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Às vésperas da celebração de 500 anos da natividade de São Felipe Neri (Filippo Neri, em italiano), nada como recordar a vida e as virtudes desse grande sacerdote florentino. A sua história, contada pela minissérie italiana Preferisco il Paradiso (Giacomo Campiotti, 2010), possui páginas preciosíssimas. O filme em questão, embora retrate com relativa fidelidade a personalidade simpática e bem-humorada do santo, omite caracteres imprescindíveis para compreender a sua santidade. Infelizmente, trata-se de um grande problema das biografias de santos saídas da pena de escritores contemporâneos: já que a modernidade não aceita realidades sobrenaturais – tais como milagres e fenômenos místicos –, elas são praticamente ignoradas na narração da vida dos santos, quando constituem, de fato, o núcleo fundamental para compreender integralmente a sua obra e espiritualidade. Assim, se é verdade que Felipe Neri era um sacerdote que trabalhava nas periferias de Roma, cuidando dos meninos de rua, essa não é, nem de longe, a parte mais importante de sua biografia.

Nascido em 21 de julho de 1515, em San Pier Gattolino, próximo à cidade de Florença (Firenze, em italiano), Pippo il Buono, como era chamado, cresceu durante um período em que a Igreja fora atingida por uma forte mentalidade pagã. A corrupção do poder político não poupara nem o trono de São Pedro, desolado pela eleição de um sucessor impiedoso e indigno da herança apostólica: o Papa Alexandre VI († 1503). Como reação a esses abusos, surgiu na região um frade dominicano de nome Girolamo Savonarola († 1498), cuja pregação inflamada contra o Papa e a poderosa família Médici rendeu-lhe uma excomunhão e a condenação à morte na forca. Apesar do fim trágico, Savonarola conquistou muitos adeptos na região de Florença, entre os quais estava a família de Felipe Neri. O "santo da alegria" sempre admirou o religioso dominicano, chegando a tê-lo como um santo, ainda que sua personalidade fosse muito distinta da dele. (De fato, enquanto Savonarola, para reformar a Igreja, trilhou o caminho da denúncia e da contestação na pregação, Felipe se serviu da via da doçura e da direção espiritual através do sacramento da Penitência.)

Tendo ido à região de Monte Cassino, ao sul de Roma, para administrar os negócios de um parente, Felipe é influenciado pelos monges beneditinos e passa por sua "conversão" de jovem rico (cf. Mt 19, 16-30), pela qual decide largar tudo e entregar-se a Deus. Ainda como leigo, ele viaja à Cidade Eterna, começando a viver como eremita, com orações, penitências e constantes peregrinações. Foi ele quem deu início ao hábito conhecido como Giro delle Sette Chiese – a "Peregrinação das Sete Igrejas" –, entre as quais a sua preferida era a Basílica de São Sebastião das Catacumbas. Acolhido no seio de uma família romana, ele ajudou-a a criar os seus dois filhos homens, que depois se tornaram sacerdotes.

Leigo de intensa contemplação e vida ascética, Felipe comparava a sua vida à dos santos padres do deserto, pois, assim como São Bento escreve em sua Regra [1], tinha tomado "como que de assalto" (arripiunt) a vida espiritual, fazendo violência para alcançar o Reino dos céus

Em 1544, com quase 30 anos, Felipe tem uma experiência extraordinária na vigília de Pentecostes. Enquanto reza nas catacumbas de São Sebastião, ele recebe uma grande efusão do Espírito Santo: vê entrar dentro de sua boca uma bola de fogo, a qual faz arder o seu coração e aumentá-lo consideravelmente de tamanho. De fato, uma autópsia de seu corpo revelou que o seu músculo cardíaco era maior do que o comum, tendo chegado a deslocar duas costelas para acomodar-se. Quem convivia com o santo florentino atestava uma protuberância no lugar do seu órgão vital e testemunhava que, quando ele, sentado, começava a ensinar aos filhos do seu Oratório, tal era o seu entusiasmo, que o seu coração tremia a ponto de o banco em que estava trepidar e a sala em que se reuniam tremer.

