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Desânimo, a tentação mais perigosa de Satanás
Espiritualidade

Desânimo,
a tentação mais perigosa de Satanás

Desânimo, a tentação mais perigosa de Satanás

Embora nem sempre se lhe dê a devida atenção, o desânimo deve ser encarado como uma tentação, e até como uma tentação das mais perigosas, visto que expõe a alma cristã a abandonar toda obra de piedade.

Padre J. Michel5 de Julho de 2019
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Perigos e efeitos funestos do desânimo. — O desânimo é a tentação mais perigosa que o inimigo da salvação dos homens possa pôr em obra. Nas outras tentações, ele só ataca uma virtude em particular e mostra-se a descoberto; no desânimo, ataca-as todas, e esconde-se.

Nas outras tentações, vê-se facilmente a cilada: na Religião, não raro na própria razão, e numa educação cristã, achamos sentimentos que as condenam: a vista do mal que não podemos disfarçar, a consciência, os princípios de Religião que despertam, servem de apoio para nos sustentarmos. No desânimo não achamos socorro algum; sentimos que a razão não basta para praticar todo o bem que Deus pede; por outro lado, não esperamos achar junto a Deus a proteção de que havemos mister para resistirmos às paixões. Achamo-nos, pois, sem coragem, prontos a tudo abandonar; e é até aí que o demônio quer conduzir a alma desanimada.

Nas outras tentações, vemos claramente que seria mal aderirmos a elas por um sentimento refletido: no desânimo, disfarçado sob mil formas, acreditamos ter razões as mais sólidas para nos deixarmos guiar por esse sentimento, que não consideramos como uma tentação. Entretanto, esse sentimento faz considerar como impossível a prática constante das virtudes, e expõe a alma a se deixar vencer por todas as paixões. É, pois, importante evitar essa cilada.

O efeito mais funesto do desânimo é que a alma que nele cai não o considera uma tentação. A esperança e a confiança em Deus é tão mandada quanto a Fé e as outras virtudes. — O que faz o grande mal de uma alma desanimada é que, iludida por um temor excessivo que lhe disfarça os verdadeiros princípios, abatida pela vista das dificuldades contra as quais não acha em si mesma recurso algum, ela não considera esse estado como uma tentação. Se o encarasse sob este ponto de vista, desconfiaria das razões que o alimentam: e, assim, sairia dele bem mais cedo e mais facilmente.

Bem certo é, entretanto, que se trata de uma tentação bem definida; porquanto todo sentimento que é oposto à lei de Deus, ou em si mesmo ou pelas consequências que pode ter, evidentemente é uma tentação. É assim que julgamos de todas as que podemos experimentar. Se nos vem um pensamento contra a Fé, um sentimento contra a Caridade, ou contra alguma outra virtude, consideramo-lo como uma tentação, desviamo-nos dele, e aplicamo-nos a produzir atos opostos a esse pensamento, a esse sentimento, que nos põe em perigo de ofender a Deus.

Ora, a Esperança e a confiança em Deus é tão mandada quanto a Fé e as outras virtudes. O sentimento que vai contra a Esperança é, pois, tão proibido quanto o que vai contra a Fé, e contra qualquer outra virtude: é, pois, uma tentação bem caracterizada. A lei prescreve-nos fazer amiúdes Atos de Fé, de Esperança e de Caridade: proíbe-nos, por isso mesmo, todo ato, todo sentimento refletido contrário a essas virtudes tão preciosas e tão salutares. Deve-se, pois, considerar o desânimo como uma tentação, e mesmo como uma tentação das mais perigosas, visto que expõe a alma cristã a abandonar toda obra de piedade.

Para tornardes sensível a vós mesmos esse perigo, examinai a conduta ordinária dos homens. A esperança de ser bem sucedido, de se proporcionar um bem, de evitar um mal, numa palavra, de satisfazer algum desejo ou alguma paixão, é que os faz agir, é que os sustenta nas penas que eles têm de suportar, é que os anima nos obstáculos que eles têm a vencer. Tirai-lhes toda esperança, e logo eles cairão na inação. Só um homem no delírio pode dar-se movimentos por um objeto que ele desespera de poder adquirir. O mesmo efeito o desânimo produz na prática das virtudes; funda-se no mesmo princípio, a falta dos meios para chegar ao fim que nos propomos.

A alma cristã que não espera vencer-se na prática de alguma virtude, nada ou quase nada empreende para se fortificar. Os esforços insuficientes que ela faz aumentam-lhe a fraqueza; e, mais do que meio vencida pelo seu desânimo, ela se deixa facilmente arrastar à paixão que a domina. A vista da sua fraqueza lança-a primeiramente na irresolução, na perturbação. Neste estado, todo ocupada da dificuldade que sente em combater, ela já não vê os princípios que devem guiá-la. O temor de não ser bem sucedida impede-a de enxergar os meios que deve adotar para vencer, e que Deus lhe apresenta: ela se entrega, pois, ao inimigo sem defesa. É como uma criança a quem a vista de um gigante que avança contra ela faz tremer, e que não pensa em que uma pedra basta para derrubá-lo, se ela se servir dessa pedra em nome do Senhor. Essa alma, assim, desanimada, tem um socorro poderoso na bondade do Pai mais terno; e que é só reclamar esse socorro, para sair vitoriosa do combate.

Fonte e causa das impressões que o desânimo produz numa alma cristã. — Por que é que o desânimo produz tão fortes e tão funestas impressões numa alma cristã? Ei-lo aqui. A alma está bem convencida da sua fraqueza, que amiudadas vezes ela experimenta: sente vivamente a dificuldade que tem em se vencer, coisa que lhe sucede raramente. Todo ocupada dessas ideias tristes e desalentadoras, de que tem pouca coragem, de que não faz nada para agradar a Deus, ela considera como coisa inútil recorrer ao Senhor, que, nesse estado, não deve escutá-la. Estranho efeito do orgulho do homem, que quereria dever a si mesmo o bem que faz e a felicidade a que aspira, contra esta palavra do Espírito Santo: Quid autem habes quod non accepisti? — “Que tendes que não tenhais recebido?” (1Cor 4, 7). 

