fim de passar adiante a beleza que tem, ao invés de gastá-la consigo. Os sonetos partem do pressuposto de que a relação sexual é algo natural e felizmente associado à concepção de crianças; que o matrimônio, via de regra, conduz à formação de uma família (pensar de outro modo não faria nenhum sentido para alguém de cultura tradicional); que os cônjuges não só trarão filhos a este mundo, como dedicarão suas vidas inteiras a educá-los.

O que diria Shakespeare a essas mulheres na estação de trem? “Você deveria se casar”? Ora, muitas delas estão casadas, e ainda assim não têm nenhum filho. “Você deveria ter filhos”? Mas algumas delas os têm — um ou dois, número considerado “mais do que suficiente”. Em resumo, a estrutura inteira das relações sociais, responsabilidades morais as mais elementares, realidades humanas as mais básicas, tudo desapareceu; Shakespeare não teria praticamente nenhum modo de entrar no coração dessas pessoas.

Quero enfatizar que falo aqui apenas do que se pode chamar esterilidade voluntária, a esterilidade “de facto” escolhida por quem ou não quer filhos ou não deseja arcar com as responsabilidades de um compromisso. É evidente que aqueles que desejam mesmo ter filhos, mas não o podem, devem carregar essa cruz com a ajuda da graça divina, dado que a sua infertilidade não é querida, e muito menos culpável.

Não ter filhos, na verdade, para quem possui uma concepção digna do matrimônio e da vida humana, constitui a mais profunda dor e o mais terrível peso que se pode suportar. A perversidade da atitude moderna consiste em ver os filhos como uma derrota, um desperdício de vida.

Ao usar a metáfora da mãe para falar do terno amor de Deus (cf. Is 49, 15), o profeta Isaías parte do fato de o vínculo entre uma mãe e seus filhos ser conhecido e sentido como o mais forte, o mais sagrado, o mais íntimo dos vínculos humanos. Trata-se, talvez, do mais nobre modelo de amor a que podemos ter acesso. Por isso, Deus serve-se dele e espera ser facilmente compreendido. Se mulher nenhuma se esquece de um filho, como então Deus se esquecerá? Ao dizer: “Mesmo que uma mãe se esqueça, eu jamais me esquecerei de ti, diz o Senhor”, a Escritura faz uma reductio ad absurdum: nenhuma mãe digna do nome se esquece de seu filho; ora, se tal é assim, quanto mais Deus, que nos criou e sustenta no ser, não há de lembrar-se de nós?

Hoje, porém, a própria base dessa comparação, o belo vínculo natural entre mãe e filho, é abertamente ridicularizada e repudiada. Nós estamos, infelizmente, muito longe da imagem descrita pelo profeta Isaías, na qual o anelo da mãe por seu filho serve como imagem vívida das misericórdias de Deus para com o povo perdido e rebelde de Israel.

Em algum lugar do coração humano, não importa o quão cínico e calejado ele esteja, há uma brasa desse desejo ardente, uma fagulha desse amor. Nós precisamos fazer o máximo possível para manter acesa essa chama, procurando testemunhar continuamente o grande dom que é a vida humana, a beleza do amor paterno e materno e a alegria custosa, sim, mas profundamente gratificante de viver não para si, mas para os outros.

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Moral católica e contracepção: o Cardeal Sarah se pronuncia
Doutrina

Moral católica e contracepção:
o Cardeal Sarah se pronuncia

Moral católica e contracepção: o Cardeal Sarah se pronuncia

Acolher o ensino da Igreja sobre a contracepção, mais do que “uma questão de submissão e de obediência ao Papa”, é um ato de “escuta e acolhida da Palavra de Deus”.

La Nuova Bussola QuotidianaTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Agosto de 2018
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No último dia 4 de agosto, por ocasião do cinquentenário da encíclica Humanae Vitae, Sua Eminência, o Cardeal Robert Sarah, ministrou uma conferência na abadia beneditina de Sainte Anne de Kergonan, na região da Bretanha, noroeste da França.

Colocamos à disposição de nossos leitores algumas passagens, traduzidas do texto em italiano para o português. O texto integral da conferência, em francês, pode ser baixado nesta página.


Um erro de perspectiva

Caros amigos e esposos, se vós, como cristãos, rejeitais a contracepção, não é, antes de tudo, porque “a Igreja o proíbe”, mas porque sabeis, através do ensinamento da Igreja, que a contracepção é intrinsecamente má, isto é, que ela destrói a verdade do amor e do relacionamento humano. Ela reduz a mulher a nada menos que um objeto de prazer, sempre disponível, seja qual for o momento e a circunstância, às pulsões sexuais do homem.