Mesmo sendo celibatário, o humilde Felipe não aspirava ao sacerdócio, pois o considerava um ministério muito grande para si. Todavia, obediente a seu confessor, o padre Persiano Rosa, Felipe recebeu em 1551 o sacramento da Ordem, transferindo-se, desde então, à igreja romana de San Girolamo della Carità ("São Jerônimo da Caridade"), onde deu início aos primeiros Oratórios.

Diferentemente do que é posto no filme Preferisco il Paradiso, os Oratórios não começaram com crianças, mas eram feitos em sua maioria com adultos. As reuniões de espiritualidade conduzidas pelo santo não eram "anti-intelectualistas" ou avessas ao estudo, como pinta a produção italiana, mas continham reflexões sérias e profundas, extraídas da própria sabedoria que ele adquiriu ao longo de sua vida, bem como de seus estudos universitários e do conhecimento que tinha da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, a qual ele folheava com certa frequência. A trilha sonora do filme também não corresponde exatamente às músicas tocadas nas reuniões do Oratório, as quais estão mais ligadas à beleza de uma Missa Papae Marceli, a famosa composição de Giovanni Pierluigi de Palestrina.

A fervorosa vida sacerdotal de Felipe deu-lhe o epíteto de "apóstolo de Roma". Tendo o hábito de celebrar a Santa Missa por volta do meio-dia, o santo ficava em jejum desde a meia-noite do dia anterior, para que pudesse comungar [3]. Sempre disponível para atender as confissões de seus filhos, pouco a pouco Felipe foi transformando a devassa e paganizada cidade de Roma e contribuindo para a restauração da Igreja. Tendo entrado em contato com Santo Inácio de Loyola, Felipe chegou a sondar a possibilidade de entrar para a Companhia de Jesus e evangelizar a região das Índias. Um monge cisterciense, porém, recebeu uma revelação de Deus, na qual Ele dizia que a sua Índia era mesmo a Cidade Eterna.

Ali, o seu trabalho de evangelização começou a engendrar vocações.

Uma delas foi a do piedoso César Barônio († 1607), sobre o qual escreve Daniel-Rops:

"Também cardeal, era oratoriano, filho espiritual de São Filipe Neri, que lhe propôs que refutasse as ideias protestantes no campo histórico. Os seus Anais Eclesiásticos, em que tratou do desenrolar do passado cristão, empenhando-se em fixar com exatidão a data de todos os fatos essenciais, estabelecendo os acontecimentos com base em documentos incontestáveis, constituíram uma obra monumental que demorou cerca de trina anos a ser escrita e à qual a História deve gratidão. Profundamente honesto, este antepassado da crítica histórica pensava que se presta 'mais serviço à Igreja sepultando no silêncio fatos supostamente gloriosos para ela, mas não comprovados, do que sustentando fatos inexatos ou falsos'; as suas pesquisas nos arquivos pontifícios mostram-se muito adiantadas em relação aos métodos da época. Barônio pode ter-se enganado em muitos pontos, mas a sua honestidade tem valor de exemplo, e a sua obra fornece também aos católicos um completo e pacífico arsenal de argumentos e de refutações." [4]

Além dos três usuais votos religiosos, o padre Barônio tinha professado um quarto: o de humildade. Laureado in utroque iure – isto é, em direito civil e canônico – ainda como leigo, em um ato de grande desprezo, ele tomou o seu diploma, cortou-o em vários pedaços e passou a usá-los como marcadores de páginas. Para mortificar a sua vaidade, Felipe impunha-lhe inúmeras humilhações, as quais, no dizer do beato Paulo VI, teriam sido suficientes para fazê-lo santo. Quando os Annales de Barônio começaram a fazer sucesso, por exemplo, Felipe dava-lhe uma penitência por cada exemplar seu que era vendido.

Após a morte de seu pai espiritual, ofereceram a Barônio a honra do cardinalato. Sabendo que, por humildade, aquele filho de Felipe certamente recusaria a púrpura, o Papa Clemente VIII obrigou-o a aceitar o chapéu cardinalício, sob pena de excomunhão. Fê-lo porque conhecia o espírito de desapego do fundador dos oratorianos, o qual, tendo encontrado por duas vezes a ocasião de tornar-se cardeal, recusou terminantemente esse ofício. "Preferisco il paradiso – Eu prefiro o paraíso", teria respondido Felipe ao Sumo Pontífice, indicando que é preciso antepor o Céu a todas e quaisquer honras humanas.

