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Costuma-se associar Lutero ao tratado da graça, como se este dom divino, pelo qual os homens são elevados a uma categoria acima das demais criaturas, houvesse sido descoberto apenas pelo pai da Reforma Protestante. A verdade é que, neste diálogo ecumênico, é preciso distinguir bem a profunda diferença que existe entre o conceito de graça para a teologia católica e para a teologia protestante. Mais do que polemizar, portanto, o propósito desta aula é explicar essa diferença e, assim, apresentar bases sólidas para um autêntico ecumenismo e diálogo religioso.

Para compreender a teologia de Lutero, precisamos, antes, conhecer a sua biografia e os motivos pelos quais ele foi levado a tomar certas posições, seja com relação à Igreja, seja com relação a questões políticas da época.

As principais biografias de Lutero descrevem-no como um homem bastante atormentado pela própria consciência, sobretudo pela constatação dolorosa de que, não conseguindo domar suas inclinações ao pecado, jamais conseguiria ser santo. Formado na escola agostiniana, Lutero buscava sinceramente viver a castidade, a pobreza e a obediência, votos que fez, aliás, ao assumir o hábito religioso. Mas, para seu desespero, o apelo ao pecado lhe parecia tão forte que praticamente não via outra alternativa senão desistir de carregar a cruz, porque quanto mais praticava “boas obras”, notava ele, mais sentia-se perturbado por sua miséria.

O conceito de graça para Lutero nasce, então, dessa sua consciência a respeito da debilidade do homem que, por um lado, deseja ser santo, mas, por outro, não consegue vencer os apelos da carne, do mundo e do diabo. Neste sentido, a graça de Lutero é uma graça puramente jurídica, isto é, uma realidade extrínseca ao homem, pela qual Deus perdoa os seus pecados sem, no entanto, operar uma modificação na sua alma. Isso quer dizer que, mesmo depois do perdão de Deus, o pecador permanece o mesmo, nada se modifica em sua alma, de modo que não há perspectiva alguma de que poderá, algum dia, chegar à santidade de vida. A remissão dos pecados não passa de mera benevolência de Deus.

É realmente curioso — e mesmo surpreendente — que essa posição de Lutero tenha sido, séculos antes, rebatida por ninguém menos que Santo Tomás de Aquino. Na Suma Teológica, o doutor comum elenca entre os erros sobre o tratado da graça precisamente a posição que Lutero assumiria mais tarde, a saber, a ideia segundo a qual a graça “nenhum efeito produz em quem a recebeu”, sendo “apenas a aceitação divina” (I-II, q. 110, a. 1). Nesta concepção, bastaria ao homem um sentimento de confiança na misericórdia de Deus, e não um esforço resoluto pela santidade. Em suma, a teologia luterana afirma que a corrupção da natureza humana é irremediável e que, para o homem entrar no Céu, é suficiente apenas uma predestinação divina. As obras são dispensáveis.

É preciso saber de antemão que a real biografia de Lutero é praticamente excluída dos diálogos ecumênicos, dadas as enormidades que o fundador do protestantismo defendeu e praticou. Nem mesmo os luteranos editam as obras completas do monge dissidente. O conceito de liberdade para Lutero, por exemplo, é rejeitado tanto pelos católicos como pelos protestantes, uma vez que ele não admite a existência do livre arbítrio, colocando tudo sobre a vontade soberana de Deus, como se os homens fossem marionetes do Espírito Santo. Na verdade, Lutero não era um teólogo no sentido estrito da palavra; era mais um ideólogo que se valia de qualquer pedaço de pau, como dizia Chesterton, para bater na Igreja Católica e em seus adversários.

A Igreja Católica, por sua vez, sempre compreendeu a graça como uma realidade que modifica a alma humana. A própria Sagrada Escritura dá respaldo a essa posição quando diz na carta de São Paulo aos Romanos, por exemplo, que “aos que chamou”, Deus “também os tornou justos; e aos que tornou justos, também os glorificou” (8, 30). No Evangelho de São João, Jesus fala da graça como uma fonte de água que jorra dentro de nós (4, 14). Em Ezequiel, Deus faz a promessa de “um coração novo” para a humanidade, a fim de que obedeça às suas leis e observe os seus preceitos (36, 26-27). E como não citar a segunda carta de São Pedro, na qual o primeiro Papa fala abertamente de nossa “participação da natureza divina”, pelo que somos subtraídos “à corrupção que a concupiscência gerou no mundo” (1, 4)?

