Uma solidão bem acompanhada
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 11,1-4)

Um dia, Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”. Jesus respondeu: “Quando rezardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação’”.

I. Reflexão

Com alegria celebramos hoje a memória de São Bruno, fundador da Ordem dos cartuxos. São Bruno nasceu em Colônia, na Alemanha, e viveu durante a Idade Média. Estamos no séc. XI. Bruno foi inicialmente um sacerdote santo, até que, aos 40 anos de idade, resolveu deixar tudo para tornar-se monge. Mas dizer que ele viveu uma vida monástica é dizer pouco; na verdade, ele fundou uma das Ordens mais rigorosas da Igreja. Iremos descrever um pouco a disciplina dos cartuxos e explicar como ela foi idealizada por São Bruno; antes disso, porém, é necessário pôr as coisas no contexto. Como dito, São Bruno nasceu em Colônia, na Alemanha, grande cidade às margens do Reno, e logo cedo foi estudar. Estudou na arquidiocese de Reims, onde se notabilizou por sua grande inteligência.

No entanto, ele não queria saber do mundo acadêmico. Bruno então voltou para Colônia, foi ordenado sacerdote e começou um trabalho de evangelização dos pobres nos lugares mais afastados. Mas, como Jesus mesmo disse, ninguém consegue esconder uma cidade em cima da montanha (cf. Mt 5,14). Rapidamente, Bruno começou a brilhar por sua santidade, a ponto de o arcebispo de Reims pedir-lhe que voltasse à cidade. Assim foi. Bruno voltou para o lugar onde tinha estudado e, sendo ainda um simples padre diocesano, começou a reunir em torno de si um bom número de discípulos, alguns dos quais se tornariam figuras célebres na história da Igreja: São Hugo, bispo de Grenoble, e Urbano II, o papa que convocou as Cruzadas.

Embora tivesse realizado já grandes obras, Bruno estava inquieto. Assim, aos 40 anos, foi procurar um mosteiro em que pudesse viver uma vida de união com Deus. Dirigiu-se a Molesme, onde encontrou São Roberto, e quis começar ali sua vocação monástica; contudo, viu que o seu lugar era outro, então partiu em peregrinação, até encontrar um antigo discípulo, São Hugo, bispo de Grenoble. A meio do caminho, Bruno teve um sonho: três anjos lhe falavam de uma nova Ordem a ser fundada por ele. Na mesma noite, os três anjos apareceram a São Hugo, em Grenoble, dizendo-lhe: “Aqui será fundada uma nova Ordem”. Fundou-se então o primeiro mosteiro: La Chartreuse, donde a Ordem recebeu o nome por que é mais conhecida — Cartuxa.

Pois bem, como é a vida dos cartuxos e no que ela difere da de outros mosteiros? Quando se ouve falar de monge, a primeira ideia que nos vem à mente, em geral, é a de uma comunidade de homens ou mulheres que vivem juntos para rezar. É o caso, por exemplo, de uma abadia beneditina, onde se vive em silêncio, mas com muitas atividades comunitárias. Bruno inspirou-se nos Padres do Deserto, aqueles primeiros monges do cristianismo, de vida eremítica ou semi-eremítica, cada um recluso em sua cela (isto é, uma pequena cabana, chamada cælia em latim). Na Cartuxa, São Bruno quis imitar o mesmo esquema: cada um teria a própria cela; as reuniões seriam poucas e em momentos específicos. Trata-se, em resumo, de uma vida ao mesmo tempo semi-comunitária e semi-eremítica, caracterizada pelo rigor da disciplina (longas vigílias, jejuns, penitências e, sobretudo, muito espírito de oração).

