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O que pensar daquelas famílias que optam por um estilo de vida naturista, ou seja, que decidem viver o nudismo dentro de casa? Antes de responder a esta pergunta, é preciso saber em primeiro lugar o que se entende por naturismo.

Com essa expressão costuma-se designar a “filosofia” segundo a qual o homem deve viver da forma mais “natural” possível, de modo a rejeitar tudo o que é artificial e produto da cultura humana. Desse ponto de vista, não só a ideia de pudor e modéstia como também as roupas com que nos cobrimos têm de ser abandonadas e abolidas, uma vez que são contrárias ao “estado natural” em que o homem nasce, ou seja, antes de ser “moldado” pela sociedade.

A inspiração remota do naturismo pode ser encontrada nas ideias morais de um dos principais representantes da “ilustração” francesa, Jean-Jacques Rousseau. Segundo ele, o ser humano nasceria bom e inocente por natureza, sendo a sociedade — ou o “sistema”, de acordo com o jargão moderno — o grande responsável por depravá-lo e corromper-lhe o espírito.

Ora, se o homem nasce dotado de uma bondade inata, que se vai perdendo à medida que a civilização o influencia e absorve, o único critério moral de suas ações é obedecer ao que lhe dita a natureza, sem dar atenção às instituições e costumes humanos [1].

Isso, é óbvio, não corresponde à realidade dos fatos e é desmentido taxativamente pela história dos povos. Ainda que de formas e em graus diversos, não há comunidade humana que não considere o pudor e o recato como valores mínimos e indispensáveis para o convívio social; são, numa palavra, “o pressentimento”, nascido com o despertar da consciência, “duma dignidade espiritual própria do homem” [2].

A razão disto, como nos revela a fé cristã, é que o ser humano não vem ao mundo em seu estado natural. Marcado pelo pecado original, todo homem nasce com uma natureza, se não substancialmente corrompida, ao menos debilitada, sujeita ao pecado, à dor, às enfermidades e à morte. Embora Deus nos tenha criado para o amor, todos levamos na alma uma ferida, que nos inclina ao pecado e, portanto, ao egoísmo, cuja manifestação mais palpável e, por assim dizer, mais “material” é a concupiscência [3].

A concupiscência consiste numa desordem apetitiva que nos leva, não a amar os demais, mas a usá-los, tomando-os, não com fins em si mesmos, mas como objetos da nossa satisfação pessoal. Essa tendência enfermiça nos afeta com tal intensidade que, sem o auxílio sobrenatural da graça, opera em nossos membros como uma “lei” (cf. Rm 7, 23) estruturante de nossa conduta ao modo de desordem e insubmissão ao império da razão [4].

É por isso que em todas as sociedades humanas encontram-se formas, ainda que diversificadas, de preservar a integridade e a dignidade do corpo, a fim de regular a relação entre os sexos e o exercício da sexualidade [5]. O pudor, nesse sentido, pode ser visto como um “sentimento” natural que surge diante da necessidade de impor um limite ao uso desordenado e socialmente nocivo das faculdades sexuais a que todos estamos inclinados.

Mas se a história e etnografia são tão contundentes em pôr por terra as pretensões do naturismo, por que há famílias hoje em dia que insistem em adotá-lo dentro de casa, e às vezes até fora dela?

Sem levar em conta os ingênuos, que aderem a semelhantes modismos por falta de reflexão, não podemos deixar de reconhecer que boa parte dos lares adeptos do naturismo foi contaminada, em maior ou menor medida, por ideias de corte ou inspiração marxista.

O naturismo, ao menos dessa perspectiva, não é mais do que um dos muitos instrumentos com que ideólogos anticristãos pretendem impor um novo modelo antropológico que desmonte a instituição familiar, entendida como protótipo e germe das desigualdades sociais e frente única de resistência à vontade absoluta do Estado.

Isso não significa, é claro, que em toda família naturista se pratiquem, necessariamente, imoralidades sexuais, como o incesto, por exemplo. Em todo caso, seria uma grande ingenuidade crer que em um lar onde não se guarde o devido recato e respeito à intimidade, tanto alheia como própria, não haja uma atmosfera malsã e tendente ao erotismo.

O naturismo, além disso, se apresenta como uma “filosofia” de caráter reducionista, já que, negando a existência de valores transcendentes e espirituais, reduz o ser humano ao corpo, ao qual atribui o primado da expressão do amor e dos afetos. Ignora, portanto, que o nosso olhar, marcado pelo pecado original, dificilmente consegue remeter-se à beleza e às virtudes da alma ao centrar-se quase exclusivamente nas formas do corpo.

Expor as crianças a um ambiente como o promovido pelo naturismo significa não apenas faltar com o grave dever de educar que compete aos pais, mas também deformá-las e impedi-las de desenvolver aquele casto respeito pelo corpo humano sem o qual é impossível, ao fim e ao cabo, despertar para o verdadeiro respeito pela pessoa humana [6].

Se hoje em dia investe-se tanto em fazer desaparecer o pudor, o recato e a modéstia, inclusive na intimidade das famílias, é precisamente porque tais valores, nas palavras do Catecismo da Igreja Católica, são a nossa primeira salvaguarda contra as solicitações da moda e a pressão das ideologias dominantes [7].

Referências

  1. Cf., por exemplo, J.-J. Rousseau, Emílio, l. 3, t. 3: “Suivez toujours les indications de la nature”; v. G. Fraile, Historia de la Filosofía. Madrid: BAC, 1966, vol. 3, p. 935; J. Luiz Fernández; M. Jesús Soto, Historia de la Filosofía Moderna. 2.ª ed., Pamplona: EUNSA, 2006, p. 244.
  2. Catecismo da Igreja Católica, n. 2524.
  3. Cf. Martín F. Echavarría, La Praxis de La Psicología y sus Niveles Epistemológicos según Santo Tomás de Aquino. Girona: Documenta Universitaria, 2005, p. 487.
  4. Cf. Id., p. 488.
  5. Cf. P. Trevijano, Orientación Cristiana de la Sexualidad. Madrid: Voz de Papel, 2009, p. 61.
  6. Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2524.
  7. Cf. Id., n. 2523.
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