Sem a graça, não há amor
CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®

Sem a graça, não há amor

Privado do auxílio sobrenatural de Deus, o homem é moralmente impotente tanto para observar por longo tempo os Mandamentos da Lei quanto para realizar qualquer obra meritória da vida eterna.

Texto do episódio

Texto do episódio

imprimir

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 6,6-11)

Aconteceu num dia de sábado que Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Aí havia um homem cuja mão direita era seca. Os mestres da Lei e os fariseus o observavam, para ver se Jesus iria curá-lo em dia de sábado, e assim encontrarem motivo para acusá-lo. Jesus, porém, conhecendo seus pensamentos, disse ao homem da mão seca: “Levanta-te, e fica aqui no meio”. Ele se levantou, e ficou de pé. Disse-lhes Jesus: “Eu vos pergunto: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?”

Então Jesus olhou para todos os que estavam ao seu redor, e disse ao homem: “Estende a tua mão”. O homem assim o fez e sua mão ficou curada. Eles ficaram com muita raiva, e começaram a discutir entre si sobre o que poderiam fazer contra Jesus.

I. Reflexão

No Evangelho de hoje, Jesus continua em controvérsia a respeito do sábado. Na realidade, quem continua o debate são os fariseus e mestres da Lei, e a conclusão do Evangelho de hoje é que eles se enchem de raiva e começam a discutir o que fazer contra Jesus. Ora, qual é a ocasião desta nova controvérsia? É o fato de que Jesus, como de costume, entrara para ensinar na sinagoga, onde havia um homem cuja mão direita era seca. Desta vez, é Jesus quem toma a iniciativa: chama o homem, manda-lhe que se levante e fique no meio; em seguida, questiona todos os presentes se é permitido ou não fazer o bem em dia de sábado. Jesus então pede ao homem: Estende a tua mão, e a mão dele fica curada. Eis o resumo do Evangelho, mas o que ele quer dizer? A primeira coisa que temos de entender é o seu significado histórico. Ora, historicamente, Deus tinha dado a Lei ao povo escolhido, para que os hebreus, num processo de conversão quase educacional, se fosse preparando interiormente para amar cada vez mais e poder ter fé quando Cristo viesse.

Acontece que, por egoísmo dos homens e por astúcia de Satanás, todo o sistema que Deus instituíra para a salvação de Israel, como meio de educá-los no amor, foi transformado pelos fariseus e mestres da Lei num sistema de correntes e cadeias, no qual era necessário observar inúmeros preceitos, enquanto o essencial e mais importante, o amor, era deixado de lado. Foi isso que levou Jesus a ser tão intransigente com eles. Alguém poderia perguntar por que o Senhor quis meter-se com homens “piedosos”, dedicados apenas à religião, e não com os opressores e poderosos da época, como Pilatos, o imperador de Roma etc. A razão disto é que eram justamente os fariseus e mestres da Lei que paralisavam a única coisa que era capaz de salvar o povo. Não se trata aqui de menosprezar o mal causado por opressores políticos ou por verdadeiros sistemas de pecado, vícios institucionalizados e normalizados, como os que havia entre os pagãos, sobretudo no campo da sexualidade. Sim, tudo isso é um problema, mas que pode ser curado e tem cura: é abrir-se à graça e à fé em Jesus Cristo. O problema maior, no entanto, era que os fariseus e mestres da Lei impediam justamente isso. Imaginemos que Jesus venha ao mundo e encontre doenças espirituais enormes e terríveis. Ele tem o remédio, mas acontece que os mestres da Lei e os fariseus estão impedindo a distribuição dele, ou seja, dificultando que as almas tenham acesso à única coisa que pode curá-las. 

Eis por que o grande obstáculo que Jesus tem de enfrentar é a oposição dos chefes do povo. Por quê? Porque os mestres da Lei e os fariseus transformaram o sistema de leis que Deus tinha inspirado com o fim de dispor o coração do povo à fé e ao amor num sistema de prescrições autorreferenciais, como se o homem, apenas com força de vontade, pudesse ser cumpridor fidelíssimo, até o fim da vida, de todos os preceitos da lei, e que era esta sua obediência, trabalhada a duras penas, que lhe garantiria a própria salvação. Mas na cura do homem de mão seca Jesus mostra-nos claramente que o sistema criado pelos fariseus e mestres da Lei é um sistema para e de paralíticos. Afinal, o homem, privado da graça, está com a mão seca, quer dizer, é incapaz de realizar obras meritórias. Sua alma está seca, paralisada, atrofiada. Eis o que estava acontecendo com o coração das pessoas: eram incapazes de amar, de perdoar, de ser misericordiosas, de abrir-se à graça de Deus, a única que lhes poderia dar essa capacidade. 

