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186. As conversões de Santo Agostinho

Nesta aula, Pe. Paulo Ricardo nos propõe uma reflexão sobre o itinerário de conversão deste grande mestre da fé católica, Santo Agostinho de Hipona, mostrando como quem não estiver disposto a pagar o preço da verdade jamais encontrará o Cristo, "caminho, verdade e vida".

Texto do episódio

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A vida de Santo Agostinho é um caso especial de conversão ao cristianismo, que surpreende tanto pela sua determinação como pelas dificuldades que ele teve de enfrentar. Santos como Francisco de Assis e Inácio de Loyola aceitaram a fé católica após se darem conta da desolação que os pecados da carne lhes causavam. É o que acontece também com a maior parte dos cristãos. Na história de Santo Agostinho, porém, o encontro com Cristo não aconteceu depois de uma frustração moral, mas após uma busca sincera e perseverante pela verdade, que durou mais de 14 anos.

Agostinho nasceu em Tagaste, norte da África, em 354, apresentando, desde muito cedo, um grande talento intelectual. O jovem realizou seus estudos em outras cidades e, aos 19 anos, acabou se dispersando pelas paixões da adolescência, unindo-se a uma concubina, com quem teria um filho e passaria 14 anos ao seu lado. Isso serviu para controlar o seu ímpeto sexual fogoso. Agostinho foi extremamente fiel a sua amante.

Na escola, o santo havia aprendido o trivium, ou seja, a arte da lógica, da gramática e da retórica, disciplinas que o persuadiram a ser um grande orador. Através dessa realidade, tornou-se um sofista, alguém que usa os discursos para convencer os outros de suas opiniões, ainda que estas estejam erradas. Em Cartago, ele aperfeiçoou seus estudos e teve contato pela primeira vez com o livro Hortensius, de Cícero, um escrito que posteriormente se perdeu. A crítica do texto contra as coisas efêmeras causou-lhe uma profunda comoção, incentivando-o a buscar a verdade, como narra nas Confissões: “Aquele livro mudou verdadeiramente o meu modo de sentir”, a ponto que “de repente perdeu valor qualquer esperança vã e desejava com um incrível fervor do coração a imortalidade da sabedoria" (III, 4, 7).

A princípio, Agostinho tentou buscar a verdade na Igreja Católica. Mas o texto bíblico lhe pareceu rude demais e, somado ao seu preconceito contra o cristianismo, ele não encontrou quem o orientasse teologicamente nesse estudo. O jovem acabou buscando apoio entre os maniqueus, cuja falsa ciência adaptava Jesus ao pensamento materialista e dualista.

A filosofia dos maniqueus acabou se revelando insuficiente e, tendo se frustrado com o líder maniqueísta Fausto, Agostinho decidiu ir para Roma, escondido de sua mãe Mônica, para fundar uma escola de retórica. Na cidade, deparou-se com a desonestidade dos alunos, que não o pagavam pelas aulas. Com a ajuda do prefeito, mudou-se para Milão, onde estudou os acadêmicos e caiu no ceticismo. Nesse percurso intelectual por respostas sobre a verdade, Agostinho descobriu a filosofia neoplatônica, que lhe revelou a existência de um princípio espiritual, pelo qual descobriu a necessidade de uma vida interior e de uma luz natural da razão para encontrar Deus, como narra nestas belíssimas páginas de suas Confissões (VII, 10, 18):

Instigado a voltar a mim mesmo, entrei em meu íntimo, sob tua guia e o consegui, porque tu te fizeste meu auxílio (cf. Sl 29, 11). Entrei e com certo olhar da alma, acima do olhar comum da alma, acima de minha mente, vi a luz imutável. Não era como a luz terrena e evidente para todo ser humano. Diria muito pouco se afirmasse que era apenas uma luz muito, muito mais brilhante do que a comum, ou tão intensa que penetrava todas as coisas. Não era assim, mas outra coisa, inteiramente diferente de tudo isto. Também não estava acima de minha mente como óleo sobre a água nem como o céu sobre a terra, mas mais alta, porque ela me fez, e eu, mais baixo, porque feito por ela. Quem conhece a verdade, conhece esta luz.

Ó eterna verdade e verdadeira caridade e cara eternidade! Tu és o meu Deus, por ti suspiro dia e noite. Desde que te conheci, tu me elevaste para ver que quem eu via, era, e eu, que via, ainda não era. E reverberaste sobre a mesquinhez de minha pessoa, irradiando sobre mim com toda a força. E eu tremia de amor e de horror. Vi-me longe de ti, no país da dessemelhança, como que ouvindo tua voz lá do alto: “Eu sou o alimento dos grandes. Cresce e me comerás. Não me mudarás em ti como o alimento de teu corpo, mas tu te mudarás em mim”.

O testemunho de Santo Agostinho é a perfeita refutação das teses de Lutero, o qual se professava agostiniano. O bispo de Hipona foi guiado por Deus, pela luz natural da razão, mesmo antes da sua conversão, quando ainda era neoplatônico. E, diante da grandeza de Deus, “tremia de amor e de horror” por ver-se tão pequeno.

De fato, nós somos apenas uma bactéria que vive em uma poeira chamada Terra. Somos apenas mais um ponto no meio de uma galáxia de mais de cem bilhões de estrelas. Se existimos, portanto, é porque Deus nos sustenta no ser. Foi essa experiência filosófica de amor e horror que comoveu profundamente Agostinho, ajudando-o a superar o ceticismo e o materialismo maniqueu.

Mas ainda faltava um obstáculo.

Agostinho deparou-se com a grandeza de Deus e percebeu que para alcançá-lo precisaria de um mediador:

E eu procurava o meio de obter forças, para tornar-me idôneo a te degustar e não o encontrava até que abracei o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus (1Tm 2, 5), que é Deus acima de tudo, bendito pelos séculos (Rm 9, 5). Ele me chamava e dizia: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6). E o alimento que eu não era capaz de tomar se uniu à minha carne, pois o Verbo se fez carne (Jo 1, 14), para dar à nossa infância o leite de tua sabedoria, pela qual tudo criaste.

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu, fora. E aí te procurava e lançava-me nada belo ante a beleza que tu criaste. Estavas comigo e eu não contigo. Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam, se não existissem em ti. Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti. Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz.

A descoberta da verdade provocou em Agostinho uma grande mudança. Ele abandonou sua concubina e decidiu-se pelo celibato, embora não encontrasse ainda forças para vivê-lo, por causa dos constantes apelos da carne. Foi então que uma conversa com o amigo Possídio, o qual lhe contou sobre a vida de Santo Antão, levou-o a chorar seus pecados em um jardim, onde lhe apareceu uma criança com a Sagrada Escritura, que disse: “Toma e lê”. Agostinho abriu no capítulo 13 da Carta aos Romanos (v. 13-14), que fala sobre a castidade, e viveu sua terceira conversão. Depois desse episódio, o santo foi para Óstia, onde assistiu à morte de sua mãe e, finalmente, foi ordenado presbítero.

O itinerário de Santo Agostinho deve nos provocar um sério exame de consciência. Ele, que sentia uma profunda vertigem diante de Deus, nos inspira a mudar o modo como tratamos o Senhor, lembrando-nos de que Ele não é uma pessoa qualquer. A busca da verdade precisa ser o objetivo de todo cristão, pois não é possível compactuar com um cristianismo marqueteiro, que falsifica o Evangelho para adaptá-lo ao gosto do mundo moderno. Agostinho passou 14 anos à procura da verdade até finalmente encontrá-la e deixar-se moldar por ela. Que tenhamos também essa mesma disposição em nossos corações.

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