Uma verdade conforme a razão e atestada pela Revelação

É importante sublinhar que essa verdade do amor humano é acessível à razão humana. São João Paulo II recorda, de fato, que a afirmação segundo a qual “qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida” (HV 11), descreve a “verdade ontológica”, a “estrutura íntima” e “real” do ato conjugal [1].

É esse caráter de racionalidade que fundamenta a afirmação de Paulo VI e de João Paulo II: “As normas morais da Humanae Vitae fazem parte da lei natural. Todo homem de boa vontade é capaz de compreender que um comportamento contraceptivo é contrário à verdade humana do amor conjugal.”

Mas é necessário ir ainda mais longe. Com efeito, São João Paulo II afirma com veemência que a norma moral formulada na Humanae Vitae faz parte da Revelação divina:

A Igreja ensina esta norma, ainda que não esteja expressa formalmente (isto é, literalmente) na Sagrada Escritura; e o faz na certeza de que a interpretação dos preceitos da lei natural é de competência do Magistério.

Podemos, no entanto, dizer mais. Ainda que a norma moral, tal como formulada na encíclica Humanae Vitae, não se encontre literalmente na Sagrada Escritura, pelo fato de estar contida na Tradição e — como escreve o Papa Paulo VI — ter sido “muitas vezes exposta pelo Magistério” (HV 12) aos fiéis, resulta que essa norma corresponde ao conjunto da doutrina revelada contida nas fontes bíblicas (cf. HV 4). [2]

Tal afirmação é capital para compreender o erro de todos aqueles que pedem uma “mudança de disciplina”, de todos os que dizem que “a Igreja é muito dura” ou que “a Igreja deve adaptar-se”. Segundo a encíclica Humanae Vitae, a Igreja não faz outra coisa senão transmitir tudo quanto ela recebeu do próprio Deus. Ela não tem, e nem terá jamais, o poder de mudar nada.

Portanto, acolher a Humanae Vitae não é, antes de tudo, uma questão de submissão e de obediência ao Papa, mas de escuta e acolhida da Palavra de Deus, da bondosa revelação de Deus sobre o que somos e sobre o que devemos fazer para corresponder ao seu amor. O que está em questão, de fato, é a nossa vida teologal, a nossa vida de relacionamento com Deus. Os cardeais, os bispos e os teólogos que têm rejeitado a Humanae Vitae e encorajado os fiéis à rebelião contra a encíclica estão se colocando deliberada e publicamente em luta contra o próprio Deus. O mais grave é que eles convidam os fiéis a se oporem a Deus.

Três erros

O primeiro erro se encontra entre os fiéis e, em particular, entre os cônjuges. Alguns poderiam ter a impressão de que a Igreja lhes esteja impondo um peso insuportável, um fardo demasiado pesado que acabará por comprometer a sua própria liberdade.

Caros amigos, tal ideia é falsa! A Igreja não faz outra coisa senão transmitir a verdade recebida de Deus e conhecida por meio da razão. E só a verdade pode nos tornar livres!

É necessário dizer como a recusa das práticas e da mentalidade contraceptiva liberta os casais do peso do egoísmo. Uma vida segundo a verdade da sexualidade humana liberta do medo! Libera as energias do amor e nos faz felizes! Vós, que viveis isso, dizei-o, escrevei, dai o vosso testemunho! É a vossa missão de leigos! A Igreja conta convosco e confia-vos essa missão!

O segundo erro a evitar se encontra entre os teólogos moralistas. Guardai-vos daqueles que vos dizem que, quando a intenção geral do casal é reta, as circunstâncias podem justificar a escolha de métodos contraceptivos. Caros amigos, afirmações desse tipo são mentiras! E aqueles que vos ensinam tais aberrações “falsificam a Palavra de Deus” (2Cor 4, 2). Eles não falam em nome de Deus. Falam contra Deus e contra o ensinamento de Jesus.

Quando vos dizem: há situações concretas que podem justificar o recurso aos contraceptivos, mentem para vós! Pior ainda, fazem-vos mal, porque vos indicam um caminho que não conduz nem à felicidade nem à santidade!

Como é possível fingir que “em certas situações” uma atitude que contradiz a verdade profunda do amor humano se torne boa ou necessária? É impossível! “As circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um ato intrinsecamente desonesto pelo seu objeto, num ato ‘subjetivamente’ honesto ou defensível como opção” [3].

