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Homilia Dominical
1 Set 2017 - 25:45

Quem não sofre, também não ama

No Evangelho deste domingo, a Igreja dá continuidade à meditação sobre a profissão de Fé de São Pedro, agora salientando as palavras duríssimas de Jesus ao príncipe dos Apóstolos: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!” Como é que São Pedro pode ser elogiado por sua fé para logo em seguida sofrer a mais dura reprimenda que Jesus já fez a alguém?
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Homilia Dominical - 1 Set 2017 - 25:45

Quem não sofre, também não ama

No Evangelho deste domingo, a Igreja dá continuidade à meditação sobre a profissão de Fé de São Pedro, agora salientando as palavras duríssimas de Jesus ao príncipe dos Apóstolos: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!” Como é que São Pedro pode ser elogiado por sua fé para logo em seguida sofrer a mais dura reprimenda que Jesus já fez a alguém?
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt
16, 21-27)

Naquele tempo, Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia.

Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: "Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!"

Jesus, porém, voltou-se para Pedro e disse: "Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!"

Então Jesus disse aos discípulos: "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la.

De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida? Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta".

No Evangelho de domingo passado, Jesus elogia a fé sobrenatural de São Pedro e, como sinal de aprovação, concede-lhe as chaves do Reino dos Céus para que conduza o rebanho de Deus à porta da salvação. Neste domingo, porém, a Igreja recorda o amor desordenado do mesmíssimo discípulo, que, apegado às coisas desta vida, tenta dissuadir Jesus do cumprimento de sua paixão e morte no calvário, o que lhe rende, em contraste com o elogio que ouvira anteriormente, as palavras mais duras de todo o discurso de Cristo. "Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!", declara o Senhor a São Pedro.

Esse episódio da vida do primeiro Papa da Igreja ilustra bem a duplicidade de intenção que pode existir dentro da alma de um católico: por um lado, professa uma fé reta, enraizada na Tradição, nas Sagradas Escrituras e no Magistério; por outro, há nele uma afeição ainda demasiada às criaturas, pelo que não consegue dar passos generosos a caminho do sacrifício por amor a Deus. O amor revela-se imaturo porque não está formado pela santidade, ou seja, pela disposição de tudo vender e abandonar para seguir a Cristo e, junto com Ele, abraçar a cruz da redenção. Neste caso, o católico torna-se como São Pedro antes de sua grande conversão: na fé, pedra de edificação da Igreja, contra a qual as portas do inferno não prevalecerão; no amor, porém, pedra de tropeço, porque não ama a partir do coração de Deus, mas de maneira mundana.

Como deve ser, portanto, o amor de um católico? Essa é a pergunta fundamental do Evangelho deste domingo.

Em primeiro lugar, Jesus esclarece que o amor nasce de uma atitude de renúncia concreta. O católico precisa colocar-se atrás de Jesus, isto é, renunciar a si mesmo, tomar a cruz e segui-lO, a fim de alcançar a verdadeira salvação, pois aquele "que quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la."

Pedro hesitou diante do anúncio da Paixão porque ainda vivia de acordo com a lei da carne: "Foge da dor, busca o prazer". Trata-se da lei do mundo, da lei dos animais. Para um charreteiro guiar um cavalo, por exemplo, ele pode usar tanto a força do chicote como a sedução do alimento: este move o animal pelo prazer; aquele, pelo medo da dor. Mas em nenhum dos casos o cavalo será movido por amor ao seu dono. De igual modo, também os cristãos agem como animais, guiados pelas paixões, quando decidem não sofrer, quando decidem fugir das cruzes do dia a dia. A estes cristãos, Deus reserva as mesmas palavras de Cristo a São Pedro: "Seus pensamentos não são os meus pensamentos" (Is 55, 8).

O cristianismo é, sim, a religião do amor, mas de um amor que brota das chagas de Cristo na cruz. É no calvário que se encontra a maior lição de generosidade e caridade fraterna; por detrás das feridas de Jesus, havia um coração ardente em chamas que transformava toda aquela dor em alegria pela salvação das almas. Essas mesmas chamas devem incendiar o coração dos cristãos, a fim de que repitam o mesmo discurso do profeta Jeremias na primeira leitura deste domingo: "Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo" (Jr 20, 9), e sigam o conselho de São Paulo aos romanos: "Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito" (12, 2).

A meditação frequente da paixão de Cristo é um meio eficaz de se adquirir uma gratidão sobrenatural pelo amor de Deus como também a disposição para abraçar a cruz. As famílias, que se acham tão feridas por acusações constantes, deveriam ser as primeiras a imitar o exemplo do crucificado. Se pai, mãe e filhos começarem a meditar juntos sobre o sacrifício de Jesus, o próprio Senhor transformá-los-á, por meio dos sacramentos, em verdadeiros sacrários de santidade. Isso não é idealismo, mas promessa divina.

As contrariedades do dia a dia são ocasiões constantes para o exercício do amor a Deus. Nas famílias, por conseguinte, o bom católico pode tomar a cruz da paciência, da aceitação das pequenas injustiças domésticas, buscando perdoar em vez de vingar-se. As pessoas que não se dispõem a isso, porém, estão fadadas a terminarem "cheias de razão", mas sem qualquer família. Ora, a luz de Cristo deve irradiar no coração cristão a partir do amor ao próximo, da tomada generosa da cruz por meio de uma mudança completa de mentalidade, que não se conforma com as leis do mundo, mas somente com as leis de Deus.

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