Frequentemente assaltado por arroubos místicos, Felipe Neri sempre chamava alguém para rezar consigo a Liturgia das Horas, para que não entrasse em êxtase. De profunda espiritualidade eucarística, celebrava a sua Missa com notável piedade. Era também um homem de grande pureza de coração. Vários de seus confidentes dão testemunho de sua virgindade, fruto de uma luta ferrenha contra todas as ocasiões de pecado, pois, dizia ele, em matéria de pureza, só vence quem é "velhaco", ou seja, quem foge [5]. Ele próprio transmitia essa força na luta contra a impureza a seus filhos: tão logo eles repousavam a cabeça em seu peito e entravam em contato com o seu amoroso coração, passavam meses sem tentações sexuais.

Durante o pontificado de São Pio V, por sua fama de santidade, Felipe teve que lidar com desafetos dentro da própria Igreja. Um famoso cardeal da ilha de Ísquia, Virgilio Rosario, investigava o sacerdote florentino e lançava-lhe toda sorte de calúnias. Felipe, por sua vez, via na perseguição um instrumento da providência divina para crescer em humildade e santidade.

De fato, Deus operava inúmeros prodígios pelas mãos de Seu servo. De todos os milagres que fez, o maior de todos foi a ressurreição do jovem Paolo Massimo. O rapaz, filho de uma importante família italiana, padecia há muito de uma grave enfermidade. No dia 16 de março de 1583, o padre Felipe – que tinha manifestado o desejo de assisti-lo à hora de sua morte – acabou chegando tarde. Como quem levanta de uma noite de sono, no entanto, tão logo Felipe chamou o seu nome, Paolo despertou e, depois de receber os últimos Sacramentos, voltou a morrer.

A 26 de maio, a santa alma de Felipe Neri também encontrou o seu descanso, na solenidade de Corpus Domini de 1595. A sua canonização não demorou muito para acontecer: em 1622, juntamente com Santa Teresa de Ávila e Santo Inácio de Loyola, o sacerdote italiano foi elevado à honra dos altares.

Sua obra, humanamente falando, não foi esplendorosa como a da Companhia de Jesus, mas o bem espiritual que fez foi tão grande, que seu minúsculo Oratório pode muito bem ser chamado de "fábrica de santos".

A grande mensagem da vida de São Felipe Neri é, sem dúvida, a sua pregação pela santidade e por um amor sem medidas a Deus [6]. Dizia ele que "não é soberba o querer passar em santidade os Santos: porque o desejar ser santo é um desejo de querer amar e honrar a Deus sobre todas as coisas, e esse desejo, se fosse possível, dever-se-ia estender até o infinito, porque Deus é digno de uma honra infinita" [7]. A exemplo de São Felipe, portanto, tomemos de assalto a vida espiritual e amemos desmesuradamente a Deus, de todo o coração, com toda a nossa alma e com todas as nossas forças (cf. Dt 6, 5). Que, do Céu, ele nos ajude a alcançar "a estatura do Cristo em sua plenitude" (Ef 4, 13).

Referências

  1. Regra de São Bento, 5 (PL 66, 349).
  2. Cf. Davide Zeggio, Massime e ricordi di San Filippo Neri.
  3. Cf., v.g., Suma Teológica, III, q. 80, a. 8, ad 5: “Se depois da meia-noite alguém tomar alguma coisa a modo de comida ou bebida, já não pode comungar da Eucaristia neste mesmo dia”.
  4. DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja da Renascença e da Reforma (II). São Paulo: Quadrante, 1999, p. 374.
  5. “Fujo, para não ser vencido”, dizia São Jerônimo de si mesmo (cf. Contra Vigilantium, 16: PL 23, 367).
  6. Cf. Suma Teológica, II-II, q. 24, a. 7; q. 27, a. 6.
  7. Davide Zeggio, Massime e ricordi di San Filippo Neri.

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