Como os santos são capazes de amar e perdoar tanto? Como Santa Rita foi capaz de perdoar aos assassinos do marido? Como Santa Mônica foi capaz de ter paciência até a conversão de Santo Agostinho? Como São Luís Gonzaga foi capaz de tamanha castidade e pureza? Os santos são capazes disso porque receberam a graça de Deus, estão abertos a ela e a Jesus. Se São Luís Gonzaga quisesse ser casto à força exclusivamente de leis férreas, só com suas forças humanas, ele até poderia alcançar certo grau de castidade natural, mas sua virtude não seria profunda, perfeita, perene e autêntica. É a graça de Deus que nos torna capazes de amar. Tudo o que pretendemos fazer com nossas próprias forças, desprezando a graça divina, transforma-se em algo instável e, em última análise, acaba tornando-se um fardo.

Façamos mais uma comparação. Imaginemos um homem casado. Ele sabe que deve ser fiel à esposa, mas não tem amor algum por ela. O coração dele é paralítico, como a mão atrofiada daquele homem. Todas as outras mulheres, mais bonitas, elegantes e sedutoras, serão atraentes aos olhos dele, por isso o sujeito vai passar a vida inteira atormentado, dizendo-se sem parar: “Não! Eu tenho de ser fiel à minha mulher. Não posso pensar naquela lá, não posso pensar naquela lá, não posso pensar naquela lá, não posso pensar naquela lá”... Ora, isso vira opressão, vira neurose. E se esse mesmo homem, querendo ser fiel à esposa, a amasse profundamente, com ternura, com carinho, com afeto, com aquele amor que verdadeiramente enleva? Então lhe seria leve observar a fidelidade matrimonial: para ele, na verdade, seria uma maravilha!

É isso que Jesus nos está tentando ensinar. Os fariseus e mestres da Lei transformaram tudo o que Deus ensinara numa espécie de neurose opressora, mas Jesus nos diz hoje: “Pára com isso! Estende a mão e deixa-me curar-te, para que entendas por fim que o amor transforma tudo. Então poderás observar todas as leis de forma leve”. Jesus não está jogando fora as leis, mas dizendo qual é verdadeiramente a razão de ser delas — ter um coração livre para fazer o bem e amar. Que Deus nos cure dessa mão atrofiada, que não é capaz de realizar obras de amor, obras divinas, obras de misericórdia. 

II. Comentário exegético

A cura do homem de mão seca (cf. Mt 12,9-13; Mc 3,1-5; Lc 6,6-10).a) As circunstâncias de lugar e tempo são indicadas apenas de modo geral pelos evangelistas: Aconteceu num dia de sábado que Jesus entrou na sinagoga (em Mt.: na sinagoga deles, i.e. dos judeus ou, talvez, dos habitantes de Cafarnaum, entre os quais ele costumava demorar-se) e começou a ensinar.

b) O milagre. — V. 1-4. Achava-se ali um homem que tinha a mão (direita, acrescenta Lc.) seca (ἐξηραμμένην), i.e. tábida, sem suco vital ou, como se diz em pt., atrofiada [1]. Ora, como Jesus tivesse feito milagres outras vezes também em dia de sábado, por ser maior nesse dia o afluxo de pessoas na sinagoga, por isso os escribas e os fariseus o observavam, para ver se iria curá-lo em dia de sábado. Jesus porém disse ao doente: Levanta-te e fica aqui no meio, e em seguida interrogou seus inimigos: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca? É o modo hebraico de dizer: “É lícito ou não fazer o bem em dia de sábado? É lícito salvar alguém da morte ou de um grave perigo?”