Não se deve jamais opor a prática pastoral à verdade universal da lei moral. A pastoral concreta é sempre a procura dos meios mais apropriados para pôr em prática o ensinamento universal, jamais para o derrogar.

O terceiro erro a evitar se encontra nos pastores: sacerdotes e bispos. Como disse Paulo VI, “não minimizar em nada a doutrina salutar de Cristo é forma de caridade eminente para com as almas” (HV 29). E, dirigindo-se aos bispos, o bem-aventurado Papa continuava:

Trabalhai com afinco e sem tréguas na salvaguarda e na santificação do matrimônio, para que ele seja sempre e cada vez mais vivido em toda a sua plenitude humana e cristã. Considerai esta missão como uma das vossas responsabilidades mais urgentes na hora atual (HV 30).

Paulo VI nos mostrou com sua encíclica um belo exemplo de caridade pastoral. Não tenhamos medo de o imitar! Nosso silêncio seria cúmplice e culpável. Não abandonemos os casais às sirenes enganadoras da facilidade!

Um caminho de santidade para os esposos

Eu gostaria de sublinhar, sobretudo, que o fundamento de toda santidade deve encontrar-se no amor a Deus. Ora, quem ama quer o mesmo que quer o amado. Amar a Deus significa querer aquilo que Ele quer. No cume da vida mística, fala-se de união das vontades, ou de comunhão da vontade.

Assim, Paulo VI encoraja os esposos a “conformarem a sua conduta às intenções criadoras de Deus” [4]. Nesta vontade de unir-se às intenções do Criador se encontra um verdadeiro caminho de união teologal com Deus e, ao mesmo tempo, de uma justa realização de si. É verdadeiramente amar a Deus amar aquilo que a sua sabedoria inscreveu na minha natureza. E isso conduz a um amor-próprio justo e realista.

Esse plano do Criador não se reduz à regularidade biológica. A fidelidade à ordem da criação compreende muito mais do que isso. A fidelidade ao projeto de Deus supõe o exercício de uma paternidade-maternidade responsável, que se exprime por meio de um uso inteligente dos ritmos [naturais] da fecundidade. Isso supõe uma colaboração entre os cônjuges, uma comunicação de escolhas comuns e livres, tomadas de forma consciente, iluminadas pela graça e pela oração perseverante, fundadas em uma generosidade de fundo, para que o casal assim decida se irá transmitir a vida ou, por justos motivos, espaçar os nascimentos.

Isso supõe um verdadeiro amor conjugal, uma verdadeira temperança e domínio de si, sobretudo no caso de decidir-se limitar a união conjugal aos períodos infecundos. Numa palavra, trata-se de uma “arte de viver”, de uma espiritualidade, de uma santidade propriamente conjugal!

Uma arte de viver

Enfatizar esse aspecto permite-nos desfazer um mal-entendido. Fala-se às vezes de “métodos naturais de regulação de natalidade”. Muitos crêem que tais métodos são “naturais” pelo fato de não recorrem a procedimentos artificiais, químicos ou mecânicos. Isso não é exato de todo.

Em vez de “métodos naturais”, deve-se falar, antes, de um exercício da fecundidade de acordo com a natureza humana. Esta supõe uma “maturidade no amor que não é imediata, senão que exige diálogo, escuta mútua e um particular domínio sobre as pulsões sexuais em uma caminhada de crescimento na virtude”, dirá Bento XVI. Por isso, pode-se falar de “vida segundo a ordem da natureza”, em conformidade com o projeto criador, apenas se um método natural de regulação dos nascimentos estiver integrado em um contexto de virtude conjugal.

Noutras palavras, os métodos naturais são uma base, mas pressupõem que são vividos [pelo cônjuges] em um contexto de virtude. Eles podem constituir uma porta, uma pedagogia para a descoberta dessa vida conjugal plena, mas não podem ser vividos materialmente, fora deste contexto de responsabilidade, generosidade e caridade que lhe é inerente.

Abrir-se à adoração

Compreender o projeto do Criador, abraçá-lo com o coração, supõe essa atitude espiritual profunda de gratidão e de adoração, que é um dom do Espírito Santo. Acolhendo com gratidão a ordem natural, esforçando-se por compreendê-la e amá-la, os esposos não só realizam seu amor nas virtudes, que consolidam sua mútua caridade, mas se abrem ainda mais à adoração contemplativa do Criador.