Essa alma, pois, não reflete, nem parece contar senão com as suas obras e com as suas próprias forças; de sorte que o seu desânimo diminui, cessa, volta ou aumenta, conforme ela age bem ou mal. Ela não pensa em que só e exclusivamente da misericórdia de Deus é que deve esperar socorro, e não dos seus próprios méritos; que, quando ela faz o bem, é pela graça de Deus que o faz, graça que ela não pôde merecer; e que, em qualquer estado, essa misericórdia lhe está aberta para obter essa graça. 

Quando fazemos sentir a essas almas desanimadas que, a exemplo dos Santos, devem pôr toda a sua confiança em Deus, sem hesitar elas respondem não ser surpreendente que os Santos tivessem confiança em Deus, visto serem Santos, e servirem a Deus com fidelidade; mas que eles não têm as mesmas razões que os Santos para ter essa confiança perfeita. Não vêem que esse raciocínio é contra os princípios da Religião. 

A Esperança é uma virtude teologal; o motivo dela só em Deus pode achar-se: essas almas fazem dela uma virtude humana, cujo motivo se acha no homem e nos seus costumes. Não; os Santos nunca esperaram em Deus porque eram fiéis a Deus; foram fiéis a Deus por haverem esperado n’Ele. Do contrário, o pecador jamais poderia formular um ato de Esperança; e, no entanto, é esse ato de esperança que o dispõe a voltar a Deus. 

Notai bem que S. Paulo não diz: Obtive misericórdia porque fui fiel; mas diz: Quanquam misericordiam consecutus a Domino, ut sim fidelis — “Obtive misericórdia a fim de ser fiel” (1Cor 7, 15). A misericórdia precede sempre o bem que fazemos: é ela que nos dá as graças que no-lo fazem praticar. Os santos nunca contaram com as suas obras para apoiarem a sua confiança em Deus: estavam por demais compenetrados desta lição que Jesus Cristo nos dá: “Quando tiverdes feito tudo o que vos é mandado, dizei: Servi inutiles sumus: quod debuimus facere, fecimus — Somos servos inúteis” (Lc 17, 10). Quanto mais Santos eles eram, tanto mais humildes eram. A sua humildade não lhes deixava enxergar senão a perfeição a que ainda não haviam chegado. Bem distanciados dos sentimentos do Fariseu do Evangelho, eles não achavam nada em si que pudesse assegurar a sua confiança; mas procuravam e achavam no seio de Deus os fundamentos inabaláveis dela. Tais são os motivos que os sustentaram; tais devem ser os que vos animarão e que reanimarão a vossa fraqueza abatida. É importante que sejais instruídos sobre este ponto, para que não caiais novamente na armadilha que o demônio vos tem tantas vezes lançado. 

Do verdadeiro motivo da esperança cristã. Esse motivo é o mesmo para todos os homens. — Consoante a Religião, o motivo da Esperança cristã, ou da confiança em Deus, é o mesmo para todos os homens, santos ou pecadores. 

A Esperança, como já dissemos, é uma virtude teologal, como a Fé e a Caridade. O seu motivo não pode, pois, ser achado senão em Deus, não pode apoiar-se senão nas perfeições divinas. Assim sendo, excluímos desse motivo os nossos méritos. Não esperamos em Deus por lhe havermos sido fiéis: esperamos n’Ele para obtermos a graça de lhe sermos fiéis. 

Em que é que se funda, pois, a Esperança cristã? e qual é o motivo dela segundo a Religião? O Papa Bento XIV, no modelo do “Ato de Esperança”, exprimiu as perfeições divinas que formam esse motivo. Esse ato é assim: “Meu Deus, espero em vós porque sois fiel às vossas promessas, sois todo-poderoso, e porque infinitas são as vossas misericórdias”. Nesse motivo, não há nada do homem; tudo é tomado em Deus mesmo. E pode haver motivo mais forte para nos firmar na Esperança, na confiança em Deus? 

Achamos aí a misericórdia de Deus, que é mais solícita em derramar os seus dons sobre os homens do que estes são em recebê-las; que quer o verdadeiro bem deles, a sua salvação, muito mais sinceramente do que o querem eles próprios, visto que Ele os previne pela sua graça, graça que eles não podem merecer; visto que lhes prepara socorros proporcionados às provações em que os coloca, socorros que eles podem obter por suas preces, e de que podem fazer uso para resistir ao inimigo da salvação: misericórdia infinita, por conseguinte superior a toda a malícia dos homens; e que, depois de se haver manifestado de maneira tão evidente e tão admirável pelo dom que Deus nos fez de seu Filho único para nos remir, não nos recusará os socorros que Ele tem em vista proporcionar-nos por meio desse benefício extraordinário. 

Os efeitos dessa divina misericórdia são-nos assegurados pelas promessas que Deus nos fez de vir em nosso socorro quando o reclamássemos, para operar a nossa salvação. Essencialmente verdadeiro, Deus não pode enganar-nos; e Ele é essencialmente fiel às promessas que faz às suas criaturas. Ora, nos Livros Santos achamos as exortações mais tocantes para recorrermos a Ele nas nossas necessidades, com promessa de que Ele será o nosso sustentáculo e a nossa força. Podemos, então, ter a menor desconfiança, o menor temor refletido de que Ele nos rejeite, de que nos abandone, quando o invocarmos com confiança? Não seria isto acusar Deus de faltar à sua promessa? Ora, isto seria uma blasfêmia. 

Verdade é que, para nos atender, Deus exige que o invoquemos com confiança. Mas também mereceríamos obter os seus benefícios se os pedíssemos com um coração vacilante sobre a sua bondade, bondade cujos efeitos experimentamos a cada instante e de tantas maneiras? Não, diz-nos o Apóstolo S. Tiago (1, 6), um coração que reza com essa disposição de desconfiança não obterá nada. E vemos que Jesus Cristo, na sua vida mortal (cf. Mt 9, 22), só concedia milagres à confiança. 

A onipotência de Deus dá o último traço a este motivo de Esperança cristã, fazendo-nos considerar-nos superiores a todas as nossas necessidades. Muitas vezes, os homens prometem o que não está no poder deles dar: assim não sucede com Deus onipotente. Ele não pode achar obstáculo insuperável à sua vontade nos dons que quer fazer-nos. Nos tesouros infinitos das suas graças Ele tem meios infalíveis para nos conduzir à santidade. Nunca devemos, pois, recear pedir-lhe ou coisas demasiadas ou coisas demasiadamente difíceis. 

