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Texto do episódio
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Para comentar o Evangelho da cura do homem da mão seca num dia de sábado (Lc 6,6-11), vamos partir de um breve trecho da Regra de São Bento (cap. 2, 11-12), em que o santo nos explica como deve ser o abade — que quer dizer “pai” —, do qual Jesus é o modelo: 

Portanto, quando alguém recebe o nome de Abade, ele deve estar à frente de seus discípulos usando de uma dúplice doutrina: isto é, apresente as coisas boas e santas, mais pelas ações do que pelas palavras, de modo que mostre aos discípulos capazes os mandamentos do Senhor por meio de palavras, e aos duros de coração e aos mais simples mostre os preceitos divinos pelas próprias ações.

São Bento está se referindo a como os abades devem agir com aqueles que estão no discipulado, ou seja, como deve agir o mestre diante daqueles que estão no mosteiro para iniciar a sua caminhada e aprender. É um projeto educacional no sentido amplo da palavra, que abarca também a vida espiritual. Assim nós também precisamos ser formados.

O que significa essa dúplice doutrina à qual São Bento se refere? Isso quer dizer que o abade deve ensinar das duas maneiras que Jesus se utiliza no Evangelho de hoje: pela palavra e pela ação. Mas precisamos entender como isso deve ser feito. A primeira forma de ensino é esta que estamos fazendo agora: o ensinamento oral/verbal. Nosso Senhor faz isso quando em seu apostolado entra nas sinagogas e ensina ao povo a boa nova.

A coisa mais importante, porém, que o abade deve fazer é expor todas as “coisas boas e santas mais pelas ações que pelas palavras”, ou seja, com o seu comportamento: com os fatos (factis), com as suas ações e seu jeito de agir, que é o que Jesus fazia naturalmente no seu dia a dia e faz ainda mais explicitamente quando cura o homem com a mão seca.

Qual o motivo dessa ênfase nas ações? Ora, raciocinemos da seguinte forma: isso se dá porque os discípulos capazes — quer dizer, aqueles inteligentes mas, sobretudo, que estão bem dispostos na vontade, que possuem bondade no intelecto e no coração — são capazes de captar “os mandamentos do Senhor por meio das palavras”. É o que estamos fazendo aqui: uma pregação dirigida a quem é bom e capaz na inteligência e no coração!

Mas há, porém, quem tenha a cabeça “limitada” e, por mais que expliquemos, a pessoa não entende. Há também aqueles que têm maldade no coração, e por mais que a eles se ensine, não entenderão porque não estão dispostos a ouvir. Desse modo, entendemos por que o ensinamento pelas palavras é para os capazes: capazes por inteligência, capazes por bondade e virtude.

Mas e a quem não pertence a esses capazes, o que se deve fazer? A estes, deve-se ensinar os preceitos divinos pelos fatos, pelas ações e pelo comportamento. Por isso, Nosso Senhor faz milagres e realiza boas ações: Jesus cura aquele homem de mão seca porque quer ensinar algo aos simples. Mas, não somente, Ele quer também quebrar a dureza do coração dos maus.

São Bento diz que se deve ensinar com ações aos “duris corde”, aos “duros de coração”. Estes, a quem uma palavra geralmente não alcança, podem ser tocados por um gesto de amor, um ato divino, uma ação que vem do Céu. Então, diz São Bento, o abade deve entender que entre os monges há quem não tenha capacidade de inteligência e quem não tenha capacidade de coração. Os menos inteligentes aprendem com o exemplo do abade; os duros de coração sentem-se constrangidos por sua bondade.

Logo na sequência do mesmo parágrafo da Regra (cap. 2, 13-15), São Bento complementa:

Assim, tudo quanto ensinar aos discípulos como sendo nocivo, indique pela sua maneira de agir que não se deve praticar, a fim de que, pregando aos outros, não se torne ele próprio réprobo, e Deus não lhe diga um dia como a um pecador: “Por que narras as minhas leis e anuncias o meu testamento pela tua boca? Tu que odiaste a disciplina e atiraste para trás de ti as minhas palavras”, e ainda: “Vias o argueiro no olho de teu irmão e não viste a trave no teu próprio.”

Devemos nos lembrar de que não somente os discípulos, mas também o abade pode ser condenado ao Inferno — réprobo — caso não viva o que ensina. “Tu que odiaste a disciplina…”, ou seja, aquele que deseja ser abade, que quer ensinar alguma coisa na Igreja, deve ser o primeiro a aprender, o mais obediente, dócil e humilde de todos.

Essas lições ficam ainda mais claras quando ilustradas pelo Evangelho de hoje. Jesus vai à sinagoga e começa a ensinar; mas Ele vê que ali há pessoas mais simples e também há os maus — os doutores da Lei e os fariseus. São Lucas diz que estes “observavam” Jesus: está bem traduzido, mas para saborearmos a riqueza do original grego, lá o termo quer dizer que eles observavam como quem está de lado (“παρα”, “para”) —, eles estavam como um guarda de tocaia, como quem está de lado esperando alguma coisa que lhes permita “dar um bote”, “pegar” Jesus em algo errado que Ele fizesse. Em outras palavras, eles não estão observando Jesus como discípulo, mas observando “de lado”, de forma maliciosa.

