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Texto do episódio

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A partir do Evangelho do 5.º Domingo do Tempo Comum (Mt 5, 13-16), em que Jesus exorta os discípulos a serem “sal da terra” e “luz do mundo”, vamos buscar compreender, nesta aula, a situação atual da Igreja. Isso se faz necessário porque o demônio sabe qual a natureza e a missão do Corpo Místico de Cristo, e assim se aproveita da ignorância de muitos fiéis para ludibriá-los e levá-los ao erro.

Antes de tudo, analisemos o texto bíblico em questão. Tanto no Evangelho de Mateus (Mt 5, 13) como no de Lucas (Lc 14, 34-35), Jesus utiliza o termo grego mōranthē (μωρανθῇ,) para referir-se àqueles que perderam o sentido da fé cristã. Embora seja uma palavra praticamente intraduzível para o português, ela é normalmente entendida como “insosso” ou “sem sabor”. Literalmente, refere-se a “enlouquecer” ou “perder a inteligência”. Por isso os cristãos que não agem como “sal da terra” tornam-se um sal enlouquecido ou desprovido de inteligência. 

São Lucas aprofunda-se ainda mais e diz que, se o sal enlouquecer, “já não serve nem para a terra nem para o esterco, mas só para ser jogado fora” (Lc 14, 35). Aqui, Jesus está deixando claro que o cristão insosso não serve nem mesmo para ser jogado num monte de estrume; ou seja, torna-se pior que os pagãos, uma vez que corruptio optimi pessima est, “a corrupção do ótimo é péssima”. O homem, por exemplo, quando dá para se comportar como os animais, não se torna semelhante a eles; converte-se, na verdade, em algo muitíssimo pior: pois os animais, ao agirem como animais, só estão seguindo a própria natureza; o ser humano, porém, precisa descer, trair a sua vocação sobrenatural e afundar-se na lama dos vícios. Corruptio optimi pessima. A dos que deveriam ser melhores é a pior das corrupções.

Segundo Santo Tomás de Aquino, no seu Comentário ao Evangelho de São Mateus (V, 13), o sal significa a sabedoria que devem ter os varões apostólicos, isto é, aqueles que evangelizam e saem em missão para ensinar e fazer discípulos, conforme o mandato de Cristo: “Ide pelo mundo inteiro e fazei discípulos” (Mt 28, 19). Nesse sentido, a Igreja exerce um poder educacional, a fim de anunciar a verdade do Evangelho e, a partir dela, converter todos os povos para Cristo.

É isso que fez, por exemplo, São Paulo, um dos maiores missionários da Igreja. Ao chegar em Filipos, na Macedônia, uma das primeiras comunidades que evangelizou, Paulo não pensou em “respeitar” o paganismo dos filipenses, nem ficou enaltecendo as suas práticas de sacrifício aos deuses, mas, ao contrário, pregou-lhes a verdade, a fim de que, conhecendo-a, fossem libertados por ela e assim se convertessem a Cristo.

Contudo, para os “filósofos da moda”, o que a Igreja ensina é apenas fruto de manipulações linguísticas e esquemas de poder, como se estes mesmos filósofos não estivessem em busca de poder. Ao longo de sua história, a Igreja já foi inúmeras vezes objeto de caluniadores, que ignoram as fontes primárias, a fim de fazerem propaganda ideológica por meio da interpretação anacrônica, ou até da distorção deliberada, de acontecimentos históricos longínquos. Com essa atitude, esse homens demonizam, por exemplo, as Cruzadas e a Inquisição, que até hoje são consideradas pelo senso comum como o “calcanhar de Aquiles” da Igreja. Porém, o que a maioria das pessoas sabe sobre esses temas não passa de caricaturas da realidade que visam tão somente desqualificar a Igreja e destituir sua autoridade de ensinar.

O que ocorre, de fato, é que a Igreja Católica, através da pregação da verdade sobrenatural e do estudo das verdades filosóficas e naturais, é a única instituição de alcance internacional que, no seu corpo doutrinário, acredita na existência da verdade [1]. Todas as outras professam abertamente o relativismo.

Nós, católicos, porém, estamos aceitando a falácia ideológica do mundo moderno, segundo a qual teríamos de “respeitar” a religião dos outros sem impor nossa fé aos demais. Ludibriados por esse indiferentismo religioso, ficamos estagnados e não nos empenhamos em evangelizar. Uma vez que os católicos não cumprimos nossa missão de ensinar e fazer discípulos, o mundo moderno é quem o faz, mas, obviamente, às avessas, implantando a ditadura do relativismo e regulando a conduta das pessoas através da mentalidade do politicamente correto. É dessa maneira que o demônio busca constantemente tirar o sal da terra e esconder a luz do mundo, limitando e impedindo a ação missionária da Igreja.

