Um martírio profetizado por Nossa Senhora
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 19, 13-15)

Naquele tempo, levaram crianças a Jesus, para que impusesse as mãos sobre elas e fizesse uma oração. Os discípulos, porém, as repreendiam. Então Jesus disse: “Deixai as crianças e não as proibais de vir a mim, porque delas é o Reino dos Céus”. E depois de impor as mãos sobre elas, Jesus partiu dali.

I. Reflexão

Com grande alegria celebramos a memória de São Maximiliano Maria Kolbe. Celebrar esse sacerdote mártir nas vésperas da solenidade da Assunção da bem-aventurada Virgem Maria está cheio de significado porque São Maximiliano foi um grande apóstolo da devoção à Imaculada. Vejamos um pouco a vida dele já em espírito de preparação para a festa da Assunção

Como todo o mundo sabe, São Maximiliano Maria Kolbe nasceu no final do século XIX, mas viveu plenamente no início do XX como evangelizador e missionário franciscano, primeiro na Polônia, depois no Japão, de onde retornou para a Polônia, até ser aprisionado e mandado para o campo de concentração de Auschwitz. Lá, houve uma fuga de prisioneiros, e os nazistas decidiram matar de fome alguns dos que ficaram, caso não denunciassem quem conseguira escapar. Os nazistas condenaram dez pessoas a morrer num bunker. Entre os escolhidos havia um senhor, pai de família. Comovido com o fato de aquele homem deixar a mulher viúva e os filhos órfãos, São Maximiliano se ofereceu num ato de suprema caridade para morrer no lugar dele. Maximiliano resistiu à fome, sendo o último a morrer no bunker por causa de uma injeção letal recebida no dia 14 de agosto, ou seja, nas vésperas da solenidade da Assunção de Nossa Senhora. 

Eis, em resumo, a vida dele. Olhemos agora de mais perto, a fim de compreender melhor quem foi São Maximiliano Maria Kolbe. Os santos não são improvisados, ninguém se torna santo do dia para a noite. São Maximiliano, obviamente, não se tornou santo no dia de seu martírio, mas vinha se tornando um desde a infância. Aos dez anos, ele gostava de brincar na rua, e a mãe, muito boa, queria corrigir um dos principais defeitos do filho: não voltar à casa no horário combinado. Ele quase sempre desobedecia. Certa vez, depois de ele chegar bastante atrasado, a mãe o olhou com seriedade e fez-lhe uma pergunta que transpassou o coração do menino: “Meu filho, se você continuar assim, que será de você? Quem você vai ser quando crescer?” A pergunta sobre seu futuro realmente lhe tocou a alma. Então o pequeno Raimundo (assim se chamava antes de entrar para a vida religiosa) rezou a Nossa Senhora perguntando o que seria dele.

Um belo dia, a Virgem apareceu para dar a resposta ao menino. Apresentou-lhe duas coroas belíssimas de rosas, uma de rosas brancas, outra de rosas vermelhas, e disse: “Raimundo, qual das duas coroas tu vais querer?” Ele, apenas uma criança, fez o que faria Santa Teresinha do Menino Jesus: escolheu tudo. “Quero as duas”, disse ele, e Nossa Senhora lhe entregou ambas as coroas. A branca representava a virgindade e a pureza, significando que ele não iria se casar, mas tornar-se franciscano, consagrado a Deus; a vermelha simbolizava o martírio, significando que um dia ele teria de derramar o sangue por amor a Cristo. Portanto, São Maximiliano soube desde pequeno que sua vocação seria a morte por fidelidade a Jesus.

Beatificado na época de Paulo VI, Maximiliano não era venerado ainda como mártir, razão por que se celebrava seu dia com paramentos brancos, a fim de indicar que sua morte foi mais por caridade ao próximo que um martírio, para o qual é necessário morrer in odium fidei, ou seja, por ódio a Cristo ou à Igreja Católica. No entanto, durante o pontificado de João Paulo II, polonês como ele, São Maximiliano passou a ser considerado mártir, primeiro, porque Nossa Senhora mesmo lhe dissera que o martírio seria o coroamento de sua vida e, segundo, porque ele fora preso e executado num campo de concentração por ser um frade católico. Sabe-se, aliás, que o guarda nazista que lhe permitiu morrer no lugar do pai de família o tratava com deprezo, contente por ter “um padre menos” com que se preocupar. Houve, de fato, ódio à fé no martírio de São Maximiliano, mas ainda assim é possível dizer que se trata de um martírio sui generis, por essa outra nota que nele brilha — a caridade ao próximo.