Ora, quando ouvimos falar de monges como estes, homens entregues a Deus, fechados em seus mosteiros, distantes de todo o mundo, unidos para viver sozinhos, o que tendemos a pensar? “Nossa, que radicalismo! Para que se trancafiar num convento?” De fato, muitos não entendem o que leva um homem como São Bruno, um padre tão santo, que fazia o bem aos pobres, pregava o Evangelho, convertia as almas etc., a se fechar num mosteiro. Não é radicalismo; é um grande amor. O que faz de alguém um monge é o amor. Afinal, como diz Santa Teresinha, os que se amam precisam de solidão — A des amants, il faut la solitude. Na lua de mel, a esposa não quer o pai, a mãe, os irmãos, amigos e colegas por perto; quer estar sozinha com o marido. A solidão monástica é isso, um coração a coração o tempo todo. Não é, por assim dizer, uma solidão solitária; é uma solidão acompanhada — acompanhada por Deus.

Além disso, o católico nunca deve esquecer que pertencer à Igreja é ser membro de um Corpo, ou seja, é estar unido organicamente a todas as outras partes dele. Nenhum católico está sozinho. Os monges que vivem “trancafiados” em suas celas estão, na verdade, fazendo muito mais do que nós, tão agitados e distraídos, para a conversão dos povos. A oração deles é como o ar que respira a Igreja, o incenso que de dia e de noite se eleva ao céu para impetrar graças incalculáveis, uma fonte de méritos sobrenaturais que circulam pelo Corpo místico qual sangue vivo e vivificante. Sim, é poderosíssima a oração do monge.

No Evangelho de hoje, Nosso Senhor ensina o Pai-nosso. Ora, por que Jesus nos ensinou a rezar? Porque rezar é estar com Deus num encontro de amor e, ao mesmo tempo, num trabalho ativo pela salvação das almas. Pela oração, pela nossa entrega, pela nossa confiança em Deus, salvamos muito mais almas do que pelas nossas agitações, essas, sim, verdadeiramente solitárias, porque frequentemente distantes de Deus. No fundo, estamos sozinhos quando tentamos salvar o mundo com nossas próprias forças; mas, se rezamos, não há mais solidão, porque passamos a agir com o único que pode transformar os corações. — Que São Bruno nos sirva de farol e exemplo da eficácia da oração, instrumento que opera maravilhas nos membros da Igreja. Porque os cartuxos rezam e se entregam, por isso estamos aqui, recebendo os frutos de sua santa e bem acompanhada “solidão”.

II. Comentário exegético

Argumento. — A pedido dos discípulos, propõe-lhes Jesus uma fórmula de oração; em seguida, acrescenta alguns avisos sobre a eficácia da oração perseverante.

Circunstâncias.a) Tempo e lugar. — Sobre o lugar e o tempo em que o Pai-nosso foi proferido nada dizem explicitamente os evangelistas. Mt. o insere no sermão da montanha, enquanto Lc. (cf. 11,1) exige claramente outra ocasião; mas qual? O fato de Lc. colocá-lo após a cena de Betânia permite inferir a proximidade (ao menos provável) de tempo e lugar entre os episódios. Mc. não relata o Pai-nosso, mas refere alguns ensinamentos parecidos, ditos no caminho de Betânia a Jerusalém (cf. 11,25s). Uma antiga tradição que remonta ao séc. XI (c. 1095) afirma que o Pai-nosso foi proferido no monte das Oliveiras, perto (à distância de um tiro de pedra, Lc 22,41) do que hoje é o sacelo da Ascensão.

b) Composição. — 1) Lc. e Mt. preservaram a oração dominical em formas um pouco distintas. Mt. traz 7 petições; Lc., apenas 5 (omite a 3.ª e a 7.ª), formuladas com outras palavras. Qual terá sido a forma original é tema ainda controverso. Se no passado muitos atribuíram ambas as versões ao Senhor, ditas por ele em diferentes circunstâncias, o que em si mesmo é possível mas não muito provável, hoje a maioria dos aa. rejeita essa opinião e atribui as diferenças de forma à tradição oral ou aos critérios redacionais de cada evangelista, o que parece valer também para a forma da consagração (cf. Santo Agostinho, enchirid. 116: M 40,286). — 2) Se se pergunta qual dos evangelistas conservou a forma genuína, cumpre responder com Santo Agostinho que foi Mt., como se infere a) de sua conhecida fidelidade ao transmitir as palavras do Senhor (cf. e.g. as bem-aventuranças, a conclusão do sermão da montanha etc.) e b) da disposição rítmica por ele preservada, de tonalidade mais semítica, ao que se pode acrescentar o costume de Lc. de resumir os fatos e as ideias ao essencial.

