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78. Como fundar uma nova Igreja?

Nem sempre se faz necessário mudar a fachada de um prédio para instituir uma nova religião, ou migrar de igreja para pertencer a outra denominação.

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Que é necessário para fundar uma nova Igreja? É comum pensarmos que, para que haja um cisma ou cisão na comunhão eclesial, é preciso antes de tudo mudar a "placa" fixada às portas de nossas paróquias, a fim de indicar que o que antes era a Igreja Católica passa a ser agora uma nova instituição, como quer que lhe chamemos. O Brasil, como muitas outras nações, oferece um sem número de exemplos de comunidades que se querem atribuir a catolicidade da verdadeira Igreja de Cristo tão-só pelo título com que se apresentam; vemos assim a cada esquina igrejas autoproclamadas universais, mundiais, internacionais etc. e o cidadão sem fé, diante de uma tão variada rede de franquias, sai com a impressão de que o cristianismo é ou um rentável negócio, ou coisa para não se levar a sério.

Ora, esta forma mais explícita de ruptura, apesar da irrisão que costuma gerar, tem a vantagem, se assim se pode dizer, de não iludir, pelo menos quanto à sua procedência, aqueles que ao abandonar a Igreja Católica filiam-se a essas congregações, pois bem sabem, supõe-se, que deste modo estão deixando de ser católicos e se incorporando a um grupo declaradamente alheio à Igreja. De fato, na sociedade em que hoje vivemos, a apostasia parece ter-se tornado um direito e as pessoas têm, despreocupadamente, toda a liberdade e o conforto para tomar tal decisão como quem troca os sapatos. O problema muda de figura quando se trata de uma ruptura implícita, na qual os cismáticos permanecem recônditos no catolicismo, mas, no fundo, o evangelho que anunciam e a fé que vivem distam muito da pregação recebida dos Apóstolos. Como fazem, então, para manter-se sob título de "Igreja Católica" e, ao mesmo tempo, perverter desde as raízes a forma cristã de ser igreja? A resposta é simples: basta mudar a finalidade da Igreja.

A Igreja Católica, no entanto, foi instituída por Cristo com um propósito bastante definido: conduzir as almas ao Céu; a sua missão neste mundo, com efeito, ordena-se à salvação eterna dos homens e, por isso, sua fundação subordina-se necessariamente à missão do próprio Senhor Jesus, ou seja, à redenção do gênero humano [1]. Cristo, anunciando a vinda do Reino dos Céus, abriu-nos as portas da casa de Seu Pai, para onde nos levará, quando do Seu regresso glorioso (cf. Jo 14, 1-3), a fim de lá, consumada a Igreja na glória celeste, fazermos nossa definitiva morada [2]. Ora, o que se vê atualmente, tanto na América Latina como noutras partes do mundo, é que muitas paróquias se têm esquecido de sua missão espiritual, enquanto unidas pela Fé e pelos sacramentos à única Igreja, à cuja imagem são formadas [3], e se atribuído outros fins: construir uma sociedade mais justa, solidária, igualitária etc. O múnus missionário de evangelizar e levar a salvação a todos os povos tem [4], assim, cedido lugar a um projeto de reforma social e a própria Igreja, que existe nessas e a partir dessas comunidades locais de fiéis [5], se transfigura pouco a pouco numa instituição de caráter acentuadamente mundano e político.

Mas a que se devem estas mudanças? De um modo geral, à perda de sentido último da vida. Sufocada pelas solicitações do mundo, pelos confortos e pela promessa de uma felicidade que nunca chega, a nossa sociedade já não enxerga mais Deus no princípio das coisas e, por essa razão, não O pode situar no fim de todas elas. Perdida a bússola de nossa existência, não é de admirar que andemos inquietos e dissipemos nossas forças, ocupados com mil afazeres (cf. Lc 10, 40), e nos esqueçamos de que, como Igreja, todos os nossos empreendimentos devem ter na mira a salvação eterna dos homens. É já hora de fazermos um cuidadoso exame de consciência e reanalisarmos o que têm verdadeiramente motivado o nosso apostolado e trabalho pastoral: se o zelo por ganhar novas almas para Cristo, se o desejo de transformar o mundo segundo princípios contrários à reta caridade cristã.

A Igreja, sem descurar dos bens temporais que, nesta terra, servem à construção do Reino de Deus entre nós segundo a justiça, não pode conformar-se às coisas deste mundo, cuja figura é passageira, nem diminuir o ardor da espera pelo seu Senhor e pelo Reino eterno [6].

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