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A pureza de coração

“Limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades. Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós”.

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 11, 37-41)

Naquele tempo, enquanto Jesus falava, um fariseu convidou-o para jantar com ele. Jesus entrou e pôs-se à mesa. O fariseu ficou admirado ao ver que Jesus não tivesse lavado as mãos antes da refeição. O Senhor disse ao fariseu: “Vós fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades. Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós”.

V. 37. Enquanto Jesus falava, um fariseu convidou-o para jantar com ele. Jesus entrou e pôs-se à mesa. — a) “Enquanto falava”, isto é, enquanto, certa feita, estava a ensinar o povo com discursos e sermões. Assim o interpretam Agostinho (cf. De consen. evangel. II 39) e Beda, para os quais Lucas não guarda neste ponto a ordem cronológica, mas une no tempo coisas ocorridas em momentos diversos. Maldonado, pelo contrário, seguindo a opinião de Eutímio, julga que a cena aqui narrada aconteceu no mesmo lugar e no mesmo tempo que as anteriores, isto é, após a expulsão do demônio mudo (cf. 11, 14), do sermão em defesa de sua autoridade divina (cf. 11, 15-26) e das críticas à incredulidade de sua geração (cf. 11, 26-36). Nesse sentido, teria o evangelista escrito: “Enquanto falava”, a fim de indicar ao leitor em que ocasião Jesus foi convocado e explicitar, por antecipação (cf. v. 53s), com que ânimo O convidara para jantar um dos fariseus. — b) “Convidou-O”, portanto, não com reta intenção, mas por simulação, ou seja, a fim de observá-lO e buscar algum motivo para O acusar. — c) “Jesus entrou e pôs-se à mesa”, quer dizer, tão-logo entrou em casa, sentou-se à mesa sem ter lavado antes as mãos, segundo as cerimônias observadas pelos fariseus. É a razão do que se diz no v. seguinte.

V. 38. O fariseu ficou admirado ao ver que Jesus não tivesse lavado as mãos antes da refeição. — a) “O fariseu ficou admirado” por ver Jesus sentar-se sem lavar as mãos, conforme o costume, ficou escandalizado. Todos os judeus, com efeito, e especialmente os fariseus, costumavam fazer uma série de abluções antes e durante as refeições, como se vê nos evangelhos de Marcos (cf. 7, 4) e João (cf. 2, 6). Os fariseus, no entanto, punham a sua santidade e pureza nesta cerimônias de purificação, embora trouxessem em si mesmos um coração impuro e maculado. — b) “Jesus não tinha lavado as mãos antes da refeição”. Acrescenta Maldonado não ser improvável que Jesus assim tenha agido de indústria, para ter ocasião de ensinar, a partir de um escândalo farisaico, o quão vãos e supersticiosos eram a doutrina e o costume dos fariseus, que, negligenciado a pureza da alma, punham toda religião e santidade em lavar e purificar o corpo.

V. 39. O Senhor disse ao fariseu: Vós fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades. — a) “O Senhor”, vendo por sua ciência tanto divina quanto infusa os pensamentos do outro, “disse ao fariseu”, cuja admiração não parece ter-se manifestado exteriormente. — b) “Vós fariseus”, repreende Ele na pessoa de um só o pecado comum a todos, “limpais o copo e o prato por fora”, isto é, o que é visível e exterior, “mas o vosso interior”, onde está a vossa consciência e a vossa real figura, “está cheio de roubos e maldade”. Com a mesma imagem condena o Senhor, em Mt 23, 25, a hipocrisia dos fariseus e sinedritas. Nota Maldonado que a partícula nunc, que encabeça este v. no texto em latim, tem força adversativa, de modo que o sentido da frase seria: “Se vós limpásseis o que é de dentro como limpais o que é de fora, não haveria de repreender-se o vosso costume; mas (lt. nunc) como limpais diligentemente o que é de fora, o que porém é de dentro está cheio de rapina e dolo, sois insensatos e hipócritas” (cf. v. 40).

