O Papa que combateu o modernismo
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 23, 1-12)

Naquele tempo, Jesus falou às multidões e aos seus discípulos: “Os mestres da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam nos ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo. Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros. Eles usam faixas largas, com trechos da Escritura, na testa e nos braços, e põem na roupa longas franjas. Gostam de lugar de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas. Gostam de ser cumprimentados nas praças públicas e de serem chamados de Mestre.

Quanto a vós, nunca vos deixeis chamar de Mestre, pois um só é vosso Mestre e todos vós sois irmãos. Na terra, não chameis a ninguém de pai, pois um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. Não deixeis que vos chamem de guias, pois um só é o vosso Guia, Cristo. Pelo contrário, o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado”.

I. Reflexão

Celebramos hoje a memória do grande Papa São Pio X. É uma alegria celebrar esse grande pontífice, tão importante para o mundo inteiro. São Pio X é um desses santos extraordinários que servem de modelo para todos. É modelo para os leigos por causa de sua piedade, antes mesmo de ele entrar no seminário; é modelo para os seminaristas; é modelo para os padres porque foi capelão, pároco, trabalhou na cúria de Treviso etc.; é modelo para os bispos, para os cardeais, para os pontífices… O homem foi tudo! Trilhou um caminho de verdadeira pastoralidade até chegar ao sumo pontificado. Ora, foi justamente por ter conhecido na prática a dificuldade pastoral de seus fiéis que ele viu a importância de uma boa catequese. Na época de São Pio X, vinha-se estendendo uma heresia que, uma vez Papa, ele mesmo chamaria síntese de todas as heresias. Trata-se do modernismo. Apesar de seus esforços para erradicá-la da Igreja, nós temos hoje erros até piores do que o modernismo. Negá-lo seria reduzir a capacidade do demônio de adaptar-se para difundir novos males. Sim, os erros combatidos por São Pio X ainda devem ser combatidos, mas há outros novos que também merecem nossa atenção e luta. Por isso devemos aprofundar-nos mais nos estudos para entender quais são os males que sofre a Igreja hoje em dia. 

Feito esse parêntese, voltemos a São Pio X. Como ele combateu o modernismo? Para responder a isso, é preciso perguntar-se antes pela característica principal dessa heresia. Pois bem, um dos traços mais terríveis do modernismo é a sua insistência, por influências protestantes e maçônicas, em que a pregação é inútil, porque o Evangelho seria uma realidade “da vida”, cujos influxos chegariam a nós por meio da história, dos sentimentos etc. O modernismo instaurou dentro da Igreja uma espécie de anti-intelectualismo. Hoje, o católico bom mas ingênuo repete frases como: “Temos de sair das teorias porque Deus é o Deus da vida”. Geralmente, é um papagaio que ouviu isso em algum lugar e, por falta de formação, não tem culpa de repeti-lo. No entanto, a ideia faz um mal enorme para a fé e para as almas. Por quê? Porque ninguém ama o que não conhece. Ora, Deus quer que sejamos grandes santos e nos unamos a Cristo com caridade sobrenatural, o amor porém não é um sentimento. Se o fosse, os animais amariam com caridade sublime, mas eles não são capazes disso. Para que haja amor, deve haver conhecimento. Ninguém ama o que não conhece.

E o que o diabo quer? O diabo quer nos impedir de amar a Deus e ele sabe perfeitamente que, para isso, a melhor estratégia é impedir-nos de conhecer a Ele. Qual, portanto, é a primeira tarefa do diabo? Esconder a Deus para que não o conheçamos, e não o conheceremos se não tivermos ideias corretas, isto é, as que se recebem numa boa catequese. O catecismo, a doutrina tradicional da Igreja, nos coloca em contato com as verdades da fé. Uma vez que temos ensinamentos claros e objetivos, cientes de qual é a fé ortodoxa, então podemos mergulhar nas verdades, enxergá-las espiritualmente de forma mais profunda e ir amando a Deus cada vez mais, mudando nossa vida, reformando nossos costumes, abandonado os pecados etc. É um amor antes efetivo que afetivo. Por isso São Pio X se preocupou em publicar um catecismo ad parocos, para os párocos. Ele mesmo fora pároco e instruía pessoalmente o seu rebanho, pois sabia da importância da catequese. Ora, a catequese não é apenas “aquele cursinho” para receber os sacramentos. É muito mais. Na verdade, deveria ser permanente. Mesmo os adultos crismados precisaram fazer catequese para conhecer sempre melhor a doutrina revelada.

