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Homilia Dominical
5 Jul 2019 - 26:43

“Eu vos dei o poder”, mas...

Os padres católicos têm na Igreja um poder que pastor protestante algum tem em sua comunidade, e esse poder remonta a ninguém menos que o próprio Jesus Cristo, o qual disse aos setenta e dois discípulos do Evangelho: “Eu vos dei o poder”. “Contudo”, ajunta o Mestre, prevenindo os sacerdotes contra o pecado da soberba, “não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu”. É sobre esse duplo aspecto do sacerdócio cristão que Padre Paulo Ricardo medita em mais esta homilia dominical.
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Homilia Dominical - 5 Jul 2019 - 26:43

“Eu vos dei o poder”, mas...

Os padres católicos têm na Igreja um poder que pastor protestante algum tem em sua comunidade, e esse poder remonta a ninguém menos que o próprio Jesus Cristo, o qual disse aos setenta e dois discípulos do Evangelho: “Eu vos dei o poder”. “Contudo”, ajunta o Mestre, prevenindo os sacerdotes contra o pecado da soberba, “não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu”. É sobre esse duplo aspecto do sacerdócio cristão que Padre Paulo Ricardo medita em mais esta homilia dominical.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 10, 1-12.17-20)

Naquele tempo, o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. E dizia-lhes: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita. Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho! Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós.

Permanecei naquela mesma casa, comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário. Não passeis de casa em casa. Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós’.

Mas, quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: ‘Até a poeira de vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós. No entanto, sabei que o Reino de Deus está próximo!’

Eu vos digo que, naquele dia, Sodoma será tratada com menos rigor do que essa cidade”.

Os setenta e dois voltaram muito contentes, dizendo: “Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome”. Jesus respondeu: “Eu vi Satanás cair do céu, como um relâmpago. Eu vos dei o poder de pisar em cima de cobras e escorpiões e sobre toda a força do inimigo. E nada vos poderá fazer mal. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu”. 

Meditação. — 1. O Evangelho deste domingo narra o envio dos discípulos à missão que Jesus lhes havia confiado. A princípio, esse texto nos faz pensar no significado dos Doze para a economia da salvação, como sinal do novo “Povo de Deus”. No Antigo Testamento, somente os descendentes das (também doze) tribos de Israel pertenciam ao povo eleito. Era o sangue, e não a , o laço que os unia em torno de Deus. Mas, com a escolha dos Apóstolos, Jesus não só cumpre a promessa a Abraão, de que sua descendência seria tão numerosa quanto as estrelas do céu (cf. Gn 15, 5), como também inaugura um novo vínculo entre os homens: agora a de Abraão, e não o seu sangue, é que seria o elo da εκκλησία. E essa deveria ser anunciada universalmente pelos discípulos de Cristo.

São Lucas traz ainda um dado que não aparece nos demais Evangelhos: além dos Apóstolos, Jesus havia preparado outros 72 discípulos para saírem em missão. Tradicionalmente, a liturgia da Igreja sempre viu nesses homens uma prefiguração do ministério presbiteral, que coopera com os bispos, os sucessores dos Apóstolos, na edificação da Igreja e santificação dos seus filhos.

A Igreja foi fundada sobre a fé dos Apóstolos, especificamente sobre a de Pedro, como vimos no domingo passado. Para cumprir a sua missão entre os homens, Jesus deu-lhes o poder pleno de governar, ensinar e santificar. Isso significa que os Apóstolos podiam administrar os bens da Igreja, pregar destemidamente a Palavra de Deus e, finalmente, oferecer os sacramentos para a redenção dos homens, e esse poder eles o transmitiram plenamente aos bispos, de modo que o Bispo de Roma é, na estrutura eclesial, o sucessor de São Pedro, e os demais bispos em comunhão com a Santa Sé, os sucessores do colégio apostólico. Por isso Santo Inácio de Antioquia tanto insistia sobre o ministério episcopal, segundo a sua fórmula consagrada: “Ubi episcopus, ibi ecclesia — Onde está o bispo, aí está a Igreja”.

É necessário que exista o episcopado católico, porque, sem os bispos, a Igreja deixa objetivamente de existir. Afinal de contas, quem mais poderia perdoar os pecados, ordenar sacerdotes, oferecer o sacrifício da Missa, senão aqueles que receberam tal poder de Deus?

Compreendido isso, podemos compreender também o papel dos padres dentro da Igreja. O padre é, sic et simpliciter, um colaborador dos bispos na missão de governar, ensinar e santificar a Igreja, como aqueles 72 discípulos do Evangelho de hoje eram os cooperadores dos Apóstolos. Nesse sentido, o ministério presbiteral é limitado, de sorte que os padres não têm plenos poderes para agir em nome de Nosso Senhor. Eles podem celebrar a Missa, absolver os pecados, assistir casamentos, mas não podem, por outro lado, ordenar padres, retirar excomunhões ou julgar delitos de heresia. Essas últimas faculdades pertencem apenas aos bispos. 

Como colaboradores da ordem episcopal, os padres estão obviamente submetidos ao bispo de suas dioceses, ao seu Ordinário local, e, por isso, precisam agir em comunhão e obediência às normas de seus superiores. De resto, os bispos é que têm o poder pleno do sacramento da Ordem para resolver certos problemas, como, p. ex., heresia, cisma, excomunhão etc. Aos padres cabe o papel de aconselhar os bispos nessas e em outras decisões.