Infinitamente rico, Deus possui todos os bens, na ordem da graça, como na ordem da natureza. Infinitamente poderoso, não há nenhum dos seus bens de que Ele não nos possa dar parte. Infinitamente bom, Ele está disposto, segundo as suas promessas, a nos conceder tudo o que nos é necessário para a nossa salvação. É nestes motivos essenciais, hauridos nas perfeições de Deus, que todos os homens devem fundar a sua esperança. Só eles podem dar à nossa confiança essa firmeza inabalável que ela deve ter.

Referências

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Cinco encíclicas sociais que você precisa ler do Papa Leão XIII
Doutrina

Cinco encíclicas sociais que
você precisa ler do Papa Leão XIII

Cinco encíclicas sociais que você precisa ler do Papa Leão XIII

As intervenções de Leão XIII em matéria política e econômica deram origem a um corpo completo, consistente e muito bem articulado de doutrina social, com o qual nossa época tem necessidade urgente de aprender.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Julho de 2019
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Um dos muitos benefícios de estudar história da Igreja é que, em tempos difíceis, isto pode nos proporcionar modelos inspiradores e motivos para manter viva a esperança.

Antes de Leão XIII (Gioacchino Vincenzo Raffaele Luigi Pecci, 1810-1903, que reinou de 1878 a 1903), a Igreja Católica no séc. XIX estava sitiada e na defensiva. Ela era marginalizada e desprezada de muitas maneiras; os liberais “ilustrados” que estavam à frente da Europa (tal como hoje) menosprezavam-lhe as palavras e atitudes “medievais” e previam-lhe o desaparecimento como coisa mais do que certa. Ao líder supremo da Igreja, aparentemente, não cabia outra coisa a fazer senão protestar e lançar anátemas contra um mundo que já não lhe dava ouvidos. Os laicistas de então não podiam sequer imaginar que a Igreja conseguiria responder corajosamente aos desafios da época, conquistando um grande prestígio moral onde ela havia perdido territórios e apoio político.

E no entanto foi justamente isso que aconteceu, graças ao surpreendente pontificado de Leão XIII, que durou 25 anos e meio, um dos mais longos da história, perdendo apenas para o pontificado de Pio IX (que durou 31 anos e meio) e de João Paulo II (que durou 26 anos e meio).

As principais intervenções de Leão XIII em matéria política e econômica deram origem a um corpo completo, consistente e muito bem articulado de doutrina social, unindo, em uma ética social consistente, o que dizem as Escrituras, os Padres e Doutores da Igreja, além das intervenções anteriores do Magistério. Se levarmos em conta que Leão XIII escreveu quase 100 encíclicas, endereçadas a diferentes públicos e abordando uma variedade enorme de assuntos, pode ser um pouco intimidador recomendar um número, modesto que seja, de “leituras obrigatórias”. Mas, felizmente, não se trata de uma tarefa nada difícil, porque ninguém menos do que o próprio Leão XIII declarou, no fim do seu pontificado, em sua carta retrospectiva Annum Ingressi Sumus, de 1902, quais de suas tantas encíclicas sociais eram para ele as mais importantes.

São cinco as encíclicas que, tomadas em conjunto, compõem como que um “minicurso” sobre os fundamentos da Doutrina Social Católica: 

  1. Diuturnum Illud, de 1881, sobre a origem da autoridade civil; 
  2. Immortale Dei, de 1885, sobre a constituição cristã dos Estados;
  3. Libertas Praestantissimum, de 1888, sobre a verdadeira e a falsa noção de liberdade;
  4. Sapientiae Christianae, de 1890, sobre os deveres dos cidadãos cristãos para com os seus Estados; e 
  5. Rerum Novarum, de 1891, sobre o trabalho e o capital, isto é, os direitos e deveres de empresários e trabalhadores.

1) Em Diuturnum Illud, Leão XIII demonstra por que Deus é e deve ser a fonte de toda sociedade política, assim como de todas as formas de autoridade que os governantes exercem. De fato, os homens que são eleitos para o governo não são a fonte de seus próprios poderes, nem estão sujeitos ao povo do mesmo modo como o estão a Deus, que os irá julgar a todos mais severamente, por causa do peso da responsabilidade que assumiram. Corrigindo incontáveis erros de origem iluminista sobre a origem e a finalidade do poder político, típicos dos ocidentais modernos, esta encíclica apresenta também uma excelente explicação sobre o que se costuma chamar “desobediência civil”, mas que, em verdade, nada mais é do que uma obediência firme às leis supremas de Deus.

2) Em Immortale Dei, Leão XIII esmiúça em detalhes como seria a constituição cristã ideal para um Estado e explica por que é impossível sustentar que um Estado não tem obrigação alguma para com Deus e a Igreja nem o dever de formar seus cidadãos na virtude moral. Como já fizera antes, Leão XIII argumenta contra “os princípios e fundamentos de uma nova concepção de lei”. O que ele tem em mente é a teoria do “contrato social”, que, em aberta contradição com a lei tanto divina como natural, compromete a estabilidade do Estado, que depende em grande medida da profissão eficaz da religião, quer dizer, do cumprimento dos deveres primários de cada cidadão para com Deus. Esta encíclica contém ainda uma das melhores explicações já feitas sobre as semelhanças e diferenças entre a sociedade civil e a sociedade constituída pela Igreja Católica: ela ilustra com clareza excepcional quais são as esferas de autoridade próprias de cada uma e como elas podem, ocasionalmente, sobrepor-se ou entrar em conflito.

3) Intimamente relacionada com tudo isso, temos a encíclica Libertas Praestantissimum, que é até hoje a análise mais compreensiva e aguda sobre o sentido da liberdade humana que já nos foi presenteada pela cátedra de Pedro. Isso explica por que ela é um dos documentos citados com mais frequência pelos sucessores de Leão XIII. Esta encíclica fala sobre a dependência da vontade humana da lei, da verdade e da graça; sobre a escravidão a que conduz a liberdade, quando usada de forma abusiva; sobre a interconexão entre as leis eterna, natural e humana; sobre a corrupção universal a que nos leva o liberalismo político, entendendo por esse nome a doutrina de filósofos do séc. XVIII como John Locke; sobre o evidente absurdo que é a separação entre Igreja e Estado [1]; e sobre os casos em que pode ser permitido tolerar falsas religiões, a fim de evitar assim maiores males.