V. 40. Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? — Assim os improba Cristo, comenta o Venerável Beda, “como se dissesse: o que fez as duas naturezas do homem”, isto é, o corpo e a alma, “deseja que as duas estejam puras. Isto é contra os maniqueus, que afirmavam ser a alma criada por Deus, o corpo porém pelo diabo. Isto também é contra os que abominam como mais graves os pecados corporais, como a fornicação, o furto e outros, mas desprezam como de pouca monta os espirituais, igualmente condenados pelo Apóstolo” (apud S. Tomás de Aquino, Catena in Lucam, c. 11, l. 11).

V. 41. Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós. — a) “Do que possuís”. Quanto a esta expressão (l. quod superest), os intérpretes latinos se dividem em três sentenças principais: 1) alguns, como Liriano, pensam que se refere à restituição dos roubos mencionados por Cristo no v. precedente; 2) outros, como Beda, pensam que se refere aos bens em geral dos fariseus; 3) outros, enfim, como Boaventura, pensam que a construção em latim significa, na verdade: “O que vos resta”, de maneira que o sentido do v. seria: “O único remédio que vos resta é dar esmolas”. No texto grego, observa Maldonado, a expressão τὰ ἐνόντα parece estar por κατὰ τὰ ἐνόντα (lt. pro facultatibus vestris = “cada um segundo suas possibilidades”), de maneira que o sentido genuíno da passagem seria: “Antes, dê esmolas cada um de vós quanto lhe for possível”. Para uma exposição mais detalhada destas e de outras interpretações, leia-se o comentário de Cornélio a Lapide a este trecho de Lucas. — b)  “Tudo ficará puro para vós”. Repreendeu Cristo aos fariseus por limparem o corpo, mas negligenciaram a alma; por isso, ensina que, se derem esmola, tudo (isto é, o corpo e alma, o que é exterior e o interior), ficará puro. Poder-se-ia perguntar, contudo, como é possível que a esmola purifique a alma, o que não pode dar-se senão pela remissão dos pecados. Dizem Beda e Boaventura, comentando este ponto, que a esmola perdoa pecados no sentido de dispor ao perdão deles. É o que ensina a Escritura, ao falar da esmola: Resgata teu pecado pela justiça (Dn 4, 24); Tua caridade para com teu pai não será esquecida (Eclo 3, 15); A esmola livra do pecado e da morte (Tb 4, 11); A esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna (Tb 12, 9) [1].

Nota sobre a purificação do homem.Tudo para vós será puro. “A impureza de cada coisa consiste em estar misturado com coisas mais vis”, isto é, de natureza inferior. “Com efeito, não se diz que a prata é impura por estar misturada com ouro, pelo qual se torna mais nobre, mas por estar misturada com chumbo ou estanho”, por exemplo. “Pois bem, é evidente que a criatura racional é mais digna do que todas as coisas temporais e criaturas corporais. E, por isso, torna-se impura ao sujeitar-se a coisas temporais por amor” a elas. “Ora, desta impureza ela é purificada pelo movimento contrário, a saber: enquanto tende àquilo que está acima de si, ou seja, a Deus. Neste movimento, o primeiro princípio é a fé, como se diz em Hb 11, 6: Para se achegar a Ele é necessário que se creia primeiro. E, por isso, o princípio da purificação do coração é a fé, a qual, se for aperfeiçoada pela caridade formada, causa uma perfeita purificação” (S. Tomás de Aquino, STh II-II 7, 2c.) [2].

Referências

  1. J. de Maldonado, Commentarii in Quattuor Evangelistas. 3.ª ed., Monguntiar, sumptibus F. Kirchhemii, 1863, vol. 2, p. 231B.
  2. Mas não se perca de vista que é diferente a purificação causada pela fé em função dos diferentes estados em que se pode encontrar a mesma fé. Assim, a) a fé meramente informe, isto é, separada da caridade, purifica a mente ou o intelecto dos erros, já que preserva sua razão formal, pela qual adere à Verdade primeira, mas não dos afetos impuros do pecado; b) a fé formada, por sua vez, causa, em virtude da caridade sobrenatural, a perfeita purificação do coração, como ensinam a Escritura: A caridade, porém, supre todas as faltas (Pr 10, 12) e o Magistério da Igreja: “Pois a fé, se a ela não se acrescentam a esperança e a caridade, não une perfeitamente a Cristo nem produz um membro vivo do seu Corpo” (Concílio de Trento,  Sessão 6.ª, de 13 jan. 1547, “Decreto sobre a justificação”, cap. 7: DH 1531).
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