São Pio X colocou na mão dos párocos um catecismo abreviado, com ideias claras, para que tivessem um instrumento apto a produzir uma mudança de mentalidade, isto é, para que as pessoas soubessem realmente quem é Deus; quem é Cristo, Nosso Senhor; quem é a sua Mãe Santíssima; qual é a verdadeira Igreja; quais são os sacramentos, quais são os Mandamentos, como se deve viver isso e aquilo etc. Somente assim, sabendo o que precisa ser feito para chegar ao céu, é que podemos arregaçar as mangas e pôr mãos à obra. O catecismo é isso. Lembremos: qual é a heresia que São Pio X enfrentou e que ainda se arrasta dentro Igreja, de formas ainda piores? É uma heresia que diz exatamente o contrário de tudo isso: “Não há por que conhecer dogmas, doutrinas, ensinamentos… O importante é o amor. Deus é vida! Não percamos tempo discutindo doutrinas, porque são fórmulas mortas”. Resultado? Em vez de seguirem a Cristo, caminho, verdade e vida, os fiéis se deixam seduzir pelas mentiras do diabo, dão ouvidos a novidades dos pseudo-teólogos da moda, às conversinhas fiadas da cultura da morte, disfarçadas às vezes de “cristianismo light”, de “boa vontade” etc. Não! Nós precisamos amar a Deus. 

São Pio X, grande pastor de almas, que esteve perto do povo, via que a grande dificuldade dos fiéis era não ter ideias claras sobre a doutrina da Igreja, por isso o povo, presa fácil para os lobos, acabava arrastado por qualquer vento de falsas doutrinas. — Então, como propósito concreto, voltemos hoje a estudar. Como vai o nosso catecismo? Temos em casa o catecismo de São Pio X? Como estão as nossas ideias? Embora sejamos cristãos adultos, temos ideias claras a respeito da doutrina católica, ou preferimos seguir nossos gostos e sentimentos? É hora de nos convertermos, e a primeira coisa que Deus quer de nós é uma metanóia, uma mudança de mentalidade. Sigamos as verdades da fé. — Que São Pio X, do alto do céu, nos abençoe a todos e nos ajude a ter o firme propósito de conhecer melhor, guiados sempre pelo Magistério da Igreja, os ensinamentos salvíficos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

II. Comentário exegético

Argumento e partição do capítulo. — Diante dos discípulos e das turbas, estando a poucos dias de morrer, Jesus denuncia com eloquência e indignação os vícios dos escribas e fariseus, a fim de alertar o povo para que não se deixe enganar por aparências de falsa virtude. — O capítulo 23 do evangelho de Mateus divide-se em três seções: 1) primeiro, descreve-se a índole moral dos fariseus e adverte-se aos discípulos que não os imitem (v. 2-7.8-12); 2) em seguida, são diretamente condenados (vae vobis!) os vícios dos escribas e fariseus (v. 12-21); 3) por fim, anuncia-se que eles, junto com a plebe e toda a cidade, sofrerão penas severas (v. 32-37ss). — O Evangelho de hoje propõe-nos a primeira seção:

A índole moral dos fariseus (v. 1-12). — Embora reconheça a autoridade doutrinal dos escribas (v. 2s), Jesus os denuncia por serem mais exigentes com os outros que consigo mesmos (v. 3s), interessados antes de tudo em aparecer (v. 8) e ter prestígio e autoridade aos olhos do povo (v. 6s). Os discípulos, ao contrário, devem ter ódio a títulos e funções honoríficas, pois o maior entre eles é aquele que serve os menores (v. 8-11); este é o verdadeiro caminho para a grandeza (v. 12). — Cristo descreve graficamente todos estes vícios por exemplos e semelhanças.

1) Um retrato dos fariseus (v. 2-7). — V. 2ss. Jesus começa de forma abrupta: Sobre a cátedra de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus, i. e., os sucessores de Moisés na interpretação da Lei são os escribas e os fariseus (gr. aor. ἐκάθισαν com força de presente, κάθηται, ou de perfeito, κεκαθίκασι) [1]; observai, pois, e fazei tudo o que eles vos disserem, quando reiteram a doutrina de Moisés e da Lei, mas não imiteis as suas ações, porque dizem e não fazem, i. e., ensinam uma coisa, e praticam outra.