4) Dando um passo a mais, Leão XIII publicou a encíclica Sapientiae Christianae, acerca dos direitos e responsabilidade dos cristãos como membros das sociedades modernas. Como era de se esperar, o Papa fala com sabedoria e prudência sobre o mar de dúvidas que tem o cidadão católico: o que é o verdadeiro patriotismo ou piedade nacional, e como ele se relaciona com a devoção à Igreja? Qual é a missão dos leigos e da família católica no mundo, quais são as regras que hão-de guiar as escolhas políticas de um católico e que tipo de comportamento em âmbito público pode ser considerado uma ofensa a Deus? Como a Providência divina quer que a Igreja e o Estado trabalhem juntos para que os cidadãos possam alcançar sua perfeição natural e sobrenatural? Além disso, Leão XIII aborda uma série de outras questões como, por exemplo, a atitude que deve ter um leigo diante dos erros de um Bispo e por que os cristãos que fracassam em viver a fé são culpados de um pecado mais grave que o dos judeus que rejeitaram o Messias.

O Papa também fala, com uma clareza muito maior que a dos líderes dos movimentos dos direitos civis que surgiram anos depois, sobre os porquês de seguir a própria consciência contra os ditames imorais de um governo.

5) Rerum Novarum, por fim, é a encíclica mais conhecida de Leão XIII. Infelizmente, muitos caíram na tentação de buscar nela um sumário completo da Doutrina Social Católica, algo que ela obviamente não contém nem pretende oferecer. O Papa fez questão de salientar, no próprio documento, que ele já havia escrito outras encíclicas (como as mencionadas acima) que deveriam ser lidas antes, a fim de compreender de forma adequada o contexto das considerações predominantemente econômicas de Rerum Novarum. Tais considerações incluem, entre outras coisas, 

  • o porquê de o socialismo ser totalmente injusto e estar fadado a tornar piores as situações que ele promete melhorar
  • o porquê de a instituição da propriedade privada (ou seja, a posse individual de bens próprios) ser benéfica ao indivíduo, à família e ao Estado; 
  • o porquê de a família ser, em certo sentido, anterior ao mesmo Estado; o porquê de ser útil e necessário o dever do Estado de promover o bem comum do maior número possível de pessoas; e, enfim, 
  • o porquê de o Estado ter a obrigação de proteger e fazer cumprir os direitos e responsabilidades das várias classes sociais. 

Fala-se também claramente dos deveres tanto de patrões como de empregados; explica-se qual é a regra principal e mais perfeita para o uso correto do dinheiro (isso por si só não nos deveria dar vontade de ler o documento todo?); define-se e defende-se contra possíveis objeções a ideia de “salário justo” e de “salário familiar”; e defendem-se com vigor as uniões ou “guildas” de trabalhadores e, portanto, o “direito de associação”. Sempre que leio esta encíclica, fico maravilhado ao ver como os grandes problemas e sofrimentos econômicos do séc. XX (e, certamente, do séc. XXI) já tinham sido previstos; as suas causas, expostas; e as suas soluções, propostas.

No magistério de Leão XIII, encontramos um projeto sistemático de engajar o mundo moderno, projeto que ele buscou levar à prática com todas as forças e sem desvios ao longo de um quarto de século. Apesar de ter sido profundamente crítico e pessimista quanto à direção em que estava caminhando o Ocidente, e mesmo sabendo que os filósofos secularistas eram um veneno mortal, Leão XIII manteve-se animado por um visão marcadamente positiva sobre o que Cristo e a Igreja podiam fazer pelo homem moderno, que necessita ser salvo dos ídolos que suas próprias mãos fabricaram.

Notas

  1. A esse respeito, consulte-se o excelente artigo “Relações entre a Igreja e o Estado”, da pena do Pe. Leonel Franca (in: Obras completas do Pe. Leonel Franca, SJ, v. 5: Alocuções e artigos, t. 1. Rio de Janeiro: Agir, 1954, pp. 11-54).

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Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Sangue de Cristo, “salva-nos, pois estamos perecendo!”
Liturgia

Sangue de Cristo,
“salva-nos, pois estamos perecendo!”

Sangue de Cristo, “salva-nos, pois estamos perecendo!”

Infelizmente, já há muito tempo que se tem tentado transformar a liturgia num “produto humano”. Como se fossem os nossos esforços, os nossos miseráveis esforços, o que viria a salvar a barca da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Julho de 2019
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Na liturgia antiga, o 1.º de julho era o dia de uma festa de 1.ª classe em honra ao Preciosíssimo Sangue de Cristo. (Na liturgia nova, abolida a festa, ainda assim é possível celebrar uma Missa votiva dedicada a esse mistério.)

Com tal celebração, todo o mês de julho ganha um tom diferente. Estamos no tempo depois de Pentecostes (o tempo per annum), mas a Igreja não quer que percamos de vista a humanidade santíssima de Nosso Senhor, pois é através dela que são derramadas sobre nós todas as graças do Espírito Santo. A Ladainha do Preciosíssimo Sangue, que todos podemos rezar especialmente neste mês, fala do Sangue de Jesus “correndo pela terra na agonia”, “manando abundante na flagelação”, “gotejando na coroação de espinhos”, com o que nós somos imediatamente transportados às mais cruéis e sanguinolentas cenas da Paixão de Nosso Senhor, na qual Ele demonstrou o seu grande amor por nós. 

Unido a esse mistério, porém, o trecho do Evangelho proclamado ontem na liturgia reformada (terça-feira da 13.ª Semana do Tempo Comum, ano ímpar) deveria fazer-nos meditar de modo particular acerca do papel de Cristo como mediador entre Deus e os homens, e especialmente na Igreja Católica. 

A passagem em questão (cf. Mt 8, 23-27) é a do Cristo que dorme enquanto “a barca estava sendo coberta pelas ondas” durante “uma grande tempestade no mar”. Junto com Ele estavam os Apóstolos. Agitados com a possibilidade de que a barca afundasse, os discípulos acordam Jesus e pedem-lhe que intervenha. Nosso Senhor, então, atende-lhes aos rogos, ordena aos ventos e ao mar que cessem sua fúria e, prontamente, advém-lhes “uma grande calmaria”.