Explicação. — Instado pelos discípulos a que lhes ensinasse, a exemplo de João Batista, alguma fórmula de oração [1], Jesus recitou esta prece admirável, que pode ser considerada um compêndio da doutrina celeste e um breviário de todo o Evangelho (cf. Tertuliano, de orat. 1: M 1,1255). Depois de Santo Agostinho, tornou-se costume entre os latinos distinguir 7 pedidos, dos quais os 3 primeiros (classificados como optata, i.e. desejos) se referem à glória de Deus, enquanto os 4 restantes (chamados petitiones, i.e. petições stricto sensu) apresentam a Deus as necessidades humanas. No entanto, os Padres gregos, seguidos hoje por boa parte dos expositores, distinguem apenas 6 pedidos, na medida em que interpretam o 7.º como complemento do 6.º — Em Mt., a oração dominical é precedida por uma proibição do multilóquio (gr. πολυλογία) na oração (cf. 6,7); e, com efeito, do ponto de vista redacional, o v. 7 não é continuação dos vv. 5-6, que censuram a ostentação de piedade e recomendam a oração em segredo, mas uma introdução, ao modo de advertência por contraste, à forma por excelência da oração cristã: — Nas vossas orações não useis muitas palavras. É incerta tanto a forma quanto a etimologia do verbo gr. correspondente (βατταλογήσητε, ou βαττο…?). O sentido porém se depreende facilmente pelo contexto, já que é explicado logo em seguida por πολυλογίᾳ; donde: “Não multipliqueis palavras fúteis e inúteis nem vos expresseis prolixamente, como fazem os gentios”. De fato, os pagãos davam excessiva importância aos giros retóricos e ao aprumo de linguagem, e pensavam que à força de palavras poderiam dobrar a vontade divina, como se Deus fora um juiz para quem valesse mais a eloquência das partes que a justiça do caso em apreço [2]. 

N.B. — Leiam-se e.g. as invocações dos profetas de Baal (1Rs 18,26ss), as séries intermináveis de epítetos grandiloquentes nos hinos babilônicos, as fórmulas encantatórias nos papiros mágicos da época helenística etc. A expressão lt. fatigare deos (cf. Sêneca, ep. xxxi 5; Marcial ep. vii 60 3) atesta o mesmo vício. Também nos escritos rabínicos é comum encontrar orações desnecessariamente prolixas.

Julgam que serão ouvidos à força de palavras, i.e. que a repetição vã de certas fórmulas merece por si só a atenção de Deus, como se ele gostasse de verbosidade bajulatória ou precisasse de muitas palavras para conhecer os pedidos e as necessidades dos homens. — Atente-se a que o Senhor reprova o uso de muitas palavras por ser algo desnecessário, sobretudo quando se atribui a eficácia da oração à abundância de fórmulas ou ao número de repetições; isso porém não exclui a legitimidade e o valor da oração constante, frequente e até repetida segundo um mesmo padrão. Tampouco é intenção de Cristo dirimir diretamente a controvérsia rabínica sobre o valor da oração em função da duração. Ele mesmo dedicou longos períodos à oração (cf. Mt 4,1ss; Mc 1,35; Lc 5,16; 6,12; 9,18; 11,1; 22,43; Mt 26,36ss etc.), recomendou mais de uma vez a oração constante e perseverante (cf. Lc 11,5-13; 18,1ss; 22,40.46 etc.) nem teve medo de repetir ao menos três vezes a mesma oração no Horto (cf. 26,39.42.44); contudo, não há por que duvidar que Cristo rezasse ao Pai por meio de breves jaculatórias, elevando aos céus sua alma santíssima com a máxima frequência [3].

