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Texto do episódio

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 6,6-11)

Aconteceu num dia de sábado que Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Aí havia um homem cuja mão direita era seca. Os mestres da Lei e os fariseus o observavam, para ver se Jesus iria curá-lo em dia de sábado, e assim encontrarem motivo para acusá-lo. Jesus, porém, conhecendo seus pensamentos, disse ao homem da mão seca: “Levanta-te, e fica aqui no meio”. Ele se levantou, e ficou de pé. Disse-lhes Jesus: “Eu vos pergunto: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?”

Então Jesus olhou para todos os que estavam ao seu redor, e disse ao homem: “Estende a tua mão”. O homem assim o fez e sua mão ficou curada. Eles ficaram com muita raiva, e começaram a discutir entre si sobre o que poderiam fazer contra Jesus.

I. Reflexão

No Evangelho de hoje, Jesus continua em controvérsia a respeito do sábado. Na realidade, quem continua o debate são os fariseus e mestres da Lei, e a conclusão do Evangelho de hoje é que eles se enchem de raiva e começam a discutir o que fazer contra Jesus. Ora, qual é a ocasião desta nova controvérsia? É o fato de que Jesus, como de costume, entrara para ensinar na sinagoga, onde havia um homem cuja mão direita era seca. Desta vez, é Jesus quem toma a iniciativa: chama o homem, manda-lhe que se levante e fique no meio; em seguida, questiona todos os presentes se é permitido ou não fazer o bem em dia de sábado. Jesus então pede ao homem: Estende a tua mão, e a mão dele fica curada. Eis o resumo do Evangelho, mas o que ele quer dizer? A primeira coisa que temos de entender é o seu significado histórico. Ora, historicamente, Deus tinha dado a Lei ao povo escolhido, para que os hebreus, num processo de conversão quase educacional, se fosse preparando interiormente para amar cada vez mais e poder ter fé quando Cristo viesse.

Acontece que, por egoísmo dos homens e por astúcia de Satanás, todo o sistema que Deus instituíra para a salvação de Israel, como meio de educá-los no amor, foi transformado pelos fariseus e mestres da Lei num sistema de correntes e cadeias, no qual era necessário observar inúmeros preceitos, enquanto o essencial e mais importante, o amor, era deixado de lado. Foi isso que levou Jesus a ser tão intransigente com eles. Alguém poderia perguntar por que o Senhor quis meter-se com homens “piedosos”, dedicados apenas à religião, e não com os opressores e poderosos da época, como Pilatos, o imperador de Roma etc. A razão disto é que eram justamente os fariseus e mestres da Lei que paralisavam a única coisa que era capaz de salvar o povo. Não se trata aqui de menosprezar o mal causado por opressores políticos ou por verdadeiros sistemas de pecado, vícios institucionalizados e normalizados, como os que havia entre os pagãos, sobretudo no campo da sexualidade. Sim, tudo isso é um problema, mas que pode ser curado e tem cura: é abrir-se à graça e à fé em Jesus Cristo. O problema maior, no entanto, era que os fariseus e mestres da Lei impediam justamente isso. Imaginemos que Jesus venha ao mundo e encontre doenças espirituais enormes e terríveis. Ele tem o remédio, mas acontece que os mestres da Lei e os fariseus estão impedindo a distribuição dele, ou seja, dificultando que as almas tenham acesso à única coisa que pode curá-las. 

Eis por que o grande obstáculo que Jesus tem de enfrentar é a oposição dos chefes do povo. Por quê? Porque os mestres da Lei e os fariseus transformaram o sistema de leis que Deus tinha inspirado com o fim de dispor o coração do povo à fé e ao amor num sistema de prescrições autorreferenciais, como se o homem, apenas com força de vontade, pudesse ser cumpridor fidelíssimo, até o fim da vida, de todos os preceitos da lei, e que era esta sua obediência, trabalhada a duras penas, que lhe garantiria a própria salvação. Mas na cura do homem de mão seca Jesus mostra-nos claramente que o sistema criado pelos fariseus e mestres da Lei é um sistema para e de paralíticos. Afinal, o homem, privado da graça, está com a mão seca, quer dizer, é incapaz de realizar obras meritórias. Sua alma está seca, paralisada, atrofiada. Eis o que estava acontecendo com o coração das pessoas: eram incapazes de amar, de perdoar, de ser misericordiosas, de abrir-se à graça de Deus, a única que lhes poderia dar essa capacidade. 