O brilho do poder de Nosso Senhor contrasta aqui com a grande impotência dos discípulos. Eles entraram na barca justamente por causa de Cristo, como se lê no início dessa perícope: “Jesus entrou na barca, e seus discípulos o acompanharam”. Se eles entrassem sozinhos, no entanto, por conta própria e sem o Senhor, é certo que veriam soçobrar a embarcação. O Evangelho cala-se aqui a respeito do que teriam feito os discípulos quando começou a tempestade, mas o trecho paralelo de S. Marcos detalha que a tormenta “lançava as ondas dentro da barca, de modo que ela já se enchia de água” (Mc 4, 37) e S. Lucas completa dizendo que “eles se achavam em perigo” (Lc 8, 23). 

Talvez, à vista de tudo aquilo, alguns dos discípulos já tivessem até lançado algumas coisas ao mar, a fim de tornar o barco menos pesado; talvez, um ou outro deles, mais dado à navegação, houvesse lançado mão de alguma técnica para evitar que eles afundassem. O fato é que nada do que fizeram (ou do que pensavam ser possível fazer) foi capaz de deter o mar tempestuoso.

A barca em questão é símbolo da Igreja, evidentemente; mas também pode simbolizar a alma que procura lutar contra a força das más paixões e resistir às tribulações e dificuldades da vida presente. De uma forma ou de outra, prestemos atenção ao que fazem os discípulos (pois é também isso o que devemos fazer, a Igreja como um todo e cada um de nós, se quisermos experimentar a “grande calmaria” que se seguiu àquele episódio): o Evangelho diz expressamente que eles “aproximaram-se [de Cristo] e o acordaram, dizendo: ‘Senhor, salva-nos, pois estamos perecendo!’”.

Ora, que os Apóstolos, entre os quais se contavam alguns pescadores, recorressem a um carpinteiro para resolver um problema no mar… não parece surreal? 

Não, se nos atentarmos à palavra com que eles chamam Jesus: “Senhor” (Κύριε, Kyrie). Os discípulos, mesmo com a fé fraca que tinham, não viam em Cristo um homem comum. Aquele ser humano de carne e osso que dormia na popa da barca não era só verdadeiro homem, mas também verdadeiro Deus. Eles recorreram a Cristo porque viam nEle aquele único mediador de que fala o Apóstolo (cf. 1Tm 2, 5), o qual, tendo assumido a nossa carne, é capaz de interceder a nosso favor e que, sendo Deus, é capaz de ter misericórdia e nos salvar. 

Assim como a comunidade dos primeiros discípulos, a Igreja através dos séculos é esse povo reunido em torno da humanidade santíssima de Nosso Senhor e que implora, dia e noite, clemência ao Sumo e eterno sacerdote — pois “o ofício próprio do sacerdote é ser mediador entre Deus e o povo” (STh III 22, 1 c.). E de que modo especial Cristo cumpre essa missão senão na Cruz? E como a Igreja recebe as graças desse sacrifício, senão através do santo sacrifício da Missa, renovação incruenta do sacrifício do Calvário?

A Missa é, pois, o centro da vida da Igreja e deve ser o centro de toda a nossa vida. Nela, assim como os Apóstolos clamam pelo Senhor: Kyrie, o povo reunido clama Kyrie eleison, e implora à santíssima humanidade de Cristo que interceda mais uma vez por toda a Igreja e por todos os seus. Não nos voltamos uns aos outros, como numa assembleia autorreferencial, que se salva a si mesma. Não temos meios de nos livrar da tempestade do mundo. Não somos mais poderosos que os primeiros cristãos, os Apóstolos. Não somos diferentes dos primeiros homens que seguiram a Nosso Senhor, e que se viam profundamente necessitados dEle. Também nós todos, sem exceção, precisamos da sua intervenção e do seu socorro. 

É por isso que na Santa Missa, sacerdote e povo, ministro consagrado e leigos batizados, todos nos voltamos para a mesma direção: ad orientem, rumo ao Sol de justiça que é Nosso Senhor. A Ele nós clamamos, como os Apóstolos naquela tempestade: Salva nos (curiosamente, a mesma invocação que fazemos ao rezar a Ladainha do Preciosíssimo Sangue). 

Infelizmente, porém, já há muito tempo que se tem tentado transformar a liturgia num “produto humano”, como se fossem os nossos esforços, os nossos miseráveis esforços, o que viria a salvar a barca da Igreja. É como se estivéssemos insatisfeitos com Cristo em nosso meio; é como se a humanidade de Nosso Senhor, real e substancialmente presente nas espécies eucarísticas, não nos fosse suficiente. Ou pior: é como se tivéssemos perdido por completo a fé, e pensássemos que Jesus, no fundo, é apenas o “carpinteiro de Nazaré”, e que por isso não seria capaz de lidar com os nossos problemas de navegação

Como resultado disso, o que fazemos? Caímos na tentação da autossuficiência. Procuramos de todos os modos “adaptar” o culto instituído pelo próprio Deus humanado aos nossos gostos e caprichos. Não nos bastam as orações que a Igreja sempre rezou; não nos basta o Evangelho que os cristãos em todos os lugares proclamaram; não nos bastam as palavras do Cânon que os sacerdotes de todos os tempos pronunciaram; não nos basta a fórmula de consagração que Jesus nos deixou ao instituir a Eucaristia… É preciso “inventar”, é preciso “inovar”, é uma sanha incontrolável que ninguém consegue curar.

E ai de quem ouse alertar para a presença de Cristo no barco! “Pouco importa”, alguém poderia responder, “deixai-o dormir, que nos viramos nós!”

Como consequência dessa soberba, acontece aquilo que alertou o Cardeal Joseph Ratzinger em sua Introdução ao espírito da liturgia

O Homem sozinho não consegue mesmo “criar” um culto fácil porque, sem Deus se revelar, ele será sempre insignificante. As palavras de Moisés ao Faraó: “Não sabemos quais serão as vítimas que ofereceremos ao Senhor” (Ex 10, 26), expõem, sem dúvida, um princípio fundamental de toda a Liturgia. No pressentimento de Deus que lhe é inerente, o homem pode, certamente, sem Deus se revelar, edificar altares “ao Deus desconhecido” (cf. At 17, 23); nos seus pensamentos, ele pode elevar-se para Deus, na tentativa de o alcançar, mas a verdadeira Liturgia pressupõe que Deus responde e expõe o modo de ser venerado. Ela inclui, duma certa maneira, algo como “nomeação”. Ela não pode ser fruto da nossa fantasia e criatividade — pois assim, seria apenas um grito na escuridão ou simplesmente a afirmação de nós próprios. A Liturgia pressupõe algo de concreto diante de nós, algo que se nos revela, indicando o percurso da nossa existência [...].