Com efeito, atam ônus etc. A metáfora é tomada das cargas de viagem, que costumavam ser amarradas antes de serem impostas e levadas sobre jumentos ou sobre os ombros. Os ônus impossíveis de levar (lt. importabilia, gr. δυσβάστακτα = difíceis de portar, muito pesadas) são os inúmeros preceitos ensinados pelos escribas como interpretações e complementos da Lei, já insuportável em si mesma pela multiplicidade de precrições (cf. At 15,10). — Mas nem com um dedo as querem mover, i. e., sempre que podem, deixam de observar o que eles mesmos impõem (cf. Lc 11,46: Nem com um dedo vosso lhe tocais [lt. non tangitis, gr. οὐ προσψαύετε] a carga).

V. 5. Além disso, põe-se a descoberto seu desejo de aparecer: Trazem mais largas filactérias (φυλακτήρια). 

As filactérias eram certas membrânulas de pergaminho nas quais os judeus, interpretando Ex 13,9; Dt 6,8 e 11,18 ao pé da letra, escreviam o decálogo de Moisés (em particular, quatro perícopas: Ex 13,1-10; 13,11-16; Dt 6,4-9; 11,13-21); guardadas em pequenas tecas, eram atadas ao braço esquerdo por fitas ou tiras de couro. Os israelitas piedosos as usavam continuamente, sobretudo nos momentos de orações (cf. Flávio Josefo, Ant. IV 8, 13). — O nome (lt. tutamentum, gr. φυλακτήριον, de φυλάσσω = guardar, proteger) designa uma espécie de amuleto. “Eram usadas para conservar a memória da Lei, ou porque eram consideradas amuletos por alguns” (Zorell). Em aramaico chamavam-se tephillîn (preces?).

Os fariseus e os escribas, ao que parece, usavam filactérias (a cápsula e as fitas) maiores e mais visíveis que as dos outros, para que se visse melhor sua devoção e fidelidade à Lei.

Engrandecem (lt. magnificant, gr. μεγαλύνουσιν), i. e., trazem mais largas fímbrias (gr. κράσπεδα = extremidades), i. e., as franjas (hebr. צִיצִית) que pendiam das quatro pontas do pálio (cf. Nm 15,38; Dt 22,12) e eram compostas de três fios brancos atados por um fita cor de jacinto (parece que Jesus também as usava, cf. Mt 9,20).

V. 6-7 (cf. Mc 12,38s; Lc 20,46; 11,43). Outros exemplos de vaidade. Os fariseus ambicionam os primeiros lugares nos banquetes e usurpam as primeiras cadeiras nas sinagogas, a fim de parecerem melhores que os outros; exigem de todos ser saudados em público com alguma fórmula especial e gostam de ser chamados rabi pelos discípulos.

Os judeus costumavam dirigir-se aos seus doutores com o título de rabi (hebr. רַבִּי, meu senhor! meu mestre!); antes de Hillel (c. 20 a.C.), não parece que fosse habitual, embora do título Rab (senhor, mestre) haja notícia desde pelo menos o séc. II a.C.; na época de Cristo, começava a tornar-se comum, de modo que, na virada do séc. I, estava já na boca de todos. Os mestres mais ilustres eram chamados pais.

As passagens paralelas de Mc. (v. 40) e Lc. (v. 47) acrescentam: Guardai-vos dos escribas… que devoram as casas das viúvas sob o pretexto de longas orações (Lc.: simulando longas orações), i. e., fazem orações prolixas para conseguir, sob a aparência de religião, aproveitar-se com mais facilidade dos haveres das viúvas. Em gr., são dois vícios distintos: espoliar as casas das viúvas e simular longas orações.

2) Não sejam assim os discípulos (v. 8-12). Mas vós não vos façais chamar rabi etc. Neste mandamento, assim como nos que seguem, deve-se atender mais à finalidade que às palavras. Com efeito, o que Cristo deseja é precaver os discípulos contra a vanglória anteriormente descrita, que era o motivo por que os fariseus desejavam ser chamados e se chamavam entre si rabi, pais (a saber, na doutrina: cf. 2Rs 2,12) e mestres (gr. καθηγηταί = guias, condutores). Trata-se, portanto, de um problema de motivação ou intenção, não de nomes ou títulos.

Referências

  1. Este parece ser o sentido da locução (cf. Pirke Aboth I 1). Escritores de época mais tardia falam de uma cadeira de honra nas sinagogas reservada ao que presidia às cerimônias, a qual se chamaria “cátedra de Moisés”. Jesus fala pois em sentido próprio, não metafórico.
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