2. O Código do Direito Canônico distingue bem os dois graus do sacerdócio católico, especificando qual é o papel dos padres e como ele está ordenado ao serviço dos Bispos, que possuem a plenitude do sacramento da Ordem. Em todo o caso, tanto o padre como o bispo são sacerdotes porque têm a faculdade de oferecer o sacrifício da Missa e absolver os pecados, o que não é o caso dos diáconos, que não participam desse grau do sacerdócio ministerial e, exatamente por isso, não são chamados pelo Código de sacerdotes. 

Uma ideia clara acerca do sacerdócio católico torna mais autêntica a espiritualidade cristã, e previne-a contra sentimentalismos ou distorções. O fato de que Jesus tenha dado poder a homens de carne e osso, pecadores como nós, deve ser coisa pacífica entre os católicos, ao passo que, para as comunidades protestantes, o sacerdócio ministerial é um escândalo. O protestantismo é, no fim das contas, um cristianismo sem sacerdote, igualitário, romântico, porque tanto os pastores como os leigos gozam da mesma autoridade e poder. No entanto, por mais bonito e sedutor que isso seja, o poder sacerdotal não é uma invenção católica, como pensam os protestantes, mas sua origem está na própria vontade de Jesus, que diz neste domingo: “Eu vos dei o poder de pisar em cima de cobras e escorpiões e sobre toda a força do inimigo”

Sem o sacerdócio, o protestantismo não passa de um cristianismo impotente. Os seus pastores, portanto, não têm poder para perdoar os pecados, para oferecer o sacrifício da Missa, para pregar a Palavra de Deus, e, muito menos, para expulsar demônios. 

Para os católicos, no entanto, o sacerdócio ministerial deve ser, na prática, um motivo de grande júbilo e louvor a Deus, porque, através do serviço desses homens, chegam até nós os méritos da Paixão de Cristo. De fato, o sacerdócio ordenado é um dom saído do Coração de Jesus, como dizia São João Maria Vianney, e o poder que os padres e bispos possuem pela graça de Nosso Senhor não é algo para ensoberbecê-los, segundo um pensamento elitizado e orgulhoso. Nada disso. O poder dos sacerdotes católicos está ordenado para cumprir a finalidade última da Igreja: a salvação das almas. 

3. Muitas vezes o poder sacerdotal pode ser ocasião de tropeço para os padres, levando-os a se sentirem melhores do que os outros. Mas esse poder, em vez disso, deveria ser visto com temor e humildade, pois, naturalmente, o sacerdote é tão indigno do Céu e das graças de Deus como qualquer outro ser humano. Por seus próprios méritos, um sacerdote merece tão-somente o inferno. Ele não é, portanto, superior ou melhor que alguém simplesmente porque recebeu um poder incomum aos demais. Afinal, Deus lhe concedeu esse poder não para uma glória pessoal e egoísta, mas para a salvação do povo. Por isso Jesus advertiu os discípulos: “Não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu”.

Um sacerdote precisa se alegrar unicamente com a salvação das ovelhas que lhe foram confiadas, com a certeza de que ele e seus filhos um dia participarão da felicidade de Deus, no Céu. Pois foi para isso que o Senhor o constituiu pastor, enviando-o como “cordeiros no meio dos lobos”. O dom do sacerdócio é dado aos bispos e aos padres para que, com esse poder, eles nos deem a graça da Eucaristia e dos outros sacramentos. Daí que, em toda celebração, eles rezem antes de receber a Eucaristia:

Perceptio Corporis tui, Domine Jesu Christe, quod ego indignus sumere praesumo, non mihi proveniat in judicium et condemnationem, sed pro tua pietate prosit mihi ad tutamentum mentis et corporis, et ad medelam percipiendam. — Que a comunhão do vosso Corpo e Sangue, Senhor Jesus Cristo, que eu, embora indigno, ouso receber, não seja para juízo e condenação minha, mas antes, pela vossa misericórdia, me sirva de proteção e remédio para a alma e para o corpo.

Vamos, portanto, pedir sempre a iluminação divina sobre a inteligência e a vontade de nossos legítimos pastores, para que a sua fragilidade não seja um obstáculo no caminho do novo Povo de Deus, do qual eles mesmos fazem parte. No excelente livro In sinu Iesu, vemos um sacerdote falando “ao peito de Jesus”, pedindo ao Senhor tanto por ele como por seus irmãos no presbitério. Trata-se de um exemplo sublime que deve ser imitado pelos leigos e pelos sacerdotes, numa união de oração pela santificação de todo o clero e dos seminaristas.

Em suma, o poder sacerdotal de fato existe, está nas Escrituras e na Tradição, por cuja defesa o Magistério da Igreja não cansou de erguer a sua voz, especialmente nos últimos séculos, quando o erro protestante surgiu para pôr em dúvida o dogma da fé. Esse poder sacerdotal, embora esteja destinado apenas a alguns membros do Corpo de Cristo, não serve, todavia, para a satisfação do ego de quem o exerce, mas para ser instrumento de salvação e júbilo no Céu. Sendo assim, nós católicos devemos rezar insistentemente pelos nossos sacerdotes, para que eles resistam às tentações do maligno e sempre renovem o seu sim diante de Deus.

Oração.Senhor Jesus, que instituístes o ministério sacerdotal na vossa Igreja, a fim de atualizar o sacrifício do Calvário em todas as épocas e lugares, protegei e fortificai os vossos bispos e padres contra todo ataque e sedução do maligno. Preservai-os puros em seus corações e longe de toda soberba, orgulho ou concupiscência, para que, ao chegar o dia do juízo, possamos juntos nos alegrar com a vida eterna. Assim seja! 

Propósito. — Rezar o Rosário pela santificação dos sacerdotes e em reparação das ofensas que tantos deles já cometeram contra o Sagrado Coração de Jesus.

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