A história do bezerro de ouro alerta para um culto autocrático e egoísta em que, no fundo, não se faz questão de Deus, mas sim em criar um pequeno mundo alternativo por conta própria. Aí, então, é que a Liturgia se torna em mera brincadeira. Ou pior: ela significa o abandono do Deus verdadeiro, disfarçado debaixo de um tampo sacro. Mas, assim, o que resta no fim é a frustração, a sensação do vazio. Já não se faz sentir aquela experiência de liberdade, que acontece em todo o lado onde haja encontro com Deus vivo [1].

Ora, que haja essa “frustração” e “sensação do vazio” entre os pagãos e nas religiões naturais, que não conhecem a revelação cristã, é coisa perfeitamente compreensível. Agora, que um “culto autocrático e egoísta” substitua o “encontro com Deus vivo” dentro da Igreja Católica, como entender?

A pergunta que precisa ser feita, portanto, é se ainda cremos que Deus se revelou em Jesus Cristo. Cremos que o homem Jesus, que viveu em Nazaré, que salvou os discípulos da tempestade em Tiberíades, que instituiu a Eucaristia para permanecer em nosso meio, que morreu na Cruz para instituir um sacrifício perpétuo pela nossa salvação… nós cremos que esse homem era Deus? Ou, ao contrário, já nos parece que tanto faz estar na barca de Pedro, com Cristo; ou na “barca” de Alá, com Maomé; ou na de Allan Kardec, com Chico Xavier; ou na “barca” dos inúmeros deuses das outras religiões? Ainda acreditamos que a humanidade de Nosso Senhor é o único caminho para a salvação ou já nos vendemos a um projeto de religião universal que tudo iguala e nivela por baixo?

O Evangelho de ontem não mencionava quantos e quais dos Apóstolos foram atrás de Nosso Senhor em busca da salvação. Talvez fossem todos. Talvez apenas alguns. Talvez fosse apenas um deles. Sabemos todavia que, no momento mais importante de toda a obra da Redenção, um deles o traiu; um deles, e o chefe, o negou; e outros tantos, covardemente, fugiram. Se ficaremos nós, pobres de nós, miseráveis nós, aos pés da Cruz, e até o fim, só Deus o sabe. Se acontecer de resistirmos e ficarmos, no entanto, saibamos desde já: não será por nossas forças, não será por nossos esforços, não será por nossos méritos, mas unicamente pela força e pelo poder do Preciosíssimo Sangue de Cristo. 

Por isso, e porque a fé não nos foi tirada, não deixemos de subir ao altar de Deus, alegria da nossa juventude, e clamar: Sangue de Cristo, “salva-nos, pois estamos perecendo!” Foi o que fizeram os discípulos no mar de Tiberíades e é também o que devemos fazer, a Igreja como um todo e cada um de nós, se quisermos experimentar hoje a “grande calmaria” que se seguiu àquela tremenda tempestade. 

Referências

  • Joseph Ratzinger. Introdução ao espírito da liturgia. 5. ed. São Paulo: Paulinas, 2012, pp. 15-16.

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Jesus quis que a sua Igreja tivesse um “Magistério”?
Doutrina

Jesus quis que a sua Igreja
tivesse um “Magistério”?

Jesus quis que a sua Igreja tivesse um “Magistério”?

A primeira geração cristã ouviu dos lábios dos próprios Apóstolos a verdade de Cristo. Mas os Apóstolos morreram, e as gerações seguintes… como seguiriam captando a palavra de Cristo em toda a sua pureza?

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)2 de Julho de 2019
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I. O problema. — A Revelação divina é uma mensagem de Deus. Deus falou aos homens, e lhes falou principalmente por meio de Jesus Cristo: “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho” (Hb 1, 1). Ao homem de todos os tempos e de todos os lugares lhe interessa, antes de tudo e sobretudo, captar em toda a sua pureza e em toda a sua integridade esta mensagem divina. Mas poderemos todos os homens conhecer assim a Palavra de Deus?

A experiência nos ensina o quanto influenciam no conhecimento de uma verdade as circunstâncias de tempo e lugar, as paixões, os sistemas ou preconceitos filosóficos, e tantos outros fatores humanos que podem obscurecer ou tergiversar as verdades que parecem mais evidentes a quem não se vê influenciado por semelhantes fatores. Por outro lado, não se trata aqui de verdades de ordem puramente histórica ou científica; são verdades muito mais transcendentais: Deus falou aos homens para lhes transmitir a sua mensagem de salvação. À Revelação de Deus há-de responder a fé do homem: “Quem crer […] será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 16, 16). Mas não pode haver fé a não ser de verdades reveladas, e não de pseudo-verdades. Em outras palavras, para que eu creia, é necessário que capte a verdade de Cristo em toda a sua pureza.

A primeira geração cristã ouviu dos lábios dos próprios Apóstolos a verdade de Cristo, isto é, daqueles mesmos Apóstolos que receberam com o Espírito Santo o carisma da infalibilidade. Criam os primeiros cristãos na palavra de Cristo, que os Apóstolos lhes transmitiam fielmente. Mas os Apóstolos morreram, e as gerações seguintes, a dos séc. II, a do séc. XX e até a do XL (supondo que Deus conceda tão larga vida ao mundo), hão-de seguir captando a palavra de Cristo também em toda a sua pureza, porque Jesus Cristo é Mestre e Redentor de todas as épocas e de todos os homens. Como isto será possível?

II. Orientação histórica. — Duas soluções radicalmente opostas foram dadas a este problema. Em poucas palavras, podemos formulá-las assim:

  • Solução protestante: A verdade de Cristo se conserva em toda a sua pureza ao longo dos séculos na Sagrada Escritura, por ser ela a Palavra de Deus e, portanto, infalível. Ela nos dá “a tradição apostólica fixada por escrito” (Cullmann, La Tradition, Cahiers théologiques, 1953, p. 44).
  • Solução católica: A garantia segura da verdade de Cristo, nós a temos no Magistério autêntico da Igreja, que nos conserva fielmente e nos declara infalivelmente a doutrina que Deus revelou e que está contida na Sagrada Escritura e na Tradição divino-apostólica.

