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Ultimamente, muitos pregadores têm repetido uma frase que se tornou popular a partir da segunda metade do século XX: “Tudo é graça”. Neste programa, pretendemos esmiuçar melhor o conteúdo dessa afirmação, cujo significado, embora verdadeiro, precisa de sérias distinções para que não incorra numa heresia bastante nociva: o naturalismo.

Origem do problema. — A afirmação que hoje ouvimos em tantas músicas e pregações ganhou notoriedade, de algum modo, graças ao escritor francês George Bernanos. No livro Diário de um pároco de aldeia, um clássico da literatura mundial, o autor conta a história de um padre que teve de enfrentar sérias crises de fé e tentações antes de morrer.

No fim das contas, esse sacerdote conseguiu vencer suas dificuldades, chegando ao dia da morte com a alma em estado de graça. Por isso, pouco antes de falecer, disse a um amigo que estava triste pela possibilidade de ele partir sem os últimos sacramentos: “Que importa? Tudo é graça” [1].

O livro de Bernanos emocionou vários públicos e entrou para a lista dos melhores romances do mundo. A partir de então, a frase do padre da história começou a ser repetida em várias homilias, canções e conferências católicas. Todavia, o próprio Bernanos fez questão de esclarecer que não era ele o autor daquela afirmação, mas Santa Teresinha do Menino Jesus.

De fato, a santa carmelita de Lisieux sofreu duras penas antes de morrer, oferecendo tudo por amor a Deus. Quando ela percebeu que o Senhor poderia vir buscá-la a qualquer momento, disse à sua irmã: “Sem dúvida, é uma grande graça receber os sacramentos; mas, quando o Bom Deus não o permite, está bem do mesmo jeito. Tudo é graça” (Caderno amarelo, 5 de junho) [2].

Desvios teológicos. — Sem dúvida, a afirmação de Santa Teresinha está correta e exprime a mais pura verdade do dogma católico. Contudo, o Tratado da Graça estabelece algumas distinções elementares que, infelizmente, muitos teólogos modernos ignoram, caindo assim em gravíssimos erros teológicos. É deste modo que, retirada de seu contexto original, a frase de Santa Teresinha pode ser interpretada segundo a heresia do naturalismo, uma doutrina de sabor “pelagiano” e condenada por Pio IX na Encíclica Quanta cura e, mais recentemente, por Pio XII na Encíclica Humani Generis.

O naturalismo é, grosso modo, uma heresia que ignora a ação sobrenatural de Deus na alma humana. O homem, portanto, não precisaria da intervenção divina para santificar-se, uma vez que o seu próprio esforço bastaria para chegar à salvação. Em outras palavras, essa doutrina desvirtua “o conceito de gratuidade da ordem sobrenatural, sustentando que Deus não pode criar seres inteligentes sem ordená-los e chamá-los à visão beatífica” (Humani Generis, n. 26). E assim se chega a defender um relativismo religioso, como se entre o cristianismo e as falsas religiões não houvesse uma diferença substancial. Afinal de contas, todos os homens indistintamente teriam, por natureza, a capacidade de chegar à santidade, seja no cristianismo, seja no islamismo, seja no budismo etc.

Na teologia moderna, esse naturalismo não aparece de forma clara, pois uma defesa assim seria, de resto, bastante escandalosa. O passo é mais sutil. Trata-se de esticar o conceito de graça a uma consideração de tal modo abrangente, que confunde a luz sobrenatural com a própria natureza humana. Em tese, tudo, absolutamente tudo é graça. Nessa perspectiva, a ação de Cristo torna-se independente de seu Corpo Místico, a Igreja Católica, e dos sacramentos que Ele mesmo instituiu para a santificação dos homens. Para a teologia moderna, a graça de Jesus está presente em todas as culturas e religiões, ainda que as pessoas não o conheçam.

Expressões desse tipo de teologia aparecem moderadamente em Henri de Lubac e, clara e explicitamente, em Karl Rahner e nos teólogos da libertação. Consideramos a boa vontade desses teólogos, mas o fato é que, no fundo, o que a teologia deles produziu foi a abolição das fronteiras entre a Igreja e o mundo, por uma percepção um tanto equivocada de que nas outras religiões existiriam já “cristãos anônimos”, como dizia Rahner. 

Em suma, tais postulados acabam se identificando com o projeto religioso da Maçonaria, mesmo que nenhum desses teólogos jamais tenha posto os pés em uma loja maçônica. Ao fim e ao cabo, cede-se a uma cultura generalizada, que os maçons imprimiram na sociedade moderna: a ideia de que todas as religiões têm a graça de Nosso Senhor. Essa visão já se tornou tão comum que, em outras épocas, nós mesmos já a defendemos, porque também não fazíamos a devida distinção sobre os diferentes sentido de “graça”.

As graças de Deus. — Um erro é mais problemático quando ele se parece mais com a verdade. De fato, a teologia moderna tem suas razões: a graça de Deus está mesmo em todos os lugares, culturas, religiões e sociedades. Mas essa graça não pode ser entendida de maneira unívoca, e sim analógica. Apenas assim é possível compreender o que quis dizer Santa Teresinha quando disse ser “tudo graça”.

Naquele momento de angústia, Teresinha não estava desprezando os sacramentos, como se se tratasse de algo indiferente à salvação. Quem conhece a sua história de amor a Deus e à Igreja sabe como lhe eram preciosas a Confissão e a Eucaristia. Na verdade, ela via a privação dos sacramentos naquela hora como mais um sacrifício de amor a Jesus. Teresinha estava em “estado de graça” e, por isso, podia repetir com São Paulo: “Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios” (Rm 8, 28).