A oração dominical. — Os que quiserem conhecer as riquezas do Pai-nosso podem ler nossa tradução ao comentário de Santo Tomás de Aquino, disponível neste link.

Dubium. — A quem rezamos no Pai-nosso, a Deus Pai ou a toda a Trindade? A resposta depende da acepção que se dê à palavra “pai” aplicada in divinis, ou seja, se ela é utilizada em sentido primário e pessoal (personaliter), ou derivado e essencial (essentialiter). No primeiro caso, a razão significada pelo nome, por importar uma relação de origem em unidade de natureza, cumpre-se propriamente na primeira hipóstase, chamada Pai (per prius) por referência à geração do Filho; no segundo, a razão significada pelo nome, por importar uma relação de origem com diversidade de natureza, é comum às três hipóstases, chamadas pai (per posterius) por referência à produção das criaturas. Com efeito, na medida em que há certa semelhança entre o que gera e o que é gerado, e sendo comum a toda a Trindade a obra da criação, também o Filho e o Espírito Santo podem ser chamados pai (e.g. Pai do futuro século, dito do primeiro; Pai dos pobres, dito do segundo), porque tanto eles quanto o Pai são o criador do mundo e o princípio de semelhança das criaturas racionais (por imagem, segundo o intelecto e a vontade; por graça, segundo a filiação adotiva; e por glória, segundo a deiformação do intelecto) [4]. Em resumo, se se toma “pai” como nome próprio, enquanto importa relações pessoais, a oração dirige-se especificamente a Deus Pai; se se toma, porém, como nome comum, enquanto importa uma referência às criaturas, a oração dirige-se indistintamente às três hipóstases.

Referências

  1. A oração do Pai-nosso não foi ensinada ao modo de preceito, como se o fiel só pudesse rezar segundo aquela forma e com aquelas palavras, mas a título de exemplar, i.e. como modelo que toda outra oração deve seguir; cf. Santo Tomás de Aquino, STh II-II 83, 14 ad 2: “O Senhor não instituiu esta oração para que devêssemos usar somente estas palavras ao rezar, mas porque a intenção de nossa oração deve tender à impetração somente dessas coisas [i.e. das necessárias ou convenientes à salvação eterna], independentemente de como as pronunciemos ou concebamos”.
  2. Cf. Id., STh II-II 83 9 ad 5: “A oração não é apresentada a Deus com o fim de lhe dobrar a vontade, mas de estimular em nós mesmos confiança para pedir. Ora, estimulamos em nós tal confiança sobretudo quando consideramos a caridade dele para conosco, pela qual quer o nosso bem, e por isso dizemos: Pai nosso; e a sua excelência, pela qual no-lo pode dar, e por isso dizemos: que estais nos céus”.
  3. Cf. Id., STh II-II 83, 14c.: “Da oração podemos falar duplamente: de um modo, em si mesma; de outro, segundo sua causa. Ora, a causa da oração é o desejo da caridade, do qual deve proceder a oração. Este desejo em nós deve ser contínuo atual ou virtualmente. Ora, permanece a virtude deste desejo em tudo o que fazemos por caridade; com efeito, devemos fazer tudo para a glória de Deus, como se diz em 1Cor 10. E, segundo isto, a oração deve ser contínua. — Mas a própria oração, considerada em si mesma, não pode ser assídua, porque é necessário ocupar-se em outras atividades… Ora, a quantidade de cada coisa deve ser proporcional ao fim dela, assim como a quantidade do remédio à saúde. Por isso é conveniente que a oração dure tanto quanto for útil para excitar o fervor do desejo interior. Quando, porém, excede esta medida, de modo que não possa durar sem cansaço, não se deve estender mais a oração… E assim como isso deve ser levado em conta na oração individual por comparação à intenção de quem ora, assim também na oração comum por comparação à devoção do povo”.
  4. Cf. Id., STh I 33, 3c.
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