N.B. — A casuística dos rabinos acerca das curas e cuidados médicos em dia de sábado regia-se por três regras: 1) havendo perigo de morte, era lícito administrar e tomar qualquer remédio apto; 2) tratando-se de qualquer outra enfermidade, era lícito usar o que não tinha função exclusivamente medicinal apenas na medida necessária ao cuidado e à nutrição física de um homem saudável; 3) de resto, era proibido qualquer ação, ainda que mínima, cujo fim único fosse a cura da doença. Ora, enfermidades como uma atrofia muscular não representavam perigo de morte, e a ação de Cristo dirigia-se unicamente à cura da doença; daí a indignação farisaica dos judeus.

Em Mt., reforça-se a pergunta com um argumento tomado de um costume comum e reconhecido: se a ovelha de alguém cair num poço em dia de sábado, quem de vós não a irá procurar e retirar? Ora, não vale o homem muito mais que uma ovelha? [4] Mas eles se calavam, por um lado, convencidos da verdade dos fatos e, ademais, pela sua atitude habitual; coagidos, por outro, pela interpretação estrita de suas tradições.

V. 5. Então, lan­çando (περιβλεψάμενος = lit. olhando em derredor, cf. Mc 3,34; 5,22; 9,8; 10,23; 11,11) um olhar indignado, i.e. com rosto severo, sobre eles, mas ao mesmo tempo contristado (συλλυπούμενος = condoído, apiedado [2], cf. Rm 9,2) interiormente com a dureza (lt. cæcitate, gr. πωρώσις = ato de endurecer, ou vício de quem tem a mente calejada, dura, embotada, i.e. cega [3]) de seus corações, i.e. com sua dureza e obstinação, diz ao homem: Estende tua mão! Ele estendeu-a e a mão foi curada.

c) Os fariseus decidem matar Jesus (cf. Mt 12,14; Mc 3,6; Lc 6,11). — Vê-se assim que a prática e a doutrina de Jesus acerca da lei sabática opõem-se pelo diâmetro à prática e à doutrina dos fariseus. São, por assim dizer, duas concepções diferentes sobre a natureza da religião. Consequentemente, Jesus tornou-se alvo do ódio e da inveja deles. Saindo pois dali os fariseus, ficaram com muita raiva (acrescenta Lc.: gr. ἀνοία, lt. insipientia = lit., fúria, ira insana), i.e. ficaram como loucos e dementes pela raiva, e começaram a discutir entre si sobre o que poderiam fazer contra Jesus. Mt. e Mc. dizem explicitamente qual foi o desfecho da discussão: e deliberaram logo com os herodianos (que tinham muita influência junto de Herodes Antipas) como o haviam de prender.

Referências

  1. O evangelho apócrifo dos hebreus, ou dos nazarenos, põe na boca deste homem: “Eu era pedreiro e sustentava-me com o trabalho de minhas mãos; imploro-te, Jesus, que me devolvas a saúde, para que eu não fique a mendigar comida” (*A. Hilgenfeld, Novum Testamentum…, Lipsiæ, T. O. Weigel, 1884,2 fasc. IV, p. 15, l. 32ss; cf. São Jerônimo, in Matth. 12,10).
  2. *S. T. Bloomfield, Recensio… Londres, C. & J. Rivington, 1826, vol. 2, p. 17s, n. 6: “Συλλυπούμενος não tem aqui o mesmo sentido que συμπάσχων [= lit. compadecer-se]. Significa mais comovido (como no Sl 68,21), contristado… A sensação era uma mistura de raiva por sua [dos fariseus] irremediável malícia e incorrigível maldade, e de comiseração pelas calamidades que desta forma acabariam atraindo sobre si”.
  3. Id., p. 18, n. 7: “πωρώσει, i.e. com os seus corações calosos e contumazes. Πωρώσει significa propriamente dureza, como a que se contrai numa pele calejada; πωροῦσθαι significa calejar [lt. occallescere]. Estas palavras se aplicam tanto ao embotamento do intelecto quanto à depravação ou perversidade mental, como aqui”.
  4. Maimônides, in Schabb. 25, apud *J. Lightfoot, Horæ…, Oxford University Press, 1859, vol. 2, p. 201: “Se um animal cair num poço ou num pântano, que [o dono] lhe dê de comer ali mesmo, se puder; se não, traga panos e palha e sustente o animal; se puder sair dali, saia”.
Texto do episódioComentários dos alunos

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.