Como os santos são capazes de amar e perdoar tanto? Como Santa Rita foi capaz de perdoar aos assassinos do marido? Como Santa Mônica foi capaz de ter paciência até a conversão de Santo Agostinho? Como São Luís Gonzaga foi capaz de tamanha castidade e pureza? Os santos são capazes disso porque receberam a graça de Deus, estão abertos a ela e a Jesus. Se São Luís Gonzaga quisesse ser casto à força exclusivamente de leis férreas, só com suas forças humanas, ele até poderia alcançar certo grau de castidade natural, mas sua virtude não seria profunda, perfeita, perene e autêntica. É a graça de Deus que nos torna capazes de amar. Tudo o que pretendemos fazer com nossas próprias forças, desprezando a graça divina, transforma-se em algo instável e, em última análise, acaba tornando-se um fardo.

Façamos mais uma comparação. Imaginemos um homem casado. Ele sabe que deve ser fiel à esposa, mas não tem amor algum por ela. O coração dele é paralítico, como a mão atrofiada daquele homem. Todas as outras mulheres, mais bonitas, elegantes e sedutoras, serão atraentes aos olhos dele, por isso o sujeito vai passar a vida inteira atormentado, dizendo-se sem parar: “Não! Eu tenho de ser fiel à minha mulher. Não posso pensar naquela lá, não posso pensar naquela lá, não posso pensar naquela lá, não posso pensar naquela lá”... Ora, isso vira opressão, vira neurose. E se esse mesmo homem, querendo ser fiel à esposa, a amasse profundamente, com ternura, com carinho, com afeto, com aquele amor que verdadeiramente enleva? Então lhe seria leve observar a fidelidade matrimonial: para ele, na verdade, seria uma maravilha!

É isso que Jesus nos está tentando ensinar. Os fariseus e mestres da Lei transformaram tudo o que Deus ensinara numa espécie de neurose opressora, mas Jesus nos diz hoje: “Pára com isso! Estende a mão e deixa-me curar-te, para que entendas por fim que o amor transforma tudo. Então poderás observar todas as leis de forma leve”. Jesus não está jogando fora as leis, mas dizendo qual é verdadeiramente a razão de ser delas — ter um coração livre para fazer o bem e amar. Que Deus nos cure dessa mão atrofiada, que não é capaz de realizar obras de amor, obras divinas, obras de misericórdia. 

II. Comentário exegético

A cura do homem de mão seca (cf. Mt 12,9-13; Mc 3,1-5; Lc 6,6-10).a) As circunstâncias de lugar e tempo são indicadas apenas de modo geral pelos evangelistas: Aconteceu num dia de sábado que Jesus entrou na sinagoga (em Mt.: na sinagoga deles, i.e. dos judeus ou, talvez, dos habitantes de Cafarnaum, entre os quais ele costumava demorar-se) e começou a ensinar.

b) O milagre. — V. 1-4. Achava-se ali um homem que tinha a mão (direita, acrescenta Lc.) seca (ἐξηραμμένην), i.e. tábida, sem suco vital ou, como se diz em pt., atrofiada [1]. Ora, como Jesus tivesse feito milagres outras vezes também em dia de sábado, por ser maior nesse dia o afluxo de pessoas na sinagoga, por isso os escribas e os fariseus o observavam, para ver se iria curá-lo em dia de sábado. Jesus porém disse ao doente: Levanta-te e fica aqui no meio, e em seguida interrogou seus inimigos: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca? É o modo hebraico de dizer: “É lícito ou não fazer o bem em dia de sábado? É lícito salvar alguém da morte ou de um grave perigo?”