A Humanae Vitae abre uma estrada de santidade conjugal, uma pedagogia da adoração, de aceitação filial e reverente do plano divino. Assim, Deus mesmo é amado como Pai, seus dons são acolhidos com gratidão e veneração e os esposos experimentam sua afetuosa majestade. Bem se entende por que João Paulo II pôde afirmar que “o que se põe em questão, com a rejeição deste ensinamento, é a ideia mesma da santidade de Deus. […] Essas normas morais não são mais do que a exigência, da qual nenhuma circunstância histórica nos pode dispensar, da santidade de Deus, participada em concreto, não em abstrato, a cada pessoa humana” [5].

O régio caminho da cruz

Sim, queridos amigos, queridos esposos, não vos prego um caminho fácil. Anuncio-vos Jesus, e Jesus crucificado! Estimados esposos, convido-vos a que entreis neste régio caminho de santidade conjugal. Dias virão em que devereis seguir adiante não sem heroísmo de vossa parte. Dias virão em que palmilhareis o caminho da cruz. Penso na “cruz daqueles cuja fidelidade suscita escárnio, ironia e até perseguição” [6], na cruz das preocupações materiais que implica a generosa acolhida de novas vidas, na cruz das dificuldades da vida de casal, na cruz da continência e da espera durante alguns períodos.

A felicidade, a alegria perfeita dos vossos casamentos há de passar por aqui. Sei que isso não se dará sem sacrifício. No entanto, “as tentativas sempre recorrentes de viver um cristianismo sem sacrifício, um cristianismo aguado e sem corpo, estão destinadas ao fracasso” [7].

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“Satanás sabe o perigo de um homem que reza!”
Cursos

“Satanás sabe o perigo
de um homem que reza!”

“Satanás sabe o perigo de um homem que reza!”

“Nós não damos valor à oração, mas Satanás sabe o perigo de um homem que reza”. Isso e muito mais dia 20 de agosto, no novo curso de nosso site, “Engenharia da Santidade”!

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Agosto de 2018
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Em uma das aulas de nosso curso “Engenharia da Santidade”, Padre Paulo Ricardo conta como aprendeu do demônio algumas lições valiosas.

Mas calma lá… Não é que o demônio realmente tenha ensinado o padre, como um professor, com giz e régua na mão. Foi observando as reações do inimigo de Deus que o padre descobriu a importância de muitas coisas às quais as pessoas, em geral, não dão a devida atenção.

Uma dessas coisas é a chamada oração íntima. Nós muitas vezes damos de ombros para essa coisa de rezar, de se recolher e falar com Deus, mas a verdade é que, se nós não sabemos, “Satanás sabe o perigo que é um homem que reza”.

Por isso, e cientes de que “Engenharia da Santidade” será uma grande ajuda para transformar você em um verdadeiro homem e mulher de oração, é com muita alegria que apresentamos o teaser definitivo de nosso curso, a ser lançado, como você já sabe, na segunda-feira próxima, dia 20 de agosto.

Graças a Deus, nossos últimos vídeos de divulgação tiveram um ótimo alcance e, com isso, centenas de pessoas entraram conosco na expectativa deste conteúdo.

Agora, porém, é hora de divulgar mais do que nunca este material, a fim de que ainda mais pessoas queiram receber a “engenharia da santidade”, tal como Padre Paulo Ricardo aprendeu em anos de estudo, reflexão e principalmente… oração.

Mas, afinal, como fazer para participar deste curso?

Muitas pessoas entraram em contato conosco, perguntando se este curso seria pago. A resposta é o próprio Padre Paulo Ricardo quem dá:

Ou seja, Padre Paulo Ricardo está convencido de que, em meio a tanta informação espalhada (e perdida) no mundo virtual, só um grupo de alunos, organizado seriamente ao redor de um professor, pode levar a cabo o trabalho árduo de estudar a fundo e sistematicamente as coisas da fé.

Não se trata, portanto, de “cobrar pela Palavra de Deus”, afinal, como você sabe bem, mais de 80% de todo o nosso conteúdo de evangelização é gratuito e aberto a todas as pessoas. A maioria de nossos cursos é exclusiva para alunos porque são eles que ajudam a manter, com uma singela assinatura, todo o nosso apostolado na internet.

Se você ainda não sabe como funciona, é bem fácil entender: inscrevendo-se agora mesmo em nosso site, neste link, você faz uma assinatura que dá acesso irrestrito a todos os nossos cursos (que podem ser vistos aqui). É como se você, que chegou até aqui por causa deste novo curso, ganhasse de bônus toda uma biblioteca de formação católica!

Por isso, não espere 20 de agosto para se inscrever em nosso site! Junte-se ainda hoje à nossa família e venha estudar conosco, em profundidade, as coisas de Deus!

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