Se queremos ser católicos, não podemos ficar de fora, somente olhando. A Igreja não é algo que se consiga compreender julgando desde fora, “observando de lado”. Podemos dizer que a Igreja é como uma casa: quem fica olhando de fora pela janela nunca vai conhecê-la de fato. Precisamos entrar!

Nosso Senhor, ao perceber que os fariseus olhavam de fora, com malícia em seus pensamentos, então pede que venha à frente o homem que tem a mão direita seca.

O que significa essa mão direita seca? Jesus escolheu esse homem porque ele representava uma parábola dos fariseus, como se dissesse: “Vocês, que são mestres da Lei, estão a todo tempo ouvindo a Palavra de Deus, mas estão com o coração (o amor, a ação) secos e endurecidos” — a mão representa o instrumento da nossa ação, é com ela que fazemos as coisas.

Os fariseus e os doutores da Lei pensam que são inteligentes por estarem ouvindo a Palavra de Deus o tempo todo, mas não fazem nada de acordo com ela. São como maus e réprobos abades: ensinam, mas não vivem; têm a mão seca, não agem, não fazem — “Tu odiaste a disciplina…”

Aqueles que desejam ser bons doutores da Lei e bons abades devem ser os primeiros discípulos: devem viver e fazer o que aprenderam e o que ensinam — devem curar a mão seca — enfim, viver o Evangelho!

Um conselho para quem diz que é difícil entender e viver o Evangelho, conforme nos explica a doutrina da Igreja: comece a se comportar conforme essas lições! O grande remédio para as pessoas que têm dificuldade de entender ou que têm dureza no coração é, simplesmente, começar a agir como uma boa pessoa. Quem é preguiçoso, deve começar a se comportar como alguém que é zeloso e diligente. Quem não tem devoção, deve agir como quem é devoto. É assim que se cura a mão seca: quando algo não entra pela cabeça, deve entrar pela ação, pelo fazer, pelo coração.

Há muitos que vão à Igreja e escutam, com gosto, inúmeras homilias, mas não mudam de vida. Ora, não é somente na Igreja que alguém deve se comportar como católico, é preciso se comportar como tal em cada momento da vida!

Muitos desabafam no confessionário que não conseguem viver a pureza. Pois lhes digo: comportem-se como um homem puro. De que forma um homem puro se comportaria? Aja dessa forma! Viva primeiro, e aos poucos você começará a entender os porquês. Da mesma forma: o preguiçoso deve se comportar como trabalhador; o apegado ao dinheiro deve fazer atos de generosidade; o soberbo deve se dedicar a agir com humildade. É agindo que se cura a mão seca.

Na direção espiritual que faço com padres vejo, por exemplo, sacerdotes bem formados, com as ideias no lugar, mas que persistem com a mão seca, porque não fazem, não agem, não dão o passo fundamental. Por isso, ainda que não sejam padres maus, não conseguem crescer espiritualmente. Precisam começar a se comportar conforme Deus espera que se comportem e sejam!

Da mesma forma, acontece com pais e mães que não conseguem exercer profundamente o seu estado de vida. Ora, o remédio é agir profundamente como pai, agir diligentemente como mãe para curar a sua mão seca.

Os ensinamentos de Deus vêm pela doutrina, mas também pela ação e pelo fazer. Isto é a dúplice doutrina ensinada por São Bento, conforme o exemplo do Evangelho. O abade deve estar diante de seus discípulos com uma dupla escola, um duplo ensinamento, pelo fazer.

No Evangelho, infelizmente, os fariseus e os doutores da Lei, que deveriam (e poderiam) ter ouvido essa palavra de Cristo, preferem se fechar ainda mais, e sua reação é tremenda. A nossa tradução diz: “eles ficaram com muita raiva” — e está bem traduzido, mas não traz a riqueza do termo grego original, a palavra “anoia”: eles ficaram fora de si, ficaram “loucos de raiva”. Ou seja, exatamente porque eles tinham a mão seca, não agiam conforme o que pregavam, sua inteligência “sumiu”, foram tomados pela demência, pela loucura.

Afinal, quem não vive o que crê termina crendo o que vive: aquele que prega coisas belas mas não as vive, não consegue manter por muito tempo essa esquizofrenia, essa vida dupla. Não é possível pregar defender uma vida santa mas viver desgraçadamente sem que, em algum momento, um dos lados sucumba. Pessoas que foram formadas numa boa doutrina mas não a vivem começam, em algum momento, a colocar “vírgulas” no Evangelho. Essa vida contraditória vai seguindo até o momento em que se torna ódio — o ódio do apóstata, a “anoia” —, e a pessoa se torna louca de raiva diante de tudo aquilo que é santo e bom.

Peçamos ao Senhor que possamos nos colocar diante da luz do Evangelho com muita sinceridade, mostrando para Jesus nossa mão seca, como aquele homem chamado no meio da sinagoga por Ele: “Levanta e fica aqui no meio (...) Estende a tua mão.” Mostremos ao Senhor os nossos defeitos e, desde já, comecemos a agir, a fazer, a nos comportar como Ele espera que façamos. Vivamos a Palavra, para que não sejamos encontrados entre os réprobos, que ouvirão de Deus: “odiastes a disciplina, o discipulado, o seguimento”. Peçamos essa graça neste santo sacrifício do altar.

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