1. Solução protestante. — Ao menos em seus aspectos mais essenciais, pode-se dizer que esta solução já foi proposta no início do séc. III por aquele que, por tantos títulos, pode ser considerado o “pai” do futuro protestantismo: Tertuliano, que defendeu uma oposição irredutível entre a “Igreja do Espírito” e a “Igreja dos bispos”, chegando à conclusão de que só o Espírito Santo deve ser tido e reverenciado como Mestre (cf. De pudicitia, 21; De virginibus velandis, 1).

Na Idade Média, seguiram por este caminho todas as tendências espiritualistas de cátaros, valdenses e albigenses; o profetismo escatológico do abade Joaquim de Fiore e o ascetismo exagerado de begardos, beguinas e dos fraticelli. Todos estes preparam o terreno para os grandes “reformadores” do séc. XVI, Lutero e Calvino, que desejavam excluir todo intermediário humano entre Deus e o homem, tal como seria a hierarquia e o Magistério da Igreja.

No final do séc. XIX e no início do séc. XX, R. Sohm, fiel aos princípios de Lutero, propôs a teoria de que somente Cristo e o Espírito Santo, por meio dos “carismáticos”, devem dirigir a Igreja, se queremos ater-nos à vontade de Cristo (cf. R. Sohm, Kirchenrecht, I).

K. Barth, partindo do transcendentalismo calvinista, afirmou que a “Reforma” foi a restauração da verdadeira Igreja, porque foi certeira ao afirmar o Tu solus de Cristo. E assim como Cristo é o único Santo e o único Senhor, é também o único Mestre, o que exclui qualquer outro magistério como intermediário entre Cristo e o cristão (cf. Journet, L’Eglise du Verbe Incarné, I, pp. 1129-1171).

Seguindo por caminhos parecidos e com diversas modalidades acidentais, todos os outros protestantes, de hoje e de ontem, negam o Magistério eclesiástico, que consideram como um intermediário que tira a autoridade da Palavra de Deus ou a liberdade própria dos filhos de Deus. Assim escrevia R. Mehl: “A autoridade a que se faz alusão [entre os católicos] não é imediatamente a autoridade da Palavra de Deus […]. É necessário que elas [as igrejas] reconheçam como seu Rei a um só Cristo, seu Libertador, e que sejam governadas somente pela lei da liberdade, que é a palavra sagrada do Evangelho” (Du catholicisme romain, p. 42s).

Por fim, os racionalistas e modernistas, que não querem admitir como critério de verdade nada além do ditame da razão natural ou da consciência de cada indivíduo, e negam que Cristo tenha instituído a Igreja como sociedade, destroem as bases mais indispensáveis para se poder admitir o Magistério autêntico. 

2. Solução da Igreja Católica. — Poderíamos dizer que aquela fórmula: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15, 28), que indica a persuasão da Igreja apostólica, reunida no Concílio de Jerusalém, de possuir a assistência infalível de Deus em suas decisões, segue viva no Magistério da Igreja em todos os tempos.

Limitando-nos agora aos textos mais recentes, que mostram a consciência da Igreja de ser ela a garantia infalível da verdade revelada, podemos citar em primeiro lugar os textos do Concílio Vaticano I. Sobre esta matéria, propõe o Concílio diversos aspectos:

  1. Cristo quis que o Magistério se perpetuasse nos sucessores dos Apóstolos até o fim dos tempos: “Ora, como Ele [Cristo] enviou os Apóstolos que tinha escolhido […], da mesma forma quis que até a consumação dos séculos houvesse na Igreja pastores e doutores” (DH 3050). “Foi, portanto, este carisma da verdade e da fé indefectível concedido divinamente a Pedro e a seus sucessores nesta cátedra, a fim de que desempenhassem seu sublime encargo para a salvação de todos” (DH 3071).
  2. Este Magistério é autêntico, quer dizer, tem plena autoridade para impor que se aceitem os seus ensinamentos. Esta autoridade, o Concílio a expressa sobretudo na interpretação da Sagrada Escritura, quando afirma que “se tenha por sentido verdadeiro da Sagrada Escritura aquele que sustentou e sustenta a Santa Mãe Igreja, à qual compete decidir do verdadeiro sentido e da interpretação das Sagradas Escrituras” (DH 3007). São palavras que escandalizaram, sem razão, os protestantes, como se a Igreja Católica estivesse pondo-se acima da Sagrada Escritura, Palavra de Deus. Ao contrário: não se põe acima, mas a seu serviço, já que foi precisamente para conservar íntegra a verdade da Sagrada Escritura e precaver os fiéis contra os erros de interpretações puramente subjetivas da Palavra de Deus que Cristo concedeu à sua Igreja o carisma da infalibilidade. O mesmo sentido têm as palavras seguintes, também do Vaticano I: “Deve-se, pois, crer com fé divina e católica tudo o que está contido na Palavra de Deus escrita ou transmitida, e que pela Igreja […] nos é proposto a ser crido como revelado por Deus” (DH 3011). 
  3. É um Magistério infalível, já que, ao definir a infalibilidade do Papa, o Concílio a define precisamente por comparação com aquela “infalibilidade com a qual o Redentor quis estivesse munida a sua Igreja” (DH 3074).
  4. Finalmente, ensina o Vaticano I que este Magistério autêntico da Igreja tem como finalidade que a doutrina da fé que Deus revelou seja transmitida fielmente e guardada e declarada infalivelmente pela Esposa de Cristo (cf. DH 3070).

Pio XII, na Encíclica “Humani generis”, em 1950, por ocasião de alguns erros dos nossos tempos, recorda que não somente “este sagrado Magistério, em questões de fé moral, deve ser para todo teólogo a norma próxima e universal da verdade”, senão que, além disso, todos os fiéis têm a obrigação de “observar também as constituições e decretos em que a Santa Sé proscreveu e proibiu opiniões perversas” (DH 3884). Ou seja, como explica o próprio Papa um pouco antes, todos devem aceitar as indicações do Magistério, não só quando ele define que doutrinas são heréticas, mas também em todas as outras decisões em que proscreve erros, ainda que não sejam heresias.

