Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 12, 44-50)
Naquele tempo: Jesus exclamou em alta voz: “Quem crê em mim, não é em mim que crê, mas naquele que me enviou. Quem me vê, vê aquele que me enviou. Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas. Se alguém ouvir as minhas palavras e não as observar, eu não o julgo, porque eu não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo. Quem me rejeita e não aceita as minhas palavras já tem o seu juiz: a palavra que eu falei o julgará no último dia. Porque eu não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, ele é quem me ordenou o que eu devia dizer e falar. E eu sei que o seu mandamento é vida eterna. Portanto, o que eu digo, eu o digo conforme o Pai me falou”.
Celebramos hoje, com grande alegria, a Memória de Santa Catarina de Sena, uma das grandes doutoras da Igreja. Nascida como Catarina Benincasa, na então República de Sena, ela viveu no século XIV, um período particularmente conturbado para a Igreja, marcado por crises profundas, como o afastamento dos Papas de Roma, que passaram a residir em Avignon.
Nesse contexto difícil, Deus suscitou uma simples leiga para uma missão extraordinária: santificar-se e, por meio de sua santidade, contribuir para a renovação da Igreja. Catarina não era freira, embora muitas vezes seja representada assim. Na realidade, ela viveu como leiga consagrada, tendo feito voto de virgindade e ingressado numa confraria ligada aos dominicanos, conhecida como Mantellate. Era, portanto, uma mulher inserida no mundo, mas profundamente unida a Deus.
E é justamente nisso que está a grandeza de sua vida: ela nos ensina como viver, ao mesmo tempo, uma vida profundamente contemplativa e intensamente apostólica. Sua união com Deus não a afastou do mundo, mas a impulsionou a agir. Prova disso é que, por meio de suas cartas, ela conseguiu influenciar diretamente o Papa Gregório XI, convencendo-o a retornar de Avignon para Roma — algo impressionante, sobretudo considerando que se tratava de uma leiga com pouca instrução formal, mas cheia da sabedoria de Deus.
Para compreender o segredo espiritual de Santa Catarina, é fundamental recordarmos um ensinamento que ela mesma transmitiu ao seu confessor, o bem-aventurado Raimundo de Cápua. Ela dizia que, desde jovem, aprendeu a construir dentro de si uma “cela” da qual jamais pudesse escapar. Essa expressão pode parecer estranha à primeira vista, mas, na vida monacal, “cela” não significa prisão, e sim o quarto dos monges — em sentido figurado, o lugar do recolhimento, do encontro com Deus.
Assim, Santa Catarina nos ensina que essa cela deve ser construída dentro do nosso próprio coração. Em meio às agitações, confusões e distrações do mundo, somos chamados a criar dentro de nós um espaço de silêncio e intimidade com Deus, onde possamos nos recolher a qualquer momento.
Mas como fazer isso na prática? O primeiro passo é levarmos uma vida de oração concreta. Não é possível vivermos dispersos o tempo todo e, ao mesmo tempo, crescermos espiritualmente. É necessário reservar um tempo do dia — de preferência pela manhã, quando a mente ainda está mais tranquila — para nos recolhermos e estarmos com Jesus. Esse momento inicial é essencial, pois é nele que começamos a construir essa “cela interior”.
Depois, essa experiência se prolonga ao longo do dia. Mesmo no meio das atividades, das pessoas e das preocupações, nós podemos recordar o lugar interior onde nos encontramos com Deus. Assim, com o tempo, essa prática irá transformar as nossas vidas: as virtudes começarão a surgir, e iremos nos tornar mais pacientes, puros e generosos.
A verdadeira prova de que a oração é autêntica está justamente nessa mudança concreta de vida. E dessa transformação nasce também o ardor apostólico: o desejo de levar outras almas para Deus. Foi assim com Santa Catarina: sua vida interior transbordou em caridade e ardor missionário, influenciando não apenas pessoas ao seu redor, mas a própria história da Igreja.
Por isso, somos chamados a aprender com essa grande doutora, construindo dentro de nós essa cela interior, onde possamos estar com Jesus, com Nossa Senhora, com os santos e anjos, e ali encontrarmos Aquele que verdadeiramente habita em nossa alma. Desse modo, descobrindo a presença de Deus, seremos capazes de viver no mundo sem nos perder nele, e de irradiar a caridade de Cristo aos outros.



























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