Ora, o que fez São Maximiliano capaz disso? O segredo interior estava na devoção e consagração a Nossa Senhora. Ora, uma das características básicas da consagração mariana no pensamento de São Maximiliano Maria Kolbe é a ênfase em Pentecostes, isto é, em consagrar-se a Maria para ser dócil ao Espírito Santo, assim como ela o foi no Cenáculo, reunida em oração com os Apóstolos, com o fim de sair em missão e evangelizar o mundo, trazendo todos para o amor de Cristo. A consagração a Nossa Senhora, segundo o pensamento de São Maximiliano, busca alcançar por meio da Virgem Santíssima um coração ardente de amor no Espírito Santo. E que outra coisa foi o martírio dele senão a consumação deste fogo de caridade que tanto lhe ardia no peito? Ardente de amor às almas, Maximiliano ofereceu sua vida em sacrifício, abrasado de caridade divina, sempre dócil ao Espírito Santo graças à intercessão Virgem Maria, que lhe foi transfigurando pouco a pouco o coração.

Que ele interceda por nós para que, nas vésperas da assunção da Virgem Santíssima, recebamos de nossa Mãe, gloriosa em corpo e alma no céu, o dom do Espírito Santo e possamos, abrasados de amor, dar a nossa vida para a salvação das almas. 

II. Comentário exegético

Argumento (cf. Mc 10, 13ss; Lc 18,15ss). — Essa pequena narração, tão simples e familiar, é uma daquelas que enchem a alma de suave e doce alegria. Algumas mães, como sói acontecer, levam os filhos (Lc.: gr. τὰ βρέφη, lt. infantes, aqui porém talvez em sentido amplo) a Cristo para que Ele os toque (Mc. e Lc.), i.e., lhes imponha as mãos e peça por eles a bênção celeste. Os Apóstolos, ou porque fosse grande o número de crianças, ou porque julgassem pouco digno do Mestre demorar-se em benzê-las, increpavam-nas e buscavam afastá-las à força. Ora, como Jesus os visse (i.e., os Apóstolos), ficou muito desgostoso (Mc.) com a atitude deles, então chamou para junto de si as crianças (Lc.) e disse: Deixai vir a mim os meninos etc. E, abrançando-os e impondo-lhes as mãos, os abençoava (Mc.).

V. 13a. Então lhe foram apresentados meninos para que lhes impusesse as mãos e orasse por eles, i. e., para que, de mãos impostas, rezasse pela salvação deles ou os abençoasse. O costume de apresentar crianças a homens conhecidos por sua virtude para receberem dele uma bênção especial vinha crescendo entre os judeus desde os tempos e por causa do exemplo de Jacó, que abençoara Efraim e Manassés. Aqui, no entanto, é possível que as mães se tenham motivado pela eficácia do contato de Cristo, o qual, se curava os doentes, podia também prevenir seus filhos de adoecer. Se, com efeito, era costume entre os judeus levar as crianças aos rabinos, para que estes as bendissessem, não estranha que as tenham apresentado também ao Senhor, sobretudo porque as multidões, instruídas pela experiência, sabiam que Ele expulsava males e doenças apenas com a imposição de mãos. Tinham, portanto, boas razões para esperar que, com a benção dele, seus filhos estariam protegidos de males e do poder do diabo (Knabenbauer) [1].

V. 13b. Mas os discípulos increpavam-nos, proibindo não só os meninos, mas também os que tentavam apresentá-los ao Senhor (Mc.), para que não o molestassem, ocupado como estava em assuntos mais graves, nem lhe pedissem algo “indigno” de sua autoridade e dignidade. Parecem pois ter se excedido no zelo pelo bem-estar e a reverência do Mestre (Jansênio). Mas este respondeu-lhes, não sem antes manifestar, por algum gesto ou expressão, seu desgosto pela soberba com que tinham desprezado as crianças e o pedido das mães:

V. 14. Deixai os meninos, e não os impeçais de vir a mim porque de tais é o reino dos céus. Com esta sentença, dá a razão por que quer que os pequenos venham a si. Ora, é evidente que a locução de tais se refere aos meninos ali presentes, por isso observa acertadamente Jansênio: “Como o Senhor disse isto quando lhes foram apresentadas as crianças, não se podem excluir de modo algum os pequeninos em idade nem do que foi dito aqui nem, por conseguinte, da participação no reino dos céus” (Knabenbauer).