Em último lugar, a propósito de alguns exageros sobre o valor de um magistério dos leigos na Igreja, afirmou rotundamente o mesmo Papa em 1954 que todo magistério dos leigos deve estar sujeito à autoridade do Magistério sagrado da hierarquia (cf. Alocução “Si diligis”, de 31 mai. 1954: AAS 46 [1954] 317).

III. O que ensina a Igreja. — Pelos documentos do Concílio Vaticano I mencionados antes, podemos dizer que é de fé divina e católica que a verdade de Cristo nos vem garantida pelo Magistério autêntico e infalível da Igreja. Em concreto, a infalibilidade do Magistério está incluída na definição da infalibilidade do Romano Pontífice (cf. DH 3073s).

IV. O que diz a Bíblia. — Um dos títulos de Cristo que com frequência aparecem no Evangelho é, sem dúvida, o título de Mestre. 41 vezes usam os evangelistas a palavra grega διδάσκαλος, e 12 a equivalente em hebraico, Rabbi: no total, 53 vezes. Jesus mesmo se atribuiu de um modo especial este título: “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” (Jo 13, 13). Ora, este título de Mestre é algo exclusivo de Jesus? Assim poderia parecer, se considerássemos um pouco superficialmente as seguintes palavras: “Nem vos façais chamar de mestres, porque só tendes um Mestre, o Cristo” (Mt 23, 13). No entanto, o contexto mostra claramente qual é o verdadeiro sentido destas palavras: aconselhar a humildade aos seus discípulos, exortando-os a não imitarem os escribas e fariseus, que queriam ser chamados com o título de mestre por pura soberba e vanglória. Além disso, a consideração do significado que têm no Evangelho frases semelhantes, como aquela: “Por que me chamas bom? Só Deus é bom” (Mc 10, 18), mostra que elas apenas significam que Cristo é o Mestre por antonomásia e que todos os outros mestres o são somente na medida em que participam do seu poder.

Com efeito, temos outros textos claros no Evangelho em que Cristo afirma a participação de seu poder magisterial aos Apóstolos. Em primeiro lugar, a comunicação do poder de ensinar está incluída naquela fórmula geral, que devemos supor valer também para todos os poderes messiânicos de Cristo que sejam por natureza comunicáveis: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós” (Jo 20, 21; cf. também 17, 18). E aquela outra fórmula, na qual Cristo expressou tão claramente que os ensinamentos dos enviados por Ele eram ensinamentos seus: “Quem vos ouve a mim ouve” (Lc 10, 16). Recordemos, ademais, aquele texto de São Mateus tantas vezes citado: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações […]. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi” (Mt 28, 18ss).

Mas estas palavras não se dirigem exclusivamente aos Apóstolos: ao acrescentar “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo”, Jesus Cristo estabelece a perpetuidade do Magistério, com uma assistência eficaz para conseguir o fim pretendido de ensinarem a verdade; ou, em outras palavras, lhes concede o carisma da infalibilidade. Tal é o significado que tem a frase: “Eis que estou convosco”, como aparece sempre no Antigo Testamento.

Fazendo-se eco deste significado bíblico da frase de Cristo, “Eis que estou convosco”, o Papa Leão XIII escreveu: “Se pudesse ser de alguma maneira falso o que, amparado por tal auxílio, ensina o Magistério, o mesmo Deus seria autor do erro do homem, coisa evidentemente absurda” (Encíclica “Satis cognitum”, de 29 jun. 1896: AAS 28 [1896] 721).

Deve-se dizer o mesmo dos diferentes textos do sermão de Jesus na Última Ceia registrados por São João (cf. Jo 14, 16s.26; 15, 26; 16, 12s), onde o divino Mestre promete aos Apóstolos a assistência perpétua do Espírito Santo em seu ofício de ensinar.

Todo o livro dos Atos e as epístolas de São Paulo são um testemunho do magistério dos Apóstolos como missão principal de sua vida, missão que eles vão transmitindo àqueles discípulos escolhidos como colaboradores no ministério da palavra, e implicitamente se atribuem a infalibilidade em seus ensinamentos. Recordemos pelos menos alguns casos. A autoridade suprema dos judeus, o sinédrio, quer impor-lhes que não preguem Jesus Cristo. Pedro e os outros replicam: “Importa obedecer antes a Deus do que aos homens. O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, que vós matastes, suspendendo-o num madeiro […]. Nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que lhe obedecem” (At 5, 29-32). Eis aí uma segurança absoluta de que estão na verdade e de que os assiste o Espírito Santo ao darem testemunho de Cristo.

Os decretos do Concílio de Jerusalém, por sua vez, os Apóstolos os emitem como parecer “nosso e do Espírito Santo” (At 15, 28).

São Paulo assegura, no epílogo de sua carta aos romanos: “Não ousaria mencionar ação alguma que Cristo não houvesse rea­lizado por meu ministério, para levar os pagãos a aceitar o Evangelho, pela palavra e pela ação” (Rm 15, 18).

Na primeira carta aos Tessalonicenses, alegra-se o Apóstolo de terem acolhido a palavra que lhes havia pregado, “não como palavra de homens, mas como aquilo que realmente é, como Palavra de Deus” (1Ts 2, 13).

Outro testemunho claro de que a verdade de Cristo está garantida pelo Magistério da Igreja encontra-se na carta de São Paulo a Timóteo, que merece ser considerada mais em particular: “Estas coisas te escrevo, mas espero ir visitar-te muito em breve. Todavia, se eu tardar, quero que saibas como deves portar-te na casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3, 14s).

Recordemos que as cartas chamadas pastorais (1 e 2Tm e Tt) foram escritas pelo Apóstolo ao final de sua vida e podem ser consideradas, portanto, como o testamento de São Paulo. Assim, ele tem diante dos olhos a Igreja, na qual os seus discípulos serão os continuadores da obra cujos fundamentos foram postos pelo Apóstolos. E desta Igreja São Paulo diz que é “coluna e sustentáculo da verdade”. É claro, pois, que isto só pode ser assim se a Igreja garante sempre, sem medo de equivocar-se, a verdade de Cristo, isto é, se pode ensinar com o carisma da infalibilidade.

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 676-681, nn. 335-347.

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