O testemunho dos primeiros cristãos é outro argumento contundente contra a teologia de Lutero. Nenhum daqueles mártires teria entregue a própria vida por amor a Deus se o próprio Senhor não os tivesse transformado pela graça.

Para os católicos, portanto, a graça é mais que uma benevolência divina; é, antes, uma ação concreta do amor de Deus para que o homem, redimido de seus pecados, possa viver em santidade. Conforme explica Santo Tomás, a graça se refere, em primeiro lugar, ao encantamento ou amor de Deus pela “beleza” que há no homem, a qual lhe foi infundida pelo próprio Senhor, como um dom gratuito. Trata-se de uma graça diferente da que Vinícius de Moraes encontra na garota de Ipanema, porque esta graça não lhe foi causada pelo poeta, ao passo que a graça que Deus encontra em nós não tem outra origem senão Ele mesmo. “Assim, pois, quando se diz que o homem tem a graça de Deus, significa isso um dom sobrenatural, procedente de Deus para o homem”, ou seja, “o que há no homem de agradável a Deus, já é causado pelo amor divino” (S. Th. I-II, q. 110, a. 1).

A pessoa que, desgraçadamente, cai em pecado mortal perde essa graça e, para recuperá-la, deve dispor-se ao sacramento da Penitência, como condição para tornar-se novamente agradável aos olhos de Deus. Na Confissão, Deus restaura a graça habitual à alma da pessoa que confessa, a fim de que ela consiga responder mais prontamente às inspirações sobrenaturais. Sobre essa graça, Santo Tomás de Aquino explica que “Deus infunde, nos seres que move à consecução de um bem sobrenatural eterno, certas formas ou qualidades sobrenaturais, pelas quais os move, suave e prontamente, à consecução do bem eterno” (S. Th. I-II, q. 110, a. 2). A graça habitual atua como uma espécie de receptor pelo qual a pessoa acolhe as transmissões (graças atuais) de Deus.

A graça de Deus infunde no homem uma disponibilidade para as boas obras, porque desenvolve em nós um “organismo espiritual” que se volta naturalmente ao bem. Esse organismo se desenvolve à medida que, de fé em fé, a pessoa se decide pelo caminho do bem e se habitua à oração e às obras de caridade, que se tornam cada vez mais constantes.

As pessoas recém convertidas podem, por impressões errôneas, desanimar da caminhada com Cristo, por notarem nelas resquícios e inclinações fortes ao pecado. Os principiantes precisam, então, redobrar a confiança em Deus, dado que o organismo espiritual deles ainda não está plenamente desenvolvido e, por isso, são mais suscetíveis às quedas. Lutero, porque não estudou devidamente Santo Tomás, mas, bebendo em fontes ockamistas, acreditou no erro de que a natureza humana é incurável, não só desistiu da santidade como passou a desacreditá-la como coisa impossível de ser alcançada e mera invenção papista. Com isso, o protestantismo condenou várias gerações à triste sorte da impiedade.

Ademais, o luteranismo foi muito oportuno para os imperadores germânicos que, fascinados pela ideia de poder absoluto, respaldaram os pensamentos de Lutero para se verem livres da influência da Igreja e do Papa. E abolir os sacramentos foi o meio que encontraram para se livrarem da dependência do clero, uma vez que somente pelas mãos sacerdotais se pode ter acesso à Confissão e à Eucaristia. Aproveitando-se da crise que a Igreja mesmo vivia, devido às condições críticas da época, Lutero acusou os padres de serem tiranos e pecadores.

Como visto na aula anterior, Jesus fundou a Igreja com uma hierarquia bem distinta, cuja função é ensinar, governar e santificar. Lutero rompeu com essa hierarquia, sem qualquer autoridade para isso, e proclamou o dogma da sola gratia.

O diálogo ecumênico depende, sim, da sinceridade recíproca e do conhecimento exato dos fatos históricos, sobretudo desses que foram apresentados acima. Há muita propaganda equivocada por aí, como se o protestantismo houvesse ditado a “vitória da graça”, quando, na verdade, o que ele fez foi decretar a impiedade como condição humana irrevogável. Todo otimismo com relação aos 500 anos do protestantismo deve, por isso, ser pensado com muita cautela. O católico que quer fazer ecumenismo sem conhecer a real distinção entre uma doutrina e outra acaba prestando um desfavor à teologia, porque assume os princípios protestantes como parâmetro de julgamento. E isso é inadmissível. A riqueza da doutrina católica sobre a graça está para muito além da suposta redescoberta de Lutero — seja o da propaganda, seja o dos fatos reais.

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