E note-se que não diz destes, mas de tais (gr. τῶν τοιούτων, lt. talium = “dos de tal condição”), para significar que o reino dos céus é para os que têm ou qualidade própria das crianças, a saber: a inocência (com efeito, nada impuro entrará no reino dos céus, cf. Ap 21, 27), ou a qualidade nelas significada, i. e., a humildade, conforme o dito anteriormente (18, 3): Se não vos fizerdes como crianças etc.; É como se dissesse: Porque o reino dos céus é de tais, ou seja, dos inocentes, como são as crianças, e dos humildes de alma, como estes são pequenos de corpo (Caetano). — Cristo chama a si os meninos, i. e., os pequenos tanto pela idade, como as crianças, quanto pela simplicidade, como os adultos humildes. Por isso não diz destes, mas de tais é o reino dos céus, para abarcar não só os pequenos de idade, mas também os que se lhes assemelham pelas maneiras (Maldonado).

N.B.A soberba dos discípulos: Cristo põe na pouca idade a semelhança da humildade (cf. Santo Agostinho, De peccat. merit. I 19, 24), e não da justiça, recomendado aos adultos aquela admirável simplicidade e inocência de alma que reluz nas crianças, embora também elas sejam pecadoras, i. e., necessitadas da regeneração à graça pelo batismo. Mas como o Senhor ficou desgostoso com o modo de agir dos discípulos e, logo em seguida, expôs essa doutrina sobre a humildade, é provável que os Apóstolos tenham rejeitado os meninos por certa arrogância, como se julgassem indigo aceder a tal pedido (inoportuno?) das mães. Assim pensa Jansênio: “Censurou tacitamente a arrogância dos discípulos, tão diferentes dos pequeninos, por os terem desprezado, coisa que as crianças não costumam fazer”.

V. 15. E, tendo-lhes imposto as mãos, partiu dali. Dissera o evangelista que alguns meninos foram apresentados a Cristo para que este lhes impusesse as mãos e orasse por eles, agora porém diz que lhes impôs as mãos, mas não diz que tenha orado. Orígenes pensa que a razão disso é que Cristo lhes impôs as mãos, mas não rezou, porque as crianças seriam capazes de receber a imposição, mas não a bênção, cujas palavras não entenderiam. Mas essa opinião é improvável. Com efeito, não era necessário que os meninos entendessem a oração para que dela participassem, assim como não é necessário que entendam a fórmula do batismo para receber os frutos dele. Além disso, na imposição de mãos está compreendida também a oração, i.e., a bênção, já que o Senhor não costumava fazer a primeira sem a segunda, e São Marcos diz expressamente (10, 16): E, impondo-lhes as mãos, os abençoava (Maldonado).

Comentário espiritual. — 1) Criança, símbolo de inocência: Naqueles pequeninos, a quem Jesus aperta ternamente entre os braços, contempla Ele não só a candura e a inocência de alma, que atrai naturalmente a todos, mas a própria natureza humana ainda não maculada por vícios e maus desejos, além de um símbolo daquela divina beleza que haviam de receber todos os cidadãos de seu reino, primeiro na regeneração à graça e mais perfeitamente na ressurreição para a glória (Simón). — 2) O toque do Senhor: As mãos de Cristo eram vivificantes e salvíficas. Daí que se diga: E ele, impondo as mãos sobre cada um, curava-os (Lc 4, 40). A razão é que a mão é o órgão dos órgãos. Assim, divindade de Cristo exercia pelas mãos sua força e graça divinas sobre aqueles a quem tocava, dando-lhes saúde de corpo e de alma, aumentando-lhes a graça dada na circuncisão ou noutras ocasiões, santificando-os por sua virtude oculta, oferecendo-os e como que os consagrando a Deus. Por isso, não há dúvida de que estes meninos abençoados por Cristo tornaram-se sábios e santos varões, que mais tarde fundariam igrejas particulares e propagariam a fé de Cristo (a Lapide).

Referências

  1. Nesse sentido, Teofilacto louva a fé das multidões, e como Jesus, a esta altura, já alcançara fama e celebridade após tantos milagres, pode-se dizer que para aqueles meninos, anos mais tarde, seria motivo de alegria e até de orgulho lembrar-se do abraço e da bênção de Jesus Cristo, filho de Davi.
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