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Nesta aula, Padre Paulo Ricardo, a partir de uma experiência pessoal, ensina-nos a diferença entre o pecado da ignorância e o da heresia, contextualiza as situações em que se pode incorrer em tais pecados e apresenta as suas consequências espirituais. 

Padre Paulo confessa que, aos 11 anos, em uma pequena controvérsia com um colega de escola, chegou a afirmar: “Jesus não é Deus, Jesus é o filho de Deus”. Isto é, em sua fala, estava implícita a ideia de que Jesus seria apenas um homem.

No entanto, após a discussão, ao chegar em casa, ele foi conferir o catecismo da Igreja, a fim de esclarecer a questão; e, para sua surpresa, encontrou a afirmação de que Jesus é verdadeiramente Deus. Diante de tal verdade, seu assentimento foi imediato: “Quando eu descobri que a Igreja ensina que Jesus é Deus que se fez homem, eu mudei de opinião imediatamente”.

Este episódio autobiográfico consiste em uma situação de ignorância vencível, ou seja, uma ignorância que poderia ter sido superada por meio do estudo das verdades de fé, e, não o foi, por negligência.

Quanto à sua segunda atitude, de consultar o catecismo e mudar de opinião, evidencia que ele não agiu como um herege, escolhendo em que acreditar; mas, como alguém que tem fé, que ajusta sua vida às verdades reveladas por Deus e transmitidas pela Igreja.

Nesse sentido, Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica (cf. II-II, q. 4, a. 6) — ao questionar se a fé é una ou múltipla —, defende que, embora a fé pareça ser múltipla, na verdade, ela é uma só, porque possui um único objeto formal, a Revelação de Deus, que é transmitida pela Igreja. Em outras palavras, nós cremos porque foi revelado por Deus e transmitido pela Igreja, ao longo dos séculos.

Como exemplo claro de um ato de fé, pode-se mencionar a postura dos dominicanos ao aceitar obedientemente o dogma da Imaculada Conceição de Maria (promulgado pelo Papa Pio IX, em 1854), mesmo depois de terem defendido o contrário, por diversos séculos, em debates teológicos com os franciscanos.

Por outro lado, a heresia consiste em ignorar a autoridade da Revelação de Deus, a fim de escolher em que acreditar. Nessa perspectiva, muitas pessoas incorrem no erro de, primeiramente, buscar os argumentos que sustentem as verdades de fé, a fim de, somente depois, crer ou não, dependendo dos argumentos encontrados. No entanto, o verdadeiro católico primeiro crê, devido à autoridade do Deus que se revela e à transmissão dessa revelação realizada pela Igreja; e, num segundo momento, busca entender as razões daquilo que crê, a fé em busca da intelecção (fides quaerens intellectum), conforme o clássico conceito de teologia, formulado por Santo Anselmo de Cantuária.

É necessário abordar também os efeitos espirituais dos dois pecados em questão. Aquele que comete o pecado de ignorância, ainda que mortal, permanece um membro da Igreja, mesmo que seja um membro defeituoso e com a alma em perigo. Por outro lado, o herege, aquele que não tem fé, já não faz parte do Corpo místico de Cristo [1].

No caso da pessoa ignorante, por ser membro da Igreja, ele está recebendo o influxo sobrenatural da fé e, assim, possui maiores disposições para voltar ao estado de graça, buscando a confissão, e, consequentemente, retornando à plena comunhão da Igreja.

Garrigou-Lagrange, em seu comentário [2] à terceira parte da Suma Teológica, afirma que as pessoas que não têm fé não são membros da Igreja, ao passo que aqueles que têm fé, mas não a caridade, ainda são membros, embora de modo imperfeito, sem toda a vitalidade dos outros membros, como “cabelo e unha são ainda partes do corpo”.

Desta forma, há pessoas que parecem fazer parte do Corpo Místico de Cristo, mas já não fazem, porque perderam a fé, na medida em que passaram a escolher em que iriam acreditar. Essas pessoas não estão dando seu assentimento à fé ensinada infalivelmente pela Igreja.

Tal realidade, antes de ser uma forma de juízo alheio, deve servir para o nosso próprio exame de consciência. Será que eu não estou escolhendo em que crer? Estou aderindo integralmente à fé da Igreja?

Essa atitude de fé é fundamental para que haja um encontro pessoal com Cristo. Conforme a Carta aos Hebreus, “a fé é a substância daquilo que ainda se espera, a demonstração de realidades que ainda não se veem” (Hb 11, 1). Deste modo, ao viver a fé, neste mundo, já estamos tendo contato com a substância daquilo que esperamos na vida eterna. Tornamo-nos íntimos de Cristo, crendo naquilo que Ele revelou e confiou à sua Igreja.

Referências

  1. Sobre as virtudes da e da caridade e a pertença à Santa Igreja, cf. AV. 217: Quem não tem fé, não ama. “Neste mundo, a fé pode existir numa alma que esteja em pecado mortal e que, portanto, tenha perdido o amor-caridade. Mas jamais poderá haver uma só migalha de caridade numa alma que não tenha fé.”
  2. Reginald Garrigou-Lagrange, Christ’s Grace as Head of the Church. In: Christ, the Savior: a Commentary on the III Part of St. Thomas’ Theological Summa, c. X, q. 8.
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