N.B. — A casuística dos rabinos acerca das curas e cuidados médicos em dia de sábado regia-se por três regras: 1) havendo perigo de morte, era lícito administrar e tomar qualquer remédio apto; 2) tratando-se de qualquer outra enfermidade, era lícito usar o que não tinha função exclusivamente medicinal apenas na medida necessária ao cuidado e à nutrição física de um homem saudável; 3) de resto, era proibido qualquer ação, ainda que mínima, cujo fim único fosse a cura da doença. Ora, enfermidades como uma atrofia muscular não representavam perigo de morte, e a ação de Cristo dirigia-se unicamente à cura da doença; daí a indignação farisaica dos judeus.

Em Mt., reforça-se a pergunta com um argumento tomado de um costume comum e reconhecido: se a ovelha de alguém cair num poço em dia de sábado, quem de vós não a irá procurar e retirar? Ora, não vale o homem muito mais que uma ovelha? [4] Mas eles se calavam, por um lado, convencidos da verdade dos fatos e, ademais, pela sua atitude habitual; coagidos, por outro, pela interpretação estrita de suas tradições.

V. 5. Então, lan­çando (περιβλεψάμενος = lit. olhando em derredor, cf. Mc 3,34; 5,22; 9,8; 10,23; 11,11) um olhar indignado, i.e. com rosto severo, sobre eles, mas ao mesmo tempo contristado (συλλυπούμενος = condoído, apiedado [2], cf. Rm 9,2) interiormente com a dureza (lt. cæcitate, gr. πωρώσις = ato de endurecer, ou vício de quem tem a mente calejada, dura, embotada, i.e. cega [3]) de seus corações, i.e. com sua dureza e obstinação, diz ao homem: Estende tua mão! Ele estendeu-a e a mão foi curada.

c) Os fariseus decidem matar Jesus (cf. Mt 12,14; Mc 3,6; Lc 6,11). — Vê-se assim que a prática e a doutrina de Jesus acerca da lei sabática opõem-se pelo diâmetro à prática e à doutrina dos fariseus. São, por assim dizer, duas concepções diferentes sobre a natureza da religião. Consequentemente, Jesus tornou-se alvo do ódio e da inveja deles. Saindo pois dali os fariseus, ficaram com muita raiva (acrescenta Lc.: gr. ἀνοία, lt. insipientia = lit., fúria, ira insana), i.e. ficaram como loucos e dementes pela raiva, e começaram a discutir entre si sobre o que poderiam fazer contra Jesus. Mt. e Mc. dizem explicitamente qual foi o desfecho da discussão: e deliberaram logo com os herodianos (que tinham muita influência junto de Herodes Antipas) como o haviam de prender.

Referências

  1. O evangelho apócrifo dos hebreus, ou dos nazarenos, põe na boca deste homem: “Eu era pedreiro e sustentava-me com o trabalho de minhas mãos; imploro-te, Jesus, que me devolvas a saúde, para que eu não fique a mendigar comida” (*A. Hilgenfeld, Novum Testamentum…, Lipsiæ, T. O. Weigel, 1884,2 fasc. IV, p. 15, l. 32ss; cf. São Jerônimo, in Matth. 12,10).
  2. *S. T. Bloomfield, Recensio… Londres, C. & J. Rivington, 1826, vol. 2, p. 17s, n. 6: “Συλλυπούμενος não tem aqui o mesmo sentido que συμπάσχων [= lit. compadecer-se]. Significa mais comovido (como no Sl 68,21), contristado… A sensação era uma mistura de raiva por sua [dos fariseus] irremediável malícia e incorrigível maldade, e de comiseração pelas calamidades que desta forma acabariam atraindo sobre si”.
  3. Id., p. 18, n. 7: “πωρώσει, i.e. com os seus corações calosos e contumazes. Πωρώσει significa propriamente dureza, como a que se contrai numa pele calejada; πωροῦσθαι significa calejar [lt. occallescere]. Estas palavras se aplicam tanto ao embotamento do intelecto quanto à depravação ou perversidade mental, como aqui”.
  4. Maimônides, in Schabb. 25, apud *J. Lightfoot, Horæ…, Oxford University Press, 1859, vol. 2, p. 201: “Se um animal cair num poço ou num pântano, que [o dono] lhe dê de comer ali mesmo, se puder; se não, traga panos e palha e sustente o animal; se puder sair dali, saia”.
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