Teresinha possuía a graça santificante, ou seja, a amizade com Deus. Por isso, todas as coisas concorriam para o bem de sua alma, inclusive o sacrifício de não fazer a sua amada comunhão. Quem está em amizade com Deus pode encontrar “graças” mesmo nas situações mais negativas. Foi isso o que George Bernanos pretendeu reproduzir em seu livro. Mas esse, infelizmente, não é o caso de boa parte das almas, de modo que, para elas, nem “tudo é graça”, nem “tudo é bom”, nem “tudo concorre para o seu bem”. Ao contrário, a obra de um satanista não pode jamais ser algo santificador, nem o canibalismo de algumas tribos indígenas, nem os crimes dos mafiosos etc.

Então, que tipo de graça pode existir nas almas em pecado?

A graça destinada à conversão dos pecadores é chamada, em boa teologia, de graça atual suficiente, que é uma moção do Espírito Santo sobre as almas, a fim de retirá-las da escravidão do mal.

Os teólogos modernos ignoram essa distinção porque, segundo a opinião deles, essa seria uma distinção irrelevante, porque não haveria diferença entre uma graça e outra. Mas se tudo é igualmente graça, nada mais é graça, assim como um diamante não é mais precioso se um cascalho também o for.

Esse é o problema da univocidade dentro da teologia. Esse tipo de abordagem acaba absolutizando tudo num mesmo nível, sem considerar as nuances e as analogias. Quando falamos de uma jóia preciosa, por exemplo, podemos falar de uma safira, ou então, figuradamente, de uma pessoa com grandes virtudes. A linguagem unívoca, todavia, não permite essa diferenciação. Tudo é a mesma coisa, tudo é graça, tudo é jóia preciosa.

A Tradição nos mostra, por outro lado, que a graça divina tem suas especificidades. Em primeiro lugar, existe a graça incriada que é o próprio Deus. Essa mesma graça age pela salvação dos homens e, em razão disso, não os deixa abandonados à própria natureza. Deus se doa a toda a humanidade, convidando-a a participar da vida sobrenatural. Em poucas palavras, Ele comunica aos homens uma graça suficiente para fazê-los sair do pecado, ou seja, Deus estende os braços ao pecador caído no chão.

A graça que existe em todas as culturas, lugares, religiões e sociedades é a graça atual suficiente. É apenas neste sentido bastante singular que Karl Rahner está correto, apesar de seu conceito infeliz de “cristão anônimo”, isto é, a teoria segundo a qual haveria “cristãos inconscientes” nas demais religiões, por conta da graça de Deus. Por esse conceito rahneriano, muitos teólogos chegaram à ousadia de negar a necessidade do Batismo.

A graça atual suficiente, todavia, é suficiente para a conversão, mas não para a salvação. Nesse caso, os homens precisam acolher o convite de Deus, arrependendo-se de seus pecados e buscando os sacramentos, para receberem a graça habitual ou santificante, na qual radica e da qual nasce todo um organismo espiritual, que a pessoa recebe no Batismo ou recupera na Confissão. O Espírito Santo realiza uma transformação na alma, gerando nela uma “semente de vida eterna”; trata-se de uma participação na natureza divina como membro de Cristo e, portanto, filho de Deus. 

A alma precisa preservar tal organismo e fazê-lo crescer até a perfeição. De outro modo, a graça santificante pode ser destruída por um pecado grave, razão pela qual Nosso Senhor instituiu o sacramento da confissão, que restaura o organismo espiritual da pessoa.

Vejam que a graça santificante não está nos não batizados nem nas almas em pecado mortal. Daí a noção de “cristão anônimo” ser tão inadequada. Não é possível usar a palavra “cristão” para definir indistintamente Santa Teresinha, que se ofereceu como holocausto de amor a Jesus, e, ao mesmo tempo, um pagão, que ignora completamente a Palavra de Deus.

A missão da Igreja. — A Igreja existe para levar as almas ao Céu, ou seja, para gerar e fazer progredir o organismo espiritual das almas. É sua missão, portanto, converter os corações dos homens, a fim de que acolham a graça atual suficiente, a oferta amorosa de Deus, e se tornem participantes da natureza divina, por meio da graça santificante. Para isso, ela não deve ter medo de batizar nenhuma pessoa.

É preciso afastar essa ideia moderna que coloca todas as religiões no mesmo nível, como se tudo dependesse de um esforço humano para chegar até Deus. A partir de uma má teologia, chega-se ao ponto de comparar a iniciação cristã a ritos indígenas, como o da tucandeira, ou então às “refeições sagradas” dos druidas, como se a diferença entre estas e a Eucaristia fosse meramente acidental. E assim vão ignorando a autêntica oração cristã, enquanto abraçam entusiasticamente qualquer técnica pagã.

Não, não é possível salvar-se sem a graça santificante, porque esta graça regenera a natureza humana, infudindo-lhe a caridade, o amor com o qual o ser humano frágil pode amar a Deus, de sorte que todas as coisas concorram para o seu bem. Era esse o amor que fazia Santa Teresinha dizer: “Tudo é graça”.

Referências

  1. George Bernanos. Diário de um pároco de aldeia. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 285.
  2. Santa Teresa do Menino Jesus. Obras Completas: escritos e último colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 876.
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