Para compreendermos isso, é necessário considerarmos a brilhante constatação de Santo Tomás de Aquino, segundo a qual, antes de exortar os discípulos a serem “sal da terra” e “luz do mundo” (cf. Mt 5, 13), Nosso Senhor havia falado sobre a bem-aventurança da perseguição: “Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por causa de mim, alegrai-vos e exultai porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (Mt 5, 11-12).

Curiosamente, não consideramos esse contexto, mas Santo Tomás afirma que as duas realidades estão intimamente ligadas: é justamente quando os discípulos cumprem sua missão de ser “sal da terra” e “luz do mundo” que eles são perseguidos e rejeitados pelo mundo. Nesse cenário, para que os discípulos não se intimidem diante das perseguições, Jesus afirma que “não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte” (Mt 5, 14) e que “ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha” (Mt 5, 15).

Esse Evangelho deve fazer-nos refletir sobre uma realidade constante na história da Igreja: embora os discípulos estivessem muito unidos a Jesus e realizassem as boas obras que Ele recomendou, ainda assim eles estavam sendo perseguidos. Isso mostra como é totalmente ingênua a ideia de quem, desconsiderando dois mil anos de cristianismo, pensa que, se nós, católicos, amarmos as pessoas e fizermos boas obras, o mundo vai nos aceitar e a Igreja Católica ficará em harmonia com o mundo. Ora, Jesus Cristo, o próprio amor que se fez carne e habitou entre nós, foi crucificado. Da mesma forma os Apóstolos: fizeram inúmeros milagres, ajudaram muitas pessoas e curaram-nas de males físicos e espirituais; e mesmo assim, foram martirizados.

Em termos práticos, precisamos ter claro o seguinte fato: a verdade existe, precisamos apenas buscá-la. Não tenhamos medo de estudar e buscar a verdade. Alguém que tenha estudado e alegue ter perdido a fé, ou não estudou corretamente, ou já não possuía fé antes do estudo. Isso porque a razão e a fé são complementares e não contraditórias, já que o mesmo Deus que ilumina a inteligência humana pela luz natural da razão também a ilumina pela luz sobrenatural da graça.

O problema de fundo nisso tudo é que nem sempre estamos dispostos a pagar o preço da verdade, porque ela exige de nós uma mudança de vida. A verdade se impõe com a própria realidade e, enquanto não adequamos nossa vida a ela, vamos sendo constantemente atormentados pelo fato de que estamos no erro. Ao mudar de vida, tornamo-nos um incômodo para os demais e passamos a ser perseguidos. É o que acontece, por exemplo, a um jovem que consegue abandonar a pornografia e a masturbação, ou a uma jovem que decide se vestir com pudor e modéstia.

Portanto, mesmo sem procurar confusão, se mudarmos de vida e não formos sal insosso, seremos perseguidos e caluniados. Isso ocorrerá inclusive dentro de nossa própria casa, como já alertou Jesus, ao dizer que não veio trazer a paz sobre a terra, mas a divisão, de modo que os pais se voltarão contra os filhos, e os filhos contra os pais (cf. Lc 12, 51-53).

Busquemos, pois, a luz da verdade, que é Cristo. Ele “veio para os que era seus, mas os seus não o receberam. Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus” (Jo 1, 11-13). Essa é a vocação para qual o Senhor nos chamou: a de sermos seus filhos pela fé. Que Ele nos ajude a não sermos cristãos insossos que escondem a luz da fé que receberam. Deixemo-nos iluminar pela luz de Cristo, a fim de que, aos poucos, nossa vida seja transformada por Ele e possamos ser luz na vida de outras pessoas, evangelizando-as e convertendo-as para Cristo. Esta é a finalidade da Igreja: exercer seu poder educacional para anunciar a Verdade, e ensinar as pessoas a buscá-la sem cessar até que suas vidas se tornem, de fato, verdadeiras.

Notas

  1. Foi graças a esse poder educacional da Igreja que surgiram a civilização ocidental e a ciência moderna. Por exemplo, a evangelização dos missionários cristãos aos povos gregos, romanos e africanos ensinou-lhes que não havia, no mar, a ação de uma entidade volúvel, mas sim uma lei natural instituída por uma Inteligência criadora. E foi estudando o mar, na tentativa de descobrir tal lei natural, que se alcançaram outras verdades naturais. Desse modo, o conhecimento sobre as marés, desenvolvido no século XV pela Escola de Sagres, do Infante D. Henrique, possibilitou séculos depois os cálculos necessários para que o ser humano pudesse chegar à Lua. Isso só foi possível porque os membros da Escola de Sagres eram cristãos e, tendo sido evangelizados, sabiam que o mar não era uma divindade, mas sim uma criatura cujo movimento era ordenado